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Eu, Tu, eles: ontem ou um dia randômico

Acordei umas 13h. Das 13h50 às 16h fiquei na cozinha conversando com a Ilona, lituana que mora com o Paulius, quase médica – tá em vias de. O Paulius acabou de trampar 17h e a gente foi pra Trakai, a antiga capital do país, que fica a uns 30min de carro. Lá é cheio de lagos, fomos nadar um pouco, aproveitando que tem sol até 21h30. Enquanto mergulhávamos começamos a ver uma multidão na margem oposta do lago carregando bandeiras, tinha bateria, tavam gritando coisas. Ficamos brincando que era manifestação contra o preço da passagem de pedalinho. Entramos pra parte interna da cidade pra comer e ver o que era aquela merda e vimos que todos tinham marchado pra dentro do CASTELO construído na Idade Média no ponto mais protegido do território. Nesse castelo o Paulius já gravou um filme, onde ele era um SOLDADO DINAMARQUÊS fugindo dos soldados suecos na guerra sueco-dinamarquesa de sabe-se lá que século.

Lá dentro, bandeiras de uns 40 países, incluindo o Brasil e uma galera uniformizada, cada grupo de um país. Parecia ser a abertura de algum tipo de jogos esportivos. E era: MUNDIAL JÚNIOR DE REMO. Demos um rolê entre os participantes pra ver se achávamos os brasileiros, nada. As italianas chamaram a atenção, pela animação e pela beleza. Os italianos não eram lá essas coisas, mas os noruegueses… Nisso, um bielorrusso quis tirar uma foto comigo. Perguntei por quê, ele não soube responder, o Paulius mandou ele à merda. Saímos de lá achando que tava bom de aleatoriedade quando começou a rolar uns números musicais com lituanas loiras e lituanos depilados. Fomos comer, mas por ali era caro, daí resolvemos voltar pra Vilnius.

Sentamos num restaurante à beira de um rio e nos encostos dos bancos tinha umas aranhas tecendo teias. Ficamos uns 20min observando isso enquanto um casal do lado falava uma língua estranha que o Paulius chutou ser finlandês ou estoniano. Nisso a menina olhou pra gente e começou a falar em inglês das teias de aranha, que a essa altura eles também já tinham visto, e convidou a gente pra sentar com eles. Ao perguntar nossa nacionalidade, começou a brincar que éramos bons no futebol e eles eram um lixo e eu falei que eles tinham tido um bom jogador, Litmanen, que jogou no Ajax de Amsterdã. Ela disse que tinham que mandar uns finlandeses pro Brasil, não entendi se pra treinar ou pra FAZER FILHOS, e depois trazer de volta pra melhorar o futebol deles, e que o Litmanen era da cidade dela e tinha uma ESTÁTUA pra ele lá. Aí perguntou o que a gente tava fazendo aqui e respondemos que viemos pra… jogar futebol, hahahaha. Ela riu, perguntou onde, falamos do FC Vova e ela ficou toda animada de ir ver o amistoso de quinta-feira. Em seguida disse que tava na cidade porque tinha uma exposição dela numa galeria ali do lado, ela pinta quadros, nos convidou pra ir ver a exposição. Fiquei pensando que ela seria uma boa companheira pro PAULO ANDRÉ ZIKA DAS ARTES, e nessa altura tínhamos pedido a conta porque a comida tinha sido pouca, o lugar era caro e fomos comer em outro lugar ainda.

No carro, depois de assistir a abertura do mundial júnior de remo num castelo da idade média na antiga capital da Lituânia, observar aranhas tecendo redes no encosto do banco de um restaurante à beira de um rio e fazer amizade com uma pintora finlandesa fã de futebol e do Litmanen, resolvemos declarar o dia 06 de agosto como DIA LITUANO-BRASILEIRO DA ALEATORIEDADE.

E viva a vida.

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Eu, Tu, eles: 24 horas

Ainda não escrevi sobre a Lituânia. Enquanto isso, vai um relato do que nos espera daqui menos de 24h:

Em menos de 24h entramos em campo, Arthur Prado e eu, pela primeira vez pelo FC VOVA.
O jogo vale pelas oitavas de final da Copa da Lituânia. O Vova, atualmente no equivalente à 6ª divisão do país, eliminou dois times da 5ª divisão nas rodadas anteriores. Dessa vez o adversário também é da 5ª divisão, mas o osso é mais duro de roer: é o líder disparado. No Facebook deles, os resultados apostados pro jogo vão de 4 a 1 a 10 a 0, pra eles, claro. Mas nós não estamos dispostos a ser o Santos contra o Barcelona.O time tem reforços: além de Arthur e eu, hoje chegou um nigeriano que estava jogando na Polônia e agora veio tentar a sorte por aqui. O cara é ENORME. Deve correr pra caralho. Disseram que ele é “right wing”, ou seja, o meia pela direita que joga aberto aqui. Tem também dois bielorrusos, laterais direito e esquerdo, que jogam bem no futsal (tem uns vídeos deles que dá pra notar que sabem bem o que tão fazendo). Vamos ver no campo.

