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Delas, o tempo

As três gatas, havendo visita, se iam. Quer dizer, iam e vinham outra vez, principalmente a branquela, atirada que só. A pretinha, cheia de si, demorava mais, mas trazia consigo o ar de dona da casa a investigar quem vinha se intrometer. Só a rajada que, não mesmo.

Encantavam, elas, porque isso de que gato é distante, rá, mentira. Das grandes.

Acordava, e estavam as três à porta do quarto, ou duas, ou uma. Nenhuma, nunca. Sempre havia. E olhavam sua cara de sono, e queriam era afago, ou comida, ou o quarto com suas caixas e esconderijos.

Ele as tomava no colo, acariciava. Gostava de surpreender a pretinha. Sempre a mais difícil, cheia de não-me-toques. Mas era pegá-la e miava, a danada, e fingia querer sair, mas ficava, e fechava os olhinhos. Rendia.

Desconfiadas eram, sim, que gato não é igual gente ou cachorro. Cheiravam, e sentiam seguro, antes de tudo. Isso com os outros. Com ele, já eram. E ele delas.

Então que no dia a dia era ele que sabia das manias de uma e de outra, e de outra, que três, e eram a ele que se entregavam, como se fosse árvore de natal, ele, e enfeites, elas. De modo que nunca estava só, nada. Iam ao sofá e lhe ocupavam, pernas, braços, qualquer dobra. E logo era um festival de barrigas ao céu, e ronronares e afagos e manha. Manha, sim, que todo gato tem manha de sobrenome.

Mas não só elas. Também era ele quem as buscava. Sim, que das suas manias todas havia aquela de contar. E estava uma e outra, mas e a rajada? Essa demorava mais pra chegar, mas chegava. Então contava, e lá: uma, duas, três.

Um dia a branquela não. E uma, duas. E onde? Toca a procurar, dentro do armário, embaixo da cama, atrás da geladeira. Nada.

Uma, duas. Três?

Precisava três.

Começou a subir um suor, e que diabos, onde se enfiou? Passou pela rede na janela? Não, que não era possível, magrela mas nem tanto.

E em cima do armário, e atrás do fogão. Nada. As portas dos quartos e banheiros, como sempre, fechadas. Estaria dentro? Mas como? Foi ver.

Nada.

Era quase desespero já, e justo a branquela, frágil e delicada. Aonde, essa gata? Que se fugir aposto que não dura três minutos, porque tão bobinha, e… ouviu unhas.

Vinha de fora.

Será possível?

E sim, será possível, abrira a porta pra botar o lixo, e ela zás, disparou, que nem viu, ela que gostava de passear, sim, gata que gosta de passear, vê se pode, ia na bolsinha de pano e tudo, e nem fugir queria, só olhar a rua. Daí que porta aberta era sempre chance, pra ela. Mas ia sempre até a escada, e pronto, estátua. Esperando que ele a tomasse no colo, e quiçá a bolsinha, ou ao menos o lar outra vez.

Então operou o resgate e levantou-a e viu nos seus olhos a felicidade do reencontro, daqueles de quem espera na rodoviária por parente distante.

E a pôs no chão, donde observavam as outras duas, e pronto.

Uma, duas, três.

Que o ritmo da casa, eram elas.

Carta à M.

Escrevo para te dizer que ontem estiveste linda.

Absolutamente linda.

E que teu sorriso me derrete; teu riso se desfaz.

Teu cheiro, esse me faz.

Mas, calma. Não é esta uma declaração de amor.

Não, não. Não sem teus olhos nos meus.

E, quem sabe, um vinho e velas, e brega, sim.

Aqui, outra coisa. Apenas palavras agradecidas pelo abraço que me deste em março, o mais sincero gesto que tive neste pouco ano – vá, talvez haja um estranho beijo no joelho que empate, tudo bem.

Mas este não trazia teu calor, ou teu carinho.

Então venceste.

De modo que aqui escrevo e que digo: de hoje em diante, caso te contrarie o espelho, ou te chateie a cabeça, não creias; volte, e leia-me, e sejas bela outra vez.

Porque, és.

Tu és.

