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O homem que voltou atrás

O alarme tocou no horário de sempre. Esfregou os olhos, deu um beijo na têmpora da esposa e foi para o banheiro. No meio do mijo, lembrou a data. Fazia um ano. Um ano já.

Pensou como parecia ao mesmo tempo fazer mais tempo e ter sido ontem. Era possível isso, parecer perto e longe junto? Seja como for, sentia isso. Tinha perdido o pai sem mais nem menos, um ano atrás, e talvez a imprevisibilidade da coisa é que tenha deixado essa sensação ambígua. Foi tomado por uma certa melancolia, misturada com saudade, e tomou banho sem concentração alguma, duas vezes mais demorado que o de costume. Saiu da toalha pra roupa e já estava atrasado. Decidiu pelo café na padaria.

A padaria era um costume do pai. Parar pra um café, ou uma coca, ou um salgado. Ele pegou gosto naquilo. Às vezes nem tinha fome ou sede ou abstinência de cafeína, mas parava mesmo assim pelo prazer de fazer isso. Sem o pai, o prazer ganhou um traço de saudade, e de uma sensação de conforto ao lembrar do que viveu e que agora era apenas memória. Enquanto esperava o chapeado, olhou o celular. A hora parecia certa, mas a data apontava o dia anterior. Mexeu nas configurações do aparelho. Resolveu abrir o navegador pra dar uma sapeada nas notícias enquanto comia. O site de notícias marcava o dia anterior. As notícias eram as mesmas de ontem – o jogo do seu time que já tinha acontecido, dois a zero fora de casa, era anunciado como grande desafio; a votação no congresso alardeada como determinante já tinha sido, e a reforma passou; e a ventilada prisão de um dos chefes políticos do maior partido do país tinha dado em nada – o chefe fugiu, sabe-se lá pra onde. “No almoço passo numa assistência técnica”, murmurou consigo mesmo. E partiu para o metrô.

Sem celular, pegou o jornal do trem. De novo o dia anterior. Resolveu fazer o que não fazia há anos: comprar o jornal. Escolheu aquele conservador (qual não é neste país?), mas com alguns articulistas progressistas. Entrou no vagão nem tão cheio, nem tão vazio, privilégio de quem mora perto da linha menos lotada e entra no serviço um pouco mais tarde do que a maioria. Deu até pra escolher o banco. Sentou de frente, porque não gostava de olhar pra trás.

Abriu o jornal procurando a seção de esportes e… lá estava o dia anterior. Voltou ao celular, acessou outros sites: todos indicavam o dia anterior. Olhou pra televisão do vagão, que marcava a hora, a data e a temperatura: novamente o dia anterior. Achou que estava alucinando.

Saiu da estação atordoado. Estaria dormindo ainda? Era um sonho? Ou estava confuso com as datas? Tinha certeza do jogo e dos dois a zero, sabia até quem tinha feito os gols. Chegou no trabalho sem nem bom dia:

– Ganhamos ontem, não? Dois a zero?
– Tá doido? O jogo é hoje.
– Mas… como?
– Sendo hoje, ué. Não sei o que você tomou, mas quero só metade, haha.
– Eu… eu só tomei café.

Teria mesmo sonhado com um dia inteiro?

Foi lavar o rosto. No caminho, encontrou o chefe.

– Bom dia, Marcos. Preciso daquele relatório pra hoje, 14h.
– Mas você me pediu ele ontem… e eu já…
– Ontem? Ontem eu nem estive aqui, reunião fora com clientes o dia todo. Preciso dele pra hoje.
– Hoje? É que… eu…
– Você está bem, Marcos? Não parece estar.
– Não não, eu… eu só preciso lavar o rosto.

Entrou no banheiro. Tinha certeza do relatório, lembrava da reação do chefe pelo esquecimento de um dos valores no parágrafo final. Que raios estava acontecendo? Se era um sonho, queria acordar; se não era, não sabia o que fazer. Procurou no computador o relatório, não estava; resolveu refazer, quase todo de cabeça (“como eu lembro de algo que nunca fiz?”), dessa vez sem erros. Entregou duas horas antes do previsto. Saiu pra almoçar e parou em todas as bancas que encontrou no caminho. Em todas encontrou os jornais do dia anterior.

