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A mãe da minha mãe

A mãe da minha mãe. A mãe da minha mãe faria hoje 96 anos. É difícil imaginar tantos anos. Eu não tenho nem metade disso e já acho difícil entender o mundo que eu vivi 10 anos atrás. Imagina o mundo de 80 anos atrás.

A mãe da minha mãe foi, como toda mãe da mãe, uma intensa e contínua aula de história. História de como fazer, de como existir, de como cozinhar, costurar, debater, fazer carinho e contar histórias. Uma aula de história de contar. História de viver.

A mãe da minha mãe teve minha mãe. A minha mãe teve a minha irmã. E a mãe da minha mãe, a minha mãe e a filha da minha mãe me ensinaram tanta coisa só por existir do meu lado que eu nem sei dizer.

Hoje mencionaram pra mim a “casa de vô”. Não tive casa de vô, só de vó. E de mãe, e de irmã. E sempre me impressionou como todas elas eram sempre de alguma forma ela, a mãe da minha mãe, numa trindade que não foi nem nunca quis ser santa mas sim viva, e intensa e o tempo todo.

Vó, tive muita sorte de ter por perto. E de passar todos os 33 anos em que existimos juntos descobrindo, cada vez um pouquinho mais, que a sua história é a minha história, e a da minha mãe e a da filha da minha mãe.

Eu nunca vou ser vó, vó. Mas eu sempre serei você.

Feliz aniversário.

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Trinta

“Ao recordar, não existe ninguém que não se encontre consigo mesmo.”
(Jorge Luis Borges)

Quando completei trinta anos, ganhei flores de aniversário. De um amigo. E foi o presente mais bonito, mesmo que oficialmente dois dias antes.

Esse amigo é novo, relativamente. Relativamente aos trinta anos. Há outros mais velhos, amigos, e anos. Esses trinta chegam novos, mas nunca sozinhos ou em branco. Carregam os outros vinte e nove, mesmo que muitos desses não se lembrem.

Os trinta carregam também muitos outros trinta, felizes como os de Elivélton, ou tristes como os de Evair. Os trinta de Viola, que foram menos de trinta, daquela vez na América frente aos italianos. Trinta mil histórias e anotações que foram, e vieram, e voltam e voltaram, e voltarão ainda trinta mil vezes mais.

Na minha trigésima festa, apareceram cerca de umas trinta pessoas. Como que para martelar, trinta, trinta, trinta. Uma nova década, já que completo trinta e já inicio os trinta e um, par de um lado e ímpar do outro, eu que sempre gostei mais do ímpar mas nunca consegui ser de verdade sem o par. E houve pavê, e música, e abraços e risadas, e me senti leve como das outras trinta vezes – ou vinte e nove.

Há quem diga que a vida começa aos trinta. Há quem diga que os trinta iniciam a decadência. Não sei. Sei que estão todos aqui, os trinta, e com eles muita gente que não esteve mas estava lá, e um outro monte que faz uma falta inenarrável, ou uma falta do caralho pra ser um pouco mais direto.

E passam as coisas de volta, de trás, e na ponta dos pés tentei olhar por cima do muro as coisas que vem e vêem pela frente.

Meu aniversário de trinta anos, mesmo, passei como um dia normal. Passeei com os cachorros, comi com a mãe, fui a uma reunião, andei pela cidade a qual me acostumei, “como quem se acostuma ao próprio corpo ou a uma velha doença”. E abracei meu pai na infinitude da sua memória, e beijei minha mãe na plenitude de seu companheirismo. E sorri.

Porque, sabe, trinta anos é muita coisa.

Então vou ali, dançar com as palavras. Que meu nome tem trinta letras: um ano pra cada.

Me encontrem no próximo artigo indefinido.

Aniversário*

– Vamos, menina, que a chuva só é chuva até que termine.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2009 quando de repente não sabia para onde ir.

Chovia, que era São Paulo e janeiro, e ele não sabia para onde ir.

Resolveu deixar o hospital e caminhar, sem rumo. À deriva. Pensava em pessoas e datas, e lugares, e cheiros.

