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Carta à M.

Escrevo para te dizer que ontem estiveste linda.

Absolutamente linda.

E que teu sorriso me derrete; teu riso se desfaz.

Teu cheiro, esse me faz.

Mas, calma. Não é esta uma declaração de amor.

Não, não. Não sem teus olhos nos meus.

E, quem sabe, um vinho e velas, e brega, sim.

Aqui, outra coisa. Apenas palavras agradecidas pelo abraço que me deste em março, o mais sincero gesto que tive neste pouco ano – vá, talvez haja um estranho beijo no joelho que empate, tudo bem.

Mas este não trazia teu calor, ou teu carinho.

Então venceste.

De modo que aqui escrevo e que digo: de hoje em diante, caso te contrarie o espelho, ou te chateie a cabeça, não creias; volte, e leia-me, e sejas bela outra vez.

Porque, és.

Tu és.

Beijos – desde março – deste qualquer que adoraria te levar a jantar.

Quem sabe?

Sinceros,

D.

Repartição pública

Quando João chegou, Zé Roberto já estava lá. Havia voltado das férias.

– Fala Zé! Como é que tá, rapaz!
– Fala João…
– A mesma coisa de sempre, trabalho, trabalho…
– É fogo…

Cumprimentou-o com as duas mãos, uma por cima, outra por baixo. Daqueles cumprimentos falsamente carinhosos.

Na verdade, não gostava muito dele. O cara era meio maluco. Não tomava banho, não escovava os dentes. Tinha pulgas. Dizia que passava cândida em casa, que cândida “mata até Aids”, mas as pulgas estavam lá, saltando, como que num parque de diversões. Às vezes ligava para o filho. Era estranho. Não parecia conseguir cuidar nem de si próprio e tinha um filho.

Zé Roberto colocou a pasta sobre a mesa e abriu a Bíblia. Todo dia, ao chegar, lia um trecho. Era pastor. Antes, era Billy. Do samba. Segurança. Basicamente, aquele que administrava confusão. Tinha cansado daquilo. A igreja lhe apresentou outra vida, mais tranquila. E com mais dinheiro. Não pedia muito em troca. Pra quem acreditava nos patrões das empresas de segurança, ex-policiais, acreditar em Deus era mole. Deus não atrasava o salário. E tinha resposta pra tudo.

Depois da igreja, sossegou. Casou de novo, adotou uma criança. Era uma forma de compensar os sentimentos ruins que tinha quando lembrava do que passara. Daquilo, principalmente. Aquilo sempre voltava à mente. Diariamente. Ele apagava recitando mentalmente qualquer coisa da Bíblia.

A menina era uma graça. Curiosa, inteligente. Entendia tudo. Não sabia ainda que era adotada. Pegaram ela bem pequena, meses de idade. Ainda não era hora de dizer. Um dia diriam. Os pais sempre tem medo de dizer algumas coisas. Medo dos filhos partirem. Mesmo que ainda perto. Partirem do alcance das asas, buscando encontrar a verdade. Outra verdade.

João estava quieto aquele dia. Era melhor. Não tinha muita paciência com ele. Começava a falar bobagens, todo dia. Ria sozinho. Às vezes pensava que ele tinha algum tipo de retardamento mental leve. Ou um distúrbio. Não era normal, a falta de senso. De tudo. Zé Roberto tentava ter paciência, pedia a Deus uma forma de encarar aquilo sem agir errado. Era difícil. Por vezes quase voltava a ser Billy. Não, não. Billy não.

De manhã, quando chegavam, a repartição pública era tranquila. Pouca gente, poucas vozes. Só os ônibus lá embaixo faziam algum barulho. Os ônibus e os malucos que habitam o centro. São muitos. Gritam. Todos os dias. Às vezes se debruçava na janela e procurava a origem dos gritos. Tentando entender, visualizar. Às vezes imaginava os loucos na cabeça. Criava histórias para eles. Histórias de vida. Com situações extremas, de fazer qualquer um perder a cabeça. Ninguém nasce maluco. Não completamente.

– Alô, Valter! E aí, e a doença?

João ligava para o filho.

Imaginava a vida dos loucos e tinha João à sua frente. Um deles?

– Computador eu sou um fracasso viu… até no rádio…

João tentava mexer no aparelho celular. Não conseguia. Zé Roberto fingia estar concentrado em qualquer coisa na tela. Era mentira. Há semanas haviam cortado o acesso à internet de todos ali. Até do chefe. Só Marcos tinha senha para alguns sites. Não era pra ter. Erro da informática. Mais um. Incrível como a área de tecnologia da informação, em todo canto, errava. Dava informações equivocadas. Como senhas. Tinham controle da tecnologia mas não sabiam porra nenhuma sobre o conteúdo. É o mundo das formas. Das formas transformadas em conteúdo.

Marcos era gago. Fumava bastante. Mais novo, guitarrista. Passava os dias garimpando na internet novos compressores, mesas, pedais. Tinha muitos. O dinheiro que ganhava na repartição ia quase todo para aquilo. Sua maior paixão. Chegou a tocar com alguns famosos. Mas era confuso. Se perdera. Em várias coisas. Algumas, viciosas.

