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Copa do Mundo Alternativa 2013: um relato

Nos foi roubada a chance de ser meio-campeões mundiais.

Jogamos muito, muito mesmo, aqui na Inglaterra. Metade Auto, metade Vova: seis de cada lado. Kasperas (de longe o melhor goleiro que já jogamos na vida, ex-seleção da Lituânia até os 19 anos, árbitro profissional hoje, com 22), Paulius, Arunas, Edvardas, Vaidas e Domas; Bruno (do Pelada de Esquerda), Piva, Mandioca, Arthur, Valdívia e Pedrinho (carioca que eu e o Allan conhecemos ano passado no encontro anarquista de St. Imier, que jogou no América e no Olaria até os 16). O AutoVova. Completaram ainda três Cowboys: Jesse, Phil (o Fat Gerrard) e Wilf.

Dois grupos de seis times. Caímos com os dois times dos Cowboys, o time do República, os alemães do International Harte e o World XI.

Nosso aquecimento foi feito em todos os jogos pelo Qaz, com sua dança já mundialmente conhecida. Éramos os preferidos da torcida, que contava “oficialmente” com a Mariana e a Natame pelo lado do Auto e o Regi – que foi pedalando de Londres até Wincanton – pelo lado do Vova.

No primeiro jogo, ainda sem o Pedrinho, ainda se encontrando, tomamos um gol no primeiro minuto de jogo contra o Cowboys Clássico, que contava com vários conhecidos nossos (Jack Daniels, Jack Kelly, Charlie…). Empatamos com Vaidas, o lituano que nesse jogo ainda era o camisa 10, mas que na real é um baita volante. Criamos mais 400 chaces de gol, mas terminou 1 a 1.

Segundo jogo, contra o Republica, um time ainda desmontado (faltavam jogadores, era sexta-feira), abrimos 5 a 1 fácil. No final, relaxamos e tomamos 3 gols: final, 5 x 4. Vaidas, Valdívia duas vezes, Jesse e Arthur.

Chegou o sábado e com ele o Pedrinho. A peça que faltava. O time titular ficou com Kasperas; Edvardas, Paulius, Arunas e Piva; Mandioca, Vaidas, Arthur, Pedrinho e Valdívia; Domas. O jogo era o mais difícil, contra os Cowboys principais. Pedrinho estreando, cheio de pressão. E destruimos os caras: 2 a 0 com autoridade e com direito a Mandioca perdendo um gol na pequena área nos minutos finais. Os dois gols de Pedrinho, constituição física maradoniana, um canhotinho rápido e MAROTO. Carioca da gema, que chegou com seu cavaquinho debaixo do braço depois de dois trens e uma barca. Queria mesmo estar ali. No primeiro, aproveitou rebote depois de linda troca de passes. No segundo, aproveitou a dividida de Domas com o zagueiro, pegou a sobra, limpou pra esquerda e fuzilou no cantinho.

É preciso dizer que Arthur, Valdívia e Domas, completando o quarteto ofensivo, jogaram demais. Muita movimentação, muito toque de bola, os Cowboys não viram a cor da bola. Não teve jogo físico possível, e mesmo pelo alto, nos escanteios, quando o time deles, bem mais alto, vinha em massa, tiramos TUDO.

No jogo, uma baixa: Paulius bloqueou um chute com O RIM e foi parar no hospital. Nada grave.

O segundo jogo da tarde foi sem ele, Arthur e Edvardas, que o acompanharam no hospital. Ganhamos de 4 a 0 do World XI, que depois de jogar com crianças nos primeiros jogos, contra os brasileiro-lituanos colocaram metade do bom time do Yard em campo. Wilf fez o primeiro depois de cruzamento de Pedrinho. Mandioca ampliou de pênalti. Valdívia fez o terceiro e Domas fechou o caixão em outro pênalti.

Ainda havia um jogo de grupo a ser disputado, domingo 10h, contra o International Harte. Já estávamos classificados, mas precisávamos de um empate pra ser primeiro do grupo. O Harte precisava da vitória pra ter chance. Depois de uma noite bastante agitada, foi difícil acordar cedo pra jogar. Mas estávamos todos lá.

O Harte só tinha uma jogada: lançamento longo pros dois atacantes, muito rápidos e muito bons. Um deles de origem turca. Entramos acordados com o aquecimento do Kaz, mas foi difícil correr atrás dos alemães o jogo todo, ainda mais com Arunas descontrolado jogando quase de centroavante. Nesse jogo batemos boca. O primeiro tempo terminou 1 a 0, gol de Domas de cobertura, golaço. No segundo, o Harte empatou logo de cara, gol do camisa 10 rápido e habilidoso entrando por trás da zaga e encobrindo Kasperas com um toquinho. Fizemos 2 a 1 depois de Arthur limpar uns 400 zagueiros e rolar pra Domas bater cruzado. Mais um belo gol. E o Harte igualou o marcador no final com mais um lançamento pro camisa 10, que limpou o Piva pra dentro e chutou forte, alto e cruzado pra superar Kasperas.

O empate nos deixou em primeiro e, com o Wessex, dono da casa e líder da outra chave jogando com os reservas contra o Lunatics, até então segundo colocado mas que perderia certamente pros titulares do time inglês, os grupos acabaram com Wessex e Lunaticas em primeiro e segundo no grupo A, e AutoVova e Cowboys A em primeiro e segundo do grupo B.

As duas semifinais foram vareios. O Wessex bateu o Cowboys por 5 a 0. E o AutoVova demoliu o Lunatics por 6 a 0. Gols de Arthur com uma BOMBA de esquerda no ângulo e outro na saída do goleiro; Domas, Valdívia, Vaidas e Jesse. A final seria a esperada, repetição (de certa forma) do ano anterior: Wessex x AutoVova.

Todos em volta do campo pra assistir. Torcida que começou meio a meio – tínhamos a simpatia de todos os outros times, mas o Wessex era o dono da casa – e terminou a nosso favor. E o que esperávamos ser um jogo bem difícil acabou sendo um baile: de novo com a bola no chão, o Wessex não via a bola, e só ameaçava na bola longa pro bom camisa 10. Jogavam meio sujo também: cotovelo nas costas, no pescoço, faltas duras. No primeiro tempo Arthur perdeu uma chance, Valdívia outra, até que numa das muitas reposições de bola de Kasperas (que chegavam com veneno pros atacantes nas costas dos zagueiros), a bola sobrou pra Arthur, que tabelou com Pedrinho e, com uma calma absurda, só rolou pra Valdívia na direita. Ele entrou na área e foi derrubado. Pênalti incontestável. Domas pediu pra bater e fez 1 a 0.