Beijos – desde março – deste qualquer que adoraria te levar a jantar.

Quem sabe?

Sinceros,

D.

Sobre heróis e ladrões

Aquí en mi celda estoy muy solo
Sólo hay lugar para soñar, soñar, soñar
Sueños de espadas y serpientes
Sueños de muerte y libertad*

Voltava do trabalho, fones nos ouvidos, naquele que é o mais voluntário dos autismos, uma versão moderna do isolamento, como que um monge urbano. De repente uma turba. E parou.

Sacou os fones, e:

– Que houve?

– Ele estava roubando carteiras.

Do lado oposto da rua, dois heróis e um ladrão, este a apanhar e ser seguro por aqueles. E mais dezenas de espectros das dores, a observar.

– Já não bateram o suficiente? Chamem a polícia e pronto! – bradou algum.

– Se é ladrão tem que matar. Tem que matar todos – outro – ou seria a televisão a reprisar o Rio de Janeiro?

Do lado de lá, a cena.

O batedor de carteiras, já homem feito, tentava desvencilhar dos braços do herói vermelho, enquanto o herói azul lhe apontava o dedo, em riste. Todos a esperar, pela lei.

Que chegou em seus tons de cinza, calmamente, a interrogar, o ladrão e os heróis, todos. O herói vermelho ainda a segurar o ladrão, olhos vibrando de satisfação pelo serviço à sociedade, e o azul ainda a lhe bradar pela moral.

No ladrão, via-se, a dor. Não das pancadas, que essas devia já ter acostumado, mas do espetáculo. Do circo. Da transformação de marginal em protagonista. Da humilhação pública.

A lei, calmamente, a interrogar.

Era melhor voltar a ser invisível – ele, e o ladrão, também.

Apalpou a carteira pensando que não queria, não com ele, voltou aos fones, e, curiosamente, viu que a música era como que profeta. Daquilo, e de todo o resto.

Então teve vontade de chorar. De sumir. De vomitar.

Porque – soube pela música – odiamos o cambista, e não o lucro; o flanelinha, e não a venda do espaço; o ladrão, e não a propriedade.

Puta que o pariu, como queria conseguir permanecer alheio.

Sábios fones, aqueles.

Malditos fones.

*Attaque 77 – Espadas y Serpientes

Não existe racismo no Brasil

Ontem, tomei um ônibus na avenida Ipiranga, em frente ao famoso edifício Copan, em direção ao cruzamento das avenidas Rebouças e Henrique Schaumann.

Estava indo do emprego que tenho de manhã para o que tenho à tarde.

Como de costume, escutava música com o fone de ouvido. O ônibus estava cheio e, assim que passei a catraca, encostei ao lado do cobrador, na porta que não iria abrir até o ponto em que eu desceria.

Uns dois pontos depois, percebi uma certa agitação que os fones de ouvido faziam ser silenciosa. Tirei-os para tentar entender.

Na parte da frente do ônibus, havia um senhor de idade, negro, pobre, com as roupas sujas de tinta, sentado em um dos bancos reservados para gente justamente como ele – de idade. O lugar ao seu lado estava vazio.

Então, uma senhora, branca, também pobre – já que andava de ônibus -, tomou o ônibus procurando por um lugar vazio. A um metro do banco, parou. Olhou para o senhor com espanto e virou as costas, reclamando que era um absurdo ter que sentar “com esse tipo de gente”.

Mais à frente, em outro banco reservado, mas daqueles pra acompanhantes de pessoas em cadeiras de rodas, uma mulher estava sentada. Ela assistia à cena, assim como o cobrador, eu e outro rapaz que acabara de passar a catraca.

A senhora branca virou para essa mulher e disse:

– Minha filha, me deixe sentar aí.

A mulher respondeu:

– Não. Tem um lugar livre do lado daquele senhor, a senhora que sente lá.

O conflito, ao contrário de inúmeros dos casos semelhantes de racismo no Brasil, estava posto, escancarado.

A senhora branca foi resmungando até a frente do ônibus, ao que parece, falar com o motorista. Perto da catraca, eu, o cobrador e a mulher lamentávamos com a cabeça ter que presenciar esse tipo de atitude.