Voltou para o trabalho. O jogo seria a prova final. Se ele acertasse o placar e os autores dos gols, não era sonho e ele não estava delirando. Na volta pra casa, lembrou que a janta tinha sido pizza, que a esposa já tinha pedido antes dele chegar. Abriu a porta e sentiu o cheiro: metade alho, metade portuguesa.

– Tudo bem, Marcos? Que cara é essa?
– Nada, nada… pizza?
– Sim, hoje é dia de jogo né.
– É!? É… é mesmo.
– O que você tem?
– Cansaço, o dia foi puxado. Vou tomar um banho.
– De noite? Você odeia cabelo molhado de noite.
– Hoje eu preciso, preciso relaxar o corpo e a cabeça. Tudo bem?
– Tudo, ué. Mas come primeiro.
– Ainda tô sem fome.

O banho era uma forma de evitar a esposa e de continuar tentando entender o que acontecia. Ficou quase meia hora debaixo d’água, saiu bem perto do começo do jogo. Pegou um pedaço de pizza e comeu sem vontade enquanto assistia o primeiro tempo, com uma sensação enorme de quem assiste uma reprise. O primeiro gol sairia nos acréscimos. Ele não estava sonhando.

– Amor… tem uma coisa estranha acontecendo.
– Ganhar fora de casa? É, tem mesmo.
– Não, não é isso. É que…

Como contar aquilo? Como poderia provar? Aliás, provar o quê? Que tinha acordado no dia anterior? Resolveu não dizer nada.

– …essa portuguesa tá com um gosto estranho.
– Desculpa, eu fui colocar azeite na minha e caiu em tudo. Eu sei que você não gosta.
– Tudo bem, tudo bem. Não está tão forte.
– Pega uma de alho, pedi pra você mesmo.
– Tá bom.

Veio o segundo tempo, e o segundo gol, e depois o sexo que ele já sabia que fariam, felizes pela vitória e engordurados da pizza. Era como se vivesse um déjà-vu incessante. Enfiou a cabeça no travesseiro. Se hoje era ontem, que dia seria amanhã? Anteontem? Mal conseguiu dormir. Tomou um remédio pra relaxar e desmaiou. Acordou com o alarme já na função soneca, a esposa chacoalhando ele de leve.

– Acorda, amor. Vai perder a hora.

Aquela frase. De novo. Abriu os olhos assustado. Olhou o celular: marcava o dia anterior.

Estava mesmo voltando atrás.

Sua cabeça estava a mil. O que isso significava? Aonde iria terminar? Por que só ele percebia? Tomou seu banho na metade do tempo, passou na banca de jornal. Já sabia de todas as notícias. Lembrou do jornal do dia seguinte, pra ele o dia anterior, que tinha deixado no trabalho. Torceu para ainda estar na sua mesa. Não estava. Guardou o que tinha comprado na gaveta, trancou com a chave, pra olhar no dia seguinte, pro mundo o dia anterior. Trabalhou o dia todo com a certeza do que iria acontecer em seguida. Lembrou do pai. Se estava voltando no tempo, voltaria a vê-lo dentro de um ano, um pouco menos. A ideia lhe trouxe expectativas. Em casa, refez tudo outra vez. Dormiu ansioso pela manhã seguinte. Acordou ontem mais uma vez. Foi para o trabalho e o jornal tinha sumido da gaveta.

Resolveu pensar um pouco nas implicações daquilo tudo. Se os dias estavam voltando, então, entre outras coisas: a cada dia ele teria mais dinheiro na conta, até chegar o fim do mês anterior; não precisava mais pagar nenhum boleto, porque eles nunca venceriam; não teria mais surpresas no trabalho, e poderia inclusive antecipar ou evitar grande parte dos problemas; evitaria também todas as brigas e diferenças com sua esposa, sua família e seus colegas; e voltaria a ver seu pai, e a conviver com ele. Considerou que acordar todo dia no passado poderia ser uma diversão, uma possibilidade de reviver os bons momentos e reescrever os dias ruins. A ideia era animadora: teria o privilégio único de redecidir tudo que já havia decidido.

