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Café da manhã

Era homem-homem e tinha orgulho disso. Nada de afetações, desvios ou cabeça aberta. Homem faz coisa de homem e ponto. Aprendeu assim, criou os filhos assim. E todo dia no café da manhã, que era praticamente a única hora do dia em que a família se reunia, fazia questão de reafirmar isso. Pro filho mais velho e pra filha também. Tudo bem que os tempos são outros e que agora algumas coisas são comuns, mas tem limites. E ele sempre deixava os limites claros.

O casal de filhos nunca respondia. Não sabia se isso era obediência ou medo. Tem diferença? Não importava, importava que escutassem e tratassem de levar aquilo a sério. Bom comportamento na escola, lisura no trabalho, decência na rua. Era a sustentação da sua existência e não abria mão. Não sabia nem como, não sabia como era ser de outro jeito. Até que um dia aconteceu algo inesperado.

– Filho, por favor, puxe a oração pra podermos comer.
– Não.
– Como não???
– Não vou puxar nada. Cansei. Deus não existe, pai. Não pra mim. Chega.

Uma cólera tomou conta do seu corpo. Jogou-se com força pra trás pra arrastar a cadeira e paralisou. Do jeito que estava, ficou. Meio curvado sobre a mesa, a bunda descolada da cadeira, as duas mãos segurando o assento, as pernas semiflexionadas de quem estava por levantar. Não conseguia se mexer, nem falar. A cólera virou pavor. O que era aquilo?

O filho, que já estava de pé preparado pro enfrentamento, não entendeu.

– Pai… pai?

Silêncio. Tentou tocá-lo. Estava duro como pedra. Como se todos os músculos do corpo estivessem retesados. A mãe assustada. A filha mastigando pão meio que no automático, ainda sem entender muito bem o que acontecia.

E ele imóvel.

Chamaram uma ambulância. Não conseguiam movê-lo, e qualquer tentativa parecia causar dor – bom, era o que dava a entender pelo arregalar dos olhos dele, a única parte do corpo que ainda comunicava algo. Vieram os paramédicos. Acharam que era brincadeira. Não era. Não sabiam o que fazer. A mãe ligou pro médico da família. Também não resolveu. Chamaram especialistas, veio mídia, um caso raro de síndrome do encarceramento misturada com uma cãibra corporal em todos os músculos motores. Não podiam deitá-lo, nem sentá-lo, nem nada. A TV chamava de “homo erectus”, num trocadilho científico infame. O povo do bairro falava em Medusa, invertendo os vetores do mito grego. Virou “sêo Medusa”, que em menos de uma semana já era “sêo Medú”.

Os filhos não gostavam muito dele, é fato, mas também não estavam contentes. Fora o assédio nas ruas, aquele pai petrificado na mesa da cozinha era algo perturbador. Resolveram que iriam tentar manter a normalidade e continuar tomando café junto com ele. Só que agora quem falava eram eles. O pai só escutava. Aquela inversão de papéis foi tornando tudo diferente, e de repente tinham coragem pra fazer e contar tudo que antes era proibido. Primeiro foi a filha.

– Pai, vou largar a arquitetura. Odeio a faculdade. Quero ser cabeleireira.

Ele piscou alucinadamente em reprovação, até as pálpebras doerem. Teve medo de paralisar os olhos também. E se os olhos param? Não ia sobrar nada.

No dia seguinte o filho apareceu de cabelo azul.

– Gostou, pai?

Foi como se enfiassem agulhas por debaixo da unha dele. O coração, um dos poucos músculos que ainda mexia, disparou. Ficou vermelho de raiva e vergonha. Seu próprio filho! E ele não podia sequer dizer uma palavra. Teve vontade de chorar. Segurou a lágrima que ameaçava escorrer.

Aquela nova relação familiar de repente foi se tornando habitual. O pai era como uma planta. Quer dizer, parte planta, parte bicho de pelúcia confessional, daqueles que você tem pra contar seus sonhos e seus problemas de noite na cama. Os médicos deixaram um acesso na veia pra que fosse alimentado, e usavam um copo com canudinho pra administrar água pela boca semi-aberta. Revezavam no aparar dos pêlos, que não paravam de crescer, e na troca de roupa. Colocaram uma sonda para as necessidades fisiológicas. E cuidar do pai virou um momento de desabafo e reflexão pra cada um deles.

