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Sete

Às vezes é preciso escrever. Preciso, mesmo. Essa é uma dessas vezes.

Já faz quase um ano. Parece muito mais. Talvez eu nunca tenha conseguido de verdade pensar sobre isso, fazer o que eu faço de melhor e de pior: racionalizar. Bater de frente com as emoções e colocá-nas numa coleirinha, por mais que ela vá arrebentar uma hora. Há um certo mecanismo que atrai e repulsa quase que no piloto automático sempre que o assunto me vem, e não há dia que não venha.

Sempre tive problemas de ansiedade, então eu faço listas – e não, não digo isso pra parecer que quero fazer referência ao Alta Fidelidade. Foda-se o Alta Fidelidade. É bom pra caralho, mas foda-se, não tenho nada a ver com isso. Minhas listas são bem mais banais e chatas. São pra lembrar o que tenho que fazer – como se eu fosse esquecer. Eu nunca esqueço nada quando se trata de coisas que tenho que fazer. Isso cansa. Responsabilidade cansa. E vicia. Você acaba pegando a dos outros pra si.

Mas voltemos às listas. Eu as faço, primeiro mentalmente, muitas e muitas vezes, até chegar num ponto em que me sinto agoniado por estar repetindo a mesma merda em silêncio na cabeça como se fosse um mantra e passo pro papel. O papel vai pro bolso, e depois outro e mais outro, até que o bolso fique cheio demais e comece a me incomodar na hora de sentar no ônibus. Caralho, que coisa mais escritório: listas, repetição mental e pilhas de papéis inúteis. Geração Coca-Cola merda nenhuma, geração escritório. Que merda. Mas comigo sempre foi assim, provavelmente sempre será. No último Natal, tentei comprar um caderninho pra anotar as coisas, deixar de juntar papel no bolso, mas minha cachorra comeu antes que eu escrevesse qualquer coisa. Cachorros são assim, sempre guardando seus donos pra não deixar eles fugirem do que realmente são. E eu sou meus papéis, também. Meus papéis, minhas listas, minhas responsabilidades aumentadas. Cacete, já fui de novo pra longe.

Repito às coisas mentalmente, já disse. Sempre repeti. Mas nesse ano essa ação obssessiva-compulsiva veio acompanhada de uma auto-sabotagem frequente. Qualquer lista que eu crie ou repita começa sempre igual, com a mesma palavra, a mesma lembrança. No começo, pensava que não era nada demais. Resquício do número de vezes que as três letras apareceram no papel antes, era algo frequente, por isso sempre volta à tona agora. Tento me convencer disso, mas o fato da palavra em questão vir sempre acompanhada da idéia de um telefonema me incomoda. Um telefonema é um ato de comunicação, então talvez não seja só ato falho, talvez seja um recado do fundo da minha mente, me dizendo olha, não vou te deixar esquecer, você precisa entrar em contato. Acontece que o contato é impossível agora, então eu auto-saboto esse eterno primeiro item da lista e vou pro segundo, sempre algo mais prático como comprar comida pra cachorra.

Porra, isso ficou confuso demais. Preciso deixar de encher o meu próprio saco. Escrevo, releio e penso, que merda, pra que tudo isso pra dizer algo tão simples? Aí vou e apago. Mas dessa vez não vou apagar. Chega de apagar.

O lance é que nesse ano quase inteiro que se passou desde aquela chuva o mesmo nome me vem a cabeça. O mesmo nome ligado ao mesmo ato. É algo mais ou menos assim, o que preciso fazer hoje… bom, tenho que ligar para… não, porra, não dá. Não mais. Vamos em frente, antes que eu me deixe convencer de que preciso de um psicólogo.

Ninguém precisa de um psicólogo.

***

Sempre que eu me encho de um assunto, coloco três asteriscos e passo pra outra coisa. Não sei onde aprendi isso, se é que isso é algum tipo de aprendizado, mas faço isso. E aqui vou eu.

Escrever na primeira pessoa do singular, contando fatos da própria vida, é o jeito mais fácil de prender a atenção de alguém. Fica parecendo que é algo único, olha só o que esse cara fez/passou/viveu, quando na verdade é na maior parte do tempo uma enrolação em cima de idiotices e banalidades. Pensa bem, que grande coisa eu disse aí em cima? Porra nenhuma, fala sério. As pessoas vem me falar que eu escrevo bem e eu sempre fico pensando que elas precisam ler mais. Mais livros, menos manuais. Mas tá certo, elogios são sinceros às vezes. Às vezes.

Eu pensei em enrolar até o fim do texto sem dizer exatamente sobre o que eu quero falar, mas essa idéia de manipular os poucos coitados que vão chegar a ler isso aqui me torna um filho da puta, e eu nem sempre quero ser um filho da puta, então vou ser direto: faz quase um ano que meu pai morreu. Faz quase um ano que eu morri, de fato. O que existe depois de 25 de janeiro de 2009 é no máximo um simulacro do que existiu antes. Como aquela luz de gerador que acende meio esquálida quando a luz elétrica acaba. Só que o gerador tá indo pro saco e a luz ainda não voltou, então é bom ir acendendo as velas. Por mais exagerado e catastrófico que isso pareça.