Esses bielorrussos tem missão complicada pra chegar aqui, por causa de visto e fronteira. No mundial, na Inglaterra, não tem como ir, porque pra conseguir visto demora 6 meses e tem que mostrar antecedentes criminais – a maioria deles, antifa, praticante de artes marciais, já tem passagem pela polícia por socar facistas pelas ruas de Minsk. Deve ser foda ser minoria no meio de um país cheio de fachos.

O campo de jogo é um gramado sintético, PERFEITO, onde rolam jogos até da Europa League (fases classificatórias, claro). O jogo acontece 21h, com iluminação artificial – embora nem precise tanto, visto que são 21h25 aqui e tem sol ainda.

Neste momento, rola uma festa do time no escritório de fotografia do Domas, o centroavante, que é dentro de um ex-galpão de fábrica abandonado. Tá rolando campeonato de pebolim – o Autônomos FC, representado por Arthur e eu, claro, até agora tem duas derrotas e duas vitórias, tentando classificar entre os 4 do grupo pras oitavas. Rola Fifa 13 também, música e, claro, muito álcool.

A festa ajuda a conter a ansiedade, mas a última vez que jogamos bola foi na semi da I Liga Alternativa de Domingo, dia 21/07, em São Paulo. Tá foda. Não chega nunca a hora!

Pra quem quiser saber mais do FC Vova, em LITUANO, aqui: www.fcvova.lt

O site da liga que disputamos está em www.sfl.lt. Estamos na divisão B2, que é uma das duas regionais da 6ª divisão (a 5ª e a 6ª tem 2 regionais, a partir da 4ª tem uma liga só).

É isso.

VAMO VOVA!

Eu, Tu, eles: Viena

Chegando em Praga, claro que a gente tinha que se foder um pouco mais: depois de andar uns 10min pra descobrir de onde saía o ônibus pra Viena, descobrimos que não tinha mais lugar nele. Resultado: tivemos que pagar o dobro pra ir de trem. A viagem foi numa cabine sem ar condicionado, com um casal de velhos ranzinza (até quase o final) e torrando no sol de 40°C que a Áustria resolveu inventar pela primeira vez em sua história – sério, saiu na TV, o dia mais quente da história desde que a temperatura começou a ser medida.

Na estação em Viena encontramos Johannes, com quem eu troco idéia desde 2012 e que era pea ter nos hospedado na viagem do ano passado, mas acabamos nem indo. Ele também lembra um pouco o Paulius. Fomos de metrô até a casa dele, num conjunto de prédios populares sensacional, com jardim pras crianças, animal mesmo. Ele nos cedeu a cama dele e disse que dormirá na sala. Como desgraça pouca é bobagem, saímos porque queríamos comer e eu tinha que, mais uma vez, trabalhar.

Fomos para um lugar mantido de forma autônoma por nerds vienenses. Como se fosse um centro social ativista tech: internet de graça, um monte de equipamentos, tudo sendo feito coletivamente. Enquanto eu trabalhava, Johannes e Arthur deram uma volta pelo centro de Viena. Voltaram e era quase meia-noite, e eu tinha que terminar o trabalho e o metrô ia fechar. Acabei não terminando – ficou pra manhã seguinte. De volta à casa do Johannes, trocamos idéia sobre futebol e ele falou sobre o Rapid Viena, time pro qual torce. Na quarta, o Rapid enfrenta um time grego na Grécia pelas etapas iniciais da Europa League, e o Johannes vai pro jogo. Trocamos camisetas – dei uma do Auto e uma do Corinthians pra ele, ganhei uma do Panathinaikos – e ficamos de ir conhecer o estádio nacional, onde foi jogada a final da Eurocopa de 2008, e o estádio do Rapid.

