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Sobre heróis e ladrões

Aquí en mi celda estoy muy solo
Sólo hay lugar para soñar, soñar, soñar
Sueños de espadas y serpientes
Sueños de muerte y libertad*

Voltava do trabalho, fones nos ouvidos, naquele que é o mais voluntário dos autismos, uma versão moderna do isolamento, como que um monge urbano. De repente uma turba. E parou.

Sacou os fones, e:

– Que houve?

– Ele estava roubando carteiras.

Do lado oposto da rua, dois heróis e um ladrão, este a apanhar e ser seguro por aqueles. E mais dezenas de espectros das dores, a observar.

– Já não bateram o suficiente? Chamem a polícia e pronto! – bradou algum.

– Se é ladrão tem que matar. Tem que matar todos – outro – ou seria a televisão a reprisar o Rio de Janeiro?

Do lado de lá, a cena.

O batedor de carteiras, já homem feito, tentava desvencilhar dos braços do herói vermelho, enquanto o herói azul lhe apontava o dedo, em riste. Todos a esperar, pela lei.

Que chegou em seus tons de cinza, calmamente, a interrogar, o ladrão e os heróis, todos. O herói vermelho ainda a segurar o ladrão, olhos vibrando de satisfação pelo serviço à sociedade, e o azul ainda a lhe bradar pela moral.

No ladrão, via-se, a dor. Não das pancadas, que essas devia já ter acostumado, mas do espetáculo. Do circo. Da transformação de marginal em protagonista. Da humilhação pública.

A lei, calmamente, a interrogar.

Era melhor voltar a ser invisível – ele, e o ladrão, também.

Apalpou a carteira pensando que não queria, não com ele, voltou aos fones, e, curiosamente, viu que a música era como que profeta. Daquilo, e de todo o resto.

Então teve vontade de chorar. De sumir. De vomitar.

Porque – soube pela música – odiamos o cambista, e não o lucro; o flanelinha, e não a venda do espaço; o ladrão, e não a propriedade.

Puta que o pariu, como queria conseguir permanecer alheio.

Sábios fones, aqueles.

Malditos fones.

*Attaque 77 – Espadas y Serpientes

Centro em chamas

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

O absurdo da lei, a ironia do acaso e o sabor da vingança

Estou indo pra Argentina no próximo dia 14 e o meu RG está aberto. Pra evitar problemas, então, segunda-feira fui ao Poupa-Tempo da Luz fazer uma segunda via.

Como lá mesmo dá pra tirar foto, não me importei em fazer isso antes. Aproveitei também o fato de ter um amigo que trabalha lá pra ir no melhor horário, entre 18h e 19h da tarde/noite.

Então, por volta de 18h10, trajando uma camisa do Corinthians, como quase sempre, deixei minha casa rumo ao desafio.

Que já começou a encrencar logo de cara.

– Oi, quanto é a foto pra documento?

– 6 fotos, 5 reais.

– Tá, quero tirar.

– Não pode.

– Porque?

– Não pode tirar com camisa de time.

– Mas porque não?

– Não sei, moço, mas não pode.

Pronto. Se eu tivesse que voltar pra casa pra trocar de camisa, além de ficar muito puto, não daria tempo de completar a missão. Felizmente, pensei rápido e fui falar com o amigo que por lá labuta.

– Por favor, onde encontro o Felipe?

– Nas mesas.

Fui até as mesas.

– Fala Sema!

– E aí, mêo!

– Cara, seguinte, tem uma camisa pra me emprestar? Não pode tirar foto com camisa de time pra documento.

– Putz, mêo, a única camisa que tenho na mala também é do Corinthians. Mas ó, eu já peguei várias fotos com camisa de time, vê direito isso lá na frente.

Voltei à moça das fotos.

– Oi, então, falei com um colega que trabalha aqui…

– Que colega?

– O Felipe, e ele…

– Um magrelo altão?

– Esse.

– Adoro ele, sempre pentelho ele.

– Então, mas acontece que ele não tem uma camisa pra me emprestar, mas disse que já pegou gente com foto com camisa de time várias vezes.

– Olha, moço, se eu tirar e não te deixarem fazer você vai ficar bravo comigo… você não quer falar com a supervisora antes?

– Ahn… tudo bem.

E lá fui eu falar com a supervisora.

– Oi, boa tarde. Eu queria tirar uma segunda via de RG e não estão me deixando tirar foto porque estou com camisa de time. Não pode mesmo?

– Não.

– Mas porquê não?

E ela, com uma cara de “que pergunta absurdamente inconveniente”:

– Porque é DOCUMENTO!

– Que que tem?

– Documento é coisa séria, meu filho!

– Meu time é coisa séria pra mim.

– Mas não pode, antigamente tinha que tirar até de gravata!

– Só se for antigamente nos tempos do meu avô, porque meu pai tá de regata e black power no RG dele. Tem alguma lei que diga isso?

– Tem…

– Qual?

– Não sei, mas não pode.

E virou as costas.

Inconformado, falei com um amigo meu que é advogado.

– Me diz uma coisa, estou aqui no Poupa-Tempo tentando tirar RG e não estão me deixando tirar foto com a camisa do Corinthians. Tem alguma lei que diga que não pode tirar foto pra documento com camisa de time de futebol?

– Olha, que eu me lembre a lei sobre documentos diz que tem que ter fundo branco e não pode ter nenhuma manifestação ideológica.

– E time é manifestação ideológica?

– Pode ser entendido como.

– Beleza, valeu.

