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Segundo turno ou A política das crianças

Quando eu estava no colegial (o que hoje chamam de Ensino Médio), formamos uma chapa para o grêmio.

A chapa se chamava Crispan II.

Crispan porque o bedel do colégio se chamava Crispim. Era um negro barbudo, gente boa pra caralho.

Um dia ele apareceu na escola sem barba. Decidimos então que aquele era o Crispan, irmão gêmeo do Crispim. E a piada deu nome à chapa, num tipo de homenagem bizarra.

O II era porque no ano anterior tínhamos feito a Crispan I.

A Crispan era só pra tiração de sarro. Íamos de terno pra escola, com bíblias na mão e dinheiro pendurado caindo do bolso e passávamos de classe em classe com o lema “Não vote nulo. Se for pra desperdiçar seu voto, vote Crispan”. 

Criamos cargos fictícios, como “Assessor para Assuntos Litorâneos na Hora das Aulas Vagas”, “Assessor de Moda, Esportes e Culinária” e assim ia.

Nos intervalos de aula, como forma de campanha, propusemos e concluímos com êxito um campeonato de jóquempô.

Na nossa plataforma, propostas como o fim da biblioteca para instalação de uma sauna mista; o fim da sala dos professores para instalação de uma academia; a montagem de um circuito de motocross no pátio; a criação de uma linha de metrô Escola – Santos, pras horas de aula vaga; a criação de uma bomba atômica, que defendíamos como arma para a paz e defesa contra os colégios concorrentes no mercado (era um colégio técnico); e o incrível sistema de rodízio de aulas vagas.

Esse sistema consistia em ter um ano de aula e um ano sem aula; nos anos com aula, um mês com aula e outro sem; nos meses com aula, uma semana com aula e outra sem; nas semanas com aula, um dia com aula e outro sem; nos dias com aula, uma aula sim e outra não; e as aulas sim seriam todas vagas.

E nos debates, onde ficavam 3 integrantes de cada chapa na mesa, promovíamos um show de coreografia: nossos 3 integrantes mudavam de “posição-de-tédio” na mesa ao mesmo tempo – mão na cara, 1, 2, 3, mãos cruzadas, 1, 2, 3, cabeça na mesa, 1, 2, 3 e assim por diante, uma coisa meio Monty Python; apresentamos uma proposta de esportes para “acabar com a ditadura dos saudáveis que jogam futebol” criando um incrível campeonato de sumô, cujos slides de apresentação chegaram na mala de nosso Assessor de Esportes, Tricô e Novelas que, por sua vez, chegou cercado de 5 “seguranças” e um monte de fotógrafos; e concluímos nossa fala cantando “um, dois, três indiozinhos” – isso sem falar nas perguntas pras outras chapas, “é verdade que sua mãe…” e coisas do tipo.

Toda essa palhaçada, somada ao fato de uma das outras chapas chamar-se X, o que remetia ao nome da professora mais temida da escola (de matemática, claro), a Márcia Xavier, carinhosamente chamada de Márcia X, e a outra chapa chamar-se “É nóis na fita”, num ótimo exemplo de como a escolha do nome de qualquer coisa que seja – principalmente dos seus filhos – deve ser um momento de bastante reflexão pra não fazer merda, nos levou a vencer as eleições.

O que fizemos depois de vencê-las?

Organizamos um campeonato de futebol (o que já seria feito mesmo sem grêmio) e acabamos com a gestão em menos de três meses – porque todo mundo estava ali pela palhaçada, ninguém tinha muito a ver um com o outro ideologicamente.

Porque escrevo tudo isso?

Pra dizer que a gente aprende desde criança que política é isso, que as eleições são e sempre serão uma piada, um circo.

Quem tiver os melhores palhaços, leva.

E quem não gostar de circo, ou tiver medo de palhaço, fica a ver navios.

Ou não.

Porque quando o governo estadual decidiu acabar com uma verba destinada às ETE’s (Escolas Técnicas Estaduais) que passava pela Fundação Paula Souza, que era quem administrava as mesmas, organizamos uma manifestação enorme junto às outras ETE’s para barrar a proposta.

Sem grêmio.

E quando a diretoria resolveu impor o uniforme obrigatório para todos os estudantes, nós, principalmente os que estavam no terceiro ano e não queriam gastar uma grana pra comprar um uniforme que só seria usado por mais seis meses, organizamos no mesmo dia em que passaria a valer a obrigatoriedade (a punição pra quem estivesse sem uniforme era ser mandado pra casa) o “Dia do Chique Brega”, em que todos iriam vestidos chique e brega, sem uniforme.

Um dia depois, estava revogada a obrigatoriedade. Até porque, a diretoria sabia, a gente sairia dali em seis meses e no ano seguinte eles não teriam mais resistência – hoje, me dá até uma tristeza quando vejo alguém com o uniforme da ETE no metrô.

Então, quando precisou, estávamos lá. Sem precisar de gente esperta e esclarecida pra dirigir.

A gente acha que criança serve pra aprender, ou melhor, a gente vive condicionando criança pra aprender, e só.

Não percebemos que na maioria das vezes elas estão aqui pra ensinar.

Ensinar como a vida é simples quando a gente olha pra ela com olhos de criança.

Sinceros, espontâneos. Maldosos às vezes.

Mas mais do que tudo, humanos.

Nada me dá mais agonia do que olhar pela janela de uma sala de aula e ver aquele mar de crianças prostradas, rosto enfiado no caderno, anotando meticulosamente o que diz o professor.

A imagem me lembra “A Classe Operária Vai ao Paraíso”

Ainda bem que, no meio destas, sempre tem algumas dormindo.

Esse sim, o sono dos justos.

Um sonho do amanhã.

***

Antes que alguém pergunte ou afirme, SIM, no colegial ainda somos crianças.

Por mais que queiram nos fazer sentir adultos.