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Diálogo

– Olha só, você é linda, inteligente, sensível. Eu adoro a tua risada. Mas…
– Mas…
– Mas não dá mais.
– Por quê?
– Você sabe o porquê.
– Sei?
– Sabe.
– Hmmm… sexo, né?
– Sim.
– Eu sabia.
– Eu disse que você sabia.
– É sempre assim.
– Olha, me desculpa, mas é muito ruim. Se eu te fiz gozar uma vez foi muito.
– Mas a gente transou só duas vezes!
– Transou? Nem sei se dá pra chamar de transar.
– Por quê???
– Como, por quê? Eu te toco e tu nem se mexe. E quando rolou penetração, então, parecia que eu tava te agredindo. Por isso eu parei em 20 segundos.
– Você não entende…
– Não mesmo, porque eu perguntei. E você só me abraçou e a gente dormiu.
– E foi ruim?
– Não, mas não foi sexo, ué!
– É que… tem coisas.
– Que coisas?
– Não sei se quero falar. Ninguém entende.
– Fala de uma vez. Eu não tô aqui pra te julgar.
– Não tá mas vai julgar.
– Não vou.
– Vai.
– Tenta, ué, o que você perde?
– É… bom…

Silêncio. Um abraço.

– Olha, eu não vou te pressionar. Você fala se quiser, tá?
– Mas você disse que não dá mais.
– Não dá, mesmo. Mas eu também disse que você é linda, inteligente e sensível. Não é porque não dá mais sexo que não dá mais pra gente ser íntimo, amigo, sei lá.
– Tô cansada de amigos. É sempre assim.
– Então desembucha, criatura, pra ver se dessa vez é diferente!
– Tá… eu vou tentar.

Silêncio. Outro abraço.

– Você não vai entender. O lance é que eu gosto de…
– De…
– De… de mulher.
– HAHAHAHAHAHAHAHHAHAHA.

Cara feia.

– Por quê você tá rindo, seu bosta?
– Calma! Eu achei que era piada.
– Como, piada?
– Ué, se você gosta de mulher, porque tá comigo? Porque quis ficar comigo?
– Porque você é todo mulherzinha?
– Como assim?
– É, cara. Você é super mulherzinha. Chora em filme, faz carinho o tempo todo, percebe quando eu tô incomodada, é todo sensível e cuidador.
– E isso é ser mulherzinha.
– Sei lá. É.
– Tá, nem sei se consigo discutir isso. Mas porra, eu não sou mulher!
– Não, não é.
– E então? Você não gosta de mulher?
– Gosto. Mas não é só isso.
– É o quê mais, então? Tô perdido!
– Eu gosto de mulher, mas também gosto de…
– De…
– De…
– De?
– De…
– DE!?
– De pinto.

Silêncio. Cara de interrogação.

– Não, cara. Sério. Não dá pra entender. VOCÊ, gosta de pinto???
– Por quê o espanto?
– Numa boa? A tua tentativa de me chupar foi a coisa mais horrível que eu já vi!!!
– Não fala isso.
– Mas foi! Tu não colocou meu pau na boca nem uma vez, ficava lambendo a cabecinha como se fosse um cachorro bebendo água. Fez cócega. Me segurei muito pra não rir.
– Sério?
– Sério.
– E por quê tu me deixou lá?
– Deixei bem pouco. Depois foi eu que te chupei, lembra?
– Se lembro. Mulherzinha total.
– Como assim?
– Parecia que você era uma mulher mesmo, sabia exatamente o que tava fazendo. Foi bom, mas foi bom até demais. Meio estranho.
– Isso é um elogio?
– É, se você não se importa de ser mulherzinha.
– Não me importo. Nem um pouco.
– Mas voltando. Eu chupo tão péssimo assim?
– Sim. Desculpa, mas siiiiim.
– Porra…

Cara triste. Abraço de novo.

