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Copa do Mundo Alternativa 2013: um relato

Nos foi roubada a chance de ser meio-campeões mundiais.

Jogamos muito, muito mesmo, aqui na Inglaterra. Metade Auto, metade Vova: seis de cada lado. Kasperas (de longe o melhor goleiro que já jogamos na vida, ex-seleção da Lituânia até os 19 anos, árbitro profissional hoje, com 22), Paulius, Arunas, Edvardas, Vaidas e Domas; Bruno (do Pelada de Esquerda), Piva, Mandioca, Arthur, Valdívia e Pedrinho (carioca que eu e o Allan conhecemos ano passado no encontro anarquista de St. Imier, que jogou no América e no Olaria até os 16). O AutoVova. Completaram ainda três Cowboys: Jesse, Phil (o Fat Gerrard) e Wilf.

Dois grupos de seis times. Caímos com os dois times dos Cowboys, o time do República, os alemães do International Harte e o World XI.

Nosso aquecimento foi feito em todos os jogos pelo Qaz, com sua dança já mundialmente conhecida. Éramos os preferidos da torcida, que contava “oficialmente” com a Mariana e a Natame pelo lado do Auto e o Regi – que foi pedalando de Londres até Wincanton – pelo lado do Vova.

No primeiro jogo, ainda sem o Pedrinho, ainda se encontrando, tomamos um gol no primeiro minuto de jogo contra o Cowboys Clássico, que contava com vários conhecidos nossos (Jack Daniels, Jack Kelly, Charlie…). Empatamos com Vaidas, o lituano que nesse jogo ainda era o camisa 10, mas que na real é um baita volante. Criamos mais 400 chaces de gol, mas terminou 1 a 1.

Segundo jogo, contra o Republica, um time ainda desmontado (faltavam jogadores, era sexta-feira), abrimos 5 a 1 fácil. No final, relaxamos e tomamos 3 gols: final, 5 x 4. Vaidas, Valdívia duas vezes, Jesse e Arthur.

Chegou o sábado e com ele o Pedrinho. A peça que faltava. O time titular ficou com Kasperas; Edvardas, Paulius, Arunas e Piva; Mandioca, Vaidas, Arthur, Pedrinho e Valdívia; Domas. O jogo era o mais difícil, contra os Cowboys principais. Pedrinho estreando, cheio de pressão. E destruimos os caras: 2 a 0 com autoridade e com direito a Mandioca perdendo um gol na pequena área nos minutos finais. Os dois gols de Pedrinho, constituição física maradoniana, um canhotinho rápido e MAROTO. Carioca da gema, que chegou com seu cavaquinho debaixo do braço depois de dois trens e uma barca. Queria mesmo estar ali. No primeiro, aproveitou rebote depois de linda troca de passes. No segundo, aproveitou a dividida de Domas com o zagueiro, pegou a sobra, limpou pra esquerda e fuzilou no cantinho.

É preciso dizer que Arthur, Valdívia e Domas, completando o quarteto ofensivo, jogaram demais. Muita movimentação, muito toque de bola, os Cowboys não viram a cor da bola. Não teve jogo físico possível, e mesmo pelo alto, nos escanteios, quando o time deles, bem mais alto, vinha em massa, tiramos TUDO.

No jogo, uma baixa: Paulius bloqueou um chute com O RIM e foi parar no hospital. Nada grave.

O segundo jogo da tarde foi sem ele, Arthur e Edvardas, que o acompanharam no hospital. Ganhamos de 4 a 0 do World XI, que depois de jogar com crianças nos primeiros jogos, contra os brasileiro-lituanos colocaram metade do bom time do Yard em campo. Wilf fez o primeiro depois de cruzamento de Pedrinho. Mandioca ampliou de pênalti. Valdívia fez o terceiro e Domas fechou o caixão em outro pênalti.

Ainda havia um jogo de grupo a ser disputado, domingo 10h, contra o International Harte. Já estávamos classificados, mas precisávamos de um empate pra ser primeiro do grupo. O Harte precisava da vitória pra ter chance. Depois de uma noite bastante agitada, foi difícil acordar cedo pra jogar. Mas estávamos todos lá.