O segundo tempo foi inteiro a mesma coisa: o Wessex lançando a bola da área pro ataque, com 6 jogadores na intermediária nossa disputando de cabeça, e a gente segurando e puxando contra-ataques. Defendemos muito, muito, muito. Fomos monstros mesmo. No contra-ataque, todo mundo já exausto de todo o campeonato em três dias, às vezes faltava perna, às vezes o último passe. Mas o jogo era nosso, e merecido. Até que…

Até que aconteceu algo que não dá pra entender nesse tipo de torneio. Último minuto do jogo. Em mais uma bola na área, depois de pingar na altura do pênalti, Arthur protegeu com o corpo, o volante gordinho chutou a perna dele e caiu gritando, no melhor estilo “diver” que os próprios ingleses tanto condenam. O juiz, do Cowboys, até então muito bem na partida, esperou alguns segundos e apitou. De início achamos que era falta pra gente. Não era. Era pênalti.

A revolta era tão grande que Arthur chegou a tirar a camisa e sair de campo. Não acreditávamos, porque aquilo? Qual a necessidade? Mas ele manteve a decisão ridícula e eles empataram.

Fiquei de costas na cobrança, me recusei a assistir. O jogo recomeçou e terminou em seguida, indo pros pênaltis. Cogitamos não bater. Tentamos arranjar forças morais e físicas. Mas não deu: Domas perdeu o primeiro, Vaidas perdeu o segundo e Mandioca perdeu o terceiro. Eles fizeram todos.

Saí de campo tão exausto que nem conseguia pensar em discutir. Alguns Cowboys diziam “unlucky”, e eu repetia “unfair”. Os lituanos não entendiam o porque daquele assalto. Qual o sentido?

O resto da noite, todos os times – com exceção do Wessex, cujos jogadores pouco ou nada confraternizaram com os outros times por todo o campeonato – ficaram nos dizendo que fomos assaltados. Canções de que o juiz (Clarence) beberia sozinho essa noite se espalhavam. Ele, visivelmente constrangido, não olhava na nossa cara.

Nosso meio-título mundial tinha sido arrancado da gente. Não fazia sentido. Mesmo assim, nos divertimos naquela noite, com direito a começar uma guerra de feno com os blocos de feno que serviam de assento pelo local.

E voltamos pra Bristol com a certeza de que em 2014, na Bélgica, a história tem tudo pra ser diferente.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas;  em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas; em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

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Da automedicina ou O gesso mais curto da minha vida

Acordei cedo para uma consulta indesejada. Um ortopedista especialista em mãos, cirurgião de mãos. Em fase final de campeonato, não era hora de correr o risco de ouvir algo que não queria.

Eram 6h45 quando levantei. 7h25 quando entrei no metrô. Às 8h retirava a tomografia. 8h20 entrava na sala do médico.

História contada, a bolada, o tombo, a irresponsabilidade de tocar bateria no mesmo dia, o erro do primeiro médico, a conduta do segundo, a teimosia em trabalhar tendo licença pra mais de 15 dias.

O especialista, daqueles que são especialistas em seguir protocolos, deu a sentença: injeção antiinflamatória e gesso. Mais 15 dias de gesso, depois dos 7 que já tinha passado há duas semanas e depois de estar com uma tala/órtese móvel desde o dia 10/11. Depois do gesso, dizia ele, fisioterapia. Retorno em 08/12. Dois dias antes de uma possível final.

Questionei se era mesmo necessário engessar novamente. Me disse que sim, porque a órtese móvel eu ficaria tirando toda hora e mexendo o que não devia, “tirar pra ir pra balada”. Quis mandá-lo à merda. Minha órtese fede de tanto que eu a utilizo. Só tiro pra tomar banho. E hoje nem banho tomei.

Saí do consultório e fiquei aguardando o gesso. Pensei em evadir, seguir o tratamento do médico não-especialista: 6 semanas de órtese e depois fisioterapia. Já tinham sido duas, mais quatro. Um tratamento mais humano e menos protocolar. Que leva em conta as vontades e necessidades do paciente. Menos duro.

Faltou coragem. Escrevi mensagem à mãe e à namorada, “engessado de novo, que merda”. O celular não quis enviá-las. Talvez prevendo algo.

Me chamou, o rapaz do gesso.

Resignei-me. “Futebol se joga com os pés”. Vai ver dá pra jogar de todo jeito.

Na sala de gesso, lembrei do gesso mal-feito da última vez. Da pontinha espremendo o dedão. Deixei o rapaz de sobreaviso. Pareceu ofendido. Foda-se, eu não preciso sentir desconforto porque um cara que treinou pra fazer aquilo faz de má vontade. Começou a engessar e me surpreendi: não era nem uma tala, era gesso inteiro, por completo. Impossibilitava tudo. Futebol, amarrar o cadarço, tomar banho dignamente. Almoçar. Não. Não, de novo não.

Saí da sala de gesso e fui para a de injeção. “Vai doer um pouquinho”, disse o enfermeiro. Sem saber das doses de benzetacyl que tomei de 21 em 21 dias quando criança. Doença congênita, tirei baço e vesícula com 9 anos. Precisei tomar.

A injeção simplesmente não doeu. Nada.

Saí do hospital já sabendo o que iria fazer. Só precisava do tempo do ônibus pra me convencer de que estava certo.

O próprio médico disse, seu caso não é grave. As duas semanas de órtese melhoraram muito a dor, mesmo com a teimosia de trabalhar e digitar esse tempo todo. Mesmo tendo jogado bola e caído.

Reta final de campeonato. Três jogos e talvez um título aguardado há 3 anos.

Ninguém pode saber mais do meu corpo do que eu. Autônomo.

Cheguei em casa e tirei a camiseta. Nem o tênis, nem a calça. Procurei que nem louco uma tesoura. Achei uma mais ou menos. Fui para o banheiro. Liguei o chuveiro e enfiei o gesso na água quente.

Não seria fácil, eu sabia. A tesoura era uma merda. Não cortava. O gesso vencia. Era pedra, e aquilo não era joquempô pra resolver com papel. O banheiro molhava, minha calça e tênis respingados de branco. Achei outra tesoura. Pior ainda. Quebrou.

O gesso amolecia. Eu cortava, puxava, tentava usar a força. A luva aos poucos cedia. Já não tinha volta. Veio a terceira tesoura, tesourinha de unha. Ajudou mas quase nada. A raiva subia à cabeça. Porque não me recusei a fazer aquela merda? Teria poupado esforço e estresse.

Peguei de novo a primeira tesoura. Arrumei um jeito melhor de cortar. Cortava e também puxava, tentava vencer o osso do dedão à força. Nada. Um corte numa extremidade, outro na outra. Precisavam se encontrar.