Começou a viver cada dia como se não houvesse amanhã, afinal, não havia mesmo. Depois de alguma semanas entendeu o problema naquilo tudo: por mais que ele fizesse diferente, as novas ações não significavam nada pra além daquele momento. Se o dia seguinte seria o anterior, então as mudanças não teriam nenhum efeito no seu futuro, já que ele era o passado de todo o resto do mundo. Valia o esforço? E as vezes em que o mal estar durou dias? De que adiantaria resolver a situação hoje, se amanhã ela estaria de volta, até que ele chegasse ao início da coisa toda – quando já não faria mais sentido evitá-la, porque no dia seguinte ela nem sequer teria existido? Perdeu o ânimo.

Notou que seus cabelos diminuíam dia após dia. A barba, ao invés de crescer, ficava mais rala, até desaparecer – e, de repente, aparecer de novo. Os fios brancos aos poucos voltavam a ser pretos. Seu corpo rejuvenescia, enquanto sua vida tinha se tornado uma grande espera, um eterno marchar da previsibilidade, uma caminhada em direção ao mesmo. Não precisava ter compromisso algum: podia faltar no trabalho, sumir de casa, encher a cara, bater naquele antigo desafeto. Nada afetaria seu dia seguinte. Passou duas semanas sendo o mais irresponsável que pode: foi demitido oito vezes seguidas, detido outras três. Só em casa mantinha um clima bom, porque a esposa não merecia sofrer por conta dele – ela que, todos os dias, percebia que havia algo de errado com ele. Não tinha saída. A única coisa que ainda lhe trazia expectativa era a chance de rever o pai.

Os meses se arrastavam como nunca. Tentou ler todos os livros, ver todos os filmes, evitar todas as brigas e todos os problemas. Vivia no futuro do pretérito, tentando transformar o imperfeito em perfeito sempre que possível. Encontrou diversão em surpreender a esposa com atitudes diferentes das que tinha tomado na primeira vez – estava editando suas memórias. Duas semanas antes da morte do pai, a tatuagem que em sua homenagem desapareceu. No dia em que a tinha feito, resolveu se poupar da dor: ligou e cancelou a sessão.

Faltando dois dias para o enterro, teve uma crise: ao mudar seu passado, poderia afetar o que o resto do mundo viveria amanhã? Depois de ter redecidido tanto, quase tudo, o que teria ficado para o futuro de sua esposa, de sua mãe e de todo mundo que, ao contrário dele, caminhava para a frente?

Entrou em agonia. Faltava pouco para rever o pai. Lembrou de uma psiquiatra que um amigo havia consultado uma vez; procurou seu nome na internet e achou o contato. Ligou. Conseguiu um horário naquela tarde mesmo. A clínica era um pouco perturbadora, tudo muito branco, pé direito bastante alto, um silêncio sepulcral. O secretário pegou seus dados, perguntou a forma de pagamento. Percebeu que tinha esquecido os documentos, pagou com dinheiro. Entrou na sala da psiquiatra.

– Passado, presente ou futuro?
– É complicado, doutora. Não sei se vai acreditar em mim.
– Tente.
– Bom… todo dia eu… eu acordo no…
– Futuro?
– Não… no passado.
– Interessante. Então o seu amanhã é ontem?
– Isso.
– E o que você faz com ele?
– Bom, como eu já sei o que vai acontecer, pra não morrer de tédio, eu tento mudar as coisas.
– Essa consulta é nova no seu passado ou é coisa antiga?
– É… é nova. Porque eu precisava contar isso pra alguém e tentar descobrir uma coisa.
– Que coisa?
– Se o que eu faço hoje pode alterar o amanhã. Quer dizer, não o meu amanhã, que é ontem, mas o amanhã de todo o resto. Entende?
– Entendo. Fale mais sobre isso.

A conversa seguiu por mais alguns minutos. A doutora disse que trabalhava com distúrbios do sono.