De certa forma, este texto é pra mim a caixa de fósforos. Preciso ser honesto e dizer que eu não sei o que eu quero dele. Não sei se será melancólico ou superador. Eu não sei. Se você já encheu o saco de ler, esquece, pode parar, eu não sei se no final a caixa vai pra gaveta junto com as velas, a luz volta e nós vamos jogar videogame ou se risco o fósforo e ponho fogo em tudo de uma vez.

Meu pai gostava de jogar videogame, desde a época do Atari. Eu tenho um Atari até hoje, que dei de presente pra ele uns anos atrás. Me lembro dos sacos de controles quebrados e dos milhões de fitas empoeiradas que fomos até a Lapa trocar por poucos e míseros jogos de Super Nintendo. Caralho, aquilo deve ter doído nele, imagino. Toda uma história trocada por uma merda de videogame novo pro filho mimado. Mas sem essa de martírio, ele fez por que quis. Me fez por que quis. E eu tenho certeza de que morreu feliz de ter feito. Pelo menos um pouco.

Lembro de que quando eu era bem pequeno meu pai ligava o Atari com o Chess antes de ir trabalhar. Fazia uma jogada contra “a máquina” e trocava o chaveamento de volta pra TV. De noite, quando chegava da merda do banco, ligava o videogame de novo e fazia mais alguns movimentos. O jogo durava dias. Eu não entendia porra nenhuma. Mais pra frente ele tentou me ensinar xadrez, me falou das grandes jogadas, dos tipos de saída, dos grandes jogadores, do Casablanca (era esse o nome?) que aprendeu a jogar bem moleque só observando o pai. Mas xadrez requer paciência e concentração, e eu sempre fui ansioso, já disse isso. Meu pai também não tinha muita paciência, então eu nunca passei de saber mexer as peças. Uma época aprendi aquela saída em que você dá cheque-mate em três jogadas, e aí parecia criança com piada nova, queria fazer toda hora. É, eu era uma criança com piada nova.

Na verdade é uma mentira dizer que meu pai não tinha muita paciência. Ele não tinha paciência nenhuma. Era o cara mais turrão e teimoso que eu já vi. Mas nunca deixou de ouvir, mesmo que inventasse argumentos esdrúxulos pra não dar o braço a torcer. Nossas conversas quase sempre acabavam em discussão, e depois de meia hora ele vinha dizer alguma coisa que, tortuosamente, nas entrelinhas, significava “ok, entendi seu ponto, ele tem alguma validade”. Era o máximo que eu conseguia tirar dele. Mas tinha vezes em que eu estava indo dormir e aproveitava pra dizer alguma coisa, e aquilo virava uma conversa até quatro da manhã. Daquelas que você nunca esquece e que eu fiz questão de esconder por todo esse ano.

Pensando bem, o fato é que eu era um cagão pra expor meus conflitos e pedir ajuda e ele fazia pose demais pra escutá-los e dar algum conselho. Mas funcionava.

Não sei se devo tornar isso aqui público. Acho que devo. Porque que coisa mais idiota é escrever pra você mesmo. Coisa de adolescente que tem diário. Ou melhor, nem isso, porque tudo que adolescente quer é que a pessoa certa leia seu diário. O problema é que quem lê é sempre a errada, o irmão mais novo que faz questão de ser um imbecil e espalhar pra todo mundo os podres, ou a amiga que agora é ex-amiga por motivos óbvios. Amizade de criança é uma coisa curiosa, completamente interesseira. Até cachorro é mais leal. A infância é uma das piores merdas que a humanidade já inventou.

Sim, eu gosto de cachorros, talvez num nível um tanto doentio. Meu pai também gostava. Fingia que não, dava bronca, mas no final da vida o que ele mais curtia era nosso cachorro pedindo comida e carinho pra ele. Era a companhia mais fiel que ele tinha. Porque por mais que a gente também estivesse lá, não dava pra estar sempre lá. A humanidade insiste em arranjar compromissos chatos e entediantes pra poder se sentir sozinha e escrever textos enfadonhos sobre a ausência da vida em família. Ausência que projetamos nos cachorros e gatos, que um dia morrem, como se isso fosse algo muito inesperado, e nos proporcionam boas oportunidades de ganhar dinheiro contando histórias de quão fiéis eram nossos companheiros.

Cacete, que coisa triste nos tornamos: dependentes químicos de afeto animal instintivo. Exploradores cínicos disso. Pobres cachorros.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos minha mãe viúva, menos nosso cachorro velho e solitário dormindo em qualquer canto, cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde como sozinho, mas estaremos sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

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