Olhei para o senhor negro. Seu olhar, que antes já era de constangimento – afinal, ele era negro, pobre e ainda por cima com roupas sujas, quase um crime, uma ofensa ao mundo -, agora misturava um certo temor por uma confusão na qual ele não queria estar, e sobre a qual ele não proferiu uma palavra sequer. Estava apenas sentado no ônibus, exercendo nada mais que um direito.

A mulher que enfrentara a senhora branca, então, levantou-se.

Foi sentar ao lado dele, cumprimentando-o.

Não vi se foram conversando durante a viagem, pois tive que descer logo adiante. Mas aquele pequeno ato de solidariedade me deixou comovido.

Dias atrás, li um artigo de um desses acadêmicos que a mídia compra pra defender suas posições. Ele dizia que a política de cotas nas universidades ia contra o próprio texto da Constituição brasileira, e que o racismo não existe no Brasil.

Hoje, percebo que sou obrigado a concordar. Não existe racismo no Brasil. Seria muito melhor se existisse.

Porque haveria confronto, ao invés desse apartheid silencioso, escondido nos pequenos gestos que revelam um costume secular de discriminação aos pobres e aos negros – e, principalmente, aos negros pobres.

Quanto não se descobre ao tirar o fone de ouvido; imaginem então se todo mundo resolvesse tirar os tapa-olhos feitos de papel jornal que estamos (mal) acostumados a usar…

Centro em chamas

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

Colocando a classe média no lugar

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

ScuG Manifesto

Há uns 4 anos atrás, eu lancei o número zero de um zine que se chamava “Alice”.

O subtítulo era “masculino e feminista”.

A idéia era manter uma publicação independente feita por homens feministas.

Não saiu do lugar, porque não encontrei outros homens dispostos a escrever sobre isso.

Esses dias, estava dando uma olhada no meu email e não só achei o zine como um outro texto que escrevi à época e não publiquei.

Há um livro muito famoso entre xs feminstas chamado “SCUM Manifesto – uma proposta para a destruição do sexo masculino”. Um livro bom, aliás.

Foi baseado nele que escrevi o texto abaixo.

Um tema que, volta e meia, me incomoda novamente. Porque na verdade está sempre incomodando, mesmo quando eu não lhe dou atenção – na vã tentativa de sufocá-lo.

