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Protegido: Helena ou um pedaço do meu coração

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Viva Luquinhas!

Em homenagem ao retorno do Luquinhas à sua casa, (não falei, Lelê?), vou contar uma ou duas histórias engraçadas sobre o meu segundo lar, o hospital.

Eu tenho uma doença congênita herdada do meu pai chamada microesferocitose. Basicamente, meu baço estúpido destruía meus glóbulos vermelhos só porque estes eram menores (micro) e mais esféricos (esferocitose) do que o normal. 

Com isso, o corpo ficava aberto à doenças mil. Pneumonia tive várias. Transfusão de sangue, fiz algumas. E, como consequência, tinha cálculos na vesícula, o que rendia uma dor que me fez respeitar mais do que tudo a dor do parto nas mulheres: aguda, vinha e voltava em intervalos cada vez menores, eu ficava pálido, suava frio, e sem ar.

Tudo isso antes dos 10 anos. Com 10, operei – a única coisa a se fazer pra quem tem a minha doença – e tirei fora o baço e a vesícula, que a essa altura tinha o tamanho quase que de uma manga, de tão cheia de cálculos. 

Minha irmã foi ainda pior: operou com 6, de emergência, pois estava com uma penumonia gravíssima.

Já meu pai é praticamente um herói, um mito, um totem para os microesferocitósicos (hehe): operou SÓ DEPOIS DOS 30. Socorro, só de me imaginar até hoje com aquela dor… sai fora.

Depois de operar, sem baço, órgão de defesa do organismo, uma criança precisa de proteção extra. E no nosso caso – meu e da minha irmã – essa proteção foi tomar Benzetacyl de 21 em 21 dias até os 18 anos. 

Com tudo isso, adquiri uma resistência à dor enorme. Tanto que nunca saí de um jogo de futebol por pancada, e olha que sou magrelíssimo – 1,75m, 52kg.

E aprendi a respeitar experiências dolorosas como momentos de crescimento, de aprendizado sobre o corpo e a mente.

Como se pode perceber, sobrevivi e depois da operação nunca mais fui internado – a não ser para fechar novamente um dos pontos internos da mesma, que se abriu cerca de 7 anos depois e que dava passagem a uma alça do intestino quando eu fazia certos movimentos e podia estrangular essa alça e causar coisa pior.

Até aí, tudo “tranquilo”, dentro do possível, tirando a minha necessária dependência da halopatia. 

Eis que então, uns dois anos atrás, estou eu no Kazebre, uma funesta casa de shows na zona leste, pra assistir a um show dos Los Hermanos – tá, podem zoar, eu mereço. Mas hippie é a mãe!

Chovia, o lugar era de terra, que a essa altura já era barro. O palco estava posicionado em um lugar bizarro onde várias pilastras te impediam de ver os barbudos a não ser que você se espremesse no meio da multidão.

Eu estava de saco cheio, puto, sujo de barro querendo ir embora antes do show começar quando, de repente, sinto uma pontada entre as costelas.

Dor.

Dor aguda, fininha, que tinha reflexos de acordo com a minha respiração.

Em nome dos companheiros que se divertiam com as músicas mesmo sem ver o palco, aguentei a tortura do show da dor até o fim e fui pra casa.

A dor não passava mas, como eu disse, sou teimoso bastante tolerante e me recusava a visitar minha segunda casa ir ao hospital.

Até que um dia, indo pro trabalho, corri pra pegar o ônibus e… quase desmaiei. 

Tava foda, não tinha jeito, e fui pro pronto-socorro.

Crente de que era uma fratura na costela ou algo do tipo, passei por um ortopedista. Ele me mandou pro raio-X. Quando voltei, ele disse que não tinha fratura nenhuma, mas que desconfiava de algo.

Foi falar com o clínico geral.

E voltou todo contente pela minha dor por ter descoberto algo que ele não via há anos, desde que se especializou em ortopedia: um pneumotórax.

Passei então pelo clínico geral, que decidiu me internar – não sem antes me botar medo dizendo que podia ser necessário operar.

Uma vez no quarto, aguardo com a Camila a chegada da minha mãe, a essa altura já histérica passagem de um pneumologista, especialista na área. Demora um pouco, mas o cara vem, faz algumas perguntas e me explica da doença. Diz que é típico de pessoas magras como eu e que da primeira vez costuma fechar sozinho. Caso aconteça uma segunda, aí tem que operar. E as chances de uma outra vez vão aumentando pouco a pouco: 40% de ter uma segunda, 60% uma terceira, 80% uma quarta…

Antes de sair do quarto, ele percebe que se “esqueceu” de perguntar algumas coisas. E manda:

– Você é astronauta?

– !!?!?!?!?!?!?!

– Ou piloto de avião?

– !?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!

– Mergulhador?

A essa altura, já acho que ele está brincando, mas respondo:

– Não, doutor, porque? Tenho cara?

– Não não, é que se fosse, você não poderia mais exercer sua profissão por conta do penumotórax.

PUXA VIDA, que pena. Lá se foi meu sonho de ser astronauta, hein? 

Por favor né, chega um MOLEQUE com cara de 17 anos (apesar de ter uns 24), de tênis velho, mochila rasgada, roupa largada e ele pergunta se é ASTRONAUTA? Isso que é seguir o procedimento à risca… valeu, Descartes!

Enfim, fiquei de observação, o pneumotórax fechou sozinho, nunca mais tive outro e acho difícil que volte a ter no que resta de vida pra todos nós – 53 dias.

E pelo menos posso dizer que tive a mesma doença do Manuel Bandeira – viu só, que chique, que boêmio, que elegante, que… merda.

É isso aí. Viver é correr riscos. 

E saber vencê-los, como fez o Luquinhas.

Saúde, moleque. E vê se pára de dar sustos na sua mãe – quer dizer, sustos de saúde, porque aqueles envolvendo orientação sexual são bem divertidos…