O Harte só tinha uma jogada: lançamento longo pros dois atacantes, muito rápidos e muito bons. Um deles de origem turca. Entramos acordados com o aquecimento do Kaz, mas foi difícil correr atrás dos alemães o jogo todo, ainda mais com Arunas descontrolado jogando quase de centroavante. Nesse jogo batemos boca. O primeiro tempo terminou 1 a 0, gol de Domas de cobertura, golaço. No segundo, o Harte empatou logo de cara, gol do camisa 10 rápido e habilidoso entrando por trás da zaga e encobrindo Kasperas com um toquinho. Fizemos 2 a 1 depois de Arthur limpar uns 400 zagueiros e rolar pra Domas bater cruzado. Mais um belo gol. E o Harte igualou o marcador no final com mais um lançamento pro camisa 10, que limpou o Piva pra dentro e chutou forte, alto e cruzado pra superar Kasperas.

O empate nos deixou em primeiro e, com o Wessex, dono da casa e líder da outra chave jogando com os reservas contra o Lunatics, até então segundo colocado mas que perderia certamente pros titulares do time inglês, os grupos acabaram com Wessex e Lunaticas em primeiro e segundo no grupo A, e AutoVova e Cowboys A em primeiro e segundo do grupo B.

As duas semifinais foram vareios. O Wessex bateu o Cowboys por 5 a 0. E o AutoVova demoliu o Lunatics por 6 a 0. Gols de Arthur com uma BOMBA de esquerda no ângulo e outro na saída do goleiro; Domas, Valdívia, Vaidas e Jesse. A final seria a esperada, repetição (de certa forma) do ano anterior: Wessex x AutoVova.

Todos em volta do campo pra assistir. Torcida que começou meio a meio – tínhamos a simpatia de todos os outros times, mas o Wessex era o dono da casa – e terminou a nosso favor. E o que esperávamos ser um jogo bem difícil acabou sendo um baile: de novo com a bola no chão, o Wessex não via a bola, e só ameaçava na bola longa pro bom camisa 10. Jogavam meio sujo também: cotovelo nas costas, no pescoço, faltas duras. No primeiro tempo Arthur perdeu uma chance, Valdívia outra, até que numa das muitas reposições de bola de Kasperas (que chegavam com veneno pros atacantes nas costas dos zagueiros), a bola sobrou pra Arthur, que tabelou com Pedrinho e, com uma calma absurda, só rolou pra Valdívia na direita. Ele entrou na área e foi derrubado. Pênalti incontestável. Domas pediu pra bater e fez 1 a 0.

O segundo tempo foi inteiro a mesma coisa: o Wessex lançando a bola da área pro ataque, com 6 jogadores na intermediária nossa disputando de cabeça, e a gente segurando e puxando contra-ataques. Defendemos muito, muito, muito. Fomos monstros mesmo. No contra-ataque, todo mundo já exausto de todo o campeonato em três dias, às vezes faltava perna, às vezes o último passe. Mas o jogo era nosso, e merecido. Até que…

Até que aconteceu algo que não dá pra entender nesse tipo de torneio. Último minuto do jogo. Em mais uma bola na área, depois de pingar na altura do pênalti, Arthur protegeu com o corpo, o volante gordinho chutou a perna dele e caiu gritando, no melhor estilo “diver” que os próprios ingleses tanto condenam. O juiz, do Cowboys, até então muito bem na partida, esperou alguns segundos e apitou. De início achamos que era falta pra gente. Não era. Era pênalti.

A revolta era tão grande que Arthur chegou a tirar a camisa e sair de campo. Não acreditávamos, porque aquilo? Qual a necessidade? Mas ele manteve a decisão ridícula e eles empataram.