O filho era quem mais falava. Contava da vontade de ir morar com dois amigos, das baladas, do beijo experimental que deu no Leandro. Gostava de pensar que o piscar do pai, cada vez mais lento, era uma forma de aceitação daquilo tudo, da vida nova que estava construindo. De uma outra pessoa surgindo ali dentro daquele corpo retraído. A filha primeiro achou aquela tarefa um peso, depois se acostumou e começou a se soltar. Fez o pai de cobaia durante todo o curso de cabeleireira. Penteados mil, cabelos descoloridos, um corte diferente a cada mês. A esposa, por algumas semanas, mal falava. Depois começou a conversar sobre as contas da casa, o problema de vazamento no banheiro, a vontade de redecorar a cozinha agora que ele fazia parte dela – a pia de mármore, os armários embutidos, a mesa, a geladeira, o fogão e ele. Aos poucos, resolveu fazer tudo que não conseguia antes da paralisação, ou pela reprovação do marido, ou pela falta de tempo. Voltou a estudar. Começou a trabalhar.

Nas primeiras semanas também vieram amigos. Do trabalho, principalmente, que era praticamente o único mundo que ele tinha. Veio o advogado, contou das possibilidades, pediu pra ele piscar uma vez pra sim e duas pra não. Acabaram resolvendo pedir uma aposentadoria por invalidez, ele relutou, achava que uma hora a paralisia tinha que passar, mas foi convencido de que era melhor não arriscar ficar sem renda e que, se um dia aquilo passasse, dava pra pedir o reingresso na firma. Depois dessa questão resolvida, quase nunca alguém de fora da família vinha vê-lo.

Depois de um mês, colocaram uma televisão na cozinha. Pra ele ver o mundo. Mas era deprimente demais saber que tudo estava em movimento e ele parado. A vida dos filhos e da esposa, vá lá, mas o mundo todo era demais. Não queria saber nada mais do que a família contava. Queria manter o mundo que ele conhecia o mais intacto possível. Aos poucos, foi pedindo para que não lhe dissessem mais as novidades. Nada de política, nem de futebol, nem de guerras ou mudanças drásticas. Se estava trancado em si próprio, queria se agarrar a essa sensação, viver essa situação ao extremo, pensar em tudo como ele deixou antes de se enclausurar.

Assim, não soube mais de nada. O mundo foi girando e ele imóvel, ali, o mesmo homem-homem de sempre. Sua masculinidade era tudo que tinha, e era a última coisa a que podia se agarrar. Não sentia mais nada por ninguém, nem o filho rebelde, nem a filha com seu próprio salão de beleza, nem a esposa que ainda cuidava dele mas seguiu com a vida e se tornou doutora – em Ciência Política. A sua falta de autonomia era humilhante, a fragilidade de sua existência, a dependência extrema da submissão da família aos seus cuidados. Sabia que era uma questão de tempo pra que seus olhos falhassem, ou o coração parasse, ou algum músculo rompesse de tanto tempo sem se mexer e ele morresse de hemorragia interna. Imaginou dez mil formas diferentes de partir, e toda noite fechava os olhos e torcia pra não abrir nunca mais.

Foi aí que aconteceu o Janjão.

Janjão era um amigo de infância. Era homem-homem também, daqueles que não leva desaforo pra casa. Um homem forte, e bruto. Juntos, várias histórias, desde moleques, na escola, na rua, no bar. Tinha vindo visitá-lo duas vezes, ficou muito tocado com a situação, mas não conseguiu voltar mais. Até que a esposa, vendo a depressão nos olhos do marido, ligou e apelou para que viesse. Janjão pensou, pensou e veio. De início, a presença do amigo fez com que ficasse ainda mais triste, as memórias de antigamente, as arruaças, os quebra-quebras, e ele ali agora, sem poder se mexer. Mas Janjão tinha um plano.

– Eu vou te tirar dessa cadeira.

Ele piscou, assustado.

– Vai doer, mas aguenta.

