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Helena ou um pedaço do meu coração

De vez em quando, na vida, você faz umas merdas que acabam se transformando em coisas boas.

Há uns 5 anos atrás, eu fiz uma dessas.

Acontece que eu sempre fui ansioso demais em relacionamentos e com isso acabava atropelando as coisas. Aí depois tinha que ficar correndo atrás de algo que, muitas vezes, já era.

Neste caso, eu estava com uma garota fazia pouco mais de um mês, e completamente apaixonado. Só que ela estava em outro ritmo e eu meio que pressionei demais a coisa e ela largou mão.

Aquilo me arrasou, porque eu não me apaixonava daquele jeito fazia uns anos e as coisas iam muito bem na minha cabeça, provavelmente por isso forcei a barra antes da hora.

O fato é que eu não conseguia admitir aquilo e fui usar da minha imensa capacidade de fazer groselha criatividade romântica pra tentar reconquistar o meu amor.

Lembrei que a garota quando criança sempre tinha gostado de porquinhos-da-índia e fui atrás de algum lugar na cidade pra conseguir um e presenteá-la.

Achei, do outro lado do mundo, uma mulher que tinha um casal e os criava soltos no quintal. Vira e mexe davam ninhada, e era difícil dar os bichinhos, então eu caí como uma luva naquela casa.

Eram vários filhotinhos, um mais fofo que o outro, emitindo seus grunhidos característicos. Peguei um na mão, preto e branco, uma orelha rosa, outra preta, uma coisa assim, linda de morrer, e me apaixonei. Era uma fêmea.

E, na matemática do amor, se eu me apaixonei pela filhotinha, a garota que ia recebê-lo iria se re-apaixonar por mim, lógico!

Claro que eu, como todo virginiano metódico bom planejador, já tinha ido lá buscar o filhotinho preparado, com uma caixa de sapatos e o poema “Porquinho-da-índia”, do Manuel Bandeira, colado na capa, que é pra tudo ficar mais brega romântico ainda.

Naquele dia, a garota do filme desta crônica estaria ajudando sua irmã num bazar que esta iria realizar em seu ateliê de artes. Parti então do fim do mundo onde eu estava para lá, ansioso pela surpresa que eu ia fazer.

De ônibus, claro.

Pra desespero da porquinha-da-índia, que balançava dentro da caixa cheia de medo – até porque não existe porquinho-da-índia corajoso.

Chegando lá, deixei a caixa de sapatos no pé da escada e subi pra encontrar a garota. Queria entregar a caixa pra ela a sós, não naquele mundo de gente que frequentava o bazar.

Chamei-a pra descer, dizendo que tinha uma surpresa, e ela, que já não devia aguentar mais minha cara, me tratou de forma extremamente fria, ainda mais pra um semi-emo pobre garotinho de coração partido.

Não quis descer.

Extremamente indignado, fui embora, com a porquinha-da-índia embaixo do braço, o coração nas mãos e a vontade de chorar na garganta.

Só que pessoas que fazem esse tipo de groselha planos de amor não contam normalmente com a possibilidade das coisas darem errado. E isso pra mim era um problema, porque eu morava com amigos e tínhamos 3 gatos, não tinha onde colocar a porquinha-da-índia. Se eu tivesse só comprado uma caixa de bombons, teria sido mais fácil.

Mas desde quando eu me contento com coisas fáceis?

Enfim, não podia levar a porquinha pra casa.

Também não dava pra devolvê-la.

Quem pagou o pato?

Meus pais, claro.

Cheguei na casa deles com a caixa de sapatos, deixei escondida na lavanderia e fui correndo no pet shop comprar uma gaiola.

Mas antes mesmo de chegar à rua minha mãe já ligou perguntando o que era aquilo, num tom misturado de surpresa, desconfiança e bronca, já prevendo o futuro daquele bicho.

Disse que quando eu voltasse explicava, e fiz isso.

Só faltou ela me jogar pela janela.

Discutimos, me enfiei no quarto da minha irmã e 5 minutos depois minha mãe veio me chamar de novo.

– Como ela chama?

– Não sei, mãe, não coloquei nome ainda.

– Aaah… ela tem cara de Sofia. Ou Helena.

Era um filhotinho tão fofo que, em 5 minutos, já tinha conquistado minha mãe. E pra ela, virou Sofia Helena.

O Abu, cão dos meus pais, encucou com aquele bicho estranho na lavanderia mas nunca latiu nem quis atacar a Helena – porque nomear uma porquinha-da-índia de Sofia Helena, só minha mãe mesmo – e de certa forma virou meio que um irmãozão dela.

E foi assim que ganhei minha porquinha-da-índia.

Eu não tinha 6 anos como o Manuel Bandeira, mas minha paixão por ela era a mesma do poema dele*.

