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O homem que se perdeu

Atravessou a rua, adentrou o bar e pediu, rápido e rasteiro, sem olhar nos olhos do bartender, como um centroavante que aproveita o bom posicionamento pra pegar o rebote e fazer o gol: uma cerveja. Não obteve resposta, repetiu o pedido, uma cerveja, por favor. Notou que as conversas em torno de si pararam. Levantou os olhos e percebeu que todos o observavam com uma certa estranheza no olhar. Seu sorriso foi dando lugar a uma expressão de incerteza, o que estava acontecendo, o que há de mais em pedir uma cerveja. Viu então que não havia mesas ao seu redor. O bartender dirigiu-lhe a palavra.

– Senhor, está tudo bem?

– Sim, que há de anormal em pedir uma cerveja?

– Bem – respondeu o jovem, novo ainda, uns vinte e poucos anos -, não haveria nada de errado nisso, se aqui não fosse um açougue.

– Açougue?

– Sim, senhor, um açougue. Não vê as carnes penduradas?

– Mas o açougue tinha sido demolido, tenho certeza que…

– Senhor – estranho aquilo de chamá-lo de senhor, estavam na mesma faixa etária -, não há bar algum nesta rua.

– Mas como…

– Tem certeza que está no lugar certo, senhor?

– Tenho, quer dizer… tenho, tenho sim. Obrigado.

Atordoado frente aos vários olhos que o acompanhavam, uns com sorrisos contidos, outros com cochichos maldosos, saiu do bar-açougue. A rua não parecia mais ser a mesma. Na esquina, o posto de gasolina tinha mudado de cores, parecia ser agora de outro fornecedor de combustíveis. Andou até lá. O ponto de ônibus havia sumido. Resolveu virar a esquina em direção ao supermercado, que ele conhecia desde que era pequenino, quando seu avô ainda era vivo – fora ele, inclusive, quem o ensinara a contar o troco e a manejar o carrinho por entre as prateleiras. Estava lá. Aliviado, mas ainda bastante confuso, sentou-se no banco ali em frente, e notou que o supermercado estava fechado. Eram onze horas da manhã e o supermercado estava fechado. Como era possível? Havia falido? Estaria ficando maluco? Deve ser o sol, esse sol forte mexe com a cabeça das pessoas, vai ver estou enxergando coisas. Baixou a cabeça, esfregou os olhos, não entendia o que estava acontecendo. Andara por ali havia poucos minutos e tudo já estava diferente, as flores do asfalto, a calçada rachada, o semáforo. Só a merda de cachorro continuava, embora agora parecesse haver muito mais. Sentindo-se zonzo, recostou-se no banco, olhos fechados; ficou assim por alguns instantes, o suficiente pra se acalmar, tentando não pensar em nada. Ao abri-los – não sabia ao certo se havia ou não cochilado – pensou que tudo tinha sido um sonho, um delírio de seu subconsciente, isso que dava pensar demais nas coisas.

Não era.

Estava no mesmo banco, em frente ao supermercado, mas o supermercado tinha sumido. Mas como? Levantou-se, espantado. Seus sapatos estavam diferentes, sua camisa agora não tinha mangas. Olhou para os lados, como quem procura uma referência qualquer, e saiu correndo, um aperto no peito, não sabia onde estava, nem para onde ia. Percebeu que fazia o caminho da antiga casa que não mais existia, havia sido demolida junto com os sonhos da juventude de ser jogador de futebol e, rico, se aposentar por ali e abrir um clube no bairro, um clube com o nome daquele lugar, que marcasse sua existência na cidade através da única coisa que fazia a cidade conversar entre si, o futebol; não, no lugar da antiga casa, mais um condomínio. Perdeu o fôlego e parou em frente a uma parede espelhada, onde antes era o barbeiro em que, pela primeira vez na vida, tinha feito a barba, homenzinho que já era. É verdade que depois disso nunca mais havia entrado ali, ou mesmo em qualquer barbeiro, para fazer a barba. Apenas aparava os pêlos maiores em casa, gostava de ter o rosto peludo, sentia-se mais seguro, como se os pêlos escondessem os seus defeitos, os físicos e os invisíveis mesmo. Virou-se contra a parede, ofegante, e se olhou naquele espelho embaçado típico desses vidros modernos dos chamados prédios inteligentes de hoje em dia. Sua barba havia sumido. Não só a barba, como o nariz tipicamente italiano e os olhos verdes, da família do pai, e o cabelo enrolado, herança africana dos avós maternos. Até a cor da pele estava diferente, ligeiramente mais clara que o normal. Aquele não era ele, aquele não era seu reflexo, tinha certeza disso. Desesperado, gritou, estranhamente sem chamar a atenção de ninguém; jogou-se no chão e, sem querer, ao lado da parede espelhada, encontrou uma pequena porta aberta, com uma escadaria em frente. Acima dela, uma placa com os dizeres livraria e antiquário, preta, letras vermelhas. Instintivamente, como um cão que foge do banho, deu uma última olhada ao seu redor, levantou-se, e subiu todos os dezessete degraus que levavam a uma sala pequena onde uma lâmpada também pequena piscava, tal qual um vaga-lume moribundo dando seus últimos suspiros. E desapareceu no escuro daquele sebo empoeirado, em meio a inúmeros livros sobre os mais variados assuntos.

