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Olhos de cão – V

Passei em frente a uma casa ontem, a cortina entreaberta. Dentro, um sofá vazio, um cobertor, e a luz da televisão esporrando pelo cômodo escuro. Foram menos de cinco segundos observando, mas o suficiente pra me dar vontade de entrar naquele sofá. De voltar pra casa, de fazer absolutamente nada deitado na cama. Uma sensação estranha subiu pela garganta, parecia com vontade de chorar, saudades, sei lá, engoli e continuei andando. Dois minutos depois tinha esquecido.

Hoje assisti a um vídeo desses na internet com o discurso final de Chaplin no Grande Ditador, ilustrado com cenas relacionadas à estupidez humana. Dentre tantas, um soldado, aparentemente de retorno de alguma guerra, sentado na calçada enquanto seu cachorro fazia uma festa que só quem tem cachorro entende. Corria, girava e sentava no colo dele, lambendo seu rosto, abanando o rabo. A cena tem menos de três segundos, mas se estendeu pela minha mente por horas. Tantas referências automáticas, sensações, depressões e sentimentos suicidas com tão pouco. Guerra, cachorros e a mais simples das alegrias possíveis; senti muita saudade da minha cadela e seu olhar procurando abrigo em mim.

Aí uma amiga me disse que está perdida. Que acorda com tanto pra fazer e só consegue ouvir música e beber cerveja. Ofereci a ela um mapa. Mas não precisa, ela já tem a bússola: só vale a pena fazer aquilo que não sobe pela garganta, não entope a goela e não explode em lágrimas.

Como um cachorro correndo atrás do rabo: não vai alcançar, mas não precisa, só quer correr, rodar e cair. De preferência no colo do dono sortudo que a guerra, qualquer uma delas, ainda não matou.

preta

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Olhos de cão – I

Namoravam, e moravam juntos, e tinham animais de estimação.

Eram dois cachorros e uma gata.

Entre eles, se portavam como os cachorros, companheiros. Dividiam sonhos e atenções, carinhos, beijos e fidelidade.

As janelas do apartamento não tinham rede. E a gata por vezes ia dar suas bandas.

Ia e voltava. Ia e voltava. Ia e voltava.

Um dia foi, e não voltou.

Eram cachorros, mas o namoro era a gata.