scuG manifesto – um esboço para uma proposta de destruição dos gêneros
Houve quem disse, quando o menino nasceu, que ele seria jogador de futebol. ‘Dá pra ver pelo jeito como ele chuta’, brincaram o médico, o tio, a
mãe, o pai. A menina, por sua vez, tão graciosa, com certeza seria bailarina. De olhos tão lindos…
Mas as crianças agora cresceram e se deparam com dificuldades. Ele, mais desengonçado que parto de girafa, não leva o mínimo jeito pro futebol
– nem ‘catar no gol’ consegue. Ela, desastrada como um búfalo manco, quebra pelo menos dois copos por mês – a mãe já não aguenta mais remendar suas
calças. São crianças, mas as broncas e as expectativas sobre elas já fazem com que se sintam meio desconfortáveis. Terão de aprender a seguir o modelo
de acordo com seus órgãos genitais, seus hormônios e seus (quase desconhecidos) corpos. São escravos de uma construção de gêneros que em nada tem
a ver com suas vontades, interesses, amizades, impulsos e mesmo sentimentos. As chances de serem adultos frustrados que repetem o ciclo são enormes – e
é aí que a reprodução da complexa estrutura de poder entre masculino e feminino se garante. Uma estrutura que se acomoda nas mais estreitas entranhas de
todo o ‘corpo social’ – ou, para sermos menos abstratos, que se coloca entre eu e você. A toda hora. A todo momento. A cada troca de olhares, a cada
coçadinha no saco, a cada unha pintada.
Se sentir mal por representar um papel forçado, uma camisa de força tida como natural, transforma qualquer possibilidade de ir além do outro
gênero uma viagem dolorosa. Cada espaço funcional da cidade espera de seus atores que declamem suas falas corretamente. As ações estão
devidamente engavetadas, coisas de homem e coisas de mulher, e quem as trespassa está agindo como uma bicha louca ou um sapatão. Mas, espere aí: se
é exatamente agir de acordo com o que queremos, o que sentimos e com o que e quem nos sentimos bem o que nos dá a sensação de sabermos nosso
lugar no mundo, então são os espaços que devem mudar, e não nós; quem deve ditar os papéis somos eu e você, e não nossos falos ou vulvas. Espaços
são também percepções individuais, o meu, o seu, o nosso; e se ser como e o que eu quero ser me deixa desconfortável em qualquer espaço, eles é que
devem ser destruídos, não eu.
O que estou tentando dizer é que todo espaço, desde a sua cama até uma rua qualquer, é um espaço de gênero. Uma afirmação um tanto forte,
mas de observações vazias e óbvias quem vive atualmente é a ciência, ou o que gosta de chamar de ciência aqueles que dela se utilizam para exatamente
manter esses espaços. A ‘cidade do capital’ é um espaço de gênero, e a MENTALIDADE do urbesino habitante dessa cidade segue a lógica espacial da
sua construção. Mais: todo espaço na cidade foi construído pela mão masculina do capital, embora muitos deles sejam subvertidos durante algum ou muito
tempo. Sim, existem subversões espaciais, e é basicamente através delas que eu acredito que pode existir uma desconstrução de gêneros.
Imagine como seria se você, ser humano com saco escrotal, fosse abordado por outro ser humano com a mesma peculiaridade biológica e não
soubesse se ele realmente só quer um cigarro ou se existem segundas intenções – mulheres, sigam a lógica trocando ‘saco escrotal’ por ‘vulva’. Imagine se
essa sensação de não saber o que o outro realmente quer não lhe incomodasse, ao contrário: lhe trouxesse perspectivas e até, vez ou outra, te deixasse de
pinto duro. ‘Ah, mas isso já acontece em qualquer balada gay’; é verdade. Embora estas situações aconteçam também em espaços destinados a elas,
espaços onde são permitidas e absorvidas pela própria estrutura que as sufoca (a Parada Gay é o maior exemplo disso), não deixam de ser afrontas à regra.
Mas imagine se isso acontecesse em todo e qualquer lugar e a qualquer momento. Em qualquer espaço. Imagine homens se beijando ao seu lado no vagão
do metrô, e mulheres conversando sobre sexo anal. Filmes com transsexuais como personagens principais. Sua namorada te penetrando com um cinto de
borracha. Sexo no meio da rua. Se essa perspectiva superficial de uma outra realidade supostamente ‘sem gênero’, ‘sem moral’ e sem lugar já te deixa todx
embaralhadx, talvez até excitadx (não necessariamente num sentido sexual), pensar que HOJE essas coisas já acontecem (mesmo que em lugares
escondidos da ‘normalidade urbana’) nos leva ao (talvez central) ponto desta discussão: a identidade.
Valores, tradições, cultos e mitos nos servem para nos ajudar a descobrir o que somos. Ajudam a nos encaixar neste ou naquele grupo, mesmo
que hoje a tal da ‘pós-modernidade’ – ou os efeitos da transformação das culturas todas em mercadoria – tenha levado todos os conteúdos a se tornarem
formas quase sempre superficiais. Nos identificamos com este ou aquele grupo e, assim, passamos a pertencer a ele – e ele a nós. A questão do gênero não
deixa de seguir esta lógica. Só que a dicotomia/complementaridade homemXmulher carrega em si algo a mais, algo peculiar: JÁ NASCEMOS CONFINADOS
A SEGUIR ESTE OU AQUELE LADO. E é aí que a identidade começa a se partir, a conflitar, a se confundir. Eu tenho pinto, então devo jogar bola, mas todas
as imagens de bonecas e vestidinhos me deixam loucos de vontade de brincar com elas; pra que lado correr, se meu sexo, atrelado a uma concepção
‘universal’ de gênero, diz uma coisa, e minhas vontades dizem outra? Se meu cérebro, quimicamente, borbulha por um carrinho e não por dançar balé, devo
enfrentar a mim mesma ou aos meus pais, que me querem como uma menininha delicada? Se hoje, destruir completamente as noções de gênero nos deixaria
perdidos identitariamente, então o caminho para uma suposta liberdade passa também pela descontrução das identidades pré-concebidas. Dã, que
conclusão óbvia: o que seria o gênero, social, cultural e politicamente falando, senão um AGREGADO DE VALORES IDENTITÁRIOS CONSTRUÍDOS E
MUTADOS DE ACORDO COM A NECESSIDADE DE DEFESA DA ESTRUTURA DE PODER CRIADA COM BASE NESTES MESMO VALORES?
Acabar com os gêneros é acabar com séculos de história; HOJE, é acabar com a lógica da reprodução capitalista – das mercadorias e,
principalmente, dos valores. Reparem: estou propondo nada mais nada menos que o fim da cultura, ou pelo menos DESTA cultura – machista e falocêntrica. É
enfrentar espancamento e violência, separação, reclusão, exclusão. Tarefa que cada travesti, cada lésbica, cada gay acaba carregando com si, mesmo que
não perceba, mesmo que lute ‘apenas’ por poder comprar no shopping sem ser atacado – enquanto eu e você, amigo homem, estamos aqui sentados
pensando que estupro é questão de distúrbio psicológico apenas.