Concentrei esforços naquela linha imaginária. Ligue os pontos. Deixei a água mais quente. Cabelo molhado. Calça, tênis, chão do banheiro. Um pouco mais, só um pouco mais.

Eram 10h25 quando terminei de traçar meu Equador da liberdade.

Era oficial: eu estava novamente escalado para o jogo de sábado.

“Futebol se joga com os pés”. E com a mente.

Antes, durante e depois do jogo.

O departamento médico que me aguarde. Eu volto, sei que volto. Mas não haverá nesse mundo norma de conduta que consiga me convencer de que o especialista sabe mais do meu corpo do que eu.

Sou eu. O especialista do meu corpo, sou eu.

Futebol, ao sol e ao gesso.

Ó abre alas, que eu quero jogar.

Bola e Arte

Saiu o programa Bola e Arte, da FizTV, que tem a entrevista com o Autônomos FC e a Fora de Jogo.

Assistam aqui (parte 1) e aqui (parte 2).

O Carlos Carlos, entrevistador, cara gente finíssima, soltou esse release pra divulgação:

BLOCO 01:

Bola e Arte 39 Bloco 01 – Ano II muito especial com a presença do time de várzea Autônomos F.C. e da Banda Fora de Jogo, que na real são tudo a mesma coisa!! Haha.. Um time formado com bases auto-gestionadas, com influências do Anarquismo e lutando por um futebol com mais brincadeira, menos mercadológico. Histórico do time e da banda, futebol e sociedade machista, o som da Banda Fora de Jogo e mais o que vc captar… 

BLOCO 2:  

Bola e Arte 39 Bloco 02 – Ano II muito especial com a presença do time de várzea Autônomos F.C. e da Banda Fora de Jogo, que na real são tudo a mesma coisa!! Haha.. Um time formado com bases auto-gestionadas, com influências do Anarquismo e lutando por um futebol com mais brincadeira, menos mercadológico. As entrelinhas da auto-gestão no futebol e na vida, futebol de várzea, brincadeiras futebolísticas, o som da Banda Fora de Jogo e o que vier na próxima semana…

Aproveito p/ informar que o Bola e Arte desembarcou no Rio de Janeiro e gravou uma temporada surreal com convidados muito especiais!! Em breve no ar!!!

Abs e bjs,

CarlosCarlos
Programa Bola e Arte
www.fiztv.com.br/bolaearte
CNSA – Comunidade Nossa Senhora dos Artistas

Autônomos FC internacional

Os amigos ingleses do Easton Cowboys&Cowgirls, time de futebol (e outros esportes) anti-fascista que virá ao Brasil em maio, estão organizando um show com a lendária banda punk finlandesa Riistetyt na Inglaterra para arrecadar fundos para o Autônomos FC e o Ativismo ABC!

Segue o cartaz do evento:
flyer

Divulguem!

 

O site do Easton: http://eastoncowboys.org.uk/

Ato contra a morte de Nilton César de Jesus

(peço a todos que divulguem massivamente este chamado)

Domingo último, dia 07/12, deveria ter sido um dia de festa: um clube brasileiro pela primeira vez se tornava tricampeão nacional de forma consecutiva.

Mas o que deveria ser amplamente comemorado como o sucesso de uma nova fórmula de campeonato no Brasil acabou se transformando na repetição de algo que o país se “acostumou” a assistir desde há muito, algo que rememora os anos de chumbo da ditadura: o assassinato de um torcedor já rendido por um policial que, ao tentar abusar do poder pela sociedade nele investido com uma coronhada absolutamente desnecessária, atirou contra a cabeça da vítima.

O caso, como tantos outros, foi notícia por todos o país. Serviu, como sempre, pra chocar de uma forma paralisante. Quatro dias depois, Nilton César de Jesus, 26 anos, o torcedor baleado, faleceu no hospital no Distrito Federal, enquanto José Luiz Carvalho Barreto, o policial autor do disparo, recebeu o bônus do habeas corpus ao ser enquadrado por “lesão corporal grave”.

Qualquer um que viu o vídeo do tiro pode perceber que a imprudência do policial claramente qualificaria seu ato como “homicídio culposo”, ato sem a intenção de matar, mas que acabou matando. Mas a força política da corporação policial é grande, e o assassino está – e muito provavelmente continuará por longo tempo – solto.

O caso, infelizmente, não é único. No mesmo dia, outro torcedor foi morto a tiros na zona leste de São Paulo durante as comemorações do título. E tantos outros já morreram em tantos jogos pela história de nosso futebol.

A violência, entretanto, não é exclusiva do esporte, está em todo lado. Violência que começa quando a relação social mais comum entre duas pessoas é a de comando, de hierarquia, de força, algo que se transforma em risco de morte quando entram em ação armas de fogo.

No futebol, onde a aglomeração de pessoas por partida é enorme, tal violência se instaura com ainda mais facilidade quando se assiste uma elitização e uma militarização crescentes de tudo que envolve o jogo: torcida impedida de levar faixas, preços de alimentos e horários de jogos absurdos, polícia que humilha e trata o torcedor enquanto bandido. E que entra em campo e leva jogador preso, como se viu no Recife por mais de uma vez em 2008, e que atira em torcedor desarmado e já rendido, como Nilton. Isso sem falar que o comandante da arbitragem paulista é um coronel da polícia.

Na Itália, a morte do torcedor da Lazio Gabrielle Sandri, em episódio bastante parecido com este de Brasília, causou revolta nos torcedores de todas as equipes do calcio, inclusive da rival Roma. Jogos foram paralisados e adiados ante a ameaça de invasão do gramado por parte das torcidas, em ação de protesto pelo assassinato sem sentido. O caso levou tanto o poder público quanto a federação de futebol de lá a ao menos parar para repensar as relações de força.

Aqui, no país pentacampeão do mundo, já tivemos, enquanto torcedores, inúmeras possibilidades de agir da mesma forma, e as desperdiçamos. Pensando nisso é que o Autônomos FC, equipe amadora de futebol de várzea, convoca os torcedores de todas as equipes a comparecerem com suas respectivas camisas, bandeiras, faixas e cartazes de protesto a um ato em repúdio à violência policial e à militarização do futebol, domingo, 14/12, com concentração às 14h, saindo da frente do cemitério das Clínicas às 15h30 e partindo para a Praça Charles Miller, onde acontecerá uma partida de futebol espontânea e livre em protesto à tentativa de controle de nossos corpos e mentes nos estádios do país e em memória de Nilton e de todos os torcedores mortos de maneira estúpida pela corporação policial. Convidaremos a Polícia para um jogo amistoso na Praça. Já que eles entendem tanto de futebol a ponto de estarem em todas as camadas do jogo, vamos ver se conseguem nos derrotar na bola.