Assim foi, e a chuva de janeiro deixou a cidade mas não seu coração. Caminhava e lembrava, e por vezes chovia no almoço, deixando a comida mais salgada e menos palatável.

De peito amortecido, passava por tudo como quem não passa nada, emocionalmente quase nulo. Havia vida, podia até sentir, mas nada que tocasse ou sentisse conseguia desentorpercer seus sentimentos.

Não sabia, era isso, não sabia abandonar a tristeza. Encerrar o luto. E seguia vivendo porque, oras, não podia seguir de outra forma. Existir não há sem viver.

Então se foi a década, e veio outra. E de repente era janeiro e chuvas, mas diferente do primeiro ano dessa vez não adentro. São Paulo era mar como sempre, mas ele, sertão. Secara.

E ali vinte dias, e um, e dois, e de dois para quatro numa intensidade que há tempos, e de repente vinte e cinco.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2011 quando percebeu que havia esquecido do aniversário de sua tristeza.

Dois anos, fazia, e ele não lhe havia comprado presente algum.

Então parou de andar e caiu em si.

Pegou a cachorra, subiu o viaduto e ficou a observá-la a correr, liberta que estava da coleira e das paredes do apartamento.

E montado no alto de todo aquele concreto e cinza sentiu que naqueles dois anos nunca estivera sozinho.

Nem ao sol, nem à sombra, muito menos à chuva.

Olhou para cima, e vendo o céu de janeiro carregado como sempre, jogou fora o guarda-chuvas.

Porque tinha sede.

Dois anos depois, outra vez tinha sede.

– Que venha a chuva! – desafiou.

De boca aberta, e língua de fora.

*Dedicado a Cleber Cajazeira, que em 25 de janeiro de 2009 deixou a história para estar diariamente na minha vida. Pai, tua chuva me alaga e me seca, mas nunca, nunca, nunca me afoga.

Presente de aniversário

Completo hoje meu primeiro aniversário órfão. Mas não, esse não será um texto lamentando isso.

Ao contrário.

Será um texto tentando aprender a lidar com isso.

Pra ajudar, como sempre, há o Corinthians.

Que completou 99 anos dois dias antes de mim e que, fazendo escadinha, teve jogo ontem em casa, contra o Santos.

Um Corinthians que não é mais o mesmo de três meses atrás, é verdade. Mas que continua tendo a mesma raça e espírito de Corinthians que o Mano Menezes recuperou desde que chegou por estes lados.

E como aniversário a gente comemora em casa e com quem se gosta, fui ao Pacaembu mais uma vez encontrar a “família”.

Dadas as circunstâncias, era um jogo diferente, pra mim. Mais inflexivo, reflexivo, contemplativo. De tal forma que não me importou muito o gol do Santos aos 5 minutos do segundo tempo. Alguma coisa me dizia que aquele jogo era meu – nosso, pai.

Aos 13, perdemos Mano, expulso por reclamação. Olhei para o banco do time mandante no Pacaembu e percebi o vazio que tomava conta daquele espaço. Em campo, o time refletia a perda, e relembrava 2007, com bicos para o alto para um desesperador Souza, jogando com seu pai internado em estado grave, tentar fazer o que até hoje não fez: resolver.

Mirei mais uma vez o banco de reservas do Corinthians e percebi uma movimentação diferente. Talvez fosse o álcool das duas latinhas de cerveja consumidas de estômago quase vazio antes do jogo, não sei. Mas o fato é que eu via subir do pequeno jardim atrás do banco uma estranha nuvem, que formava uma imagem, ainda indecifrável. Súbito, passei também a escutar uma voz familiar, gritando, esbravejando com o time. E então tudo fez sentido:

meu pai assumira o comando.

Das cinzas ali esparzidas meses atrás, erguia-se a memória de um gigante em minha vida.

Alguém que me ensinou a torcer apaixonadamente, a pular e gritar nas vitórias, mas também a aprender com o sofrimento nas derrotas.

Que me ensinou que um estádio de futebol comporta muito mais que partidas. Celebra festas, encontros, desencontros. Comemora a vida.

O Corinthians percebeu que o comando, agora, não vinha mais do banco, vinha das arquibancadas. Da história. Da mística. E a fez valer.