Havia se perdido.

Sobre heróis e ladrões

Aquí en mi celda estoy muy solo
Sólo hay lugar para soñar, soñar, soñar
Sueños de espadas y serpientes
Sueños de muerte y libertad*

Voltava do trabalho, fones nos ouvidos, naquele que é o mais voluntário dos autismos, uma versão moderna do isolamento, como que um monge urbano. De repente uma turba. E parou.

Sacou os fones, e:

– Que houve?

– Ele estava roubando carteiras.

Do lado oposto da rua, dois heróis e um ladrão, este a apanhar e ser seguro por aqueles. E mais dezenas de espectros das dores, a observar.

– Já não bateram o suficiente? Chamem a polícia e pronto! – bradou algum.

– Se é ladrão tem que matar. Tem que matar todos – outro – ou seria a televisão a reprisar o Rio de Janeiro?

Do lado de lá, a cena.

O batedor de carteiras, já homem feito, tentava desvencilhar dos braços do herói vermelho, enquanto o herói azul lhe apontava o dedo, em riste. Todos a esperar, pela lei.

Que chegou em seus tons de cinza, calmamente, a interrogar, o ladrão e os heróis, todos. O herói vermelho ainda a segurar o ladrão, olhos vibrando de satisfação pelo serviço à sociedade, e o azul ainda a lhe bradar pela moral.

No ladrão, via-se, a dor. Não das pancadas, que essas devia já ter acostumado, mas do espetáculo. Do circo. Da transformação de marginal em protagonista. Da humilhação pública.

A lei, calmamente, a interrogar.

Era melhor voltar a ser invisível – ele, e o ladrão, também.

Apalpou a carteira pensando que não queria, não com ele, voltou aos fones, e, curiosamente, viu que a música era como que profeta. Daquilo, e de todo o resto.

Então teve vontade de chorar. De sumir. De vomitar.

Porque – soube pela música – odiamos o cambista, e não o lucro; o flanelinha, e não a venda do espaço; o ladrão, e não a propriedade.

Puta que o pariu, como queria conseguir permanecer alheio.

Sábios fones, aqueles.

Malditos fones.

*Attaque 77 – Espadas y Serpientes

Centro em chamas

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

ScuG Manifesto

Há uns 4 anos atrás, eu lancei o número zero de um zine que se chamava “Alice”.

O subtítulo era “masculino e feminista”.

A idéia era manter uma publicação independente feita por homens feministas.

Não saiu do lugar, porque não encontrei outros homens dispostos a escrever sobre isso.

Esses dias, estava dando uma olhada no meu email e não só achei o zine como um outro texto que escrevi à época e não publiquei.

Há um livro muito famoso entre xs feminstas chamado “SCUM Manifesto – uma proposta para a destruição do sexo masculino”. Um livro bom, aliás.

Foi baseado nele que escrevi o texto abaixo.

Um tema que, volta e meia, me incomoda novamente. Porque na verdade está sempre incomodando, mesmo quando eu não lhe dou atenção – na vã tentativa de sufocá-lo.

