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Sorriso de pai

– Feliz dia do pai 🙂
– Feliz dia do pai. Te amo. Tô aqui esperando seu texto pra me fazer chorar.
– Mais tarde…

***

Lu,

tenho muita saudade de você. Muita mesmo. Eu não sei por quê, nem como, nem quando isso começou, mas nos últimos meses tenho tido uma vontade enorme de mandar tudo à merda e comprar uma passagem pra ir te ver.

Eu tenho tido uns sonhos estranhos. Sonhos não, umas sensações, na hora de dormir. Principalmente na casa da mãe. Parece que tem uma presença, uma força, algo ali que me causa uma espécie de temor, um medo. Não, na verdade não é um medo, é uma ansiedade e uma agonia, e aí eu não consigo deitar de frente pra porta, e fico de costas como que sem querer encarar o que quer que seja que está ali. Não é muito racional, e talvez seja isso o que mais cansa a minha cabeça, porque você sabe o quanto eu sou racional e pragmático nessa bosta de vida. Queria ser menos. Mas a verdade é que eu não sei o que é essa coisa, essa força, e não sei o que fazer. Tento virar de frente, levanto, bebo água, mas acabo só indo dormir quando o cansaço vence a maquinação frenética da mente.

Não é ele, tenho certeza. Porque ele nunca me trouxe angústia, ansiedade ou medo. Ele não era de causar medo, lembra? Ao contrário, ele era de fazer rir.

Lembra da vez que meus amigos e eu fizemos a políca bater lá em casa e todos os vizinhos saírem pra ver o que era, e não era nada? Eu fiquei morrendo de medo da bronca quando ele chegasse, mas ele deu gargalhadas. E passou os meses seguintes fazendo piada com isso.

– Vou sair, não quero saber da SWAT vir aqui hein?

E quando a mãe não se acalmava dentro do carro? Lembra dos trocadilhos? Acho que ela ficava puta, mas depois que todo mundo ria ela vinha junto também né.

Lembra daquela vez que você discutiu com a mãe, chamou ela de autoritária e ela respondeu que autoritária era sua vó? E ele veio, todo sorrateiro, perguntando como se fosse o Chaves falando com o seu Madruga:

– É verdade que a sua avózinha era conhecida como Mussolini?

Lu, hoje eu só consigo lembrar das risadas. Ele me faz rir, e sorrir, e ter vontade de conhecer o mundo todo e fazer mais e mais coisas, como ele sempre quis e sempre fez.

O pai se foi, né, Lu, e a gente ficou. E depois foi também o Abu, e a vó. Parece que a vida encolheu, as pessoas queridas diminuíram e as angústias aumentaram. E aí a gente usa a memória pra tentar encontrar conforto no passado e não se perder. Só que o passado já foi e a memória é seletiva, e ela dança muito conforme a música do nosso coração. Quando a música toca no ritmo da saudade, vem essa vontade de chorar que me aperta os dedos enquanto digito, ou quando eu deito e sinto a presença da sua ausência, e da dele, e da vó e do Abu. É isso: esse medo, esse temor, essa angústia e principalmente a ansiedade só podem ser saudade.

Só que hoje eu não queria chorar, Lu. A saudade não tem que ser ameaçadora. Porque mesmo com ela presente e incômoda, cada dia mais eu percebo que ele tá na gente, sabe? E isso não é só forma de dizer. É de agir, de sorrir, de cantar, de sentir e de ir além.

Ele é as milhares de colheres de açúcar no meu café.

As muitas vezes que a mãe chama a gente quando tá no banho.

A música que sai de qualquer violão.

E o seu sorriso. Lu, é impressionante como ele é o seu sorriso, tanto quanto você era o dele.

Não sei, mas acho que enquanto eu escrevia isso aqui eu percebi o que é que me atormenta de noite. E é saudade, dele e de você.

Então não chora, irmãzinha. Ou chora, se for essa a sua vontade. Mas chora com um sorriso no rosto, e outro no peito. Que seu “rimão” é um bundão, mas logo menos dá um jeito de ir te ver.