De virada, no finalzinho, com um gol chorado e outro improvisado – mas de uma improvisação perfeita.

Daquelas que fazia meu pai correr à janela e soltar um raro “goool!”, numa alegria meio contida, de quem sabe que festa, mesmo, só depois do apito final.

A nação alvinegra, em êxtase, explodia em mais um “parabéns pra você”.

Mas eu não conseguia me mexer.

Abraçado à bandeira, olhava para o banco. Para a história. A minha história.

Que corria alegre à minha frente, em preto e branco, desde o primeiro bolo de aniversário, com a velinha que eu quis apagar com a cabeça.

O jogo acabou, e tomei o rumo de casa. Por mais que casa, desde 25 de janeiro, nunca mais tenha significado o mesmo.

Nos arredores do Pacaembu, ao som do buzinaço alegre da família que comemorava, a voz que tantas vezes tive ao meu lado quando era difícil até mesmo respirar me dizia, tranquila:

“Parabéns”.

E me fazia adentrar meu 28º ano de vida com aquela sensação de quem sabe algo que ninguém mais pode saber, algo só seu: meu pai ganhou esse jogo pra gente.

Meu melhor presente de aniversário.

Sessenta

Hoje meu pai completaria 60 anos.

Amanhã completam-se 3 meses de sua morte.

Hoje eu faço 60 anos.

Amanhã, 59 e 9 meses.

Noventa dias parecem pouco perto de sessenta anos.

Mas casa segundo sem meu pai é uma eternidade. 

Tanto não dito nesses três meses…

Fui pra Argentina, pai. Duas vezes.

Assinei Corinthians no RG.

Ronaldo finalmente jogou. E como jogou.

Estamos na final do Paulista.

Não jogamos mais no Morumbi, só como visitantes. E nos dão apenas 10% dos ingressos.

Estou solteiro de novo.

Tenho mais uma filha, a Boquita. Achei ela na rua.

E hoje eu me formo.

Pra lembrar de você, e de quanto de você esteve e está em minha tese.

Sinto saudades demais. 

Às vezes choro no almoço. 

Não um choro desalentador, mas um choro ao mesmo tempo doído e gostoso.

Dos chutes na janela em Pirituba.

Das idas ao terrão do Corinthians – lembra quando joguei de meia-esquerda e ganhei a camisa de melhor em campo?

Do Pacaembu – embora lá você esteja sempre que eu vou.

Do boa noite de todos os dias.

Eu poderia escrever muito mais do que as 198 páginas da minha tese, só de lembranças suas. Mas prefiro guardá-las, pra revê-las aos poucos.

A cada beijo em você no braço direito antes de cada jogo.

A cada gol sem abraços, sem telefonemas, sem “você viu, que golaço?”.

A cada dia sozinho neste mundo.

Mas, apesar das palavras tristes, não se preocupe, pai. Estou bem.

Completando alguns sonhos, destruindo alguns outros, criando outros novos. 

Importando alguns seus.

Não sei direito se você pode me ver, ouvir ou escutar. 

Mas se puder, olhe pela janela no dia 31 de dezembro.

Estarei lá, como a gente combinou e não cumpriu.

Correndo a São Silvestre.

E vou chegar ao fim. Duas vezes.

Uma por mim, e outra por você.

Porque você sempre foi minha mão, meus olhos, minhas pernas, meu sangue quando precisei.

Nada mais justo do que eu agora ser seus pulmões.

Parabéns, pai.

Nos encontramos nos sessenta.

Todo dia.

Beijos,

Dan.

***

P.S.: Lu, chorar de saudade não é vergonha alguma. Mas lembre sempre que o pai tá aí, tá aqui, tá em todo lugar. E sempre vai estar. Espero te ver em muito breve, quem sabe eu não vou pra Austrália em julho?

Te amo, irmãzona!

Beth, A Meia XIII

A Beth de hoje é presente de aniversário pra Mayumi, que completa 26 anos domingo mas bebemora a data hoje.

Como a May adooooooura fazer amigos, estão TODOS convidados. NÉ MAY?

(clique na imagem para ampliar)

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