Futebol é um lugar de festa. E festa não combina com botas, fuzis e capacetes, nem com proibições arbitrárias como as que perpetram nos estádios paulistas. Vamos mostrar que para além de apaixonados por esta ou aquela equipe, os mesmos que sustentam todo o mercado do negócio futebol, somos torcedores, classe única, que não aceita a morte de um companheiro de boca fechada e braços cruzados.

Em nome de todos os torcedores que querem um futebol mais democrático,

Autônomos FC

http://autonomosfc.blogspot.com

Entrevista do Auto para a ANA

Entrevista concedida pelo Autônomos FC para a ANA, Agência de Notícias Anarquistas.

 

Autônomos FC: “futebol com alegria, mais espontâneo, menos mercadológico”  

 

 

Criado por punks e anarquistas, desde 1º de maio de 2006, existe na Grande São Paulo um time de futebol autogestionado, com espírito anárquico.  O Autônomos Futebol Clube, ou “Auto”, como é carinhosamente chamado por seus “fãs”. “Um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria”, explica Kadj Oman, um dos fundadores do clube. Na entrevista a seguir, ele fala, com a espontaneidade e malandragem libertária de um bom boleiro varzeano, do Autônomos FC e do esporte mais popular do país, cada vez mais industrializado e burocratizado pelos interesses materiais. Mas que, também, sob sol e chuva, terra batida, bola improvisada, descalços, resiste, alegra e encanta nas mais diversas “peladas” das periferias e rincões miseráveis do Brasil. Confira o bate-bola:

Agência de Notícias Anarquistas > Fale um pouco sobre o Autônomos Futebol Clube, sua organização e objetivos, em que contexto ele surge…

Kadj Oman < Bom, no fim de 2005, eu comecei a organizar um campeonato de futebol de salão que se chamava Copa Autonomia. Nele, não havia juiz e as regras eram poucas. Fizemos 10 edições dessa copa sem nenhum problema. Mulheres jogavam, crianças, a gente se divertia (inclusive, dá pra ver o vídeo da 1ª edição do torneio procurando pelo nome no YouTube). Aí, no Carnaval Revolução de 2006, em Belo Horizonte (MG), acabei participando de uma palestra/bate-papo sobre futebol e revolução, e conheci o Mau, o Jão e a Mix, do Ativismo ABC. Compartilhando um pouco das nossas angústias sobre o punk e o futebol, tivemos a idéia de fazer algo nesse sentido quando voltássemos. Aí eu aproveitei que na Copa Autonomia tinha um pessoal interessado na idéia e fundamos o time, pra jogar futebol society, no início. Foi uma época de muitas alegrias e muitas derrotas, tirando as amizades que surgiram. Jogaram suíços (5 ao mesmo tempo, de uma banda de ska), argentinos, australianos, canadenses, colombianos. E muitos brasileiros, punks ou não, afeitos ao ideal de autogestão. Mas o societyera mercadológico demais pra gente, e então fomos pra várzea, onde mais e mais gente foi se interessando pelo time e ele cresceu. Hoje temos dois quadros e um time “júnior”, composto por alunos de um dos zagueiros do time. Sobre a organização, bem, a gente divide tudo, desde lavar os uniformes até ficar de gandula nos jogos, passando pela vaquinha pra pagar o campo em que jogamos, que é alugado. E os objetivos sempre foram o de resgatar o futebol com alegria, mais espontâneo, menos mercadológico, sem se fechar a qualquer um que concordasse com a idéia de autogestão. Faz pouco mais de um mês, traçamos um estatuto, já que o time está cada vez maior e a gente não quer perder o objetivo principal dele, que é se divertir. Lógico que jogamos pra ganhar, até porque fazer as coisas você mesmo pra gente significa fazer o melhor possível, mostrar o quão bom se pode ser assim. Mas não colocamos a vitória acima de tudo – aliás, só nos últimos 4 meses que o time passou a ganhar mais do que perder mesmo. 

ANA > E que história é essa de futebol autogestionado?

Oman < Pra ser justo, toda a várzea é meio que autogestionada. Surgem campos onde quer que haja um pedacinho de terreno, por mais que a metrópole engula espaços e vomite de volta o futebol society e o futsal, além do profissional, é claro. Mas no nosso caso, a autogestão passa por uma questão estrutural, de não ter presidente, diretor, tesoureiro, nada. Temos sim capitão, técnico, goleiros, laterais-direitos, porque isso não tem a ver com hierarquia necessariamente, e sim com aptidões ou gostos pessoais por jogar aqui ou ali, ou fazer essa ou aquela função. E divulgamos essa idéia de autogestão por onde jogamos, distribuindo panfletos ou no boca-a-boca mesmo. Alguns jogadores que estão com a gente, inclusive, eram de times que enfrentamos e que gostaram do nosso jeito de lidar com as coisas. Então a nossa autogestão é tentar ser o mais livre possível dentro do que se quer ser, mas respeitando os princípios básicos e as responsabilidades inerentes a todo projeto coletivo, como chegar na hora, colaborar com a grana sempre que necessário etc. Claro que no meio disso tudo às vezes surgem conflitos, mas o que seria a vida sem conflitos?

ANA > E qual a relação do Autônomos FC com o anarquismo? A cor do uniforme é mera coincidência? (risos)

Oman < (risos) É não é não. Acontece que o time foi fundado por punks e anarquistas, então na hora de escolher o escudo e as cores do uniforme isso contou. Mas conforme foi crescendo, o Auto (apelido carinhoso do time) foi se abrindo. Nunca foi um time explicitamente anarquista, mas sempre foi um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria. Na verdade, os fundadores e boa parte do time, hoje, é de românticos, que ainda enxerga o futebol como uma crônica continuamente narrada a muitas vozes sobre a vida. Até banda de “rock’n’gol” o time gerou, a Fora de Jogo, que toca trajada com os uniformes do time e fala de futebol (sob uma ótica política) em todas as suas músicas. Além de que, convenhamos, preto e vermelho é uma combinação de cores das mais bonitas que existe. Os anarquistas, além de tudo, sempre tiveram bom senso estético. (risos)

ANA > Como explicar um anarquista ser fanático por futebol, por um time profissional, que cada vez mais são verdadeiros instrumentos capitalistas de manipulação, consumo e controle social? Ou assim como o amor não tem explicação? (risos)

Oman < Olha, explicação mesmo acho que não tem. A gente cresce gostando de futebol, aprende nele e com ele a se expressar, a se entender no meio de um coletivo (a torcida), acaba virando um dos nossos primeiros lugares de socialização. E como é o único que é contínuo pela vida toda, difícil se desligar dele. Até porque existiram muitos times anarquistas na história, o começo do futebol é operário, e ele é mais do que tudo uma festa popular. No início do século anarquistas aqui em São Paulo nomeavam suas equipes de “Flor” ou “Estrela”. Então, sempre que você encontrar um boteco ou padaria com esse nome, são grandes as chances de ele ter um passado anarquista. (risos)