Que maravilha. Se a minha camisa dissesse “Deus é Fiel”, duvido que me impediriam de tirar foto. E se “Deus é Fiel” não é ideológico, não sei mais o que é. Não à toa  Bob Dylan disse que pra ser honesto você tem que andar fora da lei.

Mas voltando, 18h30, meu tempo se esgotava. Resolvi forçar a barra. Voltei pra moça das fotos.

– Oi… olha, e se eu colocar a camiseta ao contrário?

– O que a supervisora disse?

– Que não pode camisa de time, mas não disse nada ao contrário.

– Olha, moço, é melhor eu não fazer, se não vai sobrar pra mim.

Ciente de que tanto ela quanto a supervisora só cumpriam alguma determinação esdrúxula vinda de cima, segurei minha raiva e tentei pensar.

Lembrei que tenho um amigo que trabalha na Galeria do Rock, aonde daria pra ir e voltar a tempo.

Restava torcer pra que ele estivesse lá e pra que tivesse uma camisa pra emprestar.

– Fala Didi.

– Fala Mandioca, tudo bem?

– Tudo. Rapaz, me diz uma coisa, você tem uma camisa pra me emprestar? Não estão me deixando tirar foto pro RG lá no Poupa-Tempo com essa do Corinthians.

– Pô, cara, só se for uma da loja.

– Mas eu não tenho grana pra comprar…

– Não esquenta, vai lá, tira a foto e depois me devolve.

– Não vai ficar ruim pra você?

– Não, vai lá.

Agradeci e fui, correndo, que já eram 18h45.

Cheguei e a moça da foto sorriu.

– Conseguiu?

– Consegui.

– Então vamos rápido que eu já tô pra fechar.

Entrei na cabine, tirei a camisa preta e… surpresa.

A estampa, na frente, era… VERDE.

Muita sacanagem.

Estiquei a camisa pra baixo o máximo que pude e tirei a foto mesmo assim.

Das 6, uma saiu sem o verde. Era essa.

Dei entrada no pedido e me sentei pra esperar. Rapidamente, fui chamado para ser atendido.

No guichê de onde acabava de levantar um são-paulino.

Não era possível, os deuses da bola estavam de armação pra mim. Só faltava o Pedro aparecer e dizer “é uma cilada, Bino!” a atendente ser santista.

Não era.

Mesmo assim, depois de tudo, resolvi que era hora da vingança.

Coloquei minhas impressões digitais, confirmei os dados e esperei pela hora da assinatura.

– Assina aqui do jeito que vai ficar no RG.

– Precisa ser igual ao antigo?

– Não.

Não tive dúvidas.

A mulher olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel mais uma vez.

E perguntou:

– Você escreveu… Corinthians?

– Sim.

– Olha, não sei se pode.

– Pode sim, a assinatura é minha, faço como quiser.

– Pera que eu vou perguntar.

Já imaginei ela mostrando pra mesma supervisora de antes e pronto, iam achar que eu tava de sacanagem com as tradições e os bons costumes desse país tão sensato chamado Brasil onde usar a camisa de seu time pra tirar foto pro seu próprio documento é quase um crime.

Mas tive sorte finalmente, e o outro atendente, a quem ela tinha consultado, confirmou que podia.

Hoje, voltei ao Poupa-Tempo pra buscar meu novo RG.

Que tem uma foto com o cabelo desarrumado e um sorriso cansado e uma assinatura com letra de criança.

Mas no qual, assim como domingo, deu Corinthians*.

Mesmo que aos 47 do segundo – ou melhor, às 19h20 de segunda.

DHVCorinthians

DHVCorinthians

*OK, o dérbi empatou, mas o RG também: eles ganharam na foto, eu na assinatura. No placar moral, deu Corinthians.

A fome

Hoje, por volta de onze e meia da noite, eu voltava de um passeio com a minha cachorra pelo Largo do Arouche quando, a poucos metros de casa, um senhor barbado, negro, mancando de uma perna, me chamou.

– Ei, amigo, por favor.

Parei pra escutar.

Ele queria comida.

Pedia arroz e feijão, estava “com muita vontade” de comer arroz e feijão.

Andava a duas horas, mancando, pedindo comida, e nada.

O homem chorava.

Não, não foi a primeira vez que me aconteceu isso.

Nem a primeira vez que neguei por estar de bolsos vazios – passear a cachorra não demanda dinheiro.

Mas fazia tempo que alguém não olhava nos meus olhos implorando comida.

Que eu não pude dar.

Cheguei em casa e, num impulso, enchi um recipiente com arroz e feijão, esquentei no micro-ondas, peguei um garfo e desci correndo pra ver se o homem ainda andava pela minha rua.

Procurei pelo entorno do Largo do Arouche por cerca de 15 minutos.

Não o encontrei.

Haviam muitas outras pessoas procurando comida pelos lixos.

Mas eu não procurava alguém pra expiar um sentimento de culpa.

Procurava eu mesmo.

Poucas sensações neste mundo podem ser piores do que não poder ajudar uma pessoa com fome.

Não importa se aquele prato nem salvaria o mundo, nem resolveria o problema da fome daquele senhor pra todo o sempre.

O fato é que, por mais assistencialista, excuso de consciência ou altruísmo burguês que possa parecer, me senti impelido a ajudar um homem que olhou nos meus olhos e implorou por comida.

E eu não pude dar.

E se o fato de isso me incomodar tanto a ponto de marejar os olhos não deve ser tomado como motivo de orgulho, também não deve passar despercebido.

Há mais entre duas pessoas que se cruzam numa rua deserta do centro à noite do que qualquer discurso ideológico sobre a fome pode dizer.