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Rio-São Paulo

Por conta dos muitos comentários bairristas e/ou regionalistas publicados no Blog do Juca Kfouri em resposta ao meu texto “O Time do Povo”, resgato aqui um outro texto que escrevi em fevereiro fazendo uma pequena comparação entre as cidades e as torcidas de Rio e São Paulo.

O texto está originalmente publicado no Blog do Tolengo.

“15/02/2008

Excepcionalmente, já que minha conexão ontem não estava boa, minha coluna está saindo somente hoje, sexta-feira.

Vou falar daquilo que passou pela minha cabeça durante a semana, depois de ver Thiago Neves – e toda a torcida do Fluminense – fazer a “dança do créu” contra o Flamengo, no clássico vencido pelo Tricolor das Laranjeiras por 4 x 1. 

Um amigo me passou o vídeo da torcida fazendo a tal dança que ele achou no YouTube. Um amigo autenticamente paulistano e flamenguista, por sinal, e que não estava bravo com a comemoração, mas sim empolgado com a criatividade da torcida carioca e fazendo uma previsão de que essa será a nova onda pelas arquibancadas do país.

Como bom chato e ranzinza, respondi o email dizendo que acho boba a dança, e que fico até feliz porque a torcida do Corinthians não costuma embarcar nessas “músicas da onda”.

Daí veio a discussão que quero fazer por aqui.

Pra mim, as músicas, a disposição nas arquibancadas, o ânimo/desânimo e até as brigas das torcidas organizadas em São Paulo e no Rio tem diferenças que são resultado direto e indireto de algumas variáveis urbanas de cada cidade.

As torcidas paulistanas encaram o futebol com o mesmo clima do rap: tensão (social ou não), crítica, compromisso, agressividade. 

As torcidas cariocas levam pros estádios a “malemolência” do funk carioca: criatividade, escárnio, humor – que de certa forma também é agressivo. 

É claro que alguns hinos acabam mesmo se popularizando pelo país todo. Um exemplo que pude conferir ao vivo no Maracanã no Flamengo 2 x 1 Corinthians do Brasileiro do ano passado é esse: 

“Olê,

Olê olê olê

Olê,

Olê olê olê

Eu sou Corinthians, de coração

Eu sou do time que vai ser o campeão

Olê, olê”

Mas, mesmo nesses casos, o ritmo da cada lugar faz com que as canções adquiram diferenças sensíveis. A torcida do Flamengo, por exemplo, canta um “olê” a mais na primeira e terceira linhas e um “olê” a menos na segunda e quarta linhas, deixando a música mais “funkeada”: 

“Olê olê,

Olê olê

Olê Olê,

Olê olê

Eu sou Flamengo, de coração

Eu sou do time que vai ser o campeão”

De uma forma geral, a tendência nos estádios do Rio é provocar, sacanear o adversário. Conhecendo meu pai, que é carioca e tricolor, muito bem, acho que posso exemplificar isso. Ele é a pessoa que mais gosta e passa o tempo criando tirações de sarro com os rivais que eu conheço. Quando, já morando em São Paulo e simpático ao Corinthians, viu o Palmeiras perder o título paulista de 1986 para o Inter de Limeira e permanecer na fila, escreveu à máquina uma carta em que usava o nome de todos os jogadores da Inter de Limeira como trocadilho para sacanear o amigo palmeirense. Porém, ao ir entregá-la e dar de cara com a mulher dele, também carioca mas flamenguista – e que começou a rir no momento em que o viu à porta, já prevendo o que vinha -, não teve coragem de fazer a brincadeira porque o amigo estava em prantos. Guardou a carta (que hoje está em minhas mãos), disfarçou, deu uma desculpa qualquer e foi embora. Mas não resistiu e gritou do corredor: “Corinter!”. 

Não estou dizendo que os paulistanos são mal-humorados e os cariocas comediantes natos. A idéia não é essa, e sim a de que há coisas no urbano de cada lugar que faz com que os pobres – que, nos dois casos, são quem inventa as músicas de estádio – tenham tendências a isso ou aquilo. 