E se o profissional é cada vez mais instrumento de controle, ele permite também nas suas brechas diversos tipos de encontros essencialmente anti-capitalistas, pró-ócio, pró-festa. A Gaviões da Fiel, torcida do Corinthians, por exemplo, se aproximou do MST nos últimos anos, dos Sem-Teto, promove festivais de cinema político, entre outras coisas. Temos que tomar cuidado pra não tomar a festa do povo por ópio, esse velho clichê, porque não é simples assim. O futebol foi apropriado pelo capital, assim como todo o resto, mas o próprio capital, contraditório que é, recria possibilidades dentro do profissional mesmo de ir contra ele (um bom exemplo, embora já meio distante temporalmente, é a Democracia Corinthiana). Cabe encontrar essas brechas, aproveitá-las, aprofundá-las. Durante toda a sua história o futebol opôs controle à festa, foi usado para dominar de um lado e para contra-atacar o domínio de outro. São tantas as histórias possíveis de serem contadas dentro do futebol… Um livro legal sobre isso é o “A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade, Cultura”, do historiador Hilário Franco Júnior. O que podemos e devemos fazer é continuar a contá-las, do nosso jeito, sem deixar que as vendam como mero produto descartável.

ANA > Será mesmo que o futebol profissional recria possibilidades de ir contra ele mesmo? Não acredito. O futebol profissional brasileiro está tomado pela maracatuia, pelo mercado, pelo negócio, vide Rede Globo, CBF´s, Trafic´s, Adidas e por aí vai. E por outro lado, os jogadores profissionais, na sua maioria, são despolitizados, sem atitude, vão à mercê dos dirigentes, cartolas.  E no grosso as torcidas organizadas não são muito diferentes disso tudo não, também vão a reboque de políticos, dirigentes, cartolas… Na Itália, e em outras partes da Europa, que foi criado um movimento interessante por vários grupos “Ultras”, chamado “Contra o Futebol Moderno”, que luta contra as condições precárias dos estádios, ingressos caros, partidas sendo jogados em horários não-tradicionais, jogadores sendo vendidos como mercadoria, a comercialização excessiva no futebol etc. As torcidas uniformizadas do Brasil poderiam seguir esse exemplo, não?

Oman < Não vou te dizer que o profissional dá possibilidades o tempo todo de se ir contra ele, mas as recria vez ou outra sim. Se está envolto em tudo isso que foi mencionado, me diga, em que é diferente de qualquer outra esfera da sociedade? Tudo foi apropriado pelo capital, as relações sociais baseadas na venda são quase totalitárias, então as brechas são mesmo pequenas, ainda mais em um país onde as organizações sociais são tão marginalizadas e politicamente tão superficiais (não todas). As organizadas seguem o mesmo caminho. Não dá pra esperar delas uma postura que nenhum (ou quase nenhum) outro movimento organizado da sociedade toma, como essa de ir contra o futebol moderno. As poucas torcidas que vejo tentando seguir algum exemplo de fora acabam copiando as formas estéticas, as faixas, os gritos de guerra, mas não o conteúdo das reivindicações. Mas mesmo assim há organizadas indo contra sim. Um exemplo é a Resistência Coral, do Ferroviáio do Ceará, abertamente anti-capitalista, que leva faixas com dizeres como “paz entre as torcidas, guerra ao Estado”. Normalmente são torcidas menores, frutos de movimentos pequenos, como em geral é o anarquismo e o anti-capitalismo no Brasil. Mesmo assim, nas grandes torcidas aparecem às vezes manifestações nesse sentido. Já citei a Gaviões, que este ano levou faixas contra o preço dos ingressos nos jogos fora de casa do Corinthians. A Mancha Verde, do Palmeiras, também recentemente protestou contra o preço dos ingressos no estádio do clube. Eu acredito que os próprios constrangimentos que o capital imprime junta pessoas em direção a lutas por direitos básicos. Essa história da Copa 2014 e seus estádios a la européia vai dar pano pra manga. Já dá, aliás. Ano passado, acompanhando a final da Taça Brahma no estádio do Palmeiras, vi um monte de gente de Itapevi, cidade periférica da Grande São Paulo, se deslumbrando com o Setor Visa, pedaço do estádio com preços altos e cheio de mordomias. Outras pessoas, ao mesmo tempo, achavam aquilo absurdo, porque elitizava o estádio. A força das organizadas, que a mídia insiste em colocar na violência e na coerção, na verdade reside no fato de que elas são aglutinadoras de gente da periferia, que é quem mais sofre com as restrições do capital. Disso sempre pode surgir algo. E há de lembrar também que na mesma Europa contra o futebol moderno estão torcidas neonazistas, que também são contra o futebol moderno, obviamente por outros motivos. A Eurocopa desse ano mostrou neonazistas croatas com faixas com esses dizeres. Então, temos sempre que pensar as possibilidades dentro das realidades históricas, sociais, políticas de cada lugar. Não dá pra querer no Brasil a força de um movimento anarquista organizado como o grego, por exemplo, do dia pra noite. Mas nem por isso não existem possibilidades ou se deve jogar fora o que há.

ANA > Num papo sobre “Cultura e Futebol”, um crítico de arte e amante do futebol disse: “Anabolizado ao máximo pelas táticas e pelo preparo físico, o jogo vem mudando um pouco de figura, atenuando seus componentes anárquicos e tendendo à exacerbação de seus aspectos mais previsíveis. No fundo, o desafio aqui é o mesmo da arte. Disfarçada de permissiva, vivemos uma época obsessiva pelo controle, ainda que o nome do controle, muitas vezes, seja obediência tática, desempenho, pró-atividade, boa administração.” E aí, a indústria do futebol está matando a criatividade, espontaneidade do futebol? O que pensa disso tudo?

