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Seis

Fiquei com a impressão ontem de ter estragado o texto com aquele poema final. Que nem é meu, diga-se, só adaptei. Não que eu ache o poema ruim, mas ficou meio fora de lugar.

Fora de lugar. Quem nunca se sentiu fora de lugar?

***

“No tengo bandera ni nación
no hablo tu idioma, soy un animal.
Vivo y muero en cualquier lugar
tengo sexo con quien quiero, si se da

Porque yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral

Con el corazón abierto voy
corro el riesgo si me quieren lastimar
veo el aura, leo tu intención
tengo instinto y se cuando debo ladrar

Por que yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral.
No puedo entender a esta humanidad
seres racionales y el poder los hace matar

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque amo como perro
y te huelo como perro
y te cojo como perro, soy un perro

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque siento como perro
mis amigos son los perros
y me junto con los perros soy un perro
soy un perro…”

Quando eu era bem pequeno, meus pais me levavam pros comícios do PT. E pras bocas de urna, também. Os dois faziam parte dos movimentos de esquerda que acabaram gerando o partido. Não me lembro de muita coisa, só de bastante vermelho. Desde criança minha cor preferida é vermelho. Vai ver é por isso.

Mais tarde um pouco, comecei a me interessar por música. Não pagode, axé, essas merdas. Música. Entrei pelo rock brasileiro farofa, Titãs, Skank. Depois fui pro rap de playboy, Gabriel O Pensador, e pro rap de verdade, com Racionais. Me interessava mais as letras do que a música. E nesse caminho encontrei o punk.

O punk sempre rendeu discussões inflamadas com meu pai. Ele tinha na cabeça aquela imagem de punk fazendo merda, sendo estúpido, quebrando, cuspindo, enchendo o saco. E eu entrei no punk por outro caminho, mais moderno, mais pela atitude do que pela música ou pelo visual. A atitude punk era ter orgulho de estar fora de lugar. Eu estava fora de lugar. Mesmo com meu pai, que defendia idéias trotskistas quase sempre, enquanto eu me interessava pelo anarquismo, mais livre, menos programático. Não fosse isso, não fosse esse conflito, e talvez o punk tivesse se tornado pra mim só a estética. Mas pra contrariar meu pai tive que ir atrás de informação, explicar aquele A na jaqueta, o cabelo ridículo, a roupa militaresca rasgada. Também porque os amigos dos meus pais eram todos dessa esquerda que se fodeu com a ditadura, então os encontros de família e amigos sempre traziam conversas de esquerda, e pra participar – e adolescente virgem deslumbrado sempre quer participar – eu precisava saber contrariar.

Algo que eu considero uma das coisas mais realmente revolucionárias do punk é a liberdade que ele te dá pra fazer parte dele. Parte de qualquer parte dele. Você pode tocar bateria sem nem saber o nome das peças. Organizar shows sem saber como ligar o amplificador. Ser a banda, o público, o produtor, tudo ao mesmo tempo. No lugar dos lugares estritamente delimitados, das tarefas restritas e restritivas, o caos de se fazer, de ter que fazer tudo por conta própria. Porque era isso ou não era. Não era punk. Ao invés de depositar dinheiro e confiança em organizações estranhas com estruturas definidas, o punk te encorajava a construir a sua própria. Falo no passado porque hoje já não sei mais, não participo tanto. Não que seja algo de época, não sou tão velho e recalcado ainda pra dizer que punk era o que eu fiz e o que eu vivi e não o que há agora. Mas talvez as oportunidades, as portas de entrada pra coisa toda sejam outras, tenham mudado, e esteja mais difícil de se encontrar quem passe pela porta do fazer você mesmo tudo, tudo mesmo.

Nunca houve tanto espaço e tanta condição material pra se ter show punk e ao mesmo tempo tão pouca gente fazendo a coisa acontecer lá de baixo. Vai ver o punk ficou fora do lugar de menos.

***

Lembro da primeira vez que vi aquela massa negra ensurdecedora. Lembro perfeitamente. Ali virei corinthiano. Ali resolvi tocar bateria.

Diferente da maioria das histórias de futebol, eu não torço pro time do meu pai. Meu pai aprendeu a torcer para o meu. Carioca, Fluminense desde pequeno, se casou com uma paulista e se viu frente ao problema quando o filho nasceu: pra que time o moleque vai torcer? Resolveu da forma mais democrática que conhecia, herdeira do passado de militância. Me apresentou aos times da cidade e me levou em um jogo de cada. Não precisei ir além do segundo. Nem ele, aliás.