scuG manifesto – um esboço para uma proposta de destruição dos gêneros
Houve quem disse, quando o menino nasceu, que ele seria jogador de futebol. ‘Dá pra ver pelo jeito como ele chuta’, brincaram o médico, o tio, a
mãe, o pai. A menina, por sua vez, tão graciosa, com certeza seria bailarina. De olhos tão lindos…
Mas as crianças agora cresceram e se deparam com dificuldades. Ele, mais desengonçado que parto de girafa, não leva o mínimo jeito pro futebol
– nem ‘catar no gol’ consegue. Ela, desastrada como um búfalo manco, quebra pelo menos dois copos por mês – a mãe já não aguenta mais remendar suas
calças. São crianças, mas as broncas e as expectativas sobre elas já fazem com que se sintam meio desconfortáveis. Terão de aprender a seguir o modelo
de acordo com seus órgãos genitais, seus hormônios e seus (quase desconhecidos) corpos. São escravos de uma construção de gêneros que em nada tem
a ver com suas vontades, interesses, amizades, impulsos e mesmo sentimentos. As chances de serem adultos frustrados que repetem o ciclo são enormes – e
é aí que a reprodução da complexa estrutura de poder entre masculino e feminino se garante. Uma estrutura que se acomoda nas mais estreitas entranhas de
todo o ‘corpo social’ – ou, para sermos menos abstratos, que se coloca entre eu e você. A toda hora. A todo momento. A cada troca de olhares, a cada
coçadinha no saco, a cada unha pintada.
Se sentir mal por representar um papel forçado, uma camisa de força tida como natural, transforma qualquer possibilidade de ir além do outro
gênero uma viagem dolorosa. Cada espaço funcional da cidade espera de seus atores que declamem suas falas corretamente. As ações estão
devidamente engavetadas, coisas de homem e coisas de mulher, e quem as trespassa está agindo como uma bicha louca ou um sapatão. Mas, espere aí: se
é exatamente agir de acordo com o que queremos, o que sentimos e com o que e quem nos sentimos bem o que nos dá a sensação de sabermos nosso
lugar no mundo, então são os espaços que devem mudar, e não nós; quem deve ditar os papéis somos eu e você, e não nossos falos ou vulvas. Espaços
são também percepções individuais, o meu, o seu, o nosso; e se ser como e o que eu quero ser me deixa desconfortável em qualquer espaço, eles é que
devem ser destruídos, não eu.
O que estou tentando dizer é que todo espaço, desde a sua cama até uma rua qualquer, é um espaço de gênero. Uma afirmação um tanto forte,
mas de observações vazias e óbvias quem vive atualmente é a ciência, ou o que gosta de chamar de ciência aqueles que dela se utilizam para exatamente
manter esses espaços. A ‘cidade do capital’ é um espaço de gênero, e a MENTALIDADE do urbesino habitante dessa cidade segue a lógica espacial da
sua construção. Mais: todo espaço na cidade foi construído pela mão masculina do capital, embora muitos deles sejam subvertidos durante algum ou muito
tempo. Sim, existem subversões espaciais, e é basicamente através delas que eu acredito que pode existir uma desconstrução de gêneros.
Imagine como seria se você, ser humano com saco escrotal, fosse abordado por outro ser humano com a mesma peculiaridade biológica e não
soubesse se ele realmente só quer um cigarro ou se existem segundas intenções – mulheres, sigam a lógica trocando ‘saco escrotal’ por ‘vulva’. Imagine se
essa sensação de não saber o que o outro realmente quer não lhe incomodasse, ao contrário: lhe trouxesse perspectivas e até, vez ou outra, te deixasse de
pinto duro. ‘Ah, mas isso já acontece em qualquer balada gay’; é verdade. Embora estas situações aconteçam também em espaços destinados a elas,
espaços onde são permitidas e absorvidas pela própria estrutura que as sufoca (a Parada Gay é o maior exemplo disso), não deixam de ser afrontas à regra.
Mas imagine se isso acontecesse em todo e qualquer lugar e a qualquer momento. Em qualquer espaço. Imagine homens se beijando ao seu lado no vagão
do metrô, e mulheres conversando sobre sexo anal. Filmes com transsexuais como personagens principais. Sua namorada te penetrando com um cinto de
borracha. Sexo no meio da rua. Se essa perspectiva superficial de uma outra realidade supostamente ‘sem gênero’, ‘sem moral’ e sem lugar já te deixa todx
embaralhadx, talvez até excitadx (não necessariamente num sentido sexual), pensar que HOJE essas coisas já acontecem (mesmo que em lugares
escondidos da ‘normalidade urbana’) nos leva ao (talvez central) ponto desta discussão: a identidade.
Valores, tradições, cultos e mitos nos servem para nos ajudar a descobrir o que somos. Ajudam a nos encaixar neste ou naquele grupo, mesmo
que hoje a tal da ‘pós-modernidade’ – ou os efeitos da transformação das culturas todas em mercadoria – tenha levado todos os conteúdos a se tornarem
formas quase sempre superficiais. Nos identificamos com este ou aquele grupo e, assim, passamos a pertencer a ele – e ele a nós. A questão do gênero não
deixa de seguir esta lógica. Só que a dicotomia/complementaridade homemXmulher carrega em si algo a mais, algo peculiar: JÁ NASCEMOS CONFINADOS
A SEGUIR ESTE OU AQUELE LADO. E é aí que a identidade começa a se partir, a conflitar, a se confundir. Eu tenho pinto, então devo jogar bola, mas todas
as imagens de bonecas e vestidinhos me deixam loucos de vontade de brincar com elas; pra que lado correr, se meu sexo, atrelado a uma concepção
‘universal’ de gênero, diz uma coisa, e minhas vontades dizem outra? Se meu cérebro, quimicamente, borbulha por um carrinho e não por dançar balé, devo
enfrentar a mim mesma ou aos meus pais, que me querem como uma menininha delicada? Se hoje, destruir completamente as noções de gênero nos deixaria
perdidos identitariamente, então o caminho para uma suposta liberdade passa também pela descontrução das identidades pré-concebidas. Dã, que
conclusão óbvia: o que seria o gênero, social, cultural e politicamente falando, senão um AGREGADO DE VALORES IDENTITÁRIOS CONSTRUÍDOS E
MUTADOS DE ACORDO COM A NECESSIDADE DE DEFESA DA ESTRUTURA DE PODER CRIADA COM BASE NESTES MESMO VALORES?
Acabar com os gêneros é acabar com séculos de história; HOJE, é acabar com a lógica da reprodução capitalista – das mercadorias e,
principalmente, dos valores. Reparem: estou propondo nada mais nada menos que o fim da cultura, ou pelo menos DESTA cultura – machista e falocêntrica. É
enfrentar espancamento e violência, separação, reclusão, exclusão. Tarefa que cada travesti, cada lésbica, cada gay acaba carregando com si, mesmo que
não perceba, mesmo que lute ‘apenas’ por poder comprar no shopping sem ser atacado – enquanto eu e você, amigo homem, estamos aqui sentados
pensando que estupro é questão de distúrbio psicológico apenas.