Oman < Isso é verdadeiro se falamos de futebol profissional, e em boa parte do amador, também, que acaba se tornando cada vez mais um “espelho quebrado” disso tudo. Mas o futebol sempre se reinventou a todo tempo, independentemente do tanto de controle (tecnológico ou não) que o capital tentou impor sobre ele. No começo ele era um jogo de drible de nobres ingleses. Os operários o transformaram em um jogo de passe, e assim ele chegou aqui. Com esse jogo de passe o Uruguai, viajando de forma precária, conquistou duas Olimpíadas na Europa na década de 20. Por aqui, estudantes e a elite começaram a jogar só entre si, mas não demorou para a maioria de negros, caipiras, indígenas e trabalhadores rurais adaptar o jogo pra sua realidade, cheia de entreveros a serem “driblados”. E surgiu o futebol brasileiro, baseado no drible, cujos expoentes máximos são Pelé e Garrincha. Garrincha que já se tentou domar desde a Copa de 58, inclusive, mas a quem tiveram de se render depois do insosso empate em 0 a 0 com a Inglaterra na segunda rodada. Se formos falar de várzea, então, veremos que o próprio capital recria o futebol. Acaba com os campos no centro da metrópole pra urbanizá-la. Expulsa trabalhadores e pobres para as periferias não-urbanizadas. E lá os campos pipocam novamente. E assim vai. Já nos estádios a coisa não vai tão bem, com a vigilância ostensiva cada vez maior, querendo transformar torcedor em mero consumidor e torcida organizada em bandido violento, quando se é muito mais que isso. A Copa 2014 vai representar um momento drástico nesse embate. Torço para que até lá estejamos fortes o suficiente pra ao menos sermos ouvidos contra essa transformação do estádio em shopping center.

ANA > Falando em arte. No Brasil há poucos livros abordando o futebol. Vocês não projetam lançar algo neste sentido?

Oman < Pessoalmente estou terminando um trabalho acadêmico sobre o futebol contemporâneo na metrópole de São Paulo, mas isso não tem a ver com o time, embora eu fale dele na pesquisa. E na verdade a produção de livros (e filmes) sobre o futebol tem crescido no país, está se re-descobrindo que o esporte é uma expressão da própria sociedade, às vezes artística, às vezes não. Porém, no time, temos algumas pessoas que não só gostam de escrever como fazem isso regularmente acerca do futebol. Quem sabe você mesmo não está lançando uma idéia muito boa pra gente? Por exemplo, costumamos noticiar nossos jogos na lista de e-mails como se fossem notícias de jornais inventados, “A Plebe”, “O Povo” e coisas assim. Isso pode dar coisa boa, rapaz! Inclusive, no site que sempre projetamos e nunca fazemos, essas coisas vão constar com certeza.

ANA > Recentemente quando esteve em São Paulo, John Zerzan comentou que tinha sido lançado um livro nos Estados Unidos que abordava “anarquismo, comunismo e futebol”. Se eu não estou equivocado, o título do livro é “Revolution: The Girly Gay Commie Soccer Threat To The American Way Of Life“.

Oman < É que o “soccer” nos EUA tem outra perspectiva. É esporte da classe média, das mulheres, dos gays, dos latinos. Das minorias. O povão lá acompanha os esportes de pontuação alta, basquete, futebol americano, hóquei. Isso gera bizarrices como mães que obrigam seus filhos a jogar futebol de capacete porque cabecear a bola pode machucar. Não é coincidência que nesses seriados de TV paga feitos pra classe média as mães sempre levem seus filhos para o futebol, ou que tantos filmes infantis sejam feitos sobre futebol onde uma menina ou um cachorro são os protagonistas principais e os filmes sempre são leves, pretensamente divertidos. Já os filmes sobre basquete ou futebol americano envolvem histórias viris, de superação a todo custo, de exaltação do amor à camisa (ou a pátria), temas muito mais povão por lá. Os Simpsons têm um episódio em que sacaneiam o futebol, mostrado como um jogo em que se fica passando a bola e não acontece nada e no final as torcidas vandalizam o estádio. Então por lá pode ser que os anarquistas ou comunistas vejam no esporte algo mais “libertário” simplesmente por ser contra os valores esportivos tradicionais. Mas isso está longe de ser necessariamente verdadeiro. Tem um livro de um jornalista americano apaixonado por futebol chamado “Como o Futebol Explica o Mundo” em que em um dos capítulos ele fala dessa coisa do “soccer” por lá, a discriminação, esse tratamento como esporte de filhinho-de-mamãe e de latinos, de inimigos da pátria. Vale conferir.

ANA > Você sabia que o libertário Albert Camus, teve uma breve carreira de goleiro de futebol, interrompida aos 17 anos quando contraiu tuberculose nas ruas de Argel? Uma vez perguntado por um jornalista sobre a importância do futebol em sua vida, ele respondeu: “O que eu sei sobre a moral e as obrigações de um homem devo ao tempo em que joguei futebol…”

Oman < Sim, inclusive esse assunto esteve em pauta entre a gente faz pouquíssimo tempo. A Argélia tem também, inclusive, uma outra história sobre futebol muito bacana: quando da guerra pela independência, um grupo de jogadores argelinos, alguns profissionais em clubes franceses, abandonaram suas equipes e fizeram amistosos pelo mundo em prol da causa argelina. Essa “seleção” foi até reconhecida pela FIFA, antes mesmo do país, assim como acontece com a Palestina hoje. Ficaram conhecido como “Revolutionnáire XI“, ou “Revolucionário Onze”, numa tradução livre. O Camus com certeza devia andar lado a lado com eles. E essa frase dele sintetiza muito bem como o futebol é representação da vida, da guerra, da arte, da sociedade.

ANA > Há algum filme sobre futebol que você goste, destacaria?

Oman < Olha, eu particularmente sou muito deslumbrado com filmes de futebol, mesmo os bobos. Tem um patrocinado pela Adidas que chama “Gol! O Sonho Impossível”, onde um mexicano ilegal nos EUA consegue ir jogar pelo Newcastle, da Inglaterra. É bem bobo, mas me diverte. Já filmes sérios, acho o do Garrincha bom, e os dois “Boleiros” interessantes. Mas não destacaria nenhum deles em especial, são mais crônicas apaixonadas do que qualquer coisa. Legais pra se apaixonar, nem tanto pra fazer uma crítica sobre o futebol. Deixo claro que essa é a minha opinião, não sei se outras pessoas do time pensam assim. Tem gente que gostou desse filme novo aí, “Linha de Passe”. Eu não assisti, tenho um certo ranço com essa coisa de cineasta brasileiro que faz filme do tipo “vejam a nossa pobreza, que sofrida, que bonita, que romântica” pra europeu ver, filme que sempre tem um final poeticamente feliz. Já documentários, tem um que eu acho muito bom, argentino, que chama “A Outra Copa” e mostra todas as dificuldades da equipe de “futebol de rua” (ou seja, moradores de rua que jogam) da Argentina em ir para a Copa do Mundo da “categoria” na Suécia (site do torneio:http://homelessworldcup.org). Um detalhe desse campeonato é que a Itália ganhou duas ou três vezes. Só que o time italiano é formado por latinos (brasileiros, argentinos, uruguaios), que foram pra lá e viraram moradores de rua. E tem também filmes bons onde o futebol é pano de fundo: “Fora do Jogo”, do Irã, sobre mulheres que querem assistir a um jogo da seleção e são barradas; “Crônicas de Uma Fuga”, argentino, muito bom, sobre um goleiro que é preso pela ditadura confundido com um militante político e elabora um jeito de fugir (o final é dos mais lindos que já vi em filmes); “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, pra mim um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos, que tem tanto o futebol profissional como o futebol de várzea como pano de fundo, com um negro como goleiro do time dos judeus no bairro do Bom Retiro; e tem um que o Jão citou mas eu nunca vi que chama “Pra frente Brasil”. Por fim, tem um documentário uruguaio não tão bom chamado “Aparte”, sobre moradores das periferias que, entre outras coisas, são catadores de latinhas, onde há uma presença do futebol muito forte, tendo inclusive imagens de um jogo de várzea só de mulheres, coisa rara de se ver na vida e na arte.