E pra mostrar que o pai tá aqui, tá aí e tá em todo lugar, fazendo a gente rir, deixo essa foto dele que encontrei em casa.

É ou não é a nossa cara?

Milhões de beijos,

Dan

Oito por cinco

Oito é um número par.

Sempre gostei do número oito, embora seja mais afeito aos números ímpares, a ponto de sempre pedir ímpar numa disputa de par ou ímpar. Oito era o Ezequiel, depois descobri que tinha sido o Sócrates, e daí em diante adotei o oito como um número meu, o número da minha camisa.

Sendo um número par, oito é divisível por vários outros números. Dividindo oito por dois, temos quatro: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Dividindo oito por nós quatro, temos dois: ele e ela, minha irmã e eu; elas duas, meu pai e eu. E dividindo oito por ele mesmo, ficamos com um, que é ímpar.

Meu pai era uma pessoa ímpar.

Pai, hoje, depois de oito anos sem você, eu percebi que se a gente coloca o oito na posição horizontal ele fica parecendo o símbolo do infinito. Pode parecer, e na verdade é: nesses dias de aniversário eu me torno uma pessoa ainda mais brega do que as musiquinhas que você cantava pra mãe, pra Lu, pro Abu e pra mim. E olhando pro oito deitado, como você gostava de ficar na sala, fingindo que dormia pra pregar alguma peça na gente, me bateu uma sensação de que você não morreu e nem nunca morrerá. Só deitou pra sempre e desceu naquele buraco frio da sala de cremação da Vila Alpina, indo parar diretamente no infinito das nossas memórias cotidianas, das suas risadas e piadas ausentes e das tristezas que não encontrarão mais seus braços pra descansar.

Quando eu acordei hoje, ouvi de longe seu violão tocando uma música pra gente no fim de ano na praia, e é claro que era Dia Branco: “se você vier, pro que der e vier, comigo”. E lembrei que precisava te contar uma coisa.

Faz um tempinho, pai, que eu deixei de usar a camisa oito nos jogos. Troquei pela cinco, número ímpar como você. Acho que você, a Lu, a mãe e o Abu sabem muito bem porquê.

Te amo.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Depois, o Abu se foi. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos nosso cachorro. Cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde comemos minha mãe e eu, mas estarão sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

Sete anos

Pai,

queria que você estivesse aqui. E você não está. Essa é uma constatação dura, de todos os dias, mas que bate mais forte quando o mês é quatro e o dia é vinte e quatro.

A vida é uma bagunça, pai. Está uma bagunça. Tenho mudado muito de decisão sobre que caminho seguir, às vezes em questão de horas. Tudo muda e eu desenho um futuro novo a cada vez. Em todos eles, eu queria que você estivesse aqui. Queria que a Lu estivesse aqui, e o Abu, e as avós. Queria que fosse Pirituba e a She-Ra tivesse dado a luz, e eu fosse lá no quintal com vocês aprender sobre a vida e a morte. Queria que fosse a casa da escadaria e que a gente pulasse o muro pra jogar bola, e que fôssemos naquela tarde o melhor time do mundo porque ganhamos dos outros moleques que por lá corriam.

O nome disso é saudade, eu sei. Essa coisa que nunca se vai, que nunca nos abandona. Tenho muita saudade. Sinto muita saudade. Saudade é de sentir ou de ter, pai? Eu também não sei. Na dúvida, tenho. E sinto.

Ontem a minha mãe me deu um pouquinho de você de presente, assim, despretensiosamente. Umas cordas velhas de violão que ela achou em casa. Não dei muita bola na hora, mas quando cheguei em casa coloquei elas do lado do seu violão, que eu nunca aprendi a tocar, e fiquei relembrando das coisas. Fiquei na saudade, sem medo, que saudade traz lembrança gostosa e vontade de dar abraço. Saudade é bom. De ter e de sentir.