A mulher quis dizer não. Ele respirou fundo e fechou os olhos. Janjão, tão delicado quanto um búfalo manco, de uma vez só arrancou ele dali. Ele desgrudou da cadeira na mesma posição em que estava, deslocou um dedo em cada mão, doía, mas não disse nada. Outra vez conteve uma lágrima.

– Agora a gente vai dar uma volta. Pelos velhos tempos.

E foram pro estádio ver o time jogar. Ele numa cadeira de rodas, as mãos segurando o assento, a bunda levemente descolada. O Janjão empurrando e fazendo cara de mau pra quem olhava curioso. O jogo foi péssimo, zero a zero, mas por algumas horas ele se sentiu menos pior. Agradeceu o amigo, que voltou três dias depois, de novo a pedido da esposa, e dessa vez levou ele pro bordel – pra ela, falou que iam ao cinema. Pagou uma prostituta pra sentar e rebolar no colo dele. Ele não sentia nada, ironicamente certos músculos de seu corpo estavam mais relaxados que gelatina, enquanto todos os outros seguiam firmes como rocha. Fez o amigo entender que queria um carinho nos olhos, a única parte ainda sensível o suficiente. A prostituta massageou suas pálpebras. Sentiu algo próximo de prazer.

As saídas com Janjão trouxeram algum conforto, e ele ficou ansioso pelo próximo encontro. Janjão prometera levá-lo a um bar. Pediu pra esposa pentear seus cabelos, mas não fazer a barba, porque queria estar com cara de homem rústico pra ocasião. Janjão chegou já de noite. Partiram para o mesmo bar da época da faculdade. Janjão pediu duas vodkas, como antigamente, e depois mais duas e mais duas. Rapidamente estavam bêbados. O amigo olhou pra sonda dele e se revoltou.

– Você precisa recuperar sua dignidade. Tem que mijar sozinho, que nem homem, ainda que seja sentado – e arrancou a bolsa de seu corpo. Ele riu – não sentia dor alguma.

Foram para o banheiro. Janjão colocou-o na cabine, fechou a porta, usou o mictório e foi lavar as mãos, dando tempo para que ele se aliviasse. Um outro homem entrou no banheiro. Percebeu a situação e riu de canto de boca. Janjão não gostou e foi tirar satisfação. Começaram a brigar. O homem arrastou Janjão pra fora do banheiro. Ele, do lado de dentro da cabine, a porta fechada, só conseguia ouvir gritos, gemidos e pancadas. Vidros se quebrando. Tinha raiva, estava bêbado, queria ajudar o amigo a brigar. Mas não podia mexer mais do que os olhos. Aos poucos o barulho cessou. Janjão não voltou. Entendeu que estava sozinho. Outros homens entraram e saíram do banheiro, comentando da briga, mas ninguém tentou abrir a porta da cabine. Passou a noite ali, as calças arriadas, com dor de cabeça, querendo gritar, chamar alguém, sem saber o que teria acontecido com o amigo. Acabou dormindo.

No dia seguinte, o faxineiro da manhã achou estranho aquela cabine fechada e o cheiro forte que vinha de dentro e arrombou a porta com força, derrubando ele de boca no chão, a bunda de fora, de cócoras naquele chão gelado e imundo. Quebrou dois dentes na queda. O faxineiro achou sua carteira e ligou pra esposa, que veio resgatá-lo, constrangida, e contou que Janjão estava em coma por espancamento. Uma vez mais, ele conteve as lágrimas. Na mesma noite, perdeu o amigo e a dignidade. Sentia-se menos homem do que nunca. E voltou outra vez pra cozinha onde começou o dia em família por tantos anos.

Derrotado pela paralisia, não tinha mais esperanças. Quase um ano naquela situação. A família olhava pra ele com dó, como se fosse um cachorro moribundo. Ele só queria ficar em paz, fechado consigo mesmo, trancado no mundo que conheceu até antes daquele café da manhã. Um mundo feito por homens, de homens e para homens.

Como ele sempre foi.

Dois meses depois, numa segunda-feira de trabalho, em horário comercial, sêo Medú morreu. Naquela mesma mesa, sozinho, os olhos abertos encarando o pote de manteiga. A família só percebeu no dia seguinte. Foi cremado sem velório, porque não conseguiram esticar seu corpo pra colocar dentro de nenhum caixão.

Ninguém quis ficar com as cinzas.

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