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A mãe da minha mãe

A mãe da minha mãe. A mãe da minha mãe faria hoje 96 anos. É difícil imaginar tantos anos. Eu não tenho nem metade disso e já acho difícil entender o mundo que eu vivi 10 anos atrás. Imagina o mundo de 80 anos atrás.

A mãe da minha mãe foi, como toda mãe da mãe, uma intensa e contínua aula de história. História de como fazer, de como existir, de como cozinhar, costurar, debater, fazer carinho e contar histórias. Uma aula de história de contar. História de viver.

A mãe da minha mãe teve minha mãe. A minha mãe teve a minha irmã. E a mãe da minha mãe, a minha mãe e a filha da minha mãe me ensinaram tanta coisa só por existir do meu lado que eu nem sei dizer.

Hoje mencionaram pra mim a “casa de vô”. Não tive casa de vô, só de vó. E de mãe, e de irmã. E sempre me impressionou como todas elas eram sempre de alguma forma ela, a mãe da minha mãe, numa trindade que não foi nem nunca quis ser santa mas sim viva, e intensa e o tempo todo.

Vó, tive muita sorte de ter por perto. E de passar todos os 33 anos em que existimos juntos descobrindo, cada vez um pouquinho mais, que a sua história é a minha história, e a da minha mãe e a da filha da minha mãe.

Eu nunca vou ser vó, vó. Mas eu sempre serei você.

Feliz aniversário.

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Noventa e cinco

Minha florzinha querida,

esperei passar o seu dia pra te escrever. É que foi um dia estranho, sabe, vó. Tinha um monte de gente na rua, gente que não viveu nenhuma das duas ditaduras pelas quais você passou, gritando que queria intervenção militar. Queria muito que eles tivessem estado comigo numa daquelas conversas na sua cozinha, quando você me contava do medo na época do Getúlio, de fugir pro Paraná, de como você ficava desesperada da minha mãe se meter em militância clandestina em pleno regime militar, da época em que você temia pela vida do meu avô, que era jornalista. Eu não vivi nada disso, vó, mas a sua voz sempre foi de respeito pra mim, e tudo que eu escutei guardei pra vida toda.

Assim como guardei as comidas todas, e as outras histórias, as alegres. Do rio Tietê limpo, de nadar nele, de ir pra Bariloche e perder todas as malas. Do Corinthians, vó. O Corinthians ganhou ontem, 3 a 0, e eu lembrei de você gargalhando naquele aniversário da minha irmã em que saía gol atrás de gol e a gente meteu 7 a 1 no Santos.

O dia ontem também foi cercado de mulheres, vó. Aquelas mulheres enormes que tive o privilégio de nascer no meio, as muitas mães, tias, professoras e terapeutas que sempre tiveram os braços abertos pros seus netos. Passei o seu dia na casa delas, pensando, claro, em vocês jogando buraco, e de quantas vezes te vi naquela mesa com os olhos compenetrados nas cartas. Eu funciono assim, vó, preciso estar nos lugares pra ir reativando as memórias deles, e as suas também.

É claro que senti sua falta. Talvez mais do que nunca. Um dia antes, passando de carro em frente ao seu apartamento, falei pro meu amigo que dirigia, “minha vó mora aqui”, e logo em seguida percebi que não mora mais. Não sei como é tomar um tiro no peito, vó, mas duvido que o buraco seja maior. Esse que eu tô falando agora é outro buraco, e ele não é bem assim um jogo de cartas. Não é como se o que fizesse falta fosse só aquele ás pra fazer canastra, sabe. A falta aqui é outra, a dimensão é outra. Você faz muita falta, vó, e falando em fazer falta, se a minha vida fosse um volante, já tinha tomado cartão vermelho, viu.

Mas o carro seguiu e a vida continuou, vó, e eu lembrei que aprendi com você a não deixar os buracos serem maiores que a gente nunca. No fim, todo buraco é vazio, que nem o jogo, e a gente preenche ele como quer, né. De repente sai uma canastra, mesmo que suja. E veio o seu dia e eu tentei encher o buraco com o seu sorriso, porque, como diz aquela música, vó, apesar dos idiotas, eu amo você, e por mais que eles estivessem em grande número pela cidade, não chegaram nem perto do seu tamanho.

Porque vó, era pra você ter feito noventa e cinco anos ontem. Noventa e cinco! Eu nem sei se consigo dimensionar o que é tudo isso, dá quase três vezes a minha vida. Se eu chegar perto disso, vó, espero que seja com um pouquinho-que-seja da sua energia, da sua compreensão e da sua lábia. Minha mãe me diz que você era uma espanhola brava, mas eu acho que te conheci depois disso porque, vou te dizer, com o seu jeitinho ali quietinho no seu canto você sempre conseguia o que queria – inclusive quando o que queria era não comer o brócolis que você precisava comer.

Fui dormir pensando nisso, e na sua cervejinha, e em como você sabia curtir essas coisas pequenas da vida. Peguei no sono te observando no vai-e-vém eterno daquela cadeira de balanço, um ano pra lá, outro ano pra cá, e de repente eu estava no seu colo de novo em algum sonho maluco com cartas, Corinthians e comida.

Assim passei o seu dia, vó. Te amando como sempre, e te faltando como nunca. Mas sem te deixar ir pra longe, porque você sabe, e como sabe, que viverá eternamente em nossos corações.

Meu, da Lu, da mãe, do pai, da tia, dos primos e dos quatrocentos netos que te herdaram por carinho, porque você era tão grande que precisávamos sempre te compartilhar.