Veio hoje e eu dormi bem pouco. Acordei cedo, passei o dia fazendo coisas que me levaram pra longe de ti. Digo, pra longe do pensar em ti. Pra longe um pouco da saudade. E foi bom, porque a vida é uma bagunça, pai, e se saudade é bom e dá vontade de dar abraço, nesse exato momento o seu faz muita falta. Um abraço, ou um beijo, daqueles que você dava de surpresa, quando lembrava de demonstrar carinho aleatoriamente. Era estranho, porque de repente, mas era bom, pai. Era bem bom.

Queria mesmo que você estivesse aqui. Meu melhor amigo, um que não encontrei nunca mais.

Queria. E você não está.

Então eu sentei aqui, com o violão na mão, e tentei tocar qualquer acorde. Saiu esse texto. Em silêncio, sem lá, nem si, nem sol.

Nem dó.

Feliz aniversário.

São Paulo, 24 de abril de 2016.

Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

Aniversário*

– Vamos, menina, que a chuva só é chuva até que termine.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2009 quando de repente não sabia para onde ir.

Chovia, que era São Paulo e janeiro, e ele não sabia para onde ir.

Resolveu deixar o hospital e caminhar, sem rumo. À deriva. Pensava em pessoas e datas, e lugares, e cheiros.

Assim foi, e a chuva de janeiro deixou a cidade mas não seu coração. Caminhava e lembrava, e por vezes chovia no almoço, deixando a comida mais salgada e menos palatável.

De peito amortecido, passava por tudo como quem não passa nada, emocionalmente quase nulo. Havia vida, podia até sentir, mas nada que tocasse ou sentisse conseguia desentorpercer seus sentimentos.

Não sabia, era isso, não sabia abandonar a tristeza. Encerrar o luto. E seguia vivendo porque, oras, não podia seguir de outra forma. Existir não há sem viver.

Então se foi a década, e veio outra. E de repente era janeiro e chuvas, mas diferente do primeiro ano dessa vez não adentro. São Paulo era mar como sempre, mas ele, sertão. Secara.

E ali vinte dias, e um, e dois, e de dois para quatro numa intensidade que há tempos, e de repente vinte e cinco.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2011 quando percebeu que havia esquecido do aniversário de sua tristeza.

Dois anos, fazia, e ele não lhe havia comprado presente algum.

Então parou de andar e caiu em si.

Pegou a cachorra, subiu o viaduto e ficou a observá-la a correr, liberta que estava da coleira e das paredes do apartamento.

E montado no alto de todo aquele concreto e cinza sentiu que naqueles dois anos nunca estivera sozinho.

Nem ao sol, nem à sombra, muito menos à chuva.

Olhou para cima, e vendo o céu de janeiro carregado como sempre, jogou fora o guarda-chuvas.

Porque tinha sede.

Dois anos depois, outra vez tinha sede.

– Que venha a chuva! – desafiou.

De boca aberta, e língua de fora.

*Dedicado a Cleber Cajazeira, que em 25 de janeiro de 2009 deixou a história para estar diariamente na minha vida. Pai, tua chuva me alaga e me seca, mas nunca, nunca, nunca me afoga.

Um

Um ano.

Faz um ano.

Quem nunca quis morrer?

***

Quando se é novo, os problemas sempre aumentam. A juventude é como uma lupa ao contrário: quanto menos idade, maiores se tornam as coisas. Aquela pessoa sempre é o maior amor da sua vida. Aquela prova, a mais difícil. O melhor amigo. Os 2 pivetes que tentaram te roubar se tornam 10 brutamontes, e quando você conta a história você não correu. E eles não levaram nada.

De repente, então, o maior amor se vai. O melhor amigo trai. Você perde a prova, e os 2 pivetes tomam seu boné e ainda te deixam um olho roxo, que é pra não poder mentir. Nessas horas, você quer morrer. Todo mundo já quis.

O desejo pela saída fácil da situação difícil é comum. Mas ele sempre passa. Com o ano, vem as derrotas e as vitórias, e a lupa diminui. Você aprende que nada precisa ser tão grande. Quer dizer, uma parte aprende. E pra essa parte o desejo de morrer nunca passa de uma idéia boba que se teve.

