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Cris

 – Toda vez que alguém morre, tudo que eu consigo ouvir é o silêncio.

 Cris teve que partir, e na hora da ida estavam lá as amigas e a filha.

Sussurrou um tchau baixinho e suave como era seu jeito de sempre falar.

Deixou na memória – a minha – um sítio todo de lembranças coloridas. Lugar de brincar, correr, jogar, dançar e cantar. Eu, meus meio-irmãos, e todos os nossos pais e mães, ela incluso. Era em Santa Rita do Passa Quatro, que se levasse seu nome seria do Passam Mil, tamanho seu coração.

Lutou, e só quem luta sabe, porque queria sempre estar. Com as amigas, muitas, e a família, também muita, de mesmo sangue ou não. Não desistiu, nunca; só mudou de sítio, agora.

Choveu granizo em São Paulo no dia em que se despediu, tanto que parecia neve. Foi seu jeito de deixar impresso na cidade outra memória indelével, inesquecível.

E se a partida lembra a finitude do corpo, também marca o eterno do espírito. E isso não há tempo que mude. Estará lá como aqui, igual, junto.

Ontem, quando cheguei ao hospital, estavam lá as amigas, sempre com ela. Aos poucos chegaram outras, várias, e o sítio foi se recompondo, mesmo que dos filhos estivessem presentes apenas os seus e eu. Vi nossas mães todas juntas, e de repente era Santa Rita, e havia comida e festa, e jogo, e dança. Toda uma geração que tivemos, eu e os outros filhos, o privilégio de conhecer e curtir. E lembrar, sempre.

Disse minha mãe:

– Toda vez que alguém morre, tudo que eu consigo ouvir é o silêncio.

Mãe, o silêncio fala. Com uma voz tão doce quanto a dela.

 * Dedicado à Teresa Cristina Bianchini, companheira de setembro como a primavera e o Corinthians, que nos deixou ontem. Cris, quando der, manda um alô pro meu pai, e diz pra ele preparar a bola que mais dia, menos dia eu apareço pra jogar…

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Dois

Tivemos um bom Natal aquele ano. Não que Natal significasse muito. Pro meu pai e pra mim ainda mais. A família dele estava no Rio e eu nunca fui muito de celebrar datas inventadas pra gastar dinheiro.

Natal era juntar a família. Mas naquele ano foi mais que isso. Porque abrimos para os amigos, então o apartamento onde normalmente não cabiam mais de 10 pessoas contava com 20 e poucas.

Tinha sido um ano difícil, 2008. Corinthians na Série B e meu pai bastante tempo no hospital. Os dois superaram. Gastei um dinheiro que não tinha no cartão de crédito pra colocar o rosto dele naquela camisa que o time lançou com fotos de torcedores. Marcando a volta.

No Natal, sempre fazemos amigo secreto. Que acaba sendo uma palhaçada. A maioria já sabe quem tirou quem e a hora da entrega é quase formalidade. Sempre fui contra isso. Sempre fiz questão de manter a brincadeira. Acho que sou metódico demais. Meio ridículo.

Naquele ano, quando chegou minha vez, pedi licença pra quebrar o protocolo. O pior é que eu falei assim mesmo, “quebrar o protocolo”. Que merda. Geração escritório. Pedi licença e falei que além do presente de amigo secreto eu tinha outro presente, pra um amigo nem um pouco secreto. Que tinha tido tempos difíceis e teve forças pra superá-los. Minha mãe já sabia o que era. Meu pai não. Peguei ele de surpresa. Entreguei a camisa.

O resto da noite, meu pai passou com aquela camisa gigante por cima da roupa de Natal.

***

Ano novo é quase emenda do Natal. Podiam decretar férias coletivas pro mundo inteiro entre os dois dias. Tem lugar que decreta.

Em 2008, passamos o ano novo na praia mais uma vez. Com os amigos da família, quase todos militantes contra a ditadura. A praia ficava cheia de uma gente meio estranha. Estava sendo valorizada. Destruída por gente rica. Yuppies. Nunca estão satisfeitos em foder os lugares onde moram. Precisam ir à praia.

Pensando bem, aquela casa cheia de gente de esquerda é que era estranha àquele lugar.

Meu pai não saía da casa. Estava sempre com oxigêno nas narinas, não dava. Sempre ficava alguém lá com ele. Conversando. Isso estava longe de ser um castigo. Era divertido. Ele observava todo mundo e tirava uns sarros muito bem sacados. Tocava violão. Discutia política. Seis anos antes, naquela mesma casa, assistimos juntos ao agora presidente Lula tomar posse. A casa dividia-se entre os que quase choravam de emoção e os que quase lamentavam que o final da luta que empreenderam durante décadas fosse aquele circo.