Fiquei de costas na cobrança, me recusei a assistir. O jogo recomeçou e terminou em seguida, indo pros pênaltis. Cogitamos não bater. Tentamos arranjar forças morais e físicas. Mas não deu: Domas perdeu o primeiro, Vaidas perdeu o segundo e Mandioca perdeu o terceiro. Eles fizeram todos.

Saí de campo tão exausto que nem conseguia pensar em discutir. Alguns Cowboys diziam “unlucky”, e eu repetia “unfair”. Os lituanos não entendiam o porque daquele assalto. Qual o sentido?

O resto da noite, todos os times – com exceção do Wessex, cujos jogadores pouco ou nada confraternizaram com os outros times por todo o campeonato – ficaram nos dizendo que fomos assaltados. Canções de que o juiz (Clarence) beberia sozinho essa noite se espalhavam. Ele, visivelmente constrangido, não olhava na nossa cara.

Nosso meio-título mundial tinha sido arrancado da gente. Não fazia sentido. Mesmo assim, nos divertimos naquela noite, com direito a começar uma guerra de feno com os blocos de feno que serviam de assento pelo local.

E voltamos pra Bristol com a certeza de que em 2014, na Bélgica, a história tem tudo pra ser diferente.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas;  em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas; em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

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Eu, Tu, eles: 24 horas

Ainda não escrevi sobre a Lituânia. Enquanto isso, vai um relato do que nos espera daqui menos de 24h:

Em menos de 24h entramos em campo, Arthur Prado e eu, pela primeira vez pelo FC VOVA.
O jogo vale pelas oitavas de final da Copa da Lituânia. O Vova, atualmente no equivalente à 6ª divisão do país, eliminou dois times da 5ª divisão nas rodadas anteriores. Dessa vez o adversário também é da 5ª divisão, mas o osso é mais duro de roer: é o líder disparado. No Facebook deles, os resultados apostados pro jogo vão de 4 a 1 a 10 a 0, pra eles, claro. Mas nós não estamos dispostos a ser o Santos contra o Barcelona.O time tem reforços: além de Arthur e eu, hoje chegou um nigeriano que estava jogando na Polônia e agora veio tentar a sorte por aqui. O cara é ENORME. Deve correr pra caralho. Disseram que ele é “right wing”, ou seja, o meia pela direita que joga aberto aqui. Tem também dois bielorrusos, laterais direito e esquerdo, que jogam bem no futsal (tem uns vídeos deles que dá pra notar que sabem bem o que tão fazendo). Vamos ver no campo.

Esses bielorrussos tem missão complicada pra chegar aqui, por causa de visto e fronteira. No mundial, na Inglaterra, não tem como ir, porque pra conseguir visto demora 6 meses e tem que mostrar antecedentes criminais – a maioria deles, antifa, praticante de artes marciais, já tem passagem pela polícia por socar facistas pelas ruas de Minsk. Deve ser foda ser minoria no meio de um país cheio de fachos.

O campo de jogo é um gramado sintético, PERFEITO, onde rolam jogos até da Europa League (fases classificatórias, claro). O jogo acontece 21h, com iluminação artificial – embora nem precise tanto, visto que são 21h25 aqui e tem sol ainda.

Neste momento, rola uma festa do time no escritório de fotografia do Domas, o centroavante, que é dentro de um ex-galpão de fábrica abandonado. Tá rolando campeonato de pebolim – o Autônomos FC, representado por Arthur e eu, claro, até agora tem duas derrotas e duas vitórias, tentando classificar entre os 4 do grupo pras oitavas. Rola Fifa 13 também, música e, claro, muito álcool.

A festa ajuda a conter a ansiedade, mas a última vez que jogamos bola foi na semi da I Liga Alternativa de Domingo, dia 21/07, em São Paulo. Tá foda. Não chega nunca a hora!

Pra quem quiser saber mais do FC Vova, em LITUANO, aqui: www.fcvova.lt

O site da liga que disputamos está em www.sfl.lt. Estamos na divisão B2, que é uma das duas regionais da 6ª divisão (a 5ª e a 6ª tem 2 regionais, a partir da 4ª tem uma liga só).

É isso.

VAMO VOVA!