De manhã, Johannes nos levou pro seu trabalho, uma espécie de escritório colaborativo, e me deixou trabalhar lá por mais ou menos uma hora. Depois chegarem os colegas de trabalho e tivemos que sair fora e achar um café qualquer com wi-fi pra terminar o trampo. Eu demorei mais umas duas horas e meia nisso, deu tempo do Arthur comer, cagar no café (haha, ele tem problemas com as privadas européias) e dormir enquanto isso. Finda a labuta (pelo menos eu achava isso), fomos almoçar, que já eram quase 15h.

Comemos uma pizza muito boa numa pizzaria meio italiana. Barato, e bom, comparando com São Paulo. Mas Viena no geral é cara – embora não supere São Paulo. Depois da pizza andamos até o Museum Quartier, um quarteirão de museus onde, na parte interna, há cafés e uns bancos azuis e amarelos que parecem peças de Lego gigantes pra galera ficar sentada. Tinha também uma fonte onde crianças brincavam peladas e os adultos sentavam na beira com os pés pra dentro, apesar das placas de “Não entre!” ao redor da fonte. Nem todos os europeus seguem todas as regras o tempo todo.

No Museum Quartier, tinha internet wi-fi aberta. E eu fiz a cagada de ligar o computador pra checar meu email. Resultado: acabei trabalhando, sem enxergar nada da tela quase, por conta do sol. O Arthur dormiu e enquanto isso criancinhas austríacas brincavam de esconde-esconde ao nosso redor, contando até 10 em alemão. Muito fofo.

Dali partimos pro estádio nacional, perto de uma estação de metrô. Tentamos achar uma porta pra entrar, não achamos e pulamos a cerca. Viva o Brasil. O estádio é uma arena moderna como as muitas sendo construídas no Brasil. Nada de excepcional. Do lado de fora dele, nada menos que dez campos de treino aparentemente abertos. A categoria de base do Austria Viena parecia estar treinando lá. Pisamos na grama e deu vontade de chorar e raiva de não ter uma bola. Mas fomos embora logo porque tínhamos marcado 20h com o Johannes numa estação de metrô e queríamos ir andando.

Ir andando acabou significando se perder um pouco, seguir a intuição e achar o caminho no meio de um bosque no meio de Viena, perto do Danúbio. Isso mesmo: em meio ao caos cinza, um bosque animal com um monte de casinhas bucólicas. No final dele tinha ainda um clube com mais um campo de futebol invejável, em frente à algumas casas. Imagina morar ali. “Mãe, vou jogar bola aqui em frente”, e aqui em frente é ali em frente MESMO.

Finalmente chegamos na estação de metrô, mas o Johannes nos avisou que ia atrasar. Ali também era a estação de busão, então tentamos comprar passagem pra Vilnius. Não tinha mais. um amigo do Johannes foi nos encontrar, o Leo, e de lá fomos pra Arena, um espaço GIGANTESCO que nos anos 1970 foi uma ocupação e depois foi cedido pelo governo e virou um espaço de shows alternativo, com uns 3 palcos, 4 pubs e uma área enorme. Tocava uma banda de Viena, meio hardcore, nada demais. Ameaçava chover, então fomos pro EKH, um ex-squat gigante (um prédio de uns 5 andares) também cedido pelo governo no final. Lá, Leo e Johannes nos levaram pra sala da Bahoe Books, a editora anarquista que eles mantém. Simplesmente um sonho: trocentas máquinas de xerox e outros equipos pra fazer material impresso. E a gente em São Paulo sonhando em ter UMA.

No porão rolava um show, e a gente já tinha bebido uma quantidade considerável de cerveja – e PITU, que eles tinham lá sabe-se lá como ou por quê. Fomos assistir e a banda era MUITO boa. Nome: Jungbluth. E tinham tocado no Fluff, mas depois que a gente já tinha ido embora. Vale a pena procurar, banda alemã. Subimos pro bar e ficamos conversando, Arthur e eu, de novo sobre a nossa criação num ambiente que estimulou a liberdade de pensar e de agir, e como isso parece que faz diferença agora. De repente uma menina sentou do meu lado com tatuagens muito parecidas com os desenhos que a minha mãe faz. Comecei a convserar com ela e quando eu vi tinha três meninas ao meu redor e o Arthur tinha sumido com os caras – descobri depois que ele tava tomando um coro no pebolim, deles e de um dinamarquês que também encontramos em Praga e no Fluff. Segundo o Johannes, eles são bons porque no inverno não tem outra coisa pra fazer, então ficam jogando pebolim eternamente haha. E em todos os espaços alternativos que fomos – inclusive o centro tech – tinha pebolim.