A outra parte, bem, a outra parte ultrapassa uma linha que eu desconheço. E muitas vezes tenta morrer mesmo, e consegue. Mas eu não posso falar disso. Não posso falar do que não sei direito como é.

Eu nunca quis, mesmo, morrer.

Bem… quase nunca.

***

Há um ano, o time júnior do Corinthians chegava à final do mais famoso torneio de futebol júnior do país. O jogo começaria 11 da manhã. Exatamente o horário da visita à UTI. Naqueles já quase 20 dias de entubação, meu pai passara por altos e baixos. Algumas vezes chegamos a pensar que sairia do tubo, ao menos. Mas de repente a situação começou a piorar. O corpo humano não aguenta sempre o quanto a gente quer. Mesmo assim, mantínhamos na mente a idéia de que ainda dava.

2009 seria um ano novo mesmo. O Corinthians voltara da Série B. Contratara Ronaldo. Meu pai veria Ronaldo jogar. Nós veríamos. A torcida inteira esperava por redenção, depois de um ano no inferno. E naquele 25 de janeiro, a cidade aniversariava com a possibilidade do Corinthians já campeão.

Fui ao hospital, como quase sempre, com a camisa do time. Aquela, com a foto dele. A bandeira, já estava pendurada dentro do quarto. Diferente do meu costume, estava ansioso pra entrar na UTI. Ver aquele jogo. A UTI tinha TV também. Costumávamos pedir pra deixá-la ligada no canal de esportes, ou de documentários. Meu pai gostava de dormir com a TV ligada.

Minha irmã é são-paulina. Pra ela o jogo não significava muito. Mas significava pra mim, e ela sabia que pro meu pai também, então ela conseguia transmitir alguma solidariedade.

Quando a lista de parentes começou a ser chamada, entrei quase como uma flecha porta adentro. Eu, minha mãe e minha irmã.

Ao entrar no quarto, repeti o que sempre fazia: olhar os monitores. Já sabia lê-los. Eles diziam como ele estava, antes do médico responsável passar.

Naquele dia, meu pai tinha a pressão em 4 x 3 e os batimentos por volta de 30.

Minha mãe e eu nos olhamos. Já sabíamos o que aquilo significava. Minha irmã também.

Foi difícil conter o choro até o médico chegar. Tão difícil como está sendo agora.

Meu pai era uma pessoa comunicativa.

Pelo monitor, ele dizia adeus.

***

A visita do médico foi só pra confirmar o óbvio. Algumas horas. Meu pai tinha algumas horas.

Alguém já experimentou a sensação de ter uma parede desabando sobre?

Àquela altura, eu já tinha deixado a camisa sobre a bancada. Quase esquecido do jogo. Saí do quarto. Não queria chorar na frente da minha irmã. Precisava ligar pra namorada. Caí aos prantos no telefone. Ela voou até o hospital. Naquele meio tempo, lembrei do jogo.

A visita à UTI costuma durar uma hora. O jogo levaria duas. Pedi ao médico responsável para ficar ali até o fim do jogo. Seria nosso último jogo. Fui atendido.

Durante duas horas, pela primeira vez na minha vida, eu quis morrer.

O Corinthians jogava e meu pai ficava mais e mais gelado. Eu esfregava minhas mãos sobre seu corpo compulsivamente. O choro e o riso por estar de novo vendo um jogo com ele se intercalavam. Eu queria que ele falasse. Qualquer coisa. Que levantasse e gritasse com os jogadores. Que fingisse ser um zumbi e de repente nos desse um susto. Tentava passar meu calor para ele. Sentia o cheiro de seu sangue, as veias rompendo. Em silêncio, pedia, por favor. Que aquilo desse certo. Foda-se, queria que a minha energia vital passasse pra ele. Não me importava.

O Corinthians venceu aquele jogo. Fez dois gols. Nos dois gols, abracei meu pai.

Nos dois gols, meu pai me abraçou.

***

Na sala de espera, junto ao coffe shop, esperávamos. Os amigos chegavam, aos poucos. Esperávamos, e eu queria estar lá dentro. Odiava a medicina por não me deixar estar lá dentro. Meu pai ia morrer sozinho. Esperar sempre foi uma merda. Ainda mais quando se espera o que não se quer e quando não se quer esperar.

