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Lelê

Às vezes a gente conhece umas pessoas na vida e nem percebe o quanto elas são foda.

Aí um belo dia elas passam 15 minutos contigo e desenham uma linha, “antes de conhecer” e “depois de conhecer”.

No meu caso, ultimamente, tive sorte: presentearam-me com duas pessoas dessas no mesmo ano.

As duas de apelido Lelê.

As duas de aniversário em 08/10.

Uma de cada sexo.

Lelê, o palmeirense fantástico, zagueiro do Autônomos;

Lelê, a corinthiana fanática, a mãe espetacular, a blogueira sensacional, a amiga que vai te buscar no aeroporto numa segunda-feira chuvosa à meia-noite a troco de nada.

Pessoas daquelas que você, com 15 anos, colocaria na lista de quem levaria pra uma ilha deserta.

No caso da Lelê, eu não sou o único a pensar assim.  Tanto é que a TPM percebeu que ela é uma em um trilhão e contratou o blog dela.

Minha amiga mais famosa.

Que mesmo que ninguém conhecesse seria minha amiga mais famosa.

Porque eu falo dela e do blog dela pra todo mundo.

Porque ela merece.

Por mais que algumas chefes de ONG sem senso de humor, ou melhor, com senso de humor aristocrático, não a entendam.

A essas, o futuro dará a mesma lição que vem dando em alguns “jornalistas” esportivos por aí: mais vale um gênio na mão do que dois atacantes-fulanos.

Lelê é gênio. Isso eu posso dizer.

E sabe que estamos aí pro que der e vier.

argentina3

Anão ou viado?

É, gente.

De vez em quando o seu mp4 que te protege da boçalidade do cotidiano te deixa na mão e você se encontra em um ônibus lotado voltando da USP com milhões de estudantes conversando.

E é claro que meus ouvidos biônicos, numa hora dessas, bastaram se despedir da música pra ouvir logo de cara alguém falando:

– O que você acha pior, que seu filho seja anão ou viado?

E já segurei o riso.

Era o Marcelo, descobri depois, já que os amigos do Marcelo repetiram umas 500 vezes:

– Marcelo, só você mesmo.

Porque começou assim, e daí foi melhorando. Marcelo sabia falar de muitos assuntos. 

Começou com o futuro da família:

– Tenho certeza que minha filha vai ser drogada.

Logo depois, passou pra política:

– Ah, mas uma coisa que eu não vou deixar é ela votar no DEMo. Se votar no DEMo eu jogo ela na rua.

Então, usando o gancho anterior, foi pro futebol:

– Pior do que ser anão ou viado é se ela for palmeirense. Isso nunca. É o fim do mundo!

Corinthiano, o Marcelo?

Não.

– E se ela for corinthiana, Marcelo?

– Fim do mundo menos um.

E pra completar a tríade “política-futebol-religião”, ele mandou logo:

– Agora imagina se ela for religiosa, que saco? Vai ficar querendo ir em Marcha pra Jesus, me pedindo “pai, me leva no Marcelo Rossi”… Pior que isso só se for testemunha de Jeová!

Felizmente (pra mim), o Marcelo não estava só. Ele tinha amigos – três.

Sendo que dos três, dois eram religiosos – um deles, testemunha de Jeová.

Outro tinha acabado de descobrir o uso do “fulano ligou e pediu sei-lá-o-quê de volta”.

Então, a cada marcelada, ele soltava:

– Marcelo, o South Park ligou e pediu o politicamente incorreto de volta.

– Marcelo, Mussolini ligou e disse que você está sendo muito extremista.

Esse, na hora de falar dos futuros filhos, lançou:

– Meu filho vai ser FUINHA, igual o pai.

Por favor, deus, se você existir mesmo, castre esse amigo do Marcelo, sim?

Porque alguém que espera que o filho seja FUINHA IGUAL O PAI simplesmente NÃO PODE reproduzir.

O ônibus subia a Rebouças e Marcelo e seus amigos começavam a discutir sobre licenciatura. Os amigos já faziam, Marcelo ainda não tinha começado. 

Ele só imaginava como era:

– Imagina eu lá, com um monte de gordo que faz física reclamando do professor porque ele mandou ler 2 páginas de texto? Vou fazer grupo com esses caras, eles vão dizer “eu não sei ler, só sei fazer fórmula”.

Nisso uma das amigas do Marcelo soltou A MELHOR DA NOITE, campeã, imbatível, our-concours, supreme:

– Ah, sabe o que eu percebo? Que eu não sinto falta de exatas. Já o pessoal de exatas lá na minha sala, sente muita falta de humanas. Porque, sei lá, É HUMANAS MÊO, É DO SER HUMANO!

Mesmo sempre tendo achado matemática e física coisa de extraterrestre, nessa hora eu não consegui segurar e dei uma risada. 

Mas a turma do Marcelo estava tão compenetrada que nem percebeu.

O momento que ninguém gostaria que chegasse se aproximava. Estávamos já quase no ponto do Marcelo descer, então ele precisava fechar a conversa. 

E é claro que ele não deixaria de finalizar o papo com brilho:

– Claro que eu prefiro que meu filho seja viado. Já pensou, anão? DEFORMADO?

Detalhe: dois metros à frente, uma senhora lutava bravamente pra manter a cadeira de rodas de seu filho parada dentro do ônibus…

Enfim, Marcelo desceu.

Mas me deixou com uma dúvida, que coloco aqui para todos:

E aí, anão ou viado?

Toninho Vanusa

Quinta-feira, dia de trabalho incomum: um monte de processos para tramitar.