Em algum momento as meninas passaram a falar entre si em alemão e eu levantei pra ir ao banheiro e tomar um coro no pebolim também, hehe. E dali resolvemos ir embora, que o Johannes tinha que trabalhar no dia seguinte. Acabamos tendo que ir de táxi, porque já era tarde.

Dormimos até 15h. Quer dizer, o Arthur e eu, porque o Johannes foi trabalhar. De lá ele resolveu o problema do ônibus pra Vilnius pra gente – acabamos tendo que pegar um mais caro – e mais pro fim da tarde Arthur e eu fomos ao estádio do Rapid. Bem bonito, pequeno, nada de “arena”. Capacidade, 17.500. De novo, fomos procurando portas abertas até entrar. O Arthur chegou inclusive a entrar no campo e fingir que estava sendo recebido pela torcida do Rapid, hahaha. Em volta, as categorias de base treinavam. Saímos de lá e fomos pra uma praça esperar o Leo e o Johannes pra finalmente ir ao lugar onde seria a minha apresentação. Chegaram o Lionas (húngaro, lembra muito o Oleg, goleiro do FC Vova) e o Tomas, brasileiro que vive há 15 anos na Suíça e estava fazendo 1 ano de intercâmbio em Viena. Ele parece ser bem novo, e o sotaque dele pra falar português deixa a entender que ele foi pra Europa cedo.

O lugar da apresentação era sensacional: chama Lolligo Kindercafe e é simplesmente um café anarquista pra crianças. Um monte de brinquedos pelo chão, a galera cozinhando coletivamente e, claro, pebolim. Joguei contra o Arthur e tomei um coro, hehe. Depois sentamos, comemos e fomos esperando chegar mais gente pra apresentação. Alguns caras jogavam xadrez. Apenas duas meninas – depois Johannes chegou com a Marilena, sua companheira, que é grega e falou um pouco sobre como o transporte público na Grécia é tão ruim quanto “parece ser no Brasil”. A apresentação foi a mais legal de todas: rolou muita troca de informação sobre grupos, modos de agir e estratégias. Um cara levantou uma discussão que, acredito eu, é bem pouco trabalhada no Brasil: a questão racial dentro do movimento libertário. Rolou um debate bom, que passou também pela questão de gênero, e descobrimos que temos problemas parecidos na Áustria e no Brasil. Passei dois vídeos (http://www.youtube.com/watch?v=PFlkgDpGiDE, sobre os protestos de junho, e http://www.youtube.com/watch?v=aAX0zSfrJK4, sobre as remoções pra Copa), ambos bastante elogiados. E conheci um alemão que me convidou pra fazer a apresentação por lá – Berlim – também. Ficamos conversando até quase 1h da manhã, quando tivemos que ir embora pra não perder o ônibus noturno que passaria em 7 minutos e depois só dali uns 40 minutos. A despedida foi corrida, deu muita vontade de ficar mais tempo em Viena, principalmente porque faltou conhecer a Pizzeria Anarchia, um squat-pizzaria anarquista!

De volta à casa do Johannes, despedimos dele e da Marilena antes deles irem dormir e resolvemos ficar acordados pra não perder a hora. Acabamos dormindo cerca de 1h30 no máximo, e saímos de novo cheio de malas – não vemos a hora de largar essa porra toda em Vilnius – pra pegar o ônibus pra Lituânia.

Seriam looooooooongas 24h – ou mais – de viagem. E as minhas costas já tavam pedindo arrego faz uns dias.

Eu, Tu, eles: Fluff Fest

O Fluff Fest acontece numa cidade pequena próxima de Praga chamada Rokycany. Me lembrou muito a Copa do Mundo Alternativa ou a Copa América Alternativa, ou seja, uma pá de maluco acampado e, no lugar do futebol, punk e hardcore em três palcos diferentes. Toda a comida do festival é vegana. Mais da metade dos 5 mil presentes, segundo o Dan, que organizou a apresentação, também. Por lá, encontramos alguns amigos e conhecidos brasileiros: Lilian, Xopô, Xaveiro, Noel. Tinha um monte de banda pra tocar, mas eu na real só queria de verdade ver duas: Circle Takes The Square e Catharsis. No final, o show das duas foi uma bosta, ou vai ver eu que não tenho mais saco pra esse tipo de som. A segunda opção é mais provável.

