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Três

Ter perdido meu pai não me torna um herói. Nem um coitado. Longe disso, bem longe. Todo dia pessoas perdem pessoas. Às vezes sem morte. Isso sim é triste.

Não sou de vidro. Talvez escrever tudo isso faça parecer com que seja. Não quero olhares de dó nem perguntas “você está bem”. Socorro. Isso não é um pedido de socorro.

Meu pai era um cara engraçado.

***

Quando eu era pequeno, não gostava muito de Chaves. Queria ver Globo Esporte. Tinha que ver no quarto. A sala era dele. Tudo ao contrário. Normalmente as crianças é que querem ver programas infantis. Depois fui descobrir que Chaves não é exatamente um programa infantil. Quando cresci um pouco mais, meu pai me mostrou Monty Python, Caça-Fantasmas, Loucademia de Polícia, Trapalhões quando ainda era bom. Ele gostava de dar risada. De fazer os outros rirem.

Todo amigo meu que passava lá em casa ganhava um apelido. A maioria vinha do Chaves. Alguns de Carrossel, que minha irmã adorava. Ele tirava as pessoas do lugar de respeito pelo ambiente alheio e as colocava em casa. Um mecanismo interessante: desconcertar para desconcentrar. Dá pra usar isso numa guerra, se bobear. Se é que já não usaram. O que já não usaram numa guerra?

Uma coisa que herdei de meu pai muito bem foi a capacidade de observar e escutar o entorno. Pra fazer piada. Você estava conversando com alguém e de repente ele entrava no meio com alguma piada. No tempo certo, quase sempre. Uma vez minha mãe e minha irmã gritavam uma com a outra pela casa até que foram cada uma para seu quarto e minha mãe gritou, por final: “autoritária é a sua vó!”. Não deu outra: meu pai esperou menos de 1 minuto pra abrir a porta do quarto da minha irmã e dizer, tentando imitar o Chaves: “Luciana, sua avozinha era parente do Mussolini?”. Minha irmã não sabia se ria ou gritava.

Minha irmã, aliás, adorava fazer brigadeiro. Daqueles leite condensado com nescau mesmo. Nos lambuzávamos de comer. Era meio absurdo, até: mal o doce saía do fogo e já estavam 3 ou 4 crianças queimando a língua. Dava briga, às vezes. Os pais tentavam controlar daquele jeito observador, só pra garantir que ninguém se machuque. Meu pai nem tanto. Ele se preocupava mais com outra coisa: a tigela.

A tigela do brigadeiro sempre era largada em algum canto. Suja. Com o doce impregnando no vidro de forma a exigir água quente pra sair. Uma vez a tigela ficou em cima da pia. Meu pai pediu à minha irmã que lavasse. Um dia. Dois. Três. Cinco. Sete dias depois, minha irmã foi acordada às 7 da manhã por ele cantando “parabéns” com a tigela suja na mão, uma velinha em cima.

Mas meu pai sabia rir dele mesmo também. Contava de quando foi acampar na praia e se meteu a nadar no mar bravo pela manhã. Quase se afogou. Gritou por socorro. Os amigos fizeram uma corrente, dando as mãos uns aos outros, e chegaram até ele. O trouxeram para fora do mar e, quando ele abriu a boca, o primeiro deles começou a rir descontroladamente. Meu pai ficou sem entender. Pôs a mão na boca e… tinha perdido a dentadura.

Haviam em casa ainda as piadas prontas. Como quando minha mãe ia tomar banho. Era certeza que ela gritaria do banheiro para pedir algo. Ou para dizer algo. Quase sempre algo que poderia ser dito depois, ou pedido depois. Uma dessas vezes meu pai estava deitado vendo TV e ela chamou. Ele resmungou, mas foi lá. Era qualquer coisa inútil. Voltou puto da vida. Mal encostou a cabeça no travesseiro e ela chamou de novo. Ele voltou lá semi-enfurecido. Discutiram. Quando ele voltou, ficou andando de um lado pro outro. Eu prestava atenção na TV. Percebi que ele não se sentava, nem deitava, e perguntei porquê. Ele respondeu, “se eu deitar ela vai me chamar de novo”. Comecei a rir. Ele também. Esperou mais uns 2 minutos e deitou. Quer dizer, tentou: enconstou a bunda no colchão e veio o grito: “Cleeeeeeeeber”. Caímos na gargalhada.