– O senhor aceitaria passar uma noite conosco?
– Não sei, doutora. Seria uma noite inteira?
– Sim, todo o seu sono.

Precisava ver o que sairia daquilo. Queria alguma certeza sobre o futuro. Tinha que ser aquela noite, pois no dia seguinte tudo não teria existido ainda. Colocou essa questão para a médica. Houve acordo. Avisou a esposa, disse que passaria a noite na casa dos pais, e se instalou na cama confortável da clínica, eletrodos ligados à cabeça.

– Tente relaxar e dormir naturalmente. Se não conseguir, podemos ajudá-lo com um remédio, mas não é o ideal.
– Prefiro não tomar nada. Estou cansado, vou acabar dormindo.

Dormiu.

Sonhou que estava voltando no tempo, mas que ao invés de rejuvenescer, envelhecia. O sonho era ainda pior do que o que ele vivia. Acordou assustado, amarrado a uma maca. Pela primeira vez em meses, não tinha a sensação de déjà-vu. Gritou por socorro. Um enfermeiro explicou que ninguém sabia como ele tinha ido parar ali. Não tinha documentos. Não sabiam quem era. Tentou explicar sua condição. Acharam que estava delirando. A médica ficou surpresa por ele saber seu nome. Perguntou a data: era o dia anterior. Não conseguiu convencê-los. Pediu para ligar para a esposa. Não permitiram. Desesperado, debateu-se sobre a maca. Acabou dopado.

Aquela consulta era uma decisão da qual não poderia voltar atrás. Preso na clínica, não compareceu ao enterro do pai. Perdeu seu próprio casamento; não esteve na formatura da universidade, nem prestou o vestibular; não deu seu primeiro beijo; nunca sequer frequentou a escola. Ficou naquele quarto para sempre, retroativamente, sem poder escapar, até ser novamente uma criança de colo.

Deixou de existir um dia antes de ter nascido.

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Carta à M.

Escrevo para te dizer que ontem estiveste linda.

Absolutamente linda.

E que teu sorriso me derrete; teu riso se desfaz.

Teu cheiro, esse me faz.

Mas, calma. Não é esta uma declaração de amor.

Não, não. Não sem teus olhos nos meus.

E, quem sabe, um vinho e velas, e brega, sim.

Aqui, outra coisa. Apenas palavras agradecidas pelo abraço que me deste em março, o mais sincero gesto que tive neste pouco ano – vá, talvez haja um estranho beijo no joelho que empate, tudo bem.

Mas este não trazia teu calor, ou teu carinho.

Então venceste.

De modo que aqui escrevo e que digo: de hoje em diante, caso te contrarie o espelho, ou te chateie a cabeça, não creias; volte, e leia-me, e sejas bela outra vez.

Porque, és.

Tu és.

Beijos – desde março – deste qualquer que adoraria te levar a jantar.

Quem sabe?

Sinceros,

D.

Repartição pública

Quando João chegou, Zé Roberto já estava lá. Havia voltado das férias.

– Fala Zé! Como é que tá, rapaz!
– Fala João…
– A mesma coisa de sempre, trabalho, trabalho…
– É fogo…

Cumprimentou-o com as duas mãos, uma por cima, outra por baixo. Daqueles cumprimentos falsamente carinhosos.

Na verdade, não gostava muito dele. O cara era meio maluco. Não tomava banho, não escovava os dentes. Tinha pulgas. Dizia que passava cândida em casa, que cândida “mata até Aids”, mas as pulgas estavam lá, saltando, como que num parque de diversões. Às vezes ligava para o filho. Era estranho. Não parecia conseguir cuidar nem de si próprio e tinha um filho.

Zé Roberto colocou a pasta sobre a mesa e abriu a Bíblia. Todo dia, ao chegar, lia um trecho. Era pastor. Antes, era Billy. Do samba. Segurança. Basicamente, aquele que administrava confusão. Tinha cansado daquilo. A igreja lhe apresentou outra vida, mais tranquila. E com mais dinheiro. Não pedia muito em troca. Pra quem acreditava nos patrões das empresas de segurança, ex-policiais, acreditar em Deus era mole. Deus não atrasava o salário. E tinha resposta pra tudo.