– Eu não tô falando pra te magoar. Sei lá, só não posso fingir.
– Por quê você acha que eu chupo mal?
– Eu já disse, você…
– Não, porra. O que você acha que me faz não saber chupar?
– Sei lá. Tu parecia estar com nojo, ou medo, daí meu espanto quando tu disse que gostava de pinto.
– Antes eu disse que gostava de mulher.
– E daí?
– Mulher não tem pinto.
– E daí?
– COMO EU IA SABER CHUPAR UM PINTO, PORRA?
– Calma, calma! Pô, tu nunca viu um pornô?
– Não, acho escroto.
– E é escroto mesmo, mas…
– Mas nada. Eu nunca chupei um pinto. Nem nunca vi chuparem. Mas sempre quis.
– Tá, mas espera. E a penetração?
– Não curto.
– Mas tu não curte pinto?
– Curto, mas não dentro de mim.
– Hum. Uma pergunta: você já transou com mulher, né?
– Claro, porra.
– E aí? Nunca te penetraram, nem com o dedo?
– Já, mas eu não curto muito. Normalmente sou eu que faço isso. Eu gosto de mulherzinha, lembra?
– Mas você não tem pinto.
– Já ouviu falar de cinta-caralha?
– SÉRIO que você tem uma???
– Qual o problema, senhor “nunca-viu-um-filme-pornô”? Nunca entrou num sex shop?
– Já, não é isso. É outra coisa. É que…
– É que o quê?
– É que eu sempre quis uma cinta-caralha no sexo.
– Pra quê, se você tem um pau de verdade?
– Não pra mim. Pra ela. Pra você, no caso.
– Pra mim? Tu quer o quê, chupar um pau de borracha?
– Não, mas tu podia fazer isso pra treinar.
– Treinar como, se borracha não reage?
– Pode crer. Bom, pelo menos pra aprender a colocar na boca…
– Tá, não muda de assunto. Quero saber do teu fetiche da cinta-caralha aí.
– Porra, é meio óbvio. O que é que todo mundo tem na cama?
– Tesão?
– HAHAHA, tô falando de corpo humano.
– Hmmmmm… cu?
– Isso.
– TU QUER DAR O CU?
– Sim. Não. Quer dizer, sempre tive curiosidade.
– Eu disse! Mulherzinha!
– Você dá o cu?
– Eu não sou mulherzinha. Você é.
– Até posso ser, mas não gosto de homem.
– E nunca pediu pra nenhuma mina?
– Nunca tive coragem.
– E agora?
– Agora eu tive, ué.
– E o que a gente faz?
– Não sei. Uma troca?
– Que troca?
– Eu te ensino a chupar pau, quer dizer, a chupar o meu né, e tu traz a cinta-caralha.
– Mas tu não disse que não dava mais?
– Não dava, mas agora que a gente se abriu, talvez dê. Conversa sempre resolve tudo, minha linda.
– Hahaha, que papinho.
– Papinho nada.
– Papinho, sim.
– Foda-se. Você topa?
– Topo, seu mulherzinha.
– Fechado, sua homenzão.
– Vem aqui, enquanto isso.

Dois sorrisos. Um abraço. E se perderam em um beijo demorado, interminável, daqueles de adolescente que acabou de descobrir que pode se divertir muito usando a língua.

Do sorriso

Entrou no teatro e era dia ainda, quer dizer, era luz ainda, essa luz dos homens, elétrica, contrastando com o cansaço que sentia. Não era muito de teatro, mas lá estava, porque era o amigo, e o amigo era ele, muitas vezes.  Procurou um lugar e sentou, ao aguardo do início, mesmo que sem saber direito de quê.

…but I still haven’t found what I’m looking for…

E veio mais gente, e mais e mais, e de repente a sala lotada, e do palco vieram vozes, e música, e então finalmente o início. Luz não mais, mas ainda era elétrica, a atmosfera. Corpos indo e vindo, sem tantos rostos, ao menos para ele que era muito ruim de guardar rostos.

…but I still haven’t found what I’m looking for…

Eram muitas saídas e entradas, e música sempre, sempre. Bailavam, atores, platéia, sombras e cores, ou a ausência deles todos.

…but I still haven’t found what I’m looking for…

Os olhos seguiam a música, e os ouvidos às cenas, tudo invertido que assim que era bom de sentir. E veio o meio, que ele não sabia que era meio, e ainda elétrica, a atmosfera. Por que mesmo não era muito de teatro?

…but I still haven’t found what I’m looking for…

E, quando já se acostumara com a imensidão de movimentos embaralhados sobre o palco, de repente o preto se tornou havaiano, e a atmosfera ganhou graça.

E então o detalhe.

…but I still…

Pequeno, como ela naquele palco enorme.

Sutil, e doce.

A tirava da sombra.

E como dançava, o detalhe!

E seus olhos sempre junto, seguindo, seguindo…

…haven’t found…

Então o fim, e a espera do amigo, e com ele veio ela, e com ela o detalhe, que já não era mais tão detalhe, mas sorriso, janela da alma daquele corpo até ali quase anônimo.

E ele foi pra casa sorrindo, como ela, mesmo que dela nada soubesse, e para ela nada fosse.

Voltou semanas depois, e se deparou com o cartaz da peça.

Fitou-o demoradamente.

…what I’m looking for…

E de repente ele, que não enxergava nem a própria mãe em foto de família, naquela multidão de preto conseguiu encontrá-la.

Tudo porque havia o encanto do sorriso.

Bastava isso.

Naquela noite, seus olhos se divertiram em comandar o cérebro durante toda a peça.

Buscando sempre, sempre, o seu sorriso.

…what I’m looking for…