O Arthur, de início, achou que ficaria entediado ali. Mas acabou vendo algumas bandas por conta própria e gostando, e depois que descobrimos um posto de gasolina com wi-fi e chuveiro, acabou passando as horas de sol mais forte – tava insuportável – por lá. No primeiro dia, houve mais uma fala do Brian, bem interessante essa, e pela noite algo meio surreal acontecendo: milhares de punks, crusts e metaleiros dançando LOUCAMENTE todos os hits do momento (de Lady Gaga a Psy) na tenda que antes era um dos palcos. O palco dessa tenda, inclusive, caiu. Fizemos um vídeo disso. Em alguma hora o Arthur virou e disse:

– Só isso já valeu o rolê.

E valeu mesmo. Indo buscar mais cerveja, em algum momento, eu esbarrei no cara da frente na fila, que ficou me olhando por uns 2min. De repente me cutucou e disse:

– MANDIOCA!?
– Arthuras!!!

Era o Arthuras, amigo do Paulius lituano que tinha hospedado Davi e eu em Barcelona em 2010, e depois vindo pra Copa America Alternativa de 2012. Hahahaha, ele ficou muito incrédulo de me ver ali. Bebemos, dançamos – e deu pra sacar várias diferenças claras na relação de gênero entre Europa e Brasil – e fomos dormir lá pelas 4h, uma puta friaca na nossa barraca (que é enorme, cabem 4 pessoas e com isso hospedamos Xopô e Juli) pra ser acordados pelo sol INSUPORTÁVEL das 10h da manhã.

Era sábado, e a gente sabia que tinha uma piscina pública ali perto. Juli, Arthur e eu descemos pra lá. A fila pra entrar durava 1h. O preço, 55 coroas tchecas (pouco mais de 2 euros). No caminho, um cara disse que numa parte do muro o arame farpado estava cortado. Não tivemos dúvida: pulamos, todos os três – e mais uma alemã que passava por ali na mesma hora. Ficamos no esquema mergulho – sol – mergulho por umas 4h. Depois resolvi subir pra tomar meu antibiótico, e a Juli e o Arthur ficaram.

De volta aos palcos, assisti a um ótimo show: Government Flu, que eu não conhecia. Muito bom mesmo. Às 18h, era hora da minha apresentação, e dessa vez creio que ela fluiu melhor. Foi juntando uma galera, rolaram perguntas, um romeno que eu tinha conhecido na noite anterior me disse pra ir pra Bucareste falar também. Ele pira em futebol, ficamos um tempão falando da Romênia de 1994. Também conheci um alemão, Pete, que me convidou pra fazer a apresentação em Berlim. Ficamos de conversar por email. Por fim, apareceram outros dois, lituanos, do FC Vova, pra me dar stickers do time de presente. Jogaremos juntos, disse eu, em uma semana!

Depois da apresentação veio o melhor show do Fluff: Vitamin X. Simplesmente destruidor, circle pitchs enormes, bóias de piscina e bolas estilo Quico voando pra cima. Impressionante o poder que tem uma bola, provavelmente a mais social das criações humanas. A banda convidou o público a subir no palco umas duas vezes, foi intensamente maluco, deu saudade dos tempos em que eu tinha energia pra isso hehehe. O Arthur, a essa hora, tava pirando, fez vários vídeos e disse:

– Tô começando a gostar dessa porra.

Depois ele volta pra casa cheio de piercings e tatuagens e a culpa vai ser minha. Foda-se também né, hehe.

Então tocou o Catharsis e foi chato. Saí no meio do show. Aproveitei pra passar numa banca antifa e comprar duas camisetas. Troquei uma idéia com o cara, bem gente boa, dono de dois pitbulls. Ele vende uma camisa que diz “love pitbulls – hate fascism”. Me lembrei das discussões com meu pai sobre “cachorros agressivos”. Ah, o ser humano, essa maravilha de espécie.

Depois dos shows ia rolar festa novamente. A música tava menos pop e mais rock anos 80/90, e com isso os ânimos estavam mais devagar também. Conversei longamente com o Arthur sobre sexualidade, consenso, relações de gênero e preciso dizer que com a maior parte dos caras da minha idade o nível da conversa não chegaria nem na metade. Fiquei pensando – e discutindo isso com ele – o quanto o fato de ele ter convivido com irmãos mais velhos e numa família que não faz recortes por idade pra tratar os filhos tem a ver com isso. Fala-se muito em pedagogia libertária, outra educação possível, e pra mim o exemplo dele é muito mais do que surpreendente, é esperado e satisfatório, dá uma certa felicidade e esperança de que é possível sim formar seres humanos decentes neste mundo. Tivesse eu as experiências que ele tem tido com essa idade e provavelmente a adolescência teria sido um período menos complicado. É bem foda ouvir coisas interessantes de uma pessoa bem mais nova e saber que aquilo é sincero, que aquilo foi pensado e maturado na cabeça dele sem ninguém dizer como ele deveria se comportar. Em algum momento a conversa mudou pra futebol, com o Arthur brisando sobre o quanto ele conseguiria abrir de espaço pra idéias políticas caso se tornasse um jogador profissional com acesso fácil à midia. Estaria nascendo o novo Doutor Sócrates? Hahaha, torço muito pra que sim!

