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A foto

Era uma foto daquelas, sabe? De dar vontade. Olhar e dar vontade. Estava lá dia sim, dia não, aquela boca vermelha, grande, sem sorrir, os olhos a olhar dentro, um tanto mais claros que a sobrancelha. Um rosto um tanto quanto latino, a lembrar a sedução daquelas atrizes espanholas de sorriso largo e fala doce.

E não era superprodução, não. Foto comum mesmo. De uma ilustre semi-desconhecida. Amiga de um amigo, um oi aqui, um e aí ali, nada mais. Mas era linda, a foto. E quase sempre queria chamar pra conversar, dizer algo, mas quê? Foto não fala, ou melhor, não argumenta.

Então vivia a foto no imaginário, e a imaginação na foto, que tinha dona, e que a dona podia pensar disso de ficar vendo foto dela e querendo conversar? Que abuso, onde já se viu, a foto é minha e só minha.

Mas que podia fazer? A foto era dela, sim, mas estava ali, exposta, e ele não conseguia se furtar de imaginar aquela boca sorrindo, aquele olho piscando, o nariz empinado.

Podia perguntar, ei, e se eu escrevesse sobre a sua foto, assim, com todo o respeito, que tal? Mas aí não seria mais só foto, só rosto, teria alma, espírito e personalidade, e daí que isso assustava um pouco, esse contato meio estranho com alguém semi-desconhecido, vai pensar que é algum louco desses pervertidos.

Então não escrevia sobre isso, só pensava, de tempos em tempos, naquela foto movendo, tendo vida, e corpo, e ação.

Era como uma Mona Lisa só sua, que ele queria ver sorrindo, só rindo, assim, sorrisão, sorrisão.

E que morria a cada palavra não dita, pra renascer de novo toda vez que lhe chamava a atenção.

E quer saber? Bastava.

Até ali, bastava.

A foto, a boca, os olhos, o quase sorriso e a imaginação.

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Do sorriso

Entrou no teatro e era dia ainda, quer dizer, era luz ainda, essa luz dos homens, elétrica, contrastando com o cansaço que sentia. Não era muito de teatro, mas lá estava, porque era o amigo, e o amigo era ele, muitas vezes.  Procurou um lugar e sentou, ao aguardo do início, mesmo que sem saber direito de quê.

…but I still haven’t found what I’m looking for…

E veio mais gente, e mais e mais, e de repente a sala lotada, e do palco vieram vozes, e música, e então finalmente o início. Luz não mais, mas ainda era elétrica, a atmosfera. Corpos indo e vindo, sem tantos rostos, ao menos para ele que era muito ruim de guardar rostos.

…but I still haven’t found what I’m looking for…

Eram muitas saídas e entradas, e música sempre, sempre. Bailavam, atores, platéia, sombras e cores, ou a ausência deles todos.

…but I still haven’t found what I’m looking for…

Os olhos seguiam a música, e os ouvidos às cenas, tudo invertido que assim que era bom de sentir. E veio o meio, que ele não sabia que era meio, e ainda elétrica, a atmosfera. Por que mesmo não era muito de teatro?

…but I still haven’t found what I’m looking for…

E, quando já se acostumara com a imensidão de movimentos embaralhados sobre o palco, de repente o preto se tornou havaiano, e a atmosfera ganhou graça.

E então o detalhe.

…but I still…

Pequeno, como ela naquele palco enorme.

Sutil, e doce.

A tirava da sombra.

E como dançava, o detalhe!

E seus olhos sempre junto, seguindo, seguindo…

…haven’t found…

Então o fim, e a espera do amigo, e com ele veio ela, e com ela o detalhe, que já não era mais tão detalhe, mas sorriso, janela da alma daquele corpo até ali quase anônimo.

E ele foi pra casa sorrindo, como ela, mesmo que dela nada soubesse, e para ela nada fosse.

Voltou semanas depois, e se deparou com o cartaz da peça.

Fitou-o demoradamente.

…what I’m looking for…

E de repente ele, que não enxergava nem a própria mãe em foto de família, naquela multidão de preto conseguiu encontrá-la.

Tudo porque havia o encanto do sorriso.

Bastava isso.

Naquela noite, seus olhos se divertiram em comandar o cérebro durante toda a peça.

Buscando sempre, sempre, o seu sorriso.

…what I’m looking for…