Outra vez, minha namorada tinha dormido em casa e, de manhã, estávamos todos na sala, conjecturando sobre o café. Meu pai dormia. Ao menos parecia. Minha mãe pediu à minha namorada, brincando, que fizesse café. Ela respondeu que não sabia. Minha mãe questionou “como assim, você não sabe fazer café?”. Minha irmã fez o mesmo. Eu também. De repente meu pai levanta do colchão como um zumbi e quase grita, “COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE FAZER CAFÉ?”. O filho da puta sabia esperar a hora exata pra fazer graça.

Minha avó sempre me diz que eu sou meu pai escrito. Acho que ela quer dizer que me pareço muito com ele no jeito de agir.

Não sei.

Preciso conseguir fazer rir mais do que chorar pra isso.

***

Além do cigarro, meu pai era viciado em café. Um café nojento: no bar, quando pedia, ele jogava metade fora, completava com água fria e colocava, sem exagero, no mínimo um terço do copo de açúcar. Em casa, fazia o mesmo, com o agravante de deixar o copo sobre a geladeira por dias, tomando de gole em gole.

Era irritante quando ele me levava pra jogar no Corinthians. Ele tomava café no bar entre nossa casa e o ponto de ônibus. Pegávamos o ônibus, descíamos na avenida Celso Garcia e tínhamos que descer toda a rua São Jorge a pé. A rua São Jorge tem uns quatrocentos botecos. Meu pai tomava café em metade deles. Às vezes isso fazia com que eu chegasse atrasado, ou em cima da hora do jogo, o que significava ser reserva. Eu odiava aquilo. Um dia, com 13 anos, me revoltei. Já estávamos em cima da hora e ele parou no bar perto de casa. Fiquei puto, discuti com ele e saí andando. Peguei o ônibus e fui sozinho pro jogo. Cheguei em cima da hora. O filho da puta já estava lá me esperando. Tinha pego um táxi.

Meu pai nunca estava errado.

***

Em termos financeiros, meus pais formavam um equilíbrio arriscado. Fácil de ser rompido. Minha mãe sempre foi contida e precavida, pagando as contas em dia, guardando dinheiro pra eventuais emergências. Meio paranóica até. Meu pai era o oposto. Se empolgava com novidades e comprava. Até hoje temos trocentas peças de computador sem uso em casa.

Eu não reclamava muito. Pedia 5 reais pro meu pai e ganhava 10. Com a minha mãe era igual, só que ela me dizia pra gastar direito. Pra guardar o que sobrasse.

Quando eles se casaram, deram entrada em um apartamento no Piqueri. Anos depois, venderam a parte que já estava paga e compraram duas bancas de jornal. As bancas não deram certo, foram vendidas. Com o dinheiro, meu pai comprou um videocassete.

Minha mãe tinha um apartamento e acabou com um videocassete.

***

O Abu adorava minha irmã, mais do que eu. Era o cão dela. Depois, minha irmã foi pra Austrália. Eu já morava fora da casa dos meus pais. Minha mãe trabalhava. Meu pai, doente, em casa, virou seu companheiro de todos os dias.

Me lembro de quando chegamos da cremação de meu pai, exaustos. Física e emocionalmente. Abrimos a porta e não tivemos muitas forças pra fazer festa pro cão. Ele pulou um pouco em cada um. No meio da sala, ficava a cama onde meu pai dormia. Fomos nos trocar.

Quando voltei, Abu estava deitado sobre aquela cama, olhando pra porta. Não tinha chegado todo mundo. Faltava seu companheiro.

Não há palavras no mundo que possam expressar o vazio que vi em seus olhos.

Lembro que naquela noite dormi naquela cama. Abu, que nunca foi muito de colo, dormiu comigo, aos meus pés.

Sempre com os olhos virados para a porta.

Até hoje.

Como dizer a um cachorro que ele não vem mais?