Numa coisa meu pai destoava dos comunistas irritantes que conheci na universidade: ele adorava futebol. Adorava mesmo. Contava histórias muito boas, de Castilho, goleiro mítico do Fluminense; da vez que se viu abraçando loucamente uma torcedora que estava com o namorado botafoguense vendo a final no estádio enquanto este se sentava pra lamentar o gol sofrido no último minuto; de Pelé; da Copa de 58 ouvida no rádio, com 9 anos; de vários jogadores que a mídia esportiva faz questão de não lembrar. Me levou a jogar bola desde cedo. Bola e tudo que envolve futebol. Uma das coisas que mais me arrependo é de ter perdido nas mudanças de casa um saco enorme com times de botão que ele guardava desde a infância. Eram botões feitos por ele mesmo, com casca de côco, tampas de relógio, fichas de ônibus que se usava na época. Todos tinham nome.

Desde pequeno, desde 1990 pra ser mais exato, eu decidi que seria jogador de futebol. Vi minha mãe chorando com o gol de Cannigia nos tirando da Copa do Mundo e prometi vingança. Naquele mesmo ano, o Corinthians levou o Brasileirão, com Neto, Ronaldo, Wilson Mano e Tupãzinho. Eu não precisava daquilo, a torcida já tinha me conquistado. Mas ganhar aquele título e daquele jeito com certeza ajudou a solidificar meu corinthianismo e meu jeito de jogar bola dando muito mais importância pra vontade e pra raça do que pra habilidade. Ironicamente, o amigo mais próximo de meu pai tinha feito o caminho inverso: palmeirense, paulistano, casou com uma flamenguista. Os filhos, todos palmeirenses, meus quase-irmãos, um pouco mais novos que eu, cresceram com a geração Parmalat, que montou supertimes no rival. Não por acaso, jogavam muita bola, muita mesmo. Jogam ainda. Mas nenhum de nós virou jogador. Eu porque não era bom o suficiente. Eles porque tinham escrúpulos o suficiente.

Meu pai era um filho da puta com futebol. Em 1986, com o Palmeiras na final do Paulistão contra a surpresa Inter de Limeira, a torcida alviverde tinha certeza de que a fila, que já chegava aos 10 anos, iria acabar. Esse amigo do meu pai também. Deu Inter. Morando no mesmo prédio, meu pai não teve dúvida: desceu até o 3º andar. Chegou lá e a conterrânea carioca abriu a porta já começando a rir, mas implorou por bondade, como se carioca conhecesse bondade na hora de cutucar o rival no futebol. O amigo estava prostrado em frente à TV, desolado. Meu pai resolveu que “só queria uma xícara de açúcar pra Célia terminar o bolo”. A carioca jogou o jogo segurando o riso, sabendo que não podia ser só aquilo. E não era: fechada a porta, açúcar na mão, da janela do corredor meu pai gritou: “CORINTER!”. Não contente, datilografou depois uma carta “consoladora” em que usava todos os nomes dos jogadores da Inter em trocadilhos. Nunca enviou. Teve piedade.

Não que o amigo não merecesse. Em 1984, na primeira rodada do campeonato, o jornal televisivo anunciava que o rival do Fluminense estava preocupado com o ataque tricolor. Era o Casal 20, Washington e Assis. O amigo palmeirense ridicularizou, meu pai ouviu calado. Meses depois, calhou de haver uma festa em casa no dia da final. O Flu levou o título. E o amigo teve que escutar o hino na vitrola pelo menos umas 20 vezes no repeat.

O dono santista da banca de jornal também sofria. Era o Santos perder e meu pai ligava pra banca. O cara atendia e ele não dizia nada, só soltava um risinho sacana. Anos e anos a fio. Se o santista descobriu, sempre fingiu que não sabia de nada. Meu pai era um dos melhores clientes. O dinheiro venceu mais uma vez.

Lembro também de que eu tinha um amigo são-paulino, um gordinho folgado canhoto, habilidoso. Ia lá em casa e meu pai repetia o mesmo ritual que tinha com todos os meus amigos: tirar um sarro, deixar o cara se sentir à vontade. Depois de um tempo, os moleques ficavam ousados, começavam a tirar uma com o Fluminense, que nos anos 90 não teve lá muitas glórias. O camisa 9 tricolor, Ézio, era sempre alvo de piadas. Meu pai então fazia os moleques cantarem o hino do Flu. Um teve que repetir cinco vezes do lado de fora de casa até ter permissão pra entrar.