A ponto de ir quase sempre à casa dos meus pais limpar a gaiola e pegar ela no colo e colocar no sofá.

Não era minha primeira namorada, mas tinha virado quase uma*, por conta da história toda.

No ano seguinte, depois de morar um mês com outros amigos que tinham dois pitbulls mas que moravam numa casa onde dava pra ter a Helena, que ficava solta na varandinha, voltei pra casa dos meus pais.

Com ela junto.

Continuei cuidando da porquinha como se fosse minha namorada, já que depois do desencontro amoroso que gerou a sua chegada eu só ficava escutando Los Hermanos música triste e brega e não pegava ninguém.

Toda vez que ela guinchava quando eu abria a geladeira, à espera de uma folha de couve que ela devorava em segundos, eu me sentia como um marido que leva chocolates pra esposa grávida (ok, forcei na breguice agora, mas poxa, olha só essa história!).

Só que, além das funções de preenchedora-de-carências-emocionais e bicho-fofo-encantador-de-mães, a Helena cagava.

E mijava.

Muito.

E a minha preguiça tolerância para com o cheiro era, digamos, “diferente” da da minha mãe.

Isso causava brigas, e eu também àquela altura estava fazendo faculdade em dois períodos e quase não parava em casa.

Além disso, eu tinha finalmente superado o trauma criador da Helena e começado a namorar a Camila.

A Helena, então, que já era só naquela gaiola apertada, ficava ainda mais sozinha.

Então apareceu uma amiga da Camila, a Jackeline, querendo um bichinho de estimação.

Só que os pais dela não queriam cachorro nem gato, por diversos motivos-de-pai.

Então, eu perguntei se ela gostaria de ter a Helena, já que lá ela teria companhia e um quintal pra ficar solta.

E ela disse sim.

A Helena morou com a Jack por uns bons 3 anos.

Eram perfeitas uma pra outra, uma menina fofa como ela com uma porquinha-da-índia tão fofa quanto.

Sempre que eu tinha notícias da Helena, eram notícias boas, que me confortavam e me davam a certeza de que ela estava em um lugar ótimo.

Até o último sábado.

Porque sábado a Jack entrou no MSN e me disse que a Helena estava bem doentinha, com pneumonia.

Tinha levado ela no veterinário, mas ela continuava muito fraca e sem comer.

Aquilo me deu um aperto no coração.

Porque bicho morre, mas a Helena não era mais só bicho, era bem mais que isso.

E eu prometi pra Jack que ia visitá-la, se desse, na terça, ou seja, amanhã.

Não deu.

A Jack é uma menina tão fofa e meiga que não quis me contar no sábado que na verdade a Helena tinha acabado de morrer.

Não teve coragem.

Só conseguiu contar hoje pra Camila, que me contou há alguns minutos atrás.

Helena se foi.

Um pedaço do meu coração.

Que me leva às lágrimas enquanto escrevo este texto, em pleno trabalho.

Obrigado, Helena, por tudo que você nem soube que significou.

Muito mais que uma porquinha-da-índia.

E Jack, você é uma menina linda.

Mesmo.

Estará no meu coração pra todo o sempre, junto com a Helena.

Valeu.

2003 - 2008

2003 – 2008

*Quando eu tinha vinte e poucos anos
Ganhei uma porquinha-da-índia
Filha de uma paixão desacertada.
Aquele bichinho era um pedaço do meu coração!
Levava ela prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Que ela tanto gostava:
Quietinha, na palma da minha mão.
Não fazia caso nenhum, aquela ternurinha…

– A minha porquinha-da-índia foi muito mais uma namorada…

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Viva Luquinhas!

Em homenagem ao retorno do Luquinhas à sua casa, (não falei, Lelê?), vou contar uma ou duas histórias engraçadas sobre o meu segundo lar, o hospital.

Eu tenho uma doença congênita herdada do meu pai chamada microesferocitose. Basicamente, meu baço estúpido destruía meus glóbulos vermelhos só porque estes eram menores (micro) e mais esféricos (esferocitose) do que o normal. 

Com isso, o corpo ficava aberto à doenças mil. Pneumonia tive várias. Transfusão de sangue, fiz algumas. E, como consequência, tinha cálculos na vesícula, o que rendia uma dor que me fez respeitar mais do que tudo a dor do parto nas mulheres: aguda, vinha e voltava em intervalos cada vez menores, eu ficava pálido, suava frio, e sem ar.

Tudo isso antes dos 10 anos. Com 10, operei – a única coisa a se fazer pra quem tem a minha doença – e tirei fora o baço e a vesícula, que a essa altura tinha o tamanho quase que de uma manga, de tão cheia de cálculos. 