Quem, puta merda, quem gosta de esperar?

Eu sempre tive todos os meus documentos na carteira. Minha mãe ficava louca. Pra quê? Eu não sei pra quê. Mas eu nunca perdi uma carteira na vida. Ela ficava no bolso, atrapalhava na hora de sentar. Então nessas horas eu a carregava na mão. Ficava vulnerável. Sentado no sofá daquele coffe shop, olhando pra televisão, eu tinha a carteira nas mãos. Minha mãe me chamou. Fui até ela. Quando percebi, tinha perdido a carteira.

Obviamente, naqueles momentos, a razão tinha ido pro espaço. Não sabia mais nem se tinha trazido a carteira. Eu, minha mãe, minha irmã e minha namorada começamos a buscá-la. No carro, no coffe shop, no andar de baixo. Eu achei que tinha esquecido no quarto da UTI. Na verdade, eu sempre fui muito ansioso. Aquilo era pretexto pra talvez poder entrar no quarto para procurar e ver meu pai. Toquei a campainha. A enfermeira atendeu. Claro que eu não pude entrar. Merda de medicina. Ela foi olhar. Voltou. Disse que não estava. Dei mais uma volta e nada. Tinha certeza que estava lá. Na verdade, minha certeza era de que precisava entrar lá. Toquei de novo. Outra enfermeira veio. Repetiu o mesmo procedimento. Enquanto ela procurava, minha mãe ligou. Quase ao mesmo tempo, ela me dizia que achara a carteira e a enfermeira dizia que não achara nada mas que a médica precisava falar com a minha mãe.

A carteira, que minha mãe trouxe correndo, estava vazia. Com documentos, mas sem dinheiro. Não tinha muito, mas estava vazia.

A enfermeira, que voltou com a médica em pouco tempo, também estava vazia. Seu olhar era morto.

Meu pai era morto.

Minha mãe e minha irmã se abraçaram aos prantos. Eu abracei minha namorada, que chorava. Eu não. Ainda precisava fazer uma coisa.

Do corredor, liguei para meu tio, e dei a notícia. Seu irmão mais velho não tinha aguentado.

Foi exatamente essa a frase: ele não aguentou, tio.

Ele não aguentou.

***

Alguém tinha que ir até em casa buscar uma roupa para o velório. Fui eu. Acho que minha irmã também. Minha mãe ficou cuidando do corpo.

Antes de ir, fui ver meu pai. Não vi nada. Aquilo sobre a mesa do necrotério não era ele. Talvez seja um tabu falar disso, mas foda-se. Meu pai não existia mais. Não existe mais.

No caminho para casa, choveu muito. Como vem chovendo esse ano, também. Daquelas chuvas que parecem lavar. Eu queria ter tomado aquela chuva. Não tomei.

Esse ano, tomei todas as chuvas que pude até agora. Que merda é uma chuva? É água. Dizia uma banda de amigos, nada mais tranquilo que a água. Nunca entendi gente que foge de chuva. Como se fosse ferir.

Hoje, quase nada consegue me ferir. Às vezes, eu gostaria que conseguisse. Que conseguissem.

Em casa, escolhemos uma roupa que ele gostava de vestir. Meu pai tinha costumes pra se vestir. Quem não tem? Pra sair ou não, adorava roupa velha. Adorava se sentir confortável. Eu também. Ele ficava em casa sempre com um calção velho e rasgado. Demos alguns calções novos pra ele. Nunca usou. Hoje estão no meu armário.

Voltamos ao hospital, entregamos a roupa ao serviço que resolvemos contratar para desinchar ele e colocar formol. Cacete, formol. Aquilo era mesmo só um corpo. Um objeto. Cheio de formol, vestido como meu pai.

Quando terminaram o serviço, tinham exagerado um pouco. O corpo fazia biquinho. Puta que pariu. Meu pai ainda teve forças pra fazer a gente rir uma última vez.

