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Fim de jogo

23 de dezembro.

Em outras épocas, ainda seria dia de futebol por aqui.

Dia de final, inclusive.

Há dez anos, o Corinthians sagrava-se bi-campeão brasileiro ao vencer o Cruzeiro por 2 x 0.

Meu primeiro jogo sozinho no estádio, que tem uma história bizarra.

Tinha eu dois ingressos de um setor e queria trocá-los por um de outro. Ao tentar vender o primeiro, estourou um corre-corre promovido pela polícia e perdi meu ingresso. Fiquei só com um e mais 20 pilas no bolso.

Mas estava obstinado a ver o jogo nas arquibancadas azuis. E consegui vender o ingresso e, com a grana, ir pra azul.

Claro que com isso fiquei sem NENHUM dinheiro pra voltar pra casa.

Mas o Corinthians venceu, 2 a 0, dois gols de Dinei (tá, um do Marcelinho e outro do Edílson, mas pra mim os dois foram do Dinei, que jogou demais).

E eu voltei pendurado na porta do busão, sem pagar, e aprendendo – mesmo a contragoso – como se roubar relógios de otários que andam com o braço pra fora do carro.

Foi um feliz natal de verdade, aquele de 1998.

Hoje, 2008, não tem final mais, nem jogo depois do começo de dezembro.

Então tive que me “contentar” em assistir à decisão do Clausura argentino, entre o gigante Boca Juniors e o pequeno Tigre.

Tigre que precisava vencer por 2 a 0 pra ser campeão.

E que fez 1 a 0 aos 20 do segundo, em falha do goleiro Garcia que, surpreendentemente, foi substituído por isso.

Daí pro final, foi um jogo eletrizante, bom demais.

Final é bom demais.

O Boca acabou campeão, com catimba, Palacio expulso, juiz dando o famoso perigo de gol na área do Boca aos 49 e tudo mais.

E a festa da torcida foi de deixar sem palavras.

Do outro lado, a torcida do Tigre ia embora, triste e cabisbaixa?

Que nada!

Cantavam como loucos.

Afinal, seu time bateu o Boca por duaz vezes no campeonato. E só deixou de ser campeão por um golzinho.

Enfim, uma emoção final pra um ano tão chocho que, ainda por cima, terminou com a morte da lenda Rosa Branca.

Lenda alvi-negra, claro.

Chega logo, 2009.

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Negra polêmica

Depois da pequena polêmica do último post, que na verdade sempre surge quando se fala em “povo”, vamos lá.

A Fórmula 1 é uma merda. Admito que quando criança eu gostava por causa do Senna (e do Prost, e do Berger e PRINCIPALMENTE do Mansell com seu bigode INCRÍVEL), mas depois que cresci – e adquiri meu desgosto por automóveis que me faz não ter nem carta de assassino em potencial motorista – nunca mais acompanhei.

Ontem, estava com meus pais na casa deles. A corrida estava na tela. Durante 4/5 dela, conversamos sobre inúmeras outras coisas e nem prestamos atenção naquela extrema CHATICE. No finalzinho, houve o que houve, e eu decidi escrever o texto.

Feito no calor do momento, talvez algumas coisas não tenham ficado claras. Vamos a elas.

1 – Sendo a Fórmula 1 uma merda, torcer para qualquer um dos pilotos é igualmente merda. Porém, como toda pessoa acompanhando uma disputa, para mim, entre as duas merdas, Hamilton é menos cocozento.

2 – “Povo” não passa de um falso conceito retórico, sendo na realidade não mais que uma alegoria para mascarar a pobreza: imensa maioria miserável ou quase, onde a maior parte é negra ou quase.

Então, se escrevo que Hamilton é “muito mais povo” que Massa, quero dizer que ele é uma imagem muito mais próxima do que se entende por “povo” do que o massa, por suas origens étnicas e sociais.

Ou, pra fazer um trocadilho legal, a imagem de Hamilton é mais massa que Massa.

Agora, hoje, o cara é um playboyzinho igual a todos na Fórmula 1.

Igual ao que Senna era, aliás.

E pra mim, em esporte de rico, pobre não deveria bater palmas, e sim atirar pedras.

Então, não, não acho o Hamilton povão – nem o Felipe (goleiro do Corinthians), aliás – até porque essa discussão sobre “povo” é CHATA PRA CARALHO e já parte de um erro inicial, porque passa por admitir que povo é um conceito quando – pra mim – não é.

Assim sendo, entre o playba branquelo arrogantezinho e o playba negão arrogantezão, numa falsa escolha onde as duas opções são uma merda, fiquei com a segunda.

Simplesmente porque me é mais simpática – foda-se a sua nacionalidade. Assim como na minha cabeça torta um negão da periferia deveria ser mais simpático ao Hamilton do que ao Massa.

E assim que a corrida acabou e o texto foi postado, liguei o rádio, coloquei um Bob Marley e gritei pela janela:

VAI JAMAICA!

HOJE SIM! HOJE SIM… hoje não!?*

Última prova.

O Brasil vê a chance de comemorar um título depois de 17 anos do bi-campeonato de Ayrton Senna.

É difícil, mas o povo crê.

O mesmo povo “pobre e sofrido” que os cinemas adoram retratar lá fora.

O adversário (inimigo!) é inglês.

Negro, jovem, filho de imigrantes.

O extremo oposto da própria Fórmula 1.

E do brasileiro, que larga em primeiro – o inglês sai, inesperadamente, somente em quarto.

A corrida segue sem sustos ou emoções. Daquelas de dar sono. A única variável emocionante é a chuva, que vai e vem.

E que resolve se tornar personagem a cinco voltas do fim.

A confusão entre carros com pneus para pista seca e carros com pneus para pista molhada faz com que muitos pilotos tenham de retornar aos boxes.

E na dança das posições, o brasileiro segue na ponta.

O inglês é quinto.

Está no limite de pontos que lhe garante o título.

O sexto, colado nele, é o alemão sensação, surpresa do ano.

Com um carro bem pior.

“Não vai dar”, todos pensam.

Mas o inglês, por conta da chuva, havia parado para trocar pneus, e o alemão vinha mais rápido.

E, a duas voltas do fim, faz a ultrapassagem.

Ouço gritos da janela, no abastado bairro de classe média alta em que vivem meus pais.

A tela mostra a torcida em absoluto delírio.

E então entra em campo a velha máxima: os últimos serão os primeiros.

E eis que nela, a última curva, um outro alemão, o quarto colocado, não tem forças pra subir por conta de problemas de tração.

O inglês torna-se quinto outra vez.

E é campeão.

O povo chora a derrota de seu piloto.

Mesmo sendo o campeão muito mais povo do que ele.

E a Fórmula 1, talvez hoje o mais elitista – e branco – dos esportes, segue o caminho do golfe e se curva ao primeiro piloto negro campeão de sua história, fã de futebol e de Ayrton Senna.

Na última prova, o Brasil perdeu para o Brazil.

Ou será que foi o oposto?

*O título é referência à famosa prova do GP da Austria de 2002 onde, por decisão da Ferrari, Rubens Barrichelo teve que brecar para deixar Schumacher passar na reta final, deixando o narrador sem palavras depois de afirmar que dessa vez a escuderia não repetiria tal gesto – narração que ficou famosa na internet.