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Pa(i)caembu

As primeiras lembranças que tenho do Pacaembu me colocam ao lado de meu pai, num Corinthians e Novorizontino, no Tobogã. 

Tobogã, aliás, que se tornou o palco de muitas idas. Contra Santos, Inter, Bragantino, Ponte Preta, Atlético Mineiro, Flamengo e até mesmo o São Paulo, uma vez.

Do Pacaembu guardo também na memória minha entrada em campo como mascote, em 1991, quando o primo de minha mãe, doutor Léo Vilarinho, então médico alvinegro, me levou ao vestiário, onde conheci os jogadores, tirei fotos (perdidas numa enchente da casa em que morava em Pirituba, ainda nos anos 90), entrei de mãos dadas com Ronaldo e depois subi às numeradas pra encontrar a família e assistir o jogo.

Lá, lembro claramente de virar para meu pai, quando Neto ia bater uma falta do meio da rua, e dizer:

– Pai, vou descer um pouco pra ver essa falta.

Neto ouviu, e meteu a pelota no ângulo, inapelável pro goleiro.

Nos anos 2000, já adolescente, o Pacaembu virou minha segunda casa. De início com meu pai, depois sem ele, já doente. O último jogo que vimos juntos no estádio foi Corinthians 3 x 0 São Caetano, nas cadeiras laranjas, pelos idos de 2006, campeonato Brasileiro.

Então meu pai se foi, em 25 de janeiro último, e ficou impossível ir pra casa (qualquer uma delas) sem lembrá-lo.

Nas arquibancadas, qualquer uma delas, estava ele, pulando comigo, comprando refrigerante, gritando com o juiz, empurrando o time.

E do gramado, como quem corresponde ao apoio, vinham os gols, todos devidamente comemorados com um beijo na tatuagem que leva a imagem dele.

Se havia outro lugar para além do mar, onde esparzimos parte de suas cinzas, em que ele precisava estar para ser eterno, era ali.

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Então ontem, sem bola rolando, voltei ao estádio. 

Com meu pai, como sempre.

Mas dessa vez para espalhar a outra parte de suas cinzas num espaço onde, tenho certeza, estarei sempre.

Entrei em campo e pude constatar que Eduardo Galeano estava certo: nada é mais triste que um estádio vazio.

Mesmo que em minha alma ele estivesse cheio, transbordando, de lembranças e sentimentos.

Ali, sozinho em minha própria multidão, ajoelhado junto ao mesmo banco de reservas onde se sentaram tantos ídolos nossos, dei um último suspiro e deixei meu pai pousar junto às flores do pequeno canteiro que por ali floresce.

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Para poder orientar o time junto ao técnico, como fazia das arquibancadas ou em frente à televisão.

Para gritar “vai, lateral”, “tira daí”, “toca essa bola”, “chuta! chuta! chuta!”.

Para sorrir com os golaços e chorar com as derrotas doídas.

Para fazer para sempre parte deles.

Levantei-me, então, e reproduzi a mais silenciosa versão já não-ouvida do hino do Sport Club Corinthians Paulista.

E deixei o gramado, sem vaias nem aplausos.

Sabendo que de hoje em diante, sempre que o placar eletrônico do Pacaembu anunciar o público presente, contarei em minha cabeça mais um.

Porque o vento pode tentar, pode pedir a ajuda da chuva, implorar pelos efeitos do sol; nada adiantará.

Meu pai estará sempre ali.

Eterno.

Como sempre foi.

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