ANA > É cada vez maior a presença feminina no universo do futebol, assim como a violência no futebol, entre as torcidas, ou grupo de torcedores pressionando agressivamente dirigentes, técnicos, jogadores… Contudo, raramente vemos mulheres nessas brigas, confusões. O fato é que os homens são um bando de idiotas mesmo? (risos)

Oman < (risos) Creio que a cultura masculina é mais permeada de agressividade e babaquices do que a feminina, mas de uma forma geral essa violência é resultado de muitas outras violências anteriores, como o preço dos ingressos, dos alimentos, o tratamento dispensado pela polícia, a localização dos estádios em centros nobres onde a entrada dos torcedores não é permitida em dias comuns. Já a entrada das mulheres no jogo não é bem uma entrada, é uma volta, pelo menos em alguns lugares. Aqui em São Paulo, por exemplo, no começo do futebol de várzea os clubes de bairro tinham departamentos femininos constituídos que eram responsáveis pela confecção e manutenção de bandeiras e troféus, ensino e execução do hino do clube, organização das festas que aconteciam junto aos jogos… O futebol era pano de fundo pra festa popular, muito mais do que um mero jogo. Festa feita por comunidades organizadas, que serviram de base para as próprias torcidas contemporâneas. E falando nelas, é importante também lembrar que a violência desses grupos organizados é só uma parte do que eles representam, a parte que serve pra mídia e pras instituições do futebol enfiarem goela abaixo a transformação do futebol em mercadoria, do torcedor em consumidor, cada um sentadinho quietinho na sua cadeira ou em frente à TV, consumindo. Um mecanismo de controle sobre uma das poucas coisas que o trabalhador, o pobre, o povo, enfim, tem como sendo dele, como intocável, independente de qualquer situação social ou econômica – até por isso a agressividade nas cobranças a dirigentes e jogadores, cobrança que às vezes lembra mesmo a de consumidores, mas que na maioria das vezes é a voz de quem está descontente com o tratamento dado a algo coletivo, um sentimento mesmo, aliás, dos poucos sentimentos que permanece num mundo onde tudo muda tão rápido.

ANA > Você acha que o futebol feminino não cresce no Brasil por causa do machismo, do preconceito? Como você diz, as mulheres historicamente sempre foram tratadas como subalternas, com papeis bem definidos, raramente como protagonistas do futebol, do jogo… Homem é uma desgraça mesmo. (risos)

Oman < (risos) É, não dá pra descartar a imbecilidade masculina nesse processo, mas acho que é algo mais econômico do que só cultural. Não dá dinheiro, então não cresce. O futebol feminino profissional é amador, na verdade. Mas por incrível que pareça no começo do futebol na Inglaterra existiam ligas de futebol feminino! Sumiram logo, mas existiram. No Brasil, eu acho que ao menos ultimamente a seleção feminina trouxe mais orgulho pros torcedores do que a masculina, até porque ela é mais humana, mais sofrida, mais cheia de sentimentos. O grande problema é que o crescimento que se espera do futebol feminino é o crescimento econômico, da profissionalização, da mercadoria. E esse não vai acontecer tão cedo – e eu, particularmente, nem sei se seria algo completamente bom. Mas se o tênis virou moda depois do Guga, tudo pode acontecer. Até porque em todos os esportes a presença feminina cresce e a distância entre os recordes masculinos e femininos diminui.

Mas voltando pro futebol, um dos zagueiros do time, que é professor, ficou sabendo que há um projeto pra 2009 de começar times de futebol feminino em todas as escolas estaduais de São Paulo. E no Auto, nossa mascote é a Mafalda, do Quino, pela postura contestadora dela e porque a maioria da nossa “torcida” acaba sendo das namoradas, mulheres, irmãs, então a homenagem a elas é mais do que justa. E se tiver meninas querendo formar um quadro feminino do Auto, por favor, apresentem-se! Nas poucas vezes em que jogamos futebol de salão houveram meninas jogando conosco. Não fazemos um time misto só porque isso é impossível na várzea. Mas um dia, quem sabe, dá pra tentar sim!

ANA > Como você vê essa história dos jogadores profissionais, em sua maioria, rezarem aos gritos um “Pai Nosso” antes dos jogos? Vocês do Autônomos FC fazem isso também? (risos)

Oman < (risos) Bom, eu vejo como um ritual herdado da várzea, onde todo time faz isso também. No Autônomos não fazemos isso, embora já tenhamos feito de sacanagem umas duas vezes, tentando ver se assim a gente não perdia. Não adiantou, parece que Deus não gosta muito de nós. (risos) No lugar de rezar a gente entoa um canto em homenagem à torcida. Dá pra ver isso nesse vídeo aqui, uma espécie de mini-documentário sobre o time:http://fiztv.uol.com.br/f/Video/assista/16751/0  

ANA > Vocês já se imaginaram participando de um “Mundialito de Futebol Anti-Racista”, desses que acontece na Europa, que reúne times de várias partes do mundo? (risos)

Oman < Cara, conhecemos isso esse ano através de uma equipe amadora anti-fascista inglesa que nos mandou um e-mail! Morremos de vontade de ir, mas não há condições financeiras pra isso. Em compensação, chamamos essa equipe pra jogos por aqui e eles aceitaram, agora estamos vendo quando eles poderão fazer isso, se poderão mesmo, como faremos. Com certeza se eles vierem será um momento único por aqui, novo, até uma oportunidade de encontro com organizadas, equipes amadoras, torcedores pra uma troca de experiências.

ANA > Uma coisa que sempre me chamou a atenção no futebol profissional é o fato de muitos jogadores negros, com “cara de nordestinos”, se casarem com loiras, mulheres brancas. Quem exemplifica isso muito bem é o maior astro do futebol de todos os tempos, Pelé. Aliás, a única filha que ele teve com uma mulher negra até hoje ele não assumiu, muito pelo contrário, sempre se esquivou da história. É um mito dizer que no futebol brasileiro não há racismo?