Minha irmã foi ainda pior: operou com 6, de emergência, pois estava com uma penumonia gravíssima.

Já meu pai é praticamente um herói, um mito, um totem para os microesferocitósicos (hehe): operou SÓ DEPOIS DOS 30. Socorro, só de me imaginar até hoje com aquela dor… sai fora.

Depois de operar, sem baço, órgão de defesa do organismo, uma criança precisa de proteção extra. E no nosso caso – meu e da minha irmã – essa proteção foi tomar Benzetacyl de 21 em 21 dias até os 18 anos. 

Com tudo isso, adquiri uma resistência à dor enorme. Tanto que nunca saí de um jogo de futebol por pancada, e olha que sou magrelíssimo – 1,75m, 52kg.

E aprendi a respeitar experiências dolorosas como momentos de crescimento, de aprendizado sobre o corpo e a mente.

Como se pode perceber, sobrevivi e depois da operação nunca mais fui internado – a não ser para fechar novamente um dos pontos internos da mesma, que se abriu cerca de 7 anos depois e que dava passagem a uma alça do intestino quando eu fazia certos movimentos e podia estrangular essa alça e causar coisa pior.

Até aí, tudo “tranquilo”, dentro do possível, tirando a minha necessária dependência da halopatia. 

Eis que então, uns dois anos atrás, estou eu no Kazebre, uma funesta casa de shows na zona leste, pra assistir a um show dos Los Hermanos – tá, podem zoar, eu mereço. Mas hippie é a mãe!

Chovia, o lugar era de terra, que a essa altura já era barro. O palco estava posicionado em um lugar bizarro onde várias pilastras te impediam de ver os barbudos a não ser que você se espremesse no meio da multidão.

Eu estava de saco cheio, puto, sujo de barro querendo ir embora antes do show começar quando, de repente, sinto uma pontada entre as costelas.

Dor.

Dor aguda, fininha, que tinha reflexos de acordo com a minha respiração.

Em nome dos companheiros que se divertiam com as músicas mesmo sem ver o palco, aguentei a tortura do show da dor até o fim e fui pra casa.

A dor não passava mas, como eu disse, sou teimoso bastante tolerante e me recusava a visitar minha segunda casa ir ao hospital.

Até que um dia, indo pro trabalho, corri pra pegar o ônibus e… quase desmaiei. 

Tava foda, não tinha jeito, e fui pro pronto-socorro.

Crente de que era uma fratura na costela ou algo do tipo, passei por um ortopedista. Ele me mandou pro raio-X. Quando voltei, ele disse que não tinha fratura nenhuma, mas que desconfiava de algo.

Foi falar com o clínico geral.

E voltou todo contente pela minha dor por ter descoberto algo que ele não via há anos, desde que se especializou em ortopedia: um pneumotórax.

Passei então pelo clínico geral, que decidiu me internar – não sem antes me botar medo dizendo que podia ser necessário operar.

Uma vez no quarto, aguardo com a Camila a chegada da minha mãe, a essa altura já histérica passagem de um pneumologista, especialista na área. Demora um pouco, mas o cara vem, faz algumas perguntas e me explica da doença. Diz que é típico de pessoas magras como eu e que da primeira vez costuma fechar sozinho. Caso aconteça uma segunda, aí tem que operar. E as chances de uma outra vez vão aumentando pouco a pouco: 40% de ter uma segunda, 60% uma terceira, 80% uma quarta…

Antes de sair do quarto, ele percebe que se “esqueceu” de perguntar algumas coisas. E manda:

– Você é astronauta?

– !!?!?!?!?!?!?!

– Ou piloto de avião?

– !?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!

– Mergulhador?

A essa altura, já acho que ele está brincando, mas respondo:

– Não, doutor, porque? Tenho cara?

– Não não, é que se fosse, você não poderia mais exercer sua profissão por conta do penumotórax.

PUXA VIDA, que pena. Lá se foi meu sonho de ser astronauta, hein? 

Por favor né, chega um MOLEQUE com cara de 17 anos (apesar de ter uns 24), de tênis velho, mochila rasgada, roupa largada e ele pergunta se é ASTRONAUTA? Isso que é seguir o procedimento à risca… valeu, Descartes!

Enfim, fiquei de observação, o pneumotórax fechou sozinho, nunca mais tive outro e acho difícil que volte a ter no que resta de vida pra todos nós – 53 dias.

E pelo menos posso dizer que tive a mesma doença do Manuel Bandeira – viu só, que chique, que boêmio, que elegante, que… merda.

É isso aí. Viver é correr riscos. 

E saber vencê-los, como fez o Luquinhas.

Saúde, moleque. E vê se pára de dar sustos na sua mãe – quer dizer, sustos de saúde, porque aqueles envolvendo orientação sexual são bem divertidos…