***

Toda relação humana deixa algum rastro. Uns mais fortes, outros menos. Alguns quase imperceptíveis. Quando uma acaba, depende de como lidamos com esse rastro, do que ele nos deixou, pra que a relação seja lembrada ou esquecida.

Meu pai deixou muitas coisas. Uma, em especial, interminável: a paixão pelo Corinthians.

Na cremação de meu pai, dois hinos de futebol foram ouvidos.

O do Flu, num arranjo em violino, abriu a cerimônia.

O do Corinthians, tocado no saxofone, fechou.

Porque no coração do meu pai cabiam muitas paixões. Muitas pessoas. E muito poucas mágoas.

Pai: obrigado.

Você sempre será o meu timão.

“Salve o Corinthians
O campeão dos campeões
Eternamente
Dentro de nossos corações

Salve o Corinthians
De tradições e glórias mil
Tu és o orgulho
Dos desportistas do Brasil

Teu passado é uma bandeira
Teu presente, uma lição
Figuras entre os primeiros
Do nosso esporte bretão

Corinthians grande
Sempre altaneiro
És do Brasil
O clube mais brasileiro”

Dois

Tivemos um bom Natal aquele ano. Não que Natal significasse muito. Pro meu pai e pra mim ainda mais. A família dele estava no Rio e eu nunca fui muito de celebrar datas inventadas pra gastar dinheiro.

Natal era juntar a família. Mas naquele ano foi mais que isso. Porque abrimos para os amigos, então o apartamento onde normalmente não cabiam mais de 10 pessoas contava com 20 e poucas.

Tinha sido um ano difícil, 2008. Corinthians na Série B e meu pai bastante tempo no hospital. Os dois superaram. Gastei um dinheiro que não tinha no cartão de crédito pra colocar o rosto dele naquela camisa que o time lançou com fotos de torcedores. Marcando a volta.

No Natal, sempre fazemos amigo secreto. Que acaba sendo uma palhaçada. A maioria já sabe quem tirou quem e a hora da entrega é quase formalidade. Sempre fui contra isso. Sempre fiz questão de manter a brincadeira. Acho que sou metódico demais. Meio ridículo.

Naquele ano, quando chegou minha vez, pedi licença pra quebrar o protocolo. O pior é que eu falei assim mesmo, “quebrar o protocolo”. Que merda. Geração escritório. Pedi licença e falei que além do presente de amigo secreto eu tinha outro presente, pra um amigo nem um pouco secreto. Que tinha tido tempos difíceis e teve forças pra superá-los. Minha mãe já sabia o que era. Meu pai não. Peguei ele de surpresa. Entreguei a camisa.

O resto da noite, meu pai passou com aquela camisa gigante por cima da roupa de Natal.

***

Ano novo é quase emenda do Natal. Podiam decretar férias coletivas pro mundo inteiro entre os dois dias. Tem lugar que decreta.

Em 2008, passamos o ano novo na praia mais uma vez. Com os amigos da família, quase todos militantes contra a ditadura. A praia ficava cheia de uma gente meio estranha. Estava sendo valorizada. Destruída por gente rica. Yuppies. Nunca estão satisfeitos em foder os lugares onde moram. Precisam ir à praia.

Pensando bem, aquela casa cheia de gente de esquerda é que era estranha àquele lugar.

Meu pai não saía da casa. Estava sempre com oxigêno nas narinas, não dava. Sempre ficava alguém lá com ele. Conversando. Isso estava longe de ser um castigo. Era divertido. Ele observava todo mundo e tirava uns sarros muito bem sacados. Tocava violão. Discutia política. Seis anos antes, naquela mesma casa, assistimos juntos ao agora presidente Lula tomar posse. A casa dividia-se entre os que quase choravam de emoção e os que quase lamentavam que o final da luta que empreenderam durante décadas fosse aquele circo.

No dia 31, de noite, havia sempre outra divisão, entre os que queriam ir à praia e os que preferiam ficar em casa. Meu pai não tinha escolha. Eu e minha mãe ficamos. Nunca imaginaria que aquele seria meu último ano novo com ele. Nada indicava isso. Soubesse, e meu abraço teria sido dois milhões de vezes mais forte.