De repente, aparece um senhor no balcão, cabelos grisalhos, e pergunta:

– Por favor, o Valdemar tá aí?

– Valdemar, motorista? Pera aí.

– Fala pra ele que é o Toninho que tá procurando ele, o Toninho que jogou no Palmeiras.

Uma luzinha de entusiasmo acendeu na minha cabeça. Enquanto meu companheiro de trabalho procura o Valdemar na copa, eu pergunto:

– O senhor jogou no Palmeiras?

– Sim. Palmeiras, Juventus e Vasco.

– Quando?

– Em 76, 77…

Nisso, alguém o chama e ele vai até a copa atrás do Valdemar. Penso que perdi uma boa conversa e vou procurar na internet por algum Toninho no Palmeiras em 76. Segundos depois ele volta. Com o Valdemar. E diz:

– Esse aqui, ó, um grande central!

– Que nada, ele que era um puta meia-esquerda!

Eu aponto uma foto no computador e pergunto:

– O senhor é esse aqui? Jogou com o Ademir?

– Joguei, eu era reserva dele. Mas esse não sou eu, eu sou outro Toninho. O Vanusa.

E começou a contar as suas histórias.

Jogou no Palmeiras até que um carrinho fez com que caísse sobre o braço – que hoje não mexe mais direito – e tivesse fratura exposta. Daí foi pro Juventus e pro Vasco.

Quando criança, era engraxate e fazia “70 centavos por dia”, segundo ele. Até que um dia um dos homens que com ele engraxava os sapatos o viu fazendo embaixadinhas e pediu pra fazer mais.

Juntou gente.

E ele voltou pra casa com 5 cruzeiros.

O pai, claro, perguntou de onde tinha vindo “tanto” dinheiro. Ele disse a verdade. Achou que ia apanhar.

Mas o pai, ao invés disso, contou um segredo: tinha sido meia-esquerda do Madri da Mooca.

“Um dos maiores”.

Seu tio, irmão do pai, tinha jogado no Corinthians na década de 20 – Joãozinho. Amputou as duas pernas.

Seu pai amputou uma.

Uma época em o futebol não tinha contusões com finais tão “felizes” quanto as do Fenômeno. 

E também não dava dinheiro: Toninho Vanusa prestou concurso do então INPS e virou servidor público. Passou a jogar pelo time do Instituto. E lá conheceu o Valdemar.

Depois de mostrar a habilidade que tinha com a pelota fazendo alguns malabarismos com uma bola imaginária, não tive outra saída: pedi um autógrafo.

– Para um grande amigo meu, palmeirense fanático.

– Você não é palmeirense?

– Não não, sou corinthiano.

– EU TAMBÉM! E fanático!

Guardei o autógrafo e tratei logo de registrar sua história. Não é todo dia que se conhece um ídolo do futebol alternativo assim, sem mais nem menos.

Pena não ter tirado uma foto. Mas ele disse que ficará em São Paulo – ele mora em Bebedouro – o mês inteiro, já que está cuidando da mãe doente.

E assim se foi, o reserva de Ademir, dialeticamente corinthiano e palmeirense, presente na mítica final do Brasileirão de 78.

E que – descobri depois – devia ser bom de bola mesmo. 

Basta conferir as fotos abaixo pra atestar:

Año de la mujer peruana. Campeonato Sud Americano de Futbol Juvenil. Huampani. Agosto de 1975, Peru.

Em pé estão: Éder, Tião Marçal, Carlos Alberto Barbosa, Toninho Vanusa, Everaldo e o goleiro Carlos. O jogador agachado é Celso Freitas. O foto foi tirada em agosto de 1975, no Peru. Era o Campeonato Sul-Americano Sub-21. Na parte de baixo observe a seguinte legenda, em espanhol: Año de la mujer peruana. Campeonato Sud Americano de Futbol Juvenil. Huampani. Agosto de 1975, Peru.

Este Palmeiras venceu o Inter de Porto Alegre por 2 a 0 em 3 de agosto de 1978 no Morumbi. O jogo valeu pela semifinal do Campeonato Brasileiro e teve a presença de 59.495 pagantes. Toninho marcou os dois gols. Em pé estão Rosemiro, Leão, Beto Fuscão, Alfredo, Pires e Pedrinho; agachados vemos Silvio, Jorge Mendonça, Toninho, Escurinho e Toninho Vanusa

Este Palmeiras venceu o Inter de Porto Alegre por 2 a 0 em 3 de agosto de 1978 no Morumbi. O jogo valeu pela semifinal do Campeonato Brasileiro e teve a presença de 59.495 pagantes. Toninho marcou os dois gols. Em pé estão Rosemiro, Leão, Beto Fuscão, Alfredo, Pires e Pedrinho; agachados vemos Silvio, Jorge Mendonça, Toninho, Escurinho e Toninho Vanusa

Chico (massagista), Jarbas, Marcelo Oliveira, Luiz Carlos Gaúcho, Cláudio Adão e Toninho Vanusa.

Seleção Brasileira Juniores campeã de Cannes (França) em 1974. Em pé: Vanderlei Luxemburgo, Walter, Xáxa, Batista, Carlos e Carlinhos. Agachados: Chico (massagista), Jarbas, Marcelo Oliveira, Luiz Carlos Gaúcho, Cláudio Adão e Toninho Vanusa.

 

Em tempo: se alguém quiser comprar um card dele, é só clicar aqui.

Fonte das fotos:

 http://desenvolvimento.miltonneves.com.br/qfl/Conteudo.aspx?id=60473