Esse amigo gordinho acompanhava meu pai e eu quando ele me levava pra jogar. Morávamos já na Lapa, e o Palmeiras era bem perto; mas o coração era alvinegro, e o Corinthians ficava na zona leste. Meu pai resolveu a questão se associando aos dois clubes. Eu ia pro Palmeiras de dia de semana, depois da aula, várias vezes com o gordinho como convidado. Jogava futebol de salão. Certa vez fui assaltado na entrada: levaram meu uniforme da escolinha. Nunca fiquei tão pouco puto de ter sido roubado.

No Corinthians, jogava futebol de campo, aos fins de semana. O gordinho lá também ia de convidado. Um dia se esqueceu e foi com um calção do São Paulo. Achamos que pudesse acontecer algo, mas ninguém falou nada. Essa geografia do clube duplo levava meu pai a exercitar sua raiva do rival. Comparava sempre as situações vividas dentro dos dois clubes. O Palmeiras não deixava meu primo entrar no clube com uma camiseta do Flu. No Corinthians, o gordinho ia de calção do São Paulo. No Palmeiras, um diretor berrava pra seu filho de 8 anos quebrar a perna do rival num jogo de futsal.  O Corinthians era o time da Democracia Corinthiana. Não deve ter sido uma escolha difícil pra quem militou contra a ditadura. Sem falar que a trimensalidade no Corinthians era mais barata que a mensalidade no Palmeiras.

Mais velho e doente, começou a ter que ficar sempre em casa. Assistia documentários e mais documentários. Fazia questão de me contar os mais interessantes, o que me irritava às vezes. Era uma alma comunicativa presa em um corpo já débil. No intervalo dos documentários, havia Chaves, as séries de comédia e os programas esportivos. Todo dia então vinham as mensagens de texto pelo celular: “Vai passar na TV um filme chamado Seres Rastejantes; deve ser sobre o Palmeiras…”, ou “Apelido do Cristiano Ronaldo em Portugal: Puto Maravilha!”, ou ainda “A goleira da seleção paraguaia é da altura da sua mãe, hehehe… ela deveria tentar o futebol pebolim”.

Quando eu era mais novo, tinha asco da idéia de ter um filho. Não queria. Não nesse mundo.

Hoje, a cada mensagem de texto que eu não recebo mais, cresce a minha vontade de ser pai.

***

“Pai
02-Dez-07 19:22

A mente aberta, a palavra certa e o coração esperto!
Força, Timão! Glória Timão!!!”

Uma vez, em 1991, entrei de mascote com o time, mãos dadas com Ronaldo. Eu ainda queria ser goleiro. Meu pai chutava uma bola de plástico pra que eu defendesse. A enorme janela da sala da casa em Pirituba era o gol.

Dezoito anos depois, pisei o gramado outra vez. O estádio estava tão vazio quanto meu coração. Os gols nem sequer tinham rede. Carregava meu pai nas mãos. O deixei ali, no banco de reservas, pra sempre. O hino, cantei em silêncio.

Hoje tem jogo. Vou lá.

Ver meu pai.

Autônomos FC internacional

Os amigos ingleses do Easton Cowboys&Cowgirls, time de futebol (e outros esportes) anti-fascista que virá ao Brasil em maio, estão organizando um show com a lendária banda punk finlandesa Riistetyt na Inglaterra para arrecadar fundos para o Autônomos FC e o Ativismo ABC!

Segue o cartaz do evento:
flyer

Divulguem!

 

O site do Easton: http://eastoncowboys.org.uk/

Zero zero sete

Hoje fui votar, exercer tooodo esse grandicíssimo direito democrático que foi concedido conquistado com a luta de muitos e a gloriosa e benevolente vontade do Estado.

Obrigado, Estado, obrigado.

E como as mudanças que surgirão no mundo depois das 9 pressionadas de botão que me são permitidas acontecerem serão responsabilidade minha, fui lá e fiz a minha parte.

Meu voto, minha responsabilidade, minha parte.

Tudo meu.

Engraçado… e os outros?

“Ah, pára, cada um no seu quadrado, né, Mandioca!”

“Será que você não fica feliz com nada? Pô, você já tem a dádiva da escolha! Isto é democracia!”

Legal, então eu posso escolher quem vai me estuprar? Que fantástico!

Nos tempos de papai e mamãe (sem trocadalhos) não se podia isso não.

Em compensação, papai e mamãe foram de certa forma forçados impelidos a construir o que queriam, sem a cidadania politicamente correta da votação ou de pedir ao Estado “ei, tio, posso?”.

Eles lutaram. Juntos. Por algo em comum, algo melhor pra todos. Naquela época, existiam os outros. E não só na tela de cinema quando algum filho de banqueiro queria fazer filme pra mostrar pra Europa “oh, como sofremos”.