ScuG Manifesto – um esboço para uma proposta de destruição dos gêneros

Houve quem disse, quando o menino nasceu, que ele seria jogador de futebol. ‘Dá pra ver pelo jeito como ele chuta’, brincaram o médico, o tio, a mãe, o pai. A menina, por sua vez, tão graciosa, com certeza seria bailarina. De olhos tão lindos…

Mas as crianças agora cresceram e se deparam com dificuldades. Ele, mais desengonçado que parto de girafa, não leva o mínimo jeito pro futebol – nem ‘catar no gol’ consegue. Ela, desastrada como um búfalo manco, quebra pelo menos dois copos por mês – a mãe já não aguenta mais remendar suas calças. São crianças, mas as broncas e as expectativas sobre elas já fazem com que se sintam meio desconfortáveis. Terão de aprender a seguir o modelo de acordo com seus órgãos genitais, seus hormônios e seus (quase desconhecidos) corpos. São escravos de uma construção de gêneros que em nada tem a ver com suas vontades, interesses, amizades, impulsos e mesmo sentimentos. As chances de serem adultos frustrados que repetem o ciclo são enormes – e é aí que a reprodução da complexa estrutura de poder entre masculino e feminino se garante. Uma estrutura que se acomoda nas mais estreitas entranhas de todo o ‘corpo social’ – ou, para sermos menos abstratos, que se coloca entre eu e você. A toda hora. A todo momento. A cada troca de olhares, a cada coçadinha no saco, a cada unha pintada.

Se sentir mal por representar um papel forçado, uma camisa de força tida como natural, transforma qualquer possibilidade de ir além do outro gênero uma viagem dolorosa. Cada espaço funcional da cidade espera de seus atores que declamem suas falas corretamente. As ações estão devidamente engavetadas, coisas de homem e coisas de mulher, e quem as trespassa está agindo como uma bicha louca ou um sapatão. Mas, espere aí: se é exatamente agir de acordo com o que queremos, o que sentimos e com o que e quem nos sentimos bem o que nos dá a sensação de sabermos nosso lugar no mundo, então são os espaços que devem mudar, e não nós; quem deve ditar os papéis somos eu e você, e não nossos falos ou vulvas. Espaços são também percepções individuais, o meu, o seu, o nosso; e se ser como e o que eu quero ser me deixa desconfortável em qualquer espaço, eles é que devem ser destruídos, não eu.

O que estou tentando dizer é que todo espaço, desde a sua cama até uma rua qualquer, é um espaço de gênero. Uma afirmação um tanto forte, mas de observações vazias e óbvias quem vive atualmente é a ciência, ou o que gosta de chamar de ciência aqueles que dela se utilizam para exatamente manter esses espaços. A ‘cidade do capital’ é um espaço de gênero, e a MENTALIDADE do urbesino habitante dessa cidade segue a lógica espacial da sua construção. Mais: todo espaço na cidade foi construído pela mão masculina do capital, embora muitos deles sejam subvertidos durante algum ou muito tempo. Sim, existem subversões espaciais, e é basicamente através delas que eu acredito que pode existir uma desconstrução de gêneros.

