Arquivo da tag: escola

A nerdice é genética

Ontem foi aniversário do Lucas, filho da Lelê, e isso me fez lembrar da minha infância nerd.

Aprendi a ler e escrever em casa, antes de entrar no prezinho.

Conseqüentemente (sim, com trema), já comecei sendo nerd.

Na 1ª série escrevi um “livro”. Sobre futebol, lógico.

Na 2ª, escrevi “outro”. Sobre a minha irmã e suas “loucuras” (tipo comer uma cartela inteira de ácido acetil-salicílio – AS – ou entrar de roupa na banheira e comer o sabonete).

Isso continuou pela 3ª, 4ª, 5ª série. Só lá pela 6ª que eu percebi que o resto fazia muito menos esforço que eu e passava do mesmo jeito. Então, pra que se matar?

Começou a época boa da vagabundagem.

Essa nerdice precoce minha eu sempre associei à minha mãe.

Porque, assim, não que meu pai seja burro, pelo contrário. É tão nerd e chato quanto eu.

Só que minha mãe ganhou medalhinha de melhor aluna da classe durante todo o primário (hoje 1ª a 4ª do fundamental) e o ginasial (hoje 5ª a 8ª do fundamental). Participou de concurso de redação com 10 anos e ganhou, sendo o prêmio participar de um programa de TV – vestida de Roy Rogers.

Então pra mim era daí que vinha minha vontade extraordinária de estudar nerdice.

Até que semana passada meu tio, irmão do meu pai, veio do Rio passar uma semana aqui.

E trouxe um “presentinho” pra ele.

Era uma redação de um concurso que ele fez no ginasial, e que está reproduzida mais abaixo.

Tirou 1º lugar.

Só que o prêmio era ser sacaneado pela editora que fez a “promoção”, que depois visitou os ganhadores oferecendo o “prêmio” – a aquisição de lindos livros para dar início à sua biblioteca, mediante pagamento, que podia ser em 5432534 vezes, mas que tinha de ser feito.

Acontece que meu pai cresceu na Favela da Maré, em Bonsucesso. E nem em todas essas vezes tinha como pagar.

Já tava achando meu pai nerd, mas não pude deixar de zoá-lo comparando isso com as medalhas da minha mãe.

Aí é que veio a surpresa MESMO.

Meu tio:

– Pô, tu nunca viu as medalhas dele não? De campeão da OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA do Estado da Guanabara?

E eu:

– !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E meu pai:

– De matemática, não, peraí. Era matemática, português, história e geografia.

E eu:

– !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E meu pai:

– Eles escolheram um aluno de cada ano do ginasial de cada escola participante e todos competiram juntos. Eu era do 1º ano.

Ou seja, ele era da 5ª série e ficou EM PRIMEIRO.

É.

Não tinha como eu NÃO SER nerd.

Tudo bem, não tão nerd quanto a Lelê, que entrou na 1ª série aos 5 anos (coitada).

Mas porra, depois disso fiquei me sentindo até meio fracassado.

Sou filho de dois campeões da nerdice voluntária e o máximo que eu consegui foi ser orador da turma na formatura do prezinho e ter um blog metido a engraçadinho.

Mas tá valendo.

Um dia eu escrevo outro “livro” e ganho o Nobel de Literatura concurso de redação da Editora Pagou-Publicou.

Aí, pais, vocês vão ter orgulho de verdade.

***

Ah, é.

A redação do meu pai (algo FE-NO-ME-NAL, as melhores partes eu deixei em negrito e comentei):

Departamento Educacional de Pesquisas e Estatística

Cleber Cajazeira – 16 anos – Colégio Ginásio Capitão Lemos Cunha

Professor Sérgio

Data: 25/08/1965

“Devo formar uma biblioteca?”

Na minha opinião, qualquer pessoa deve formar uma biblioteca. Tenho imensa vontade de formar uma, mas até agora não foi possível.

Uma biblioteca em casa representa uma segurança para seus moradores, pois nos momentos de lazer, basta escolher um livro e as horas passarão sem que nos apercebamos. Além disso, uma biblioteca ajuda a sanar as dúvidas em relação à matéria didática, política ou até mesmo moral.

Há ocasiões em que uma biblioteca é indispensável tal como no lar de um advogado, um escritor, um médico, um professor ou um aluno.

Por estas razões, é que num futuro breve talvez eu já esteja possuindo [meu pai adiantando em décadas o gerundismo?)] uma biblioteca. Para isso, basta que eu tenha possibilidades de formá-la, o que até agora não foi possível. Aí então, eu me considerarei mais poderoso do que aquêles que não têm uma biblioteca [aaah, a sede pelo poder… aposto que o Obama tem uma biblioteca], pois nos momentos duvidosos, nos momentos difíceis ou nos momentos de lazer eu terei a meu lado uma conselheira, uma educadora e uma distração, tudo isto resumido na minha biblioteca [gosto tanto de você, leãozinho… de te ver ao pôr-do-sol…].

[Comentário do professor Sérgio:]

Muito bem, Cleber! Continue lendo e estudando, portanto, o mais que puder.

Parabéns e sucesso!

[Impresso no fim da página:]

“Uma casa sem livros é como um corpo sem alma”.

Promoção da livraria e editôra Norma.

Segundo turno ou A política das crianças

Quando eu estava no colegial (o que hoje chamam de Ensino Médio), formamos uma chapa para o grêmio.

A chapa se chamava Crispan II.

Crispan porque o bedel do colégio se chamava Crispim. Era um negro barbudo, gente boa pra caralho.