O que eu estou dizendo, que é melhor uma sociedade autoritária pra que as pessoas se vejam inclinadas a lutar?

“É isso Mandioca, você prefere a ditadura? Queria estar em Cuba ou China? Queria ser um bárbaro árabe morando no Irã?”

Não.

Porque isso seria determinista e matemático demais (ditadura + grupos radicais = revolução) e uma interpretação deveras simplista. Sem contar que seria tomar toda revolução como uma coisa intrínseca, necessária e totalitariamente boa – alô, Revolução Francesa? Tem alguém aí? Tô ligando pra agradecer pela nova ordem burguesa das coisas… brigado, viu? Égalite, Fraternité, Liberté… de mercado.

“Caramba, nem da Revolução Francesa você gosta? Pôxa, é graças a ela que hoje a gente pode escolher, mêo!”

Uau!

Isso parece bom quando comparado ao feudalismo, à Idade Média ou aos 4354325 anos de poder de Fidel Castro né?

Lá em Cuba ninguém pode escolher entre tênis da Nike e da Adidas, que absurdo!

Já a gente aqui pode escolher. Graças à democracia.

Só não tem é dinheiro pra todo mundo comprar.

Ou melhor, a imensa maioria não tem direito dinheiro pra comprar.

Que coisa não?

Na ilha do Fidel não tem quase ninguém descalço…

“Caralho Mandioca, você quer mesmo uma ditadura né…”

Não.

Só que nem todo o azul é marinho e nem todo o vermelho come criancinha.

A ditadura cubana é um lixo.

Mas isso não faz da “democracia” brasileira (e estadunidense, argentina, uruguaia etc) algo bom.

Simplesmente porque o mundo todo vive uma ditadura bem maior e mais ampla, irrestrita.

A ditadura da mercadoria, do capital.

Tudo se vende, tudo se compra.

Ah sim, se pode votar no que se compra – “quero o Corinthians de roxo ou de branco no próximo jogo de pay-per-view que eu vou comprar por R$ 55,00?”

Desde que se compre.

Neste totalitarismo de mercado, o direito sagrado do voto nada mais é do que uma farsa.

Te forçam a “deixam” escolher, mas não te dizem que é possível ir além do escolher, criar suas próprias opções.

Te dão a tinta amarela ou a verde pra pintar sua cara, mas não dizem que se você quiser pode  pintar ela de preto.

Ou então não pintar.

E que se um grupo grande de pessoas optasse por deixar de fazer papel de palhaço não pintar as caras e passasse a juntar seus interesses pra lutar e pra criar suas próprias opções, o tal do titio Estado estaria fodido.

(Lutar, como fizeram nossos pais pra que hoje possamos sentar a nossa bunda – sozinha – na cadeira em frente ao computador e fazer um blog engraçadalho.)

Mas não.

Agradecemos todos os dias por ter internet.

Porque, como diria o Rodrigo, seria demais dividir as coisas que você já tem: cerveja, um par de tênis e o caos.

E seguimos navegando no mar da sociedade de compra e venda de informação – que é na verdade a sociedade do totalitarismo informacional.

Um lugar onde se fundamenta argumentos com o velho e bom novo e péssimo “eu li na internet”.

Onde se renega a História e se nega o conhecimento – porque você leu na internet, só você, sozinho, e a partir daí passou a ser verdade, sem a busca pela origem da informação, sua construção, seu passado; e sem a necessária etapa de transformação da informação em conhecimento que consiste em colocar a informação para o mundo e a partir daí contextualizá-la e colocá-la à prova enquanto algo capaz de explicar e ser explicada por esse mesmo mundo.

E aí, a absoluta ausência do outro e do coletivo é tão grande que um dia de votação se torna cidadania, uma enquete eletrônica se transforma em “programação interativa”.

Numa verdadeira sociedade de jornalistas (onde estão os poetas, mortos?), que votam e fazem sua parte.

É o abstrato se tornando concreto.

O sertão que já virou mar.

E já que virou mar, compareci à minha seção eleitoral de fone de ouvido, essa espécie de escafandro social que te protege da falta de lucidez alheia e do tédio do cotidiano, escutando Isis – The Red Sea, e tal qual um bom agente secreto da subversão, usei a velha e boa tática do 007.

Zero zero zero zero zero, confirma.

Zero zero, confirma.

Os sete zeros da insubmissão simbólica.

E saí de lá cantando, junto com o Neurosis:

Where are they now?
They’re gone
I saw them run,
run to the sea…