ScuG Manifesto – um esboço para uma proposta de destruição dos gêneros

Houve quem disse, quando o menino nasceu, que ele seria jogador de futebol. ‘Dá pra ver pelo jeito como ele chuta’, brincaram o médico, o tio, a mãe, o pai. A menina, por sua vez, tão graciosa, com certeza seria bailarina. De olhos tão lindos…

Mas as crianças agora cresceram e se deparam com dificuldades. Ele, mais desengonçado que parto de girafa, não leva o mínimo jeito pro futebol – nem ‘catar no gol’ consegue. Ela, desastrada como um búfalo manco, quebra pelo menos dois copos por mês – a mãe já não aguenta mais remendar suas calças. São crianças, mas as broncas e as expectativas sobre elas já fazem com que se sintam meio desconfortáveis. Terão de aprender a seguir o modelo de acordo com seus órgãos genitais, seus hormônios e seus (quase desconhecidos) corpos. São escravos de uma construção de gêneros que em nada tem a ver com suas vontades, interesses, amizades, impulsos e mesmo sentimentos. As chances de serem adultos frustrados que repetem o ciclo são enormes – e é aí que a reprodução da complexa estrutura de poder entre masculino e feminino se garante. Uma estrutura que se acomoda nas mais estreitas entranhas de todo o ‘corpo social’ – ou, para sermos menos abstratos, que se coloca entre eu e você. A toda hora. A todo momento. A cada troca de olhares, a cada coçadinha no saco, a cada unha pintada.

Se sentir mal por representar um papel forçado, uma camisa de força tida como natural, transforma qualquer possibilidade de ir além do outro gênero uma viagem dolorosa. Cada espaço funcional da cidade espera de seus atores que declamem suas falas corretamente. As ações estão devidamente engavetadas, coisas de homem e coisas de mulher, e quem as trespassa está agindo como uma bicha louca ou um sapatão. Mas, espere aí: se é exatamente agir de acordo com o que queremos, o que sentimos e com o que e quem nos sentimos bem o que nos dá a sensação de sabermos nosso lugar no mundo, então são os espaços que devem mudar, e não nós; quem deve ditar os papéis somos eu e você, e não nossos falos ou vulvas. Espaços são também percepções individuais, o meu, o seu, o nosso; e se ser como e o que eu quero ser me deixa desconfortável em qualquer espaço, eles é que devem ser destruídos, não eu.

O que estou tentando dizer é que todo espaço, desde a sua cama até uma rua qualquer, é um espaço de gênero. Uma afirmação um tanto forte, mas de observações vazias e óbvias quem vive atualmente é a ciência, ou o que gosta de chamar de ciência aqueles que dela se utilizam para exatamente manter esses espaços. A ‘cidade do capital’ é um espaço de gênero, e a MENTALIDADE do urbesino habitante dessa cidade segue a lógica espacial da sua construção. Mais: todo espaço na cidade foi construído pela mão masculina do capital, embora muitos deles sejam subvertidos durante algum ou muito tempo. Sim, existem subversões espaciais, e é basicamente através delas que eu acredito que pode existir uma desconstrução de gêneros.

Imagine como seria se você, ser humano com saco escrotal, fosse abordado por outro ser humano com a mesma peculiaridade biológica e não soubesse se ele realmente só quer um cigarro ou se existem segundas intenções – mulheres, sigam a lógica trocando ‘saco escrotal’ por ‘vulva’. Imagine se essa sensação de não saber o que o outro realmente quer não lhe incomodasse, ao contrário: lhe trouxesse perspectivas e até, vez ou outra, te deixasse de pinto duro. ‘Ah, mas isso já acontece em qualquer balada gay’; é verdade. Embora estas situações aconteçam também em espaços destinados a elas, espaços onde são permitidas e absorvidas pela própria estrutura que as sufoca (a Parada Gay é o maior exemplo disso), não deixam de ser afrontas à regra. Mas imagine se isso acontecesse em todo e qualquer lugar e a qualquer momento. Em qualquer espaço. Imagine homens se beijando ao seu lado no vagão do metrô, e mulheres conversando sobre sexo anal. Filmes com transsexuais como personagens principais. Sua namorada te penetrando com um cinto de borracha. Sexo no meio da rua. Se essa perspectiva superficial de uma outra realidade supostamente ‘sem gênero’, ‘sem moral’ e sem lugar já te deixa todx embaralhadx, talvez até excitadx (não necessariamente num sentido sexual), pensar que HOJE essas coisas já acontecem (mesmo que em lugares escondidos da ‘normalidade urbana’) nos leva ao (talvez central) ponto desta discussão: a identidade.