Imagine como seria se você, ser humano com saco escrotal, fosse abordado por outro ser humano com a mesma peculiaridade biológica e não soubesse se ele realmente só quer um cigarro ou se existem segundas intenções – mulheres, sigam a lógica trocando ‘saco escrotal’ por ‘vulva’. Imagine se essa sensação de não saber o que o outro realmente quer não lhe incomodasse, ao contrário: lhe trouxesse perspectivas e até, vez ou outra, te deixasse de pinto duro. ‘Ah, mas isso já acontece em qualquer balada gay’; é verdade. Embora estas situações aconteçam também em espaços destinados a elas, espaços onde são permitidas e absorvidas pela própria estrutura que as sufoca (a Parada Gay é o maior exemplo disso), não deixam de ser afrontas à regra. Mas imagine se isso acontecesse em todo e qualquer lugar e a qualquer momento. Em qualquer espaço. Imagine homens se beijando ao seu lado no vagão do metrô, e mulheres conversando sobre sexo anal. Filmes com transsexuais como personagens principais. Sua namorada te penetrando com um cinto de borracha. Sexo no meio da rua. Se essa perspectiva superficial de uma outra realidade supostamente ‘sem gênero’, ‘sem moral’ e sem lugar já te deixa todx embaralhadx, talvez até excitadx (não necessariamente num sentido sexual), pensar que HOJE essas coisas já acontecem (mesmo que em lugares escondidos da ‘normalidade urbana’) nos leva ao (talvez central) ponto desta discussão: a identidade.

Valores, tradições, cultos e mitos nos servem para nos ajudar a descobrir o que somos. Ajudam a nos encaixar neste ou naquele grupo, mesmo que hoje a tal da ‘pós-modernidade’ – ou os efeitos da transformação das culturas todas em mercadoria – tenha levado todos os conteúdos a se tornarem formas quase sempre superficiais. Nos identificamos com este ou aquele grupo e, assim, passamos a pertencer a ele – e ele a nós. A questão do gênero não deixa de seguir esta lógica. Só que a dicotomia/complementaridade homemXmulher carrega em si algo a mais, algo peculiar: JÁ NASCEMOS CONFINADOS A SEGUIR ESTE OU AQUELE LADO. E é aí que a identidade começa a se partir, a conflitar, a se confundir. Eu tenho pinto, então devo jogar bola, mas todas as imagens de bonecas e vestidinhos me deixam loucos de vontade de brincar com elas; pra que lado correr, se meu sexo, atrelado a uma concepção ‘universal’ de gênero, diz uma coisa, e minhas vontades dizem outra? Se meu cérebro, quimicamente, borbulha por um carrinho e não por dançar balé, devo enfrentar a mim mesma ou aos meus pais, que me querem como uma menininha delicada? Se hoje, destruir completamente as noções de gênero nos deixaria perdidos identitariamente, então o caminho para uma suposta liberdade passa também pela descontrução das identidades pré-concebidas. Dã, que conclusão óbvia: o que seria o gênero, social, cultural e politicamente falando, senão um AGREGADO DE VALORES IDENTITÁRIOS CONSTRUÍDOS E MUTADOS DE ACORDO COM A NECESSIDADE DE DEFESA DA ESTRUTURA DE PODER CRIADA COM BASE NESTES MESMO VALORES?

Acabar com os gêneros é acabar com séculos de história; HOJE, é acabar com a lógica da reprodução capitalista – das mercadorias e, principalmente, dos valores. Reparem: estou propondo nada mais nada menos que o fim da cultura, ou pelo menos DESTA cultura – machista e falocêntrica. É enfrentar espancamento e violência, separação, reclusão, exclusão. Tarefa que cada travesti, cada lésbica, cada gay acaba carregando com si, mesmo que não perceba, mesmo que lute ‘apenas’ por poder comprar no shopping sem ser atacado – enquanto eu e você, amigo homem, estamos aqui sentados pensando que estupro é questão de distúrbio psicológico apenas.