A festa nessa dia terminou mal porque depois do Moritz jogar cerveja pra cima, um alemão babaca estilo fortinho – que segundo o Arthur jogou whisky na gente – deu uma cabeçada no Moritz, que era bem maior que ele e ficou tentando chamar ele pra conversar – de verdade, a princípio ele não queria briga. O cara ficou sendo separado pela namorada ou amiga, e a gente, que não tava entendendo nada, tentava segurar o Moritz achando que ele tava bêbado. Só depois percebemos que ele tava com a razão e que o cara é que era o babaca. Tentamos encontrá-lo, mas a essa altura ele já tinha vazado com toda a sua valentia. O Moritz lembra um pouco o Paulius, no jeito de ser, de sorrir e de pensar.

A manhã seguinte foi a pior da viagem: acordados pelo sol, arrumando as malas e as barracas correndo pra andar 30min debaixo de um sol de 39°C até a estação pra pegar o trem pra Viena, que já tava comprado. Antes de sair despedimos dos tchecos, mas a Juli, o Moritz e a Lioba tinham sumido. O Arthur perdeu uma meia hora limpando o monte de desenhos de canetão que a Juli tinha feito pelo corpo dele na noite anterior, haha.

Antes de pegar a estrada a pé com 45 malas e barracas nas costas, ainda encontrei o Juninho e o Kalota, do O Inimigo, que ia tocar mais tarde. Ficaram um tanto surpresos de nos ver ali e meio condoídos com a caminhada que tínhamos pela frente.

Chegamos na estação 5min antes do trem sair. E a viagem até Praga foi tranquila.

Eu, Tu, eles: Praga

Dá pra dizer que o vôo foi tranquilo. Não, não: foi entediante mesmo. Dormir em poltrona é uma merda e o avião da Iberia não tem televisão no encosto da cadeira da frente pra gente assistir todos os filmes ruins dos últimos meses. Então Arthur e eu trocamos idéia, dormimos, reclamamos e dormimos mais. O vôo tava vazio e as duas cadeiras ao lado sem ninguém, então depois de um tempo a gente deitou em três cadeiras, cada um de uma vez.

Fizemos escala em Madri e lá tivemos nosso primeiro contato com estrangeiros/as: uns gregos que aparentavam ser atletas de algum tipo de esporte perguntaram as horas, depois duas espanholas e outro grego pediram pra usar o espaço vazio do nosso benjamin, onde carregávamos o computador e o celular. Eu já tinha trabalhado no avião, enquanto a bateria durou, e no aeroporto paguei 4,50 euros por 1h de internet pra tentar trabalhar um pouco mais. A ideia era chegar em Praga sem muitas responsabilidades desse tipo. Mas não deu. No telão do aeroporto, um narrador empolgadíssimo fazia um jogo de pólo aquático parecer mais interessante do que realmente era.

O vôo Madri-Praga foi mais curto e mais de boa. Chegamos no aeroporto e depois de trocar dinheiro encontramos uma loja da Vodafone, onde compramos chips tchecos pra se comunicar na Europa. Com as informações que tínhamos e mais algumas que pedimos no aeroporto, compramos o bilhete de ônibus e fomos tentar a sorte no excelente sistema de transporte público de Praga, cada um com 3 malas nas costas.

Foi relativamente fácil achar o infoshop anarquista que nos abrigaria, o Salé. Lá estavam hospedados também Juli, uma dinamarquesa, e o casal alemão Moritz e Lioba. Todos tinham vindo pro Fluff Fest, um festival punk bastante conhecido por aqui. No primeiro dia, depois de sermos muito bem recebidos pelo Tomas e pela Bara, nos ambientamos no bairro, descobrimos um restaurante vietnamita chamado VEGAN CITY, mas comemos num outro restaurante indiano cujo cozinheiro era de Bangladesh. Comida quente, apimentada, e um sol de rachar na cidade.