Depois da igreja, sossegou. Casou de novo, adotou uma criança. Era uma forma de compensar os sentimentos ruins que tinha quando lembrava do que passara. Daquilo, principalmente. Aquilo sempre voltava à mente. Diariamente. Ele apagava recitando mentalmente qualquer coisa da Bíblia.

A menina era uma graça. Curiosa, inteligente. Entendia tudo. Não sabia ainda que era adotada. Pegaram ela bem pequena, meses de idade. Ainda não era hora de dizer. Um dia diriam. Os pais sempre tem medo de dizer algumas coisas. Medo dos filhos partirem. Mesmo que ainda perto. Partirem do alcance das asas, buscando encontrar a verdade. Outra verdade.

João estava quieto aquele dia. Era melhor. Não tinha muita paciência com ele. Começava a falar bobagens, todo dia. Ria sozinho. Às vezes pensava que ele tinha algum tipo de retardamento mental leve. Ou um distúrbio. Não era normal, a falta de senso. De tudo. Zé Roberto tentava ter paciência, pedia a Deus uma forma de encarar aquilo sem agir errado. Era difícil. Por vezes quase voltava a ser Billy. Não, não. Billy não.

De manhã, quando chegavam, a repartição pública era tranquila. Pouca gente, poucas vozes. Só os ônibus lá embaixo faziam algum barulho. Os ônibus e os malucos que habitam o centro. São muitos. Gritam. Todos os dias. Às vezes se debruçava na janela e procurava a origem dos gritos. Tentando entender, visualizar. Às vezes imaginava os loucos na cabeça. Criava histórias para eles. Histórias de vida. Com situações extremas, de fazer qualquer um perder a cabeça. Ninguém nasce maluco. Não completamente.

– Alô, Valter! E aí, e a doença?

João ligava para o filho.

Imaginava a vida dos loucos e tinha João à sua frente. Um deles?

– Computador eu sou um fracasso viu… até no rádio…

João tentava mexer no aparelho celular. Não conseguia. Zé Roberto fingia estar concentrado em qualquer coisa na tela. Era mentira. Há semanas haviam cortado o acesso à internet de todos ali. Até do chefe. Só Marcos tinha senha para alguns sites. Não era pra ter. Erro da informática. Mais um. Incrível como a área de tecnologia da informação, em todo canto, errava. Dava informações equivocadas. Como senhas. Tinham controle da tecnologia mas não sabiam porra nenhuma sobre o conteúdo. É o mundo das formas. Das formas transformadas em conteúdo.

Marcos era gago. Fumava bastante. Mais novo, guitarrista. Passava os dias garimpando na internet novos compressores, mesas, pedais. Tinha muitos. O dinheiro que ganhava na repartição ia quase todo para aquilo. Sua maior paixão. Chegou a tocar com alguns famosos. Mas era confuso. Se perdera. Em várias coisas. Algumas, viciosas.

Quando chegava, imprimia seu ritmo ao trabalho que até então quase não havia começado. Não à toa, a essa hora, João já tinha sumido. Fugia de Marcos. Das broncas. Arranjava qualquer documento para entregar e saía. Marcos não tinha paciência com ele. Ninguém tinha. Mas Marcos era cruel nos comentários.

– Na hora de receber você não é maluco, né? Lava essa boca, porra! E faz alguma coisa! A gente aqui trabalhando e você pagando de maluco!

João ria. Os doidos sempre riem. Mais uma prova.?

“Condenamos os loucos às risadas”, pensava. Porque fomos condenados à ausência delas. Daí que quando alguém ri, deve estar maluco. Vai ver, enxergam o ridículo que passamos, todos. Submissos à essas merdas de trabalho. Atividades sem sentido, que executamos como se delas dependesse a vida no planeta. Riem de nós.

Os loucos riem de nós.

Colocou a Bíblia na pasta e começou a trabalhar.