Dois trilhões.

Nada dizia que dali meu pai iria pro hospital pra não mais sair. Talvez não tenha sido prudente ir com ele à praia. Foda-se. Não dá pra ser prudente o tempo todo. O melhor fim de ano que tivemos em anos. Melhor que ficar em casa e morrer vendo o céu cinza dessa cidade escrota.

Pra mim, a imagem daquele fim de ano será, para sempre, meu pai tocando violão com a perna apoiada sobre uma cadeira, a camisa do Corinthians com a foto dele atrás, pendurada no encosto da cadeira. Acho que tenho uma foto disso.

***

Meu pai começou a ter uma crise de falta de ar no dia 1º. Pensamos que podia ser só uma gripe. Ele também. Precisamos ficar de olho, porque ele costumava diminuir os sintomas.

Daquela vez não deu.

Lá pelo dia 4, disse que não aguentava mais. Naquele dia, eu e minha namorada iríamos voltar pra São Paulo. Eu tinha que trabalhar. Ela nunca foi a maior entusiasta de praia. Pra falar a verdade, eu também. Voltaríamos de carona com um amigo da minha mãe, sua namorada e a filha.

Por volta de 7 da noite, eu e minha namorada esperávamos no ponto o ônibus para São Paulo. À nossa frente, passava o carro onde pegaríamos carona, com meus pais dentro. Dali, direto para o hospital.

Meu pai pediu desculpas por ter roubado nossa carona.

Eu quis pedir desculpas por não estar no carro com ele.

***

É difícil descrever a sensação de estar naquele hospital. Aquela rampa que insolitamente leva ao coffe shop e à UTI ao mesmo tempo. Você pode esperar a morte de seu familiar comendo uma deliciosa broa de milho com um cappuccino descafeinado.

Meu pai ficou pouco tempo no quarto. Logo foi pra UTI, dia 6 ou 7 de janeiro, eu acho. Minha mãe e eu discutíamos se devíamos chamar minha irmã da Austrália. Decidimos que sim.

Antes de vir, minha irmã chorou muito. Acho que de alguma forma todos nós já sabíamos. Inclusive ele. Um dia antes de ser entubado, da UTI, contrariando as normas sobre uso de telefones celulares, me mandou uma mensagem. Não a tenho mais para transcrever literalmente. Mas dizia que me amava. Como se precisasse.

Podíamos visitá-lo duas vezes por dia. Ele lutou muito contra a entubação. Queria ver minha irmã ao menos uma vez antes. Sabia que dali a volta era muito difícil. Todos sabíamos.

Não deu.

No dia em que minha mãe ligou pra dizer que ele seria entubado, eu estava trabalhando. Sinceramente, não lembro como cheguei ao hospital. Só lembro de estar lá.

Quando minha irmã chegou, ele já estava inconsciente. Sedado. Falávamos com ele. Os médicos diziam que não se sabe se podem ouvir ou não. Eu achava aquilo meio ridículo. Meu pai me criou materialista. Talvez demais. Talvez não.

Gente que gosta de assumir culpa e responsabilidade dos outros sofre sem sentido. Eu me sentia mal. De não estar com ele na hora da entubação. Não tinha como, os médicos não permitiram. E não houve tempo de chamar ninguém. Talvez se eu tivesse ficado naquele maldito coffe shop. Dormido lá, como cogitei. Foda-se o trabalho. Foda-se o trabalho? Quem eu queria enganar?

Um dia, diminuíram a sedação o máximo possível. Eu não estava lá. Estava trabalhando. Minha mãe e minha irmã puderam se comunicar com ele. Fiquei feliz, os dois mereciam aquilo. Minha irmã e ele. Precisavam. Mas eu não estava lá.

Porque eu não estava lá?

Foda-se o trabalho.

***

Se eu dissesse que 2009 foi um ano ruim, além de estar parodiando descaradamente John Fante, estaria mentindo.

Porque eu não posso dizer se 2009 foi bom ou ruim.

Em 2009, eu não estive aqui.