De noite, rolou a primeira apresentação que estava marcada. Juntou umas 20 pessoas pra me escutar falar dos protestos no Brasil em 2013. A maioria tinha bem pouca informação sobre o país ou o que tava rolando, mas uma menina italiana, Laura, e outra tcheca, Lenka, sabiam um pouco mais porque estudam o movimento de moradia e devem ir pro Brasil no fim do ano. Depois da conversa, perguntei sobre a situação política na República Tcheca e na Europa e percebi que a guinada à direita não é apenas em alguns países como eu imaginava. Uns estão piores, mas mesmo a República Tcheca vem tendo casos repetidos de expulsão e perseguição de ciganos. Depois da conversa, sentamos todos numa praça na esquina pra tomar cerveja. A mais barata, melhor que qualquer cerveja brasileira, sai menos de R$ 2,00 a garrafa de 500ml. Praga é muito barata, pra comer e pra beber. Ou São Paulo é muito cara. Ou as duas coisas. Nessa conversa, ainda percebemos que banana é provavelmente a palavra mais internacional que existe: quase não muda em língua nenhuma.

Nesse primeiro dia uma coisa ainda me preocupava um pouco: a reação do Arthur àquilo tudo. Porque se pra mim era tudo já meio conhecido, infoshop, anarquismo, punks, pra ele era tudo novo. No segundo dia essa preocupação já tinha quase ido embora: saímos com Moritz, Juli e Lioba pra fazer turismo pela cidade e as coisas já estavam muito bem encaminhadas e ambientadas entre todos: Eu, Tu, eles. Praga é uma cidade absurdamente linda, preservada, das poucas que as guerras não destruíram. Só que a gente não manjava porra nenhuma, então nosso turismo se resumiu a “olha, um prédio velho” e tirar foto com a estátua do Franz Kafka. Comemos no Loving Hut, restaurante vegano da SUPREME MASTER (ah, a religião). Muita comida e preço firmeza. Caminhamos pelo Jew Quartier e terminamos na Charles Bridge, com um monte de estátuas cristãs bizarrísimas, e o Moritz e eu inventando interpretações pra elas:

– Nessa o cara tá pedindo um cigarro, se liga.
– Na outra ele tá mostrando o dedo do meio pra deus e dizendo “enough with this shit”.

E assim ia. Dali pegamos o tram pra ir pra um café em outro bairro onde rolaria uma fala do Brian da CrimethInc, dos EUA, sobre as revoltas pelo mundo, anarquismo e estratégias. Depois de passar pelo estádio do Bohemians, time mais de esquerda da cidade, acabamos parando Arthur e eu num Tesco gigante, do lado do estádio do Slavia Praha, time cheio de torcedores fascistas (encontramos uns adesivos inclusive pelas placas do bairro) pra comprar barraca e colchão inflável pro Fluff Fest, pra onde iríamos dois dias depois. Depois encontramos o resto, mas a fala já tava no final. No dia seguinte, rolaria a mesma fala no Salé, onde estávamos.

Nesse mesmo dia seguinte tínhamos marcado com a Camille e o Pedro, amigos brasileiros que estavam num hostel ali do lado, pra ir numa free tour no centro da cidade. Marcamos 10h, mas eu fiquei trabalhando até 8h30 e claro que não acordei. Só lá pras 14h30 eu e o Arthur levantamos, quando eu recebi um telefonema do Pedro perguntando cadê a gente. Eles ficaram de passar lá pra irmos num show pré-Fluff no lugar em que trabalha o Tomas, mas demoraram tanto que acabamos ficando pelo Salé pra ver a fala do Brian mesmo.

Mais uma vez, de madrugada, trabalhei até a porra do sol raiar. Acordei pra mandar o contrato do trampo pelo correio, pra poder receber, e esperamos o Tomas voltar com a van pra irmos pro Fluff Fest. No caminho até lá, Arthur, eu e a Hanka, uma tcheca que foi conosco, capotamos. Ninguém tinha dormido direito à noite.

Eu, Tu, eles: Sonhos de criança

Não lembro mais se essa memória é inventada ou real. Mas é uma das primeiras que tenho em relação a futebol: família e amigos reunidos, apartamento da Cris, Copa de 90, Brasil e Argentina. Maradona, Caniggia, gol, minha mãe chorando. Fim de jogo, fim de Copa, lá se iam 20 anos desde que Pelé e companhia haviam conquistado o mundo para o Brasil pela última vez.