Valores, tradições, cultos e mitos nos servem para nos ajudar a descobrir o que somos. Ajudam a nos encaixar neste ou naquele grupo, mesmo que hoje a tal da ‘pós-modernidade’ – ou os efeitos da transformação das culturas todas em mercadoria – tenha levado todos os conteúdos a se tornarem formas quase sempre superficiais. Nos identificamos com este ou aquele grupo e, assim, passamos a pertencer a ele – e ele a nós. A questão do gênero não deixa de seguir esta lógica. Só que a dicotomia/complementaridade homemXmulher carrega em si algo a mais, algo peculiar: JÁ NASCEMOS CONFINADOS A SEGUIR ESTE OU AQUELE LADO. E é aí que a identidade começa a se partir, a conflitar, a se confundir. Eu tenho pinto, então devo jogar bola, mas todas as imagens de bonecas e vestidinhos me deixam loucos de vontade de brincar com elas; pra que lado correr, se meu sexo, atrelado a uma concepção ‘universal’ de gênero, diz uma coisa, e minhas vontades dizem outra? Se meu cérebro, quimicamente, borbulha por um carrinho e não por dançar balé, devo enfrentar a mim mesma ou aos meus pais, que me querem como uma menininha delicada? Se hoje, destruir completamente as noções de gênero nos deixaria perdidos identitariamente, então o caminho para uma suposta liberdade passa também pela descontrução das identidades pré-concebidas. Dã, que conclusão óbvia: o que seria o gênero, social, cultural e politicamente falando, senão um AGREGADO DE VALORES IDENTITÁRIOS CONSTRUÍDOS E MUTADOS DE ACORDO COM A NECESSIDADE DE DEFESA DA ESTRUTURA DE PODER CRIADA COM BASE NESTES MESMO VALORES?

Acabar com os gêneros é acabar com séculos de história; HOJE, é acabar com a lógica da reprodução capitalista – das mercadorias e, principalmente, dos valores. Reparem: estou propondo nada mais nada menos que o fim da cultura, ou pelo menos DESTA cultura – machista e falocêntrica. É enfrentar espancamento e violência, separação, reclusão, exclusão. Tarefa que cada travesti, cada lésbica, cada gay acaba carregando com si, mesmo que não perceba, mesmo que lute ‘apenas’ por poder comprar no shopping sem ser atacado – enquanto eu e você, amigo homem, estamos aqui sentados pensando que estupro é questão de distúrbio psicológico apenas.

O absurdo da lei, a ironia do acaso e o sabor da vingança

Estou indo pra Argentina no próximo dia 14 e o meu RG está aberto. Pra evitar problemas, então, segunda-feira fui ao Poupa-Tempo da Luz fazer uma segunda via.

Como lá mesmo dá pra tirar foto, não me importei em fazer isso antes. Aproveitei também o fato de ter um amigo que trabalha lá pra ir no melhor horário, entre 18h e 19h da tarde/noite.

Então, por volta de 18h10, trajando uma camisa do Corinthians, como quase sempre, deixei minha casa rumo ao desafio.

Que já começou a encrencar logo de cara.

– Oi, quanto é a foto pra documento?

– 6 fotos, 5 reais.

– Tá, quero tirar.

– Não pode.

– Porque?

– Não pode tirar com camisa de time.

– Mas porque não?

– Não sei, moço, mas não pode.

Pronto. Se eu tivesse que voltar pra casa pra trocar de camisa, além de ficar muito puto, não daria tempo de completar a missão. Felizmente, pensei rápido e fui falar com o amigo que por lá labuta.

– Por favor, onde encontro o Felipe?

– Nas mesas.

Fui até as mesas.

– Fala Sema!

– E aí, mêo!

– Cara, seguinte, tem uma camisa pra me emprestar? Não pode tirar foto com camisa de time pra documento.

– Putz, mêo, a única camisa que tenho na mala também é do Corinthians. Mas ó, eu já peguei várias fotos com camisa de time, vê direito isso lá na frente.

Voltei à moça das fotos.

– Oi, então, falei com um colega que trabalha aqui…

– Que colega?

– O Felipe, e ele…

– Um magrelo altão?

– Esse.

– Adoro ele, sempre pentelho ele.

– Então, mas acontece que ele não tem uma camisa pra me emprestar, mas disse que já pegou gente com foto com camisa de time várias vezes.