***

O trabalho criava uma hierarquia estranha. Entrecortada por várias outras. Tinha a “lei do mais velho”, que era como que um respeito imposto à sabedoria adquirida por aqueles que ali estavam havia mais tempo. Muitas formas de proceder eram baseadas nisso. Perpetuavam, por vezes, rotinas idiotas. E ensinamentos errados, em desacordo com o que dizia a lei que valia mesmo, aquela escrita, normativa. Era assim em toda repartição pública.

Atravessando a lei do mais velho, vinha a do mais esperto. Aquele que sabia lidar melhor com as situações. Que antevia, que via a estrutura e sabia manejá-la. Muitas vezes, o mais esperto era dos mais novos. Muitas vezes, o mais esperto não era o mais esperto. Porque os mais velhos sabiam o suficiente para deixar os mais novos pensarem que eram espertos. Era melhor. Comandar criava problemas. E no trabalho, a missão principal sempre era fugir dos problemas.

Tinha, ainda, a lei do certinho. Do ingênuo, que cumpre tudo à risca. Esse era às vezes interpretado por um dos mais espertos ou dos mais velhos. Os falsos certinhos, que a maioria sabia identificar depois de algum tempo. Porque os certinhos mesmo desenvolviam manias. Respostas às frustrações que encaravam por fazer tudo certo e se foder mais que os outros. As manias eram um jeito de entortar o certo na prática enquanto se auto-engavam falando que aquilo agilizava o procedimento. Porra nenhuma. Tinham cansado de ser certinhos. Os falsos certinhos nunca tinham manias.

O chefe era quase sempre um dos mais velhos que sabia muito bem ser um falso certinho. Era o melhor ator. O que cobrava mais em público, mesmo sem saber direito o que estava cobrando. Quase sempre, era temido pelos certinhos e facilmente dobrado pelos espertos e pelos mais velhos. Não sem saber que o estava sendo. O segredo do bom chefe é se deixar dobrar sem perder publicamente a imagem de comando. Porque o chefe ditador, aquele que quer cobrar os mais velhos e os mais espertos, quase sempre acaba rodando.

Zé Roberto era dos mais velhos. No trabalho e na vida, que a vida também dá trabalho, muito mais que o trabalho. Era incrivelmente hábil na tarefa de procrastinar. Adiava sempre, sem parecer que estava adiando. De repente, era fim do dia, e tinha feito nada ou quase nada. Mas parecia que tinha feito muito. Era justo. Os anos de Billy já tinham sugado energia suficiente daquele corpo. Daquela mente. Agora, era de Deus. E ser de Deus era abraçar a ignorância consentida. Como uma benção.

Como uma benção.

Nunca perdia o controle. Só os mais espertos sabiam como fazê-lo deixar ser dobrado. Exercia a função de falso chefe, fiscal de porra nenhuma. Cobrava delicadamente sem cobrar. Na verdade, colocava os certinhos pra fazer o que ele deveria estar fazendo. Sem perceberem. Às vezes, os mais espertos e os mais velhos entravam na dança, pra se ocupar com qualquer tarefa fácil de ser arrastada pelo dia adentro. Era um acordo entrelinhas. Um acordo de olhares e de não-falas subentendidas. Um acordo que mantinha o equilíbrio da repartição, quase sempre funcionando no limite mínimo.

Havia também as moças da limpeza. Que não faziam parte, eram terceirizadas. Como uma paisagem animada. Limpavam a todo momento, a todo canto, sem quase ninguém a dirigir-lhes um olhar sequer. Eram quase nada. Às vezes, eram nada, quando algum dos certinhos resolvia rebaixá-las pra se sentir, por no mínimo um instante que fosse, num degrau mais alto da hierarquia. Era tudo que podiam, tudo que conseguiam: subjugar quem já estava subjugada. Ridículo.

Por fim, haviam os estagiários. A quem se culpava por tudo que acontecesse de errado. Na verdade, eram os mais livres de todos.

A culpa que a repartição jogava sob os estagiários era a culpa que sentiam por se deixarem estar submissos à estrutura.

Os estagiários cagavam e andavam para a estrutura.

Daí serem sempre o mordomo da história.

***

(continua)