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Delas, o tempo

As três gatas, havendo visita, se iam. Quer dizer, iam e vinham outra vez, principalmente a branquela, atirada que só. A pretinha, cheia de si, demorava mais, mas trazia consigo o ar de dona da casa a investigar quem vinha se intrometer. Só a rajada que, não mesmo.

Encantavam, elas, porque isso de que gato é distante, rá, mentira. Das grandes.

Acordava, e estavam as três à porta do quarto, ou duas, ou uma. Nenhuma, nunca. Sempre havia. E olhavam sua cara de sono, e queriam era afago, ou comida, ou o quarto com suas caixas e esconderijos.

Ele as tomava no colo, acariciava. Gostava de surpreender a pretinha. Sempre a mais difícil, cheia de não-me-toques. Mas era pegá-la e miava, a danada, e fingia querer sair, mas ficava, e fechava os olhinhos. Rendia.

Desconfiadas eram, sim, que gato não é igual gente ou cachorro. Cheiravam, e sentiam seguro, antes de tudo. Isso com os outros. Com ele, já eram. E ele delas.

Então que no dia a dia era ele que sabia das manias de uma e de outra, e de outra, que três, e eram a ele que se entregavam, como se fosse árvore de natal, ele, e enfeites, elas. De modo que nunca estava só, nada. Iam ao sofá e lhe ocupavam, pernas, braços, qualquer dobra. E logo era um festival de barrigas ao céu, e ronronares e afagos e manha. Manha, sim, que todo gato tem manha de sobrenome.

Mas não só elas. Também era ele quem as buscava. Sim, que das suas manias todas havia aquela de contar. E estava uma e outra, mas e a rajada? Essa demorava mais pra chegar, mas chegava. Então contava, e lá: uma, duas, três.

Um dia a branquela não. E uma, duas. E onde? Toca a procurar, dentro do armário, embaixo da cama, atrás da geladeira. Nada.

Uma, duas. Três?

Precisava três.

Começou a subir um suor, e que diabos, onde se enfiou? Passou pela rede na janela? Não, que não era possível, magrela mas nem tanto.

E em cima do armário, e atrás do fogão. Nada. As portas dos quartos e banheiros, como sempre, fechadas. Estaria dentro? Mas como? Foi ver.

Nada.

Era quase desespero já, e justo a branquela, frágil e delicada. Aonde, essa gata? Que se fugir aposto que não dura três minutos, porque tão bobinha, e… ouviu unhas.

Vinha de fora.

Será possível?

E sim, será possível, abrira a porta pra botar o lixo, e ela zás, disparou, que nem viu, ela que gostava de passear, sim, gata que gosta de passear, vê se pode, ia na bolsinha de pano e tudo, e nem fugir queria, só olhar a rua. Daí que porta aberta era sempre chance, pra ela. Mas ia sempre até a escada, e pronto, estátua. Esperando que ele a tomasse no colo, e quiçá a bolsinha, ou ao menos o lar outra vez.

Então operou o resgate e levantou-a e viu nos seus olhos a felicidade do reencontro, daqueles de quem espera na rodoviária por parente distante.

E a pôs no chão, donde observavam as outras duas, e pronto.

Uma, duas, três.

Que o ritmo da casa, eram elas.

Sessenta

Hoje meu pai completaria 60 anos.

Amanhã completam-se 3 meses de sua morte.

Hoje eu faço 60 anos.

Amanhã, 59 e 9 meses.

Noventa dias parecem pouco perto de sessenta anos.

Mas casa segundo sem meu pai é uma eternidade. 

Tanto não dito nesses três meses…

Fui pra Argentina, pai. Duas vezes.

Assinei Corinthians no RG.

Ronaldo finalmente jogou. E como jogou.

Estamos na final do Paulista.

Não jogamos mais no Morumbi, só como visitantes. E nos dão apenas 10% dos ingressos.

Estou solteiro de novo.

Tenho mais uma filha, a Boquita. Achei ela na rua.

E hoje eu me formo.

Pra lembrar de você, e de quanto de você esteve e está em minha tese.

Sinto saudades demais. 

Às vezes choro no almoço. 

Não um choro desalentador, mas um choro ao mesmo tempo doído e gostoso.

Dos chutes na janela em Pirituba.

Das idas ao terrão do Corinthians – lembra quando joguei de meia-esquerda e ganhei a camisa de melhor em campo?

Do Pacaembu – embora lá você esteja sempre que eu vou.

Do boa noite de todos os dias.

Eu poderia escrever muito mais do que as 198 páginas da minha tese, só de lembranças suas. Mas prefiro guardá-las, pra revê-las aos poucos.

A cada beijo em você no braço direito antes de cada jogo.

A cada gol sem abraços, sem telefonemas, sem “você viu, que golaço?”.

A cada dia sozinho neste mundo.

Mas, apesar das palavras tristes, não se preocupe, pai. Estou bem.

Completando alguns sonhos, destruindo alguns outros, criando outros novos. 

Importando alguns seus.

Não sei direito se você pode me ver, ouvir ou escutar. 

Mas se puder, olhe pela janela no dia 31 de dezembro.

Estarei lá, como a gente combinou e não cumpriu.

Correndo a São Silvestre.

E vou chegar ao fim. Duas vezes.

Uma por mim, e outra por você.

Porque você sempre foi minha mão, meus olhos, minhas pernas, meu sangue quando precisei.

Nada mais justo do que eu agora ser seus pulmões.

Parabéns, pai.

Nos encontramos nos sessenta.

Todo dia.

Beijos,

Dan.

***

P.S.: Lu, chorar de saudade não é vergonha alguma. Mas lembre sempre que o pai tá aí, tá aqui, tá em todo lugar. E sempre vai estar. Espero te ver em muito breve, quem sabe eu não vou pra Austrália em julho?

Te amo, irmãzona!