– Olha, moço, se eu tirar e não te deixarem fazer você vai ficar bravo comigo… você não quer falar com a supervisora antes?

– Ahn… tudo bem.

E lá fui eu falar com a supervisora.

– Oi, boa tarde. Eu queria tirar uma segunda via de RG e não estão me deixando tirar foto porque estou com camisa de time. Não pode mesmo?

– Não.

– Mas porquê não?

E ela, com uma cara de “que pergunta absurdamente inconveniente”:

– Porque é DOCUMENTO!

– Que que tem?

– Documento é coisa séria, meu filho!

– Meu time é coisa séria pra mim.

– Mas não pode, antigamente tinha que tirar até de gravata!

– Só se for antigamente nos tempos do meu avô, porque meu pai tá de regata e black power no RG dele. Tem alguma lei que diga isso?

– Tem…

– Qual?

– Não sei, mas não pode.

E virou as costas.

Inconformado, falei com um amigo meu que é advogado.

– Me diz uma coisa, estou aqui no Poupa-Tempo tentando tirar RG e não estão me deixando tirar foto com a camisa do Corinthians. Tem alguma lei que diga que não pode tirar foto pra documento com camisa de time de futebol?

– Olha, que eu me lembre a lei sobre documentos diz que tem que ter fundo branco e não pode ter nenhuma manifestação ideológica.

– E time é manifestação ideológica?

– Pode ser entendido como.

– Beleza, valeu.

Que maravilha. Se a minha camisa dissesse “Deus é Fiel”, duvido que me impediriam de tirar foto. E se “Deus é Fiel” não é ideológico, não sei mais o que é. Não à toa  Bob Dylan disse que pra ser honesto você tem que andar fora da lei.

Mas voltando, 18h30, meu tempo se esgotava. Resolvi forçar a barra. Voltei pra moça das fotos.

– Oi… olha, e se eu colocar a camiseta ao contrário?

– O que a supervisora disse?

– Que não pode camisa de time, mas não disse nada ao contrário.

– Olha, moço, é melhor eu não fazer, se não vai sobrar pra mim.

Ciente de que tanto ela quanto a supervisora só cumpriam alguma determinação esdrúxula vinda de cima, segurei minha raiva e tentei pensar.

Lembrei que tenho um amigo que trabalha na Galeria do Rock, aonde daria pra ir e voltar a tempo.

Restava torcer pra que ele estivesse lá e pra que tivesse uma camisa pra emprestar.

– Fala Didi.

– Fala Mandioca, tudo bem?

– Tudo. Rapaz, me diz uma coisa, você tem uma camisa pra me emprestar? Não estão me deixando tirar foto pro RG lá no Poupa-Tempo com essa do Corinthians.

– Pô, cara, só se for uma da loja.

– Mas eu não tenho grana pra comprar…

– Não esquenta, vai lá, tira a foto e depois me devolve.

– Não vai ficar ruim pra você?

– Não, vai lá.

Agradeci e fui, correndo, que já eram 18h45.

Cheguei e a moça da foto sorriu.

– Conseguiu?

– Consegui.

– Então vamos rápido que eu já tô pra fechar.

Entrei na cabine, tirei a camisa preta e… surpresa.

A estampa, na frente, era… VERDE.

Muita sacanagem.

Estiquei a camisa pra baixo o máximo que pude e tirei a foto mesmo assim.

Das 6, uma saiu sem o verde. Era essa.

Dei entrada no pedido e me sentei pra esperar. Rapidamente, fui chamado para ser atendido.

No guichê de onde acabava de levantar um são-paulino.

Não era possível, os deuses da bola estavam de armação pra mim. Só faltava o Pedro aparecer e dizer “é uma cilada, Bino!” a atendente ser santista.

Não era.

Mesmo assim, depois de tudo, resolvi que era hora da vingança.

Coloquei minhas impressões digitais, confirmei os dados e esperei pela hora da assinatura.

– Assina aqui do jeito que vai ficar no RG.

– Precisa ser igual ao antigo?

– Não.

Não tive dúvidas.

A mulher olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel mais uma vez.

E perguntou:

– Você escreveu… Corinthians?

– Sim.

– Olha, não sei se pode.

– Pode sim, a assinatura é minha, faço como quiser.

– Pera que eu vou perguntar.

Já imaginei ela mostrando pra mesma supervisora de antes e pronto, iam achar que eu tava de sacanagem com as tradições e os bons costumes desse país tão sensato chamado Brasil onde usar a camisa de seu time pra tirar foto pro seu próprio documento é quase um crime.

Mas tive sorte finalmente, e o outro atendente, a quem ela tinha consultado, confirmou que podia.

Hoje, voltei ao Poupa-Tempo pra buscar meu novo RG.

Que tem uma foto com o cabelo desarrumado e um sorriso cansado e uma assinatura com letra de criança.