Quer dizer, isso tudo é real, aconteceu. A parte da memória, inventada ou não, diz respeito à minha mãe chorando e eu prometendo a ela ser jogador de futebol e vingar aquelas lágrimas. Poderia ter sido o episódio de mais um brasileiro crescendo estupidamente xenófobo aos hermanos argentinos. Poderia ter sido o começo de uma reportagem do Globo Esporte sobre um grande jogador da seleção na década de 2000. Não foi nem um nem outro. Não sou nem um nem outro. Mas o sonho de criança – o de ser jogador de futebol, não o de vingar qualquer coisa – não morreu. Pelo contrário.

Enquanto escrevo este texto, viajo ao hemisfério norte pela quarta vez na minha vida. Na primeira nem saí do país. Nas outras duas, sim. Saí exatamente pra jogar bola, em um torneio que reúne milhares de crianças em corpos de adulto realizando aquilo que o futebol prossional, mercantilizado e excludente não permitiu: ser um jogador de Copa do Mundo. Alternativa, com times anarquistas, socialistas, anti-rascistas, anti-homofobia. Organizada coletivamente, em apoio mútuo, cada ano em um lugar e sempre com gente de toda a Europa. Do Brasil, fomos os primeiros, eu e a equipe que ajudei a fundar em 2006, o Autônomos & Autônomas FC. Duas participações, duas quedas nas quartas. Já fomos mais longe do que Lazaroni.

Nessas idas ao Velho Continente acabei fazendo amigos. Um deles, Paulius, lituano, participa de um time como o Auto: é o FC Vova, de Vilnius. Em 2010, joguei um jogo pra eles – além dos cinco pelo Auto – no Mundial. Marquei meu único gol: olímpico. No melhor goleiro da competição. Completamente sem querer, é claro.

Mas a coisa é que Paulius se tornou um grande amigo e veio viver em São Paulo, por 3 meses. Jogou pelo Auto. Zagueiro, fez seu gol em um amistoso. Comemorou feito um louco. Se pra um brasileiro jogar na Europa é sonho de criança, não sei dizer o que é pra um lituano jogar futebol em terras sulamericanas. E marcar um gol. Isso era 2010. Três anos depois, é hora de devolver a visita. Serei, por três meses, jogador do FC Vova.

Serei não, seremos, que na viagem está comigo o Arthur, 18 anos, praticamente meu irmão de criação. De certa forma, ele estava lá em 1990, já que os pais e os irmãos estavam. O mais velho quase foi profissional. Arthur, o caçula, ainda alimenta suas esperanças. Em fevereiro, estiveram ambos comigo – e com Paulius – na Copa America Alternativa, evento que o Autônomos & Autônomas FC, de volta da Europa, ajudou a organizar em 2012 – quando fomos campeões – e em 2013. As duas edições jogadas na Argentina. Já dá pra dizer que, de certa forma, cumpri a promessa, inventada ou não, feita à minha mãe. De uma forma bem melhor do que a imaginada.

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Este é o começo de um relato que vai durar três meses. Além de jogar pelo FC Vova, a Copa do Mundo Alternativa é parada no meio do caminho outra vez. Dessa, sem o Auto, que estará apenas em quatro ou cinco por lá. Resolvemos juntar com amigos do Rio e de Portugal e fundar o Reinaldo FC, como forma de homenagear a campanha do Galo na Libertadores de 2013 (que nem terminou ainda, mas pouco importa) e, mais do que tudo, retratar historicamente, do nosso modo, o corte do camisa 9 atleticano daquela fatídica seleção de 1982. Era ditadura, era Telê Santana, e foi homofobia e punição pelos gols de punho erguido, tal qual Sócrates e os Panteras Negras, tal qual o socialista contra a ditadura, e pró direitos homossexuais, que era Reinaldo.

Afinal, se a estrutura oprime, renega e segrega, nada como o levante dos de baixo pra recontar histórias que memória nenhuma, inventada ou não, pode esquecer.

No futebol ou fora dele.

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PS.: Na despedida do Brasil, domingo, jogamos os quatro juntos, os três irmãos Prado e eu. Formamos o meio campo do Auto na vitória por 3 a 2 contra o Catadão FC pela semifinal da Liga Alternativa de Domingo. Arthur participou dos três gols – fez o segundo e 90% do terceiro. Mas mais do que o resultado, o jogo valeu por ser a primeira vez em que nós quatro compartilhamos o mesmo time. Mais um sonho realizado: quando crianças, Fê, Rafa e eu, jogando futebol de salão pelas quadras de São Paulo, sempre sonhávamos com o quarto mosqueteiro pra completar o quadro. Depois de ontem, não precisaremos mais do recurso de inventar memórias.