Quando chegava, imprimia seu ritmo ao trabalho que até então quase não havia começado. Não à toa, a essa hora, João já tinha sumido. Fugia de Marcos. Das broncas. Arranjava qualquer documento para entregar e saía. Marcos não tinha paciência com ele. Ninguém tinha. Mas Marcos era cruel nos comentários.

– Na hora de receber você não é maluco, né? Lava essa boca, porra! E faz alguma coisa! A gente aqui trabalhando e você pagando de maluco!

João ria. Os doidos sempre riem. Mais uma prova.?

“Condenamos os loucos às risadas”, pensava. Porque fomos condenados à ausência delas. Daí que quando alguém ri, deve estar maluco. Vai ver, enxergam o ridículo que passamos, todos. Submissos à essas merdas de trabalho. Atividades sem sentido, que executamos como se delas dependesse a vida no planeta. Riem de nós.

Os loucos riem de nós.

Colocou a Bíblia na pasta e começou a trabalhar.

***

O trabalho criava uma hierarquia estranha. Entrecortada por várias outras. Tinha a “lei do mais velho”, que era como que um respeito imposto à sabedoria adquirida por aqueles que ali estavam havia mais tempo. Muitas formas de proceder eram baseadas nisso. Perpetuavam, por vezes, rotinas idiotas. E ensinamentos errados, em desacordo com o que dizia a lei que valia mesmo, aquela escrita, normativa. Era assim em toda repartição pública.

Atravessando a lei do mais velho, vinha a do mais esperto. Aquele que sabia lidar melhor com as situações. Que antevia, que via a estrutura e sabia manejá-la. Muitas vezes, o mais esperto era dos mais novos. Muitas vezes, o mais esperto não era o mais esperto. Porque os mais velhos sabiam o suficiente para deixar os mais novos pensarem que eram espertos. Era melhor. Comandar criava problemas. E no trabalho, a missão principal sempre era fugir dos problemas.

Tinha, ainda, a lei do certinho. Do ingênuo, que cumpre tudo à risca. Esse era às vezes interpretado por um dos mais espertos ou dos mais velhos. Os falsos certinhos, que a maioria sabia identificar depois de algum tempo. Porque os certinhos mesmo desenvolviam manias. Respostas às frustrações que encaravam por fazer tudo certo e se foder mais que os outros. As manias eram um jeito de entortar o certo na prática enquanto se auto-engavam falando que aquilo agilizava o procedimento. Porra nenhuma. Tinham cansado de ser certinhos. Os falsos certinhos nunca tinham manias.

O chefe era quase sempre um dos mais velhos que sabia muito bem ser um falso certinho. Era o melhor ator. O que cobrava mais em público, mesmo sem saber direito o que estava cobrando. Quase sempre, era temido pelos certinhos e facilmente dobrado pelos espertos e pelos mais velhos. Não sem saber que o estava sendo. O segredo do bom chefe é se deixar dobrar sem perder publicamente a imagem de comando. Porque o chefe ditador, aquele que quer cobrar os mais velhos e os mais espertos, quase sempre acaba rodando.

Zé Roberto era dos mais velhos. No trabalho e na vida, que a vida também dá trabalho, muito mais que o trabalho. Era incrivelmente hábil na tarefa de procrastinar. Adiava sempre, sem parecer que estava adiando. De repente, era fim do dia, e tinha feito nada ou quase nada. Mas parecia que tinha feito muito. Era justo. Os anos de Billy já tinham sugado energia suficiente daquele corpo. Daquela mente. Agora, era de Deus. E ser de Deus era abraçar a ignorância consentida. Como uma benção.

Como uma benção.

Nunca perdia o controle. Só os mais espertos sabiam como fazê-lo deixar ser dobrado. Exercia a função de falso chefe, fiscal de porra nenhuma. Cobrava delicadamente sem cobrar. Na verdade, colocava os certinhos pra fazer o que ele deveria estar fazendo. Sem perceberem. Às vezes, os mais espertos e os mais velhos entravam na dança, pra se ocupar com qualquer tarefa fácil de ser arrastada pelo dia adentro. Era um acordo entrelinhas. Um acordo de olhares e de não-falas subentendidas. Um acordo que mantinha o equilíbrio da repartição, quase sempre funcionando no limite mínimo.

Havia também as moças da limpeza. Que não faziam parte, eram terceirizadas. Como uma paisagem animada. Limpavam a todo momento, a todo canto, sem quase ninguém a dirigir-lhes um olhar sequer. Eram quase nada. Às vezes, eram nada, quando algum dos certinhos resolvia rebaixá-las pra se sentir, por no mínimo um instante que fosse, num degrau mais alto da hierarquia. Era tudo que podiam, tudo que conseguiam: subjugar quem já estava subjugada. Ridículo.

Por fim, haviam os estagiários. A quem se culpava por tudo que acontecesse de errado. Na verdade, eram os mais livres de todos.

A culpa que a repartição jogava sob os estagiários era a culpa que sentiam por se deixarem estar submissos à estrutura.

Os estagiários cagavam e andavam para a estrutura.

Daí serem sempre o mordomo da história.

***

(continua)