Mas no qual, assim como domingo, deu Corinthians*.

Mesmo que aos 47 do segundo – ou melhor, às 19h20 de segunda.

DHVCorinthians

DHVCorinthians

*OK, o dérbi empatou, mas o RG também: eles ganharam na foto, eu na assinatura. No placar moral, deu Corinthians.

A fome

Hoje, por volta de onze e meia da noite, eu voltava de um passeio com a minha cachorra pelo Largo do Arouche quando, a poucos metros de casa, um senhor barbado, negro, mancando de uma perna, me chamou.

– Ei, amigo, por favor.

Parei pra escutar.

Ele queria comida.

Pedia arroz e feijão, estava “com muita vontade” de comer arroz e feijão.

Andava a duas horas, mancando, pedindo comida, e nada.

O homem chorava.

Não, não foi a primeira vez que me aconteceu isso.

Nem a primeira vez que neguei por estar de bolsos vazios – passear a cachorra não demanda dinheiro.

Mas fazia tempo que alguém não olhava nos meus olhos implorando comida.

Que eu não pude dar.

Cheguei em casa e, num impulso, enchi um recipiente com arroz e feijão, esquentei no micro-ondas, peguei um garfo e desci correndo pra ver se o homem ainda andava pela minha rua.

Procurei pelo entorno do Largo do Arouche por cerca de 15 minutos.

Não o encontrei.

Haviam muitas outras pessoas procurando comida pelos lixos.

Mas eu não procurava alguém pra expiar um sentimento de culpa.

Procurava eu mesmo.

Poucas sensações neste mundo podem ser piores do que não poder ajudar uma pessoa com fome.

Não importa se aquele prato nem salvaria o mundo, nem resolveria o problema da fome daquele senhor pra todo o sempre.

O fato é que, por mais assistencialista, excuso de consciência ou altruísmo burguês que possa parecer, me senti impelido a ajudar um homem que olhou nos meus olhos e implorou por comida.

E eu não pude dar.

E se o fato de isso me incomodar tanto a ponto de marejar os olhos não deve ser tomado como motivo de orgulho, também não deve passar despercebido.

Há mais entre duas pessoas que se cruzam numa rua deserta do centro à noite do que qualquer discurso ideológico sobre a fome pode dizer.

Mundo lixo

Dez mil anos de humanidade pra chegar a isso.

Eu juro que teria orgasmos múltiplos de pegar um filho da puta que faz isso e quebrar osso por osso do corpo dele antes de atear fogo.

Juro.

Mas aí, é Natal, e o Corinthians contratou Ronaldo.

Então, vamos comprar presentes.

Sem mendigos nas portas das lojas pra atrapalhar o comércio.

Sapatazo

(http://www.rebelion.org/noticia.php?id=77602

19 de Dezembro:

Dia Internacional do Sapataço Reivindicativo contra Bush 

por Okrim Al Qasal 

Depois de assistir a Monazer al Zaidi lançar dois sapatos contra George Bush en Bagdad, senti primeiro uma sensação reconfortante … e depois … depois um pouco de inveja. Porque não me ocorre melhor exercício de catarse do que esse. Ainda mais quando a ordem mundial impede qualquer outro tipo de justiça, com um juízo contra o principal orquestrador da invasão mais ilegal e da guerra mais sangrenta vista em décadas. 
Por isso me ocorreu que todos nós podemos, em solidariedade e apoio a essa merecida mostra de desprezo e de reivindicação de todo um povo, acorrer à embaixada estadunidense mais próxima, armados de alguns sapatos em mal estado, para lançá-los contra a fachada. 
Os que não têm representação estadunidense em sua cidade, ou que não podem aproximar-se da mesma por motivos óbvios (lançar um objeto qualquer contra a embaixada dos Estados Unidos é morte quase certa) sempre terão o recurso do boneco ou efígie de Bush, e convidar os transeuntes a lançar-lhe seus sapatos. 
Me ocorre que, tendo começado a invasão ao Iraque em um dia 19 (de março de 2003), a data ideal seria este 19 de Dezembro, para que haja tempo de convocar e que, além disso, não passe a febre “sapateira”. 

Dia 19 de Dezembro de 2008: Dia Internacional do Sapataço Reivindicativo contra Bush. Todos à embaixada estadunidense mais próxima, com nosso calçado mais velho e imprestável, para lançá-lo ao grito de “Aí vai teu beijo de despedida, cachorro!”. 

(traduzido de www.rebelion.org)

Homem-primata

Estamos no metrô, Camila e eu.

Atrás de nós, um trio de piriguétis conversa sobre suas conquistas.

Até que uma delas vira e fala, indignadinha:

– Mêo, eu não vou ficar com um cara que o apelido é PRIMATA.

Na hora, seguramos o riso.

Mas depois, em casa, pensei que deveria ter virado pra ela e dito:

– É isso aí, criança. Não é porque todas ficam que você tem de ficar.