Oman < Está longe de ser mito, muito longe mesmo! O futebol faz parte da sociedade, e se a sociedade é racista, é claro que no futebol isso vai aparecer. Não tem Obama ou Hamilton que mudem isso. (risos) Só pra dar um exemplo mais recente, o Felipe, goleiro do Corinthians, quando foi rebaixado pelo Vitória-BA foi chamado de macaco preguiçoso por um dirigente do time, que ele processou (o caso, até onde sei, está na Justiça ainda). Isso sem falar nas histórias passadas, de jogador negro passando pó-de-arroz na cara. É claro que o capital não vê cor quando o jogador dá lucro, mas ali no cotidiano dos jogadores, no dia-a-dia, rola racismo o tempo todo. Na Copa de 1958 o time que jogou os dois primeiros jogos só tinha brancos, fruto do preconceito adquirido na Copa de 50 quando o goleiro negro Barbosa foi culpado pela perda do título. Então isso vem de longe, desde o começo da bola rolando por aqui, do embate entre times da elite e times da várzea, que opunham fundamentalmente brancos a negros, pobres, mestiços, caipiras. Isso foi inclusive usado de desculpa pelos times da elite para não mais disputar jogos contra os times que aceitavam esses jogadores. O que acabou sendo mau negócio pra eles, porque perderam qualidade técnica e público (que na época eram a maior fonte de renda) e acabaram falindo. Veja só que coisa, o próprio processo capitalista no futebol fez os times pobres falirem os ricos. Mas o racismo continuou, está aí até hoje. O Pelé, pra mim, em termos raciais, é um Michael Jackson que não tentou se pintar de branco, nada mais do que isso. Sou Maradona mil vezes. (risos)

ANA > Para finalizar, quais os projetos futuros? Pretendem organizar algum evento com exposições, debates e palestras em torno do futebol?

Oman < Então, a vinda dos ingleses (a equipes se chama Easton Cowboys&Cowgirls, existe há mais de década e tem vários esportes, não só futebol, com participação feminina) nos deu a idéia e a vontade pra algo nesse sentido. Queremos chamar o pessoal da Resistência Coral e quem mais se sinta interessado pra participar também. Mas mesmo que eles não venham, acho que em 2009 devemos fazer algo nesse sentido. Esse ano fizemos um debate no Ativismo ABC sobre futebol e política, mas teve muito pouca gente. Queremos repetir isso em breve sim. Enquanto isso continuamos jogando na várzea, conhecendo e sendo conhecido. E quem sabe mais pra frente não conseguimos marcar uns jogos interestaduais? Soubemos que aí na Baixada Santista o pessoal libertário joga na praia às vezes, em Santa Catarina o pessoal do Passe Livre tem um time também… quem sabe uma liga de futebol autogestionário não se configura daqui uns anos? (risos) E tem também o “Auto Júnior”, que acabamos de formar com a molecada, todos da extrema zona sul. Queremos levar eles pra outras coisas além de jogos, é um projeto que está começando e no qual estamos bastante empolgados. Por fim, temos o sonho de um dia ter um campo nosso, um terreno baldio qualquer, comprado ou cedido, pra poder fazer as coisas ainda mais do nosso jeito, levar os projetos adiante e colocar o time numa situação de maior presença no tempo e no espaço da cidade. Se alguém que estiver lendo isso tiver como e quiser ajudar, entre em contato!

ANA > Alguma coisa mais? Valeu!

Oman < Cara, queria agradecer muito em nome do time por esse espaço. O movimento anarquista no Brasil sempre teve muito preconceito com o futebol, é muito bom ter um espaço desse pra falar. O futebol sempre foi do povo por aqui, o capital destruiu isso e encobriu a história. É importante pra qualquer movimento que se pretende social se aproximar e entender melhor as coisas do povo, então que o futebol possa ser visto com mais carinho no meio libertário. E desculpa se eu falei demais, mas é que o tema propicia muita conversa… Por fim, um abraço pra todo mundo e quem se interessar pode entrar em contato com a gente, pra jogar, pra torcer, pra convidar ou planejar eventos, estamos aí! Abraços autogestionários!

Contato: autonomosfc@gmail.com  

Blogs: http://autonomosfc.10.forumer.com/ e http://autonomosfc.blogspot.com/   

Clipe da Banda Fora de Jogo: http://www.youtube.com/watch?v=uIg_tBadIvQ

agência de notícias anarquistas-ana

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O poder do futebol moleque

Só pra compartilhar uma alegria aqui.

Este sábado o Auto jogou contra um time formado por alunos do Davi, um dos nossos zagueiros, professor lá do Vicente Leporace, escola da extrema Zona Sul.

O jogo foi num campo toscasso perto da Represa do Guarapiranga construído pelos peões de uma obra dessas estilo CDHU para jogarem enquanto moram ali na obra.

Ganhamos um jogo e empatamos o outro.

Quando os moleques fizeram o gol de empate, comemoraram muito, foi uma alegria indescritível. Tão foda que até a gente curtiu tomar o gol.

Temos também o costume de fazer uma flâmula pra entregar pros adversários a cada jogo. Entregamos uma pra eles, que ficaram admirados, orgulhosos.

Isso tudo foi tão louco que agora os moleques só falam disso na escola, levaram a flâmula, curtiram muito o Auto.

Coisas como essa um time de várzea não faz normalmente, jogar com a molecada e tratar eles de igual pra igual.

Um dos alunos, o João Lennon, jogou pelo Auto, na lateral-direita.

O moleque veio do Norte pra fazer teste por aqui, joga futebol e volêi, acabou arrumando um time de vôlei profissa e tá em um outro de futebol amador. Aí no fim do jogo eu chamei ele pra jogar com a gente quando desse, mesmo sabendo que ele já tem esses outros times aí.

E não é que o moleque curtiu e já quer ir esse domingo?

Pô, pode parecer bobo, deslumbrado, sei lá, mas nessas horas todo o esforço pra manter o time e colocar umas idéias diferentes em prática vale muito a pena.

Os moleques curtiram a gente pelo respeito que a gente teve, não (só) por aquela admiração natural aluno/professor ou adolescente/adulto.

Agora, dia 01/11, vamos levar eles pra jogar no nosso campo.

Com o mesmo respeito e quem sabe um churrasco de boas-vindas.

Porque é disso que se trata o futebol de várzea, aproximação, compartilhamento, re-unir a cidade tão desunida pela velocidade louca do trabalho e do consumo.

O futebol moleque tem esse poder, demorou pra canalizarmos.

Vamo Auto!