Um dia ele apareceu na escola sem barba. Decidimos então que aquele era o Crispan, irmão gêmeo do Crispim. E a piada deu nome à chapa, num tipo de homenagem bizarra.

O II era porque no ano anterior tínhamos feito a Crispan I.

A Crispan era só pra tiração de sarro. Íamos de terno pra escola, com bíblias na mão e dinheiro pendurado caindo do bolso e passávamos de classe em classe com o lema “Não vote nulo. Se for pra desperdiçar seu voto, vote Crispan”. 

Criamos cargos fictícios, como “Assessor para Assuntos Litorâneos na Hora das Aulas Vagas”, “Assessor de Moda, Esportes e Culinária” e assim ia.

Nos intervalos de aula, como forma de campanha, propusemos e concluímos com êxito um campeonato de jóquempô.

Na nossa plataforma, propostas como o fim da biblioteca para instalação de uma sauna mista; o fim da sala dos professores para instalação de uma academia; a montagem de um circuito de motocross no pátio; a criação de uma linha de metrô Escola – Santos, pras horas de aula vaga; a criação de uma bomba atômica, que defendíamos como arma para a paz e defesa contra os colégios concorrentes no mercado (era um colégio técnico); e o incrível sistema de rodízio de aulas vagas.

Esse sistema consistia em ter um ano de aula e um ano sem aula; nos anos com aula, um mês com aula e outro sem; nos meses com aula, uma semana com aula e outra sem; nas semanas com aula, um dia com aula e outro sem; nos dias com aula, uma aula sim e outra não; e as aulas sim seriam todas vagas.

E nos debates, onde ficavam 3 integrantes de cada chapa na mesa, promovíamos um show de coreografia: nossos 3 integrantes mudavam de “posição-de-tédio” na mesa ao mesmo tempo – mão na cara, 1, 2, 3, mãos cruzadas, 1, 2, 3, cabeça na mesa, 1, 2, 3 e assim por diante, uma coisa meio Monty Python; apresentamos uma proposta de esportes para “acabar com a ditadura dos saudáveis que jogam futebol” criando um incrível campeonato de sumô, cujos slides de apresentação chegaram na mala de nosso Assessor de Esportes, Tricô e Novelas que, por sua vez, chegou cercado de 5 “seguranças” e um monte de fotógrafos; e concluímos nossa fala cantando “um, dois, três indiozinhos” – isso sem falar nas perguntas pras outras chapas, “é verdade que sua mãe…” e coisas do tipo.

Toda essa palhaçada, somada ao fato de uma das outras chapas chamar-se X, o que remetia ao nome da professora mais temida da escola (de matemática, claro), a Márcia Xavier, carinhosamente chamada de Márcia X, e a outra chapa chamar-se “É nóis na fita”, num ótimo exemplo de como a escolha do nome de qualquer coisa que seja – principalmente dos seus filhos – deve ser um momento de bastante reflexão pra não fazer merda, nos levou a vencer as eleições.

O que fizemos depois de vencê-las?

Organizamos um campeonato de futebol (o que já seria feito mesmo sem grêmio) e acabamos com a gestão em menos de três meses – porque todo mundo estava ali pela palhaçada, ninguém tinha muito a ver um com o outro ideologicamente.

Porque escrevo tudo isso?

Pra dizer que a gente aprende desde criança que política é isso, que as eleições são e sempre serão uma piada, um circo.

Quem tiver os melhores palhaços, leva.

E quem não gostar de circo, ou tiver medo de palhaço, fica a ver navios.

Ou não.

Porque quando o governo estadual decidiu acabar com uma verba destinada às ETE’s (Escolas Técnicas Estaduais) que passava pela Fundação Paula Souza, que era quem administrava as mesmas, organizamos uma manifestação enorme junto às outras ETE’s para barrar a proposta.

Sem grêmio.

E quando a diretoria resolveu impor o uniforme obrigatório para todos os estudantes, nós, principalmente os que estavam no terceiro ano e não queriam gastar uma grana pra comprar um uniforme que só seria usado por mais seis meses, organizamos no mesmo dia em que passaria a valer a obrigatoriedade (a punição pra quem estivesse sem uniforme era ser mandado pra casa) o “Dia do Chique Brega”, em que todos iriam vestidos chique e brega, sem uniforme.

Um dia depois, estava revogada a obrigatoriedade. Até porque, a diretoria sabia, a gente sairia dali em seis meses e no ano seguinte eles não teriam mais resistência – hoje, me dá até uma tristeza quando vejo alguém com o uniforme da ETE no metrô.

Então, quando precisou, estávamos lá. Sem precisar de gente esperta e esclarecida pra dirigir.

A gente acha que criança serve pra aprender, ou melhor, a gente vive condicionando criança pra aprender, e só.

Não percebemos que na maioria das vezes elas estão aqui pra ensinar.

Ensinar como a vida é simples quando a gente olha pra ela com olhos de criança.

Sinceros, espontâneos. Maldosos às vezes.

Mas mais do que tudo, humanos.

Nada me dá mais agonia do que olhar pela janela de uma sala de aula e ver aquele mar de crianças prostradas, rosto enfiado no caderno, anotando meticulosamente o que diz o professor.

A imagem me lembra “A Classe Operária Vai ao Paraíso”

Ainda bem que, no meio destas, sempre tem algumas dormindo.

Esse sim, o sono dos justos.

Um sonho do amanhã.

***

Antes que alguém pergunte ou afirme, SIM, no colegial ainda somos crianças.

Por mais que queiram nos fazer sentir adultos.