OK, nem todas ficam e nem todos são primatas, na acepção símio-sociológica da palavra.

Mas o que são 0,01% dentro de um grupo estatístico se não a exceção que confirma a regra?

E não me venham os homens-bonzinhos nem as namoradas-de-homens-bonzinhos me falar que eu estou generalizando.

Aprendam: Amélie Poulain é só um filme.

Tão mentiroso que nem teve continuação.

Seu Cido

Aqui onde trabalho tem um senhor, o Seu Cido, que vem de vez em quando.

Deveria estar aposentado já, mas aposentar significa perder quase metade do salário, então…

Aí esses dias ele começou a falar de futebol.

Do time que tinham por aqui quando eram do FUNRURAL (aquela instituição feita pra aposentar cabos eleitorais com doze aposentadorias diferentes, uma por cada cidade em que atuava, que funcionou de 76 a 79, lembram?).

E não é que o seu Cido era meia-esquerda, dos bons?

Fiquei quase 30 minutos ouvindo as suas histórias.

Histórias de um outro tempo, do trabalho e do lazer, que permitiam outras relações.

Histórias apaixonantes, que me lembram as da minha avó – como podemos deixar nossos idosos abandonados como deixamos quando são eles a nossa história viva, muito mais que os livros institucionais das escolinhas da vida?

Seu Cido, quando jovem, lá em São José do Rio Preto, chegou a treinar com os profissionais do Rio Preto. “Mas eu gostava era de jogar bola, aquilo era muito rígido, tinha massagem nos joelhos, laranjinha” (pra chupar antes dos jogos). E de ir aos jogos do América, na primeira divisão, “pra ver o Santos, o Palmeiras, o Corinthians” – e ainda tem gente que defende o fim dos estaduais… 

Deviam propor é o fim do profissional logo, “que isso aí, hoje, com essas bolas levinhas, essas chuteiras coloridas, isso virou palhaçada”.

Seu Cido gostava mesmo é da várzea.

De bater faltas da meia-lua, que ele treinava desde criança, com traves de zinco que improvisava no muro de casa – “escolinha de futebol? Eu aprendi a chutar com os dois pés no muro de casa e essa molecada hoje não sabe nem cruzar uma bola”…

Faltas que surpreenderam o goleiro do Brasil da Mooca, melhor time da várzea na época, quando o time do FUNRURAL, com seu uniforme alviverde (“mas a camisa era branca, que verde eu não usava”, disse o corinthiano Seu Cido), foi visitá-los e acabou vencendo por 2 x 1.

“Um grande time, a gente tinha”. 

O mesmo do ex-profissional Toninho Vanusa e do grande central Waldemar com suas bombas de falta.

Que jogava de segunda a sábado, entre o campo e o salão. “Eu macetava melhoral com café pra aguentar, mas não faz isso não, que é ruim pro coração”.

Que enfrentou e venceu o Botafogo da Penha, com mais um gol de falta do Seu Cido, que contou com a honestidade do goleiro, já que a bola passou por um buraco da rede “e o juiz não quis dar o gol não”.

Mas lembrança mesmo Seu Cido tem dos jogos de semana à noite, “os refletores todos ligados”, principalmente contra o time do INPS, “que tinha um uniforme azulão”. Ganharam deles “duas vezes, uma no campo deles na Mooca, 1 x 0, e outra lá em Interlagos, que eles não quiseram jogar na Mooca, 5 x 1, o Waldemar fez até um gol de pênalti, que ele adorava fazer gol de pênalti e falta”. 

É, zagueiro, quando tem chance, tem que aproveitar.

Aliás, zagueiro dos bons, “que era difícil passar daquela zaga viu, e sem apelar eles jogavam”.

E não jogavam em casa?

“Não, a gente gostava mesmo era de rodar”.

Até que aos 45 (cabalisticamente), Seu Cido parou. Suas pernas já não aguentavam mais. 

A conversa acabou e eu fiquei aqui imaginando Seu Cido jovem, com o uniforme “que eu mesmo desenhei o escudo, devo ter em casa, vou trazer pra você”, jogando contra o time dos funcionários da FEBEM, “num campo bonito, gramado, grande”, ao lado do meia-direita “inteligente, envolvido com esses negócios de greve, mas que usava muita bolinha viu, mas a gente fez ele parar”, ganhando “uns troféus grandes, viu, bonitos, tenho foto lá em casa, você vai ver”.

Época em que a vida de trabalhador era dura, mas era vida, e o futebol era rude, mas era festa pra todos, e não só pra alguns.

Quando o time do FUNRURAL, indo jogar salão de terça-feira contra o Primeiro de Maio do Tatuapé, escutava sempre dos adversários, ao fim do jogo, perdendo ou ganhando:

– Amanhã vocês vem de novo, né?

Saudades românticas do que eu nunca vivi?

Não, não.

Inspiração pro que eu ainda tenho por viver.