Te amo.

Até sempre,

Dan.

vó

Ortencia

Hoje era minha vez de dormir com ela, mas ela decidiu dormir sozinha.

Ela e os 94 anos dela, cheios de gelatina colorida, jogos do Corinthians, buraco e muitas boas memórias.

Noventa e quatro são muitos anos. Mais do que eu consigo imaginar. Neles couberam muitas mudanças, de cidade, de casa e de vida. Muitos jogos, de cartas, de futebol e de amor. Couberam vários netos, muitos filhos e filhas, muitos sorrisos e aniversários.

Foi uma vida intensa e florida, como o nome dela: Ortencia pra uns, dona Ortencia pra outros. Pra mim foi sempre vó.

Minha vó querida de todos os anos, de todos os dias, de todos os risos e de todas as dores.

Hoje era minha vez de dormir com ela. Mas ela decidiu dormir sozinha. E no caminho de táxi até o hospital, só tocava o seu querido Roberto.

“Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso essa voz, essa voz
Tamanha…”

Era um aviso.

Uma homenagem.

Uma lembrança.

De que hoje é minha vez de dormir com ela. Porque ela nunca dormirá sozinha.

Adeus, dona Ortencia. Adeus, minha florzinha.

Te amo pra sempre.

Da ausência

(dedicado a Isabella Targas; Isa, a ausência fica, mas a dor um dia se transforma naquele peso necessário pra gente poder medir direito o tamanho das coisas)

É na ausência, de fato, que de fato sentimos. Sentimos vazios, sentimos o vazio.

Zazá era uma cachorrinha alegre, uma poodle toy que não parava quieta. Daquelas que tremem no colo quando carregadas e afagadas. Era tocar o interfone da casa e, já no elevador, ouvir os latidos vindos do 6º andar, tão possante eram suas cordas vocais.

Zazá carregava a alma daquela casa. Tinha vindo parar ali pra fazer parte da história enorme de uma mulher de, naquele então, 80 anos de idade. E muitas coisas, causos, pessoas e sentimentos pra contar. Zazá fazia a ponte entre a História daquela mulher e a Geografia de uma cidade que cada vez mais lhe permitia menos participação. E assim supriam mutuamente as carências uma da outra. E ambas do resto da família.

Mas, envelhecemos. É lei. É fato. É natural. Tão natural quanto não é viver numa sociedade isoladora. Desoladora.

Cachorros não sabem viver sozinhos. São incapazes. Cachorros precisam de convívio, contato e troca. Humanos, bem, fingem saber como ser sós, mas em última instância, aquela que importa mesmo, são bem piores do que cachorros.
Então viviam ali naquele apartamento, a mulher de 80 e poucos anos e a cachorra de 180 batimentos cardíacos por minuto.

Acontece que as coisas naturais nem sempre querem saber de apegos e sentimentos. E é natural que cachorros vivam menos que humanos, em média. Assim como acontece de pessoas, humanas ou não, morrerem inesperadamente.

Dormiam, a mulher, já com 90 anos, a cachorra, com seus quase 10, e a Cris. A Cris era uma daquelas milhões de pessoas que o mundo insiste em tratar como paisagem, mas que no fundo são o coração de tudo. Era já de madrugada quando ouviram a cachorra ganir. De dor, mesmo. E tentaram acudir, como podiam, o desespero final daquele ser tão pequenino que carregava consigo uma alma tão gigante. A alma da casa. O rompante de vida dentro daquela caixa de concreto inanimado.

Do alto do abismo existente entre o que é possível e o que desejamos, fizeram toda a força do mundo para que Zazá se sentisse confortável. Fizeram por ela o que cada olhar carente, cada lambida no rosto e cada rabo abanado haviam feito pelas duas naquele tempo todo. Mas Zazá partiu.

Fora de casa, é mais difícil percebermos com tanto tato mudanças espaciais significativas. Dentro, cada cadeira fora do lugar chama a atenção. Nossa casa, assim como os espaços que vivenciamos, se transformam aos poucos em lugar. Lugar seguro, confortável. Assim era aquela casa: um lugar seguro e confortável. Como toda casa de vó deve(ria) ser.

No dia seguinte, então, foi muito difícil visitar minha vó. Foi difícil entrar no corredor daquele prédio e não ouvir latidos, abrir a porta e não ter unhas a arranhar, nem barulho, nem lambidas, nem aquele desespero natural de cachorro que faz expandir qualquer coração que tenha minimamente a capacidade de cuidar e querer cuidar da carência alheia. Foi difícil ver aquela senhora tão enorme chorar por Zazá, por não poder ter feito mais.

Ninguém poderia, vó.

O apartamento continua, você ainda está de pé. A cada latido ausente, sei que o coração bate um pouco menos. O meu também. O silêncio do elevador traz lembranças indeléveis, é verdade. O mundo como está é feito para perdermos mais do que ganharmos. “A gente parece que fica mais duro, mas na verdade não é isso, é só menos desesperado”. A ausência pesa, e faz lembrar do título do livro famoso: a insustentável leveza do ser. Zazá era insustentavelmente leve. Assim como o mundo como está é insustentavelmente pesado.

Nada mais justo, então, do que chorar a cada perda, pra depois poder sorrir por toda a lembrança.

Vó, na sua casa, todos somos Zazá. Todos latimos de felicidade a cada pedacinho de colo que você nos dá. Desde, e para, sempre.

Mesmo que insustentavelmente.

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.”

(José Luís Peixoto)