São Paulo é a cidade da segregação espacial extrema. Tem gente – pobre – que vive depois da ponte João Dias, zona sul de São Paulo, que nunca passou para o outro lado da ponte. Não há (ou quase não há) espaços comuns de convivência, e o rap acabou sendo nos últimos anos um dos poucos canais de comunicação a fazer com que o lado rico fosse obrigado a escutar o lado pobre dizendo o que achava disso tudo. 

O Rio também é uma cidade segregadora, mas tem algo que é, de maneira geral, comum a todos: a praia. As pessoas necessariamente precisam se encontrar se vão à praia. É claro que a praia não é de todos – minha vó morava em Anchieta, na zona norte, último bairro antes de Nilópolis, e toda vez que eu ia pra lá, quando voltava pra São Paulo tinha de explicar que não, eu não tinha ido à praia nenhuma vez porque era muito longe – e que o convívio não é pacífico, longe disso. Mas é impossível aos pais-de-João-Hélio ignorar os Dadinho-é-o-caralho-meu-nome-é-Zé-pequeno-porra, ainda mais com os morros – que no Rio não significam acidente geográfico, mas favela – no meio da zona sul, por exemplo. A praia é um “espaço de socialização obrigatória”, e o funk é o jeito “sem compromisso” que os pobres tem de enxergar a própria pobreza. 

Voltando ao futebol, os cariocas tem como palco dos grandes clássicos o Maracanã, que não é de ninguém, e ao mesmo tempo é de todos. A relação das torcidas no estádio não é a mesma de um clássico paulistano no Morumbi: o estádio é do São Paulo, e mesmo que joguem Corinthians e Palmeiras é impossível ignorar a sensação de não estar em casa com tantos símbolos do Tricolor espalhados. 

O fim disso tudo é que a rivalidade entre as cidades não é só um clichê a ser usado como justificativa para barbaridades. Ela tem uma origem, tanto dentro quanto fora de campo, e se metamorfoseia conforme as duas cidades e a relação entre elas vai mudando. 

Não digo que nunca uma torcida paulista cantaria uma música carioca como aquela da torcida do Flamengo para o Vasco, “ô-ôô-ôô-ôô, vice de novo!”. Até porque hoje há torcidas do país inteiro cantando músicas copiadas das hinchadas argentinas, o que tempos atrás era tido como impossível, e porque a Torcida Tricilor Independente do São Paulo tem uma música conjunta com a Torcida Jovem Fla do Flamengo, simbolizando a união das duas, música essa que utiliza uma gíria muito comum no Rio mas meio estranha em São Paulo, a palavra “sinistro” (a música: “Jovem Fla, Independente: união sinistra que incomoda muita gente”). 

Mas o “clima geral” das organizadas de São Paulo é meio que um clima de guerra, de exaltar sua equipe como se estivesse em um campo real de batalha, e transformar as ruas nisso se “preciso”. 

Já no Rio, a coisa aparece muito mais como tiração de onda e festa, o que levou inclusive os grandes meios de comunicação a exaltá-las no ano passado – dando menos espaço, aparentemente, para as mortes que acontecem por lá tanto quanto por aqui. 

Alguém poderá dizer que a Globo vem colocando a letra das músicas da torcida do Corinthians durante os jogos atualmente. Só que, além de ser uma coisa momentânea pelo rebaixamento do clube, as letras ressaltam ainda mais a diferença entre as torcidas: “aqui tem um bando de louco, louco por ti Corinthians, pr’aqueles que acham que é pouco, eu vivo por ti Corinthians, eu canto até ficar rouco, eu canto pra te empurrar, vamo vamo meu Timão, vamo meu Timão, não pára de lutar”, ou “eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo”. Nada de “créu”, nada de “Obina melhor que o Eto’o”, nada de “vice de novo”. 

As duas maiores cidades do país respiram futebol, e se respingam no futebol conforme crescem. E entre a guerra paulistana e a festa carioca, a rivalidade ganha novos ares, novas histórias e novas músicas, todas oriundas direta ou indiretamente dos ritmos do povo da periferia, seja ele o funk, o rap, o samba ou mesmo os cantos dos hermanos argentinos – que lá, tanto quanto aqui, tiram do cotidiano da “quebrada” os ritmos da arquibancada.”

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