No dia 31, de noite, havia sempre outra divisão, entre os que queriam ir à praia e os que preferiam ficar em casa. Meu pai não tinha escolha. Eu e minha mãe ficamos. Nunca imaginaria que aquele seria meu último ano novo com ele. Nada indicava isso. Soubesse, e meu abraço teria sido dois milhões de vezes mais forte.

Dois trilhões.

Nada dizia que dali meu pai iria pro hospital pra não mais sair. Talvez não tenha sido prudente ir com ele à praia. Foda-se. Não dá pra ser prudente o tempo todo. O melhor fim de ano que tivemos em anos. Melhor que ficar em casa e morrer vendo o céu cinza dessa cidade escrota.

Pra mim, a imagem daquele fim de ano será, para sempre, meu pai tocando violão com a perna apoiada sobre uma cadeira, a camisa do Corinthians com a foto dele atrás, pendurada no encosto da cadeira. Acho que tenho uma foto disso.

***

Meu pai começou a ter uma crise de falta de ar no dia 1º. Pensamos que podia ser só uma gripe. Ele também. Precisamos ficar de olho, porque ele costumava diminuir os sintomas.

Daquela vez não deu.

Lá pelo dia 4, disse que não aguentava mais. Naquele dia, eu e minha namorada iríamos voltar pra São Paulo. Eu tinha que trabalhar. Ela nunca foi a maior entusiasta de praia. Pra falar a verdade, eu também. Voltaríamos de carona com um amigo da minha mãe, sua namorada e a filha.

Por volta de 7 da noite, eu e minha namorada esperávamos no ponto o ônibus para São Paulo. À nossa frente, passava o carro onde pegaríamos carona, com meus pais dentro. Dali, direto para o hospital.

Meu pai pediu desculpas por ter roubado nossa carona.

Eu quis pedir desculpas por não estar no carro com ele.

***

É difícil descrever a sensação de estar naquele hospital. Aquela rampa que insolitamente leva ao coffe shop e à UTI ao mesmo tempo. Você pode esperar a morte de seu familiar comendo uma deliciosa broa de milho com um cappuccino descafeinado.

Meu pai ficou pouco tempo no quarto. Logo foi pra UTI, dia 6 ou 7 de janeiro, eu acho. Minha mãe e eu discutíamos se devíamos chamar minha irmã da Austrália. Decidimos que sim.

Antes de vir, minha irmã chorou muito. Acho que de alguma forma todos nós já sabíamos. Inclusive ele. Um dia antes de ser entubado, da UTI, contrariando as normas sobre uso de telefones celulares, me mandou uma mensagem. Não a tenho mais para transcrever literalmente. Mas dizia que me amava. Como se precisasse.

Podíamos visitá-lo duas vezes por dia. Ele lutou muito contra a entubação. Queria ver minha irmã ao menos uma vez antes. Sabia que dali a volta era muito difícil. Todos sabíamos.

Não deu.

No dia em que minha mãe ligou pra dizer que ele seria entubado, eu estava trabalhando. Sinceramente, não lembro como cheguei ao hospital. Só lembro de estar lá.

Quando minha irmã chegou, ele já estava inconsciente. Sedado. Falávamos com ele. Os médicos diziam que não se sabe se podem ouvir ou não. Eu achava aquilo meio ridículo. Meu pai me criou materialista. Talvez demais. Talvez não.

Gente que gosta de assumir culpa e responsabilidade dos outros sofre sem sentido. Eu me sentia mal. De não estar com ele na hora da entubação. Não tinha como, os médicos não permitiram. E não houve tempo de chamar ninguém. Talvez se eu tivesse ficado naquele maldito coffe shop. Dormido lá, como cogitei. Foda-se o trabalho. Foda-se o trabalho? Quem eu queria enganar?

Um dia, diminuíram a sedação o máximo possível. Eu não estava lá. Estava trabalhando. Minha mãe e minha irmã puderam se comunicar com ele. Fiquei feliz, os dois mereciam aquilo. Minha irmã e ele. Precisavam. Mas eu não estava lá.

Porque eu não estava lá?

Foda-se o trabalho.

***

Se eu dissesse que 2009 foi um ano ruim, além de estar parodiando descaradamente John Fante, estaria mentindo.

Porque eu não posso dizer se 2009 foi bom ou ruim.

Em 2009, eu não estive aqui.

Lelê

Às vezes a gente conhece umas pessoas na vida e nem percebe o quanto elas são foda.

Aí um belo dia elas passam 15 minutos contigo e desenham uma linha, “antes de conhecer” e “depois de conhecer”.

No meu caso, ultimamente, tive sorte: presentearam-me com duas pessoas dessas no mesmo ano.

As duas de apelido Lelê.

As duas de aniversário em 08/10.

Uma de cada sexo.

Lelê, o palmeirense fantástico, zagueiro do Autônomos;

Lelê, a corinthiana fanática, a mãe espetacular, a blogueira sensacional, a amiga que vai te buscar no aeroporto numa segunda-feira chuvosa à meia-noite a troco de nada.

Pessoas daquelas que você, com 15 anos, colocaria na lista de quem levaria pra uma ilha deserta.

No caso da Lelê, eu não sou o único a pensar assim.  Tanto é que a TPM percebeu que ela é uma em um trilhão e contratou o blog dela.

Minha amiga mais famosa.

Que mesmo que ninguém conhecesse seria minha amiga mais famosa.

Porque eu falo dela e do blog dela pra todo mundo.

Porque ela merece.

Por mais que algumas chefes de ONG sem senso de humor, ou melhor, com senso de humor aristocrático, não a entendam.

A essas, o futuro dará a mesma lição que vem dando em alguns “jornalistas” esportivos por aí: mais vale um gênio na mão do que dois atacantes-fulanos.

Lelê é gênio. Isso eu posso dizer.

E sabe que estamos aí pro que der e vier.

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Seu Cido

Em razão do falecimento, na noite desta quarta-feira, aos 61 anos e em razão de um derrame, de Seu Cido, colega de trabalho bastante querido, reproduzo aqui novamente o texto sobre ele postado em 12 de novembro do ano passado.

Cido, todos se vão um dia; só aqueles com caráter e carisma ficam pra sempre.

Saudades de seu colega de trabalho e de histórias da várzea.

***

Seu Cido

Aqui onde trabalho tem um senhor, o Seu Cido, que vem de vez em quando.

Deveria estar aposentado já, mas aposentar significa perder quase metade do salário, então…

Aí esses dias ele começou a falar de futebol.

Do time que tinham por aqui quando eram do FUNRURAL (aquela instituição feita pra aposentar cabos eleitorais com doze aposentadorias diferentes, uma por cada cidade em que atuava, que funcionou de 76 a 79, lembram?).

E não é que o seu Cido era meia-esquerda, dos bons?

Fiquei quase 30 minutos ouvindo as suas histórias.

Histórias de um outro tempo, do trabalho e do lazer, que permitiam outras relações.

Histórias apaixonantes, que me lembram as da minha avó – como podemos deixar nossos idosos abandonados como deixamos quando são eles a nossa história viva, muito mais que os livros institucionais das escolinhas da vida?

Seu Cido, quando jovem, lá em São José do Rio Preto, chegou a treinar com os profissionais do Rio Preto. “Mas eu gostava era de jogar bola, aquilo era muito rígido, tinha massagem nos joelhos, laranjinha” (pra chupar antes dos jogos). E de ir aos jogos do América, na primeira divisão, “pra ver o Santos, o Palmeiras, o Corinthians” – e ainda tem gente que defende o fim dos estaduais… 

Deviam propor é o fim do profissional logo, “que isso aí, hoje, com essas bolas levinhas, essas chuteiras coloridas, isso virou palhaçada”.

Seu Cido gostava mesmo é da várzea.

De bater faltas da meia-lua, que ele treinava desde criança, com traves de zinco que improvisava no muro de casa – “escolinha de futebol? Eu aprendi a chutar com os dois pés no muro de casa e essa molecada hoje não sabe nem cruzar uma bola”…

Faltas que surpreenderam o goleiro do Brasil da Mooca, melhor time da várzea na época, quando o time do FUNRURAL, com seu uniforme alviverde (”mas a camisa era branca, que verde eu não usava”, disse o corinthiano Seu Cido), foi visitá-los e acabou vencendo por 2 x 1.

“Um grande time, a gente tinha”. 

O mesmo do ex-profissional Toninho Vanusa e do grande central Waldemar com suas bombas de falta.

Que jogava de segunda a sábado, entre o campo e o salão. “Eu macetava melhoral com café pra aguentar, mas não faz isso não, que é ruim pro coração”.

Que enfrentou e venceu o Botafogo da Penha, com mais um gol de falta do Seu Cido, que contou com a honestidade do goleiro, já que a bola passou por um buraco da rede “e o juiz não quis dar o gol não”.

Mas lembrança mesmo Seu Cido tem dos jogos de semana à noite, “os refletores todos ligados”, principalmente contra o time do INPS, “que tinha um uniforme azulão”. Ganharam deles “duas vezes, uma no campo deles na Mooca, 1 x 0, e outra lá em Interlagos, que eles não quiseram jogar na Mooca, 5 x 1, o Waldemar fez até um gol de pênalti, que ele adorava fazer gol de pênalti e falta”. 

É, zagueiro, quando tem chance, tem que aproveitar.

Aliás, zagueiro dos bons, “que era difícil passar daquela zaga viu, e sem apelar eles jogavam”.

E não jogavam em casa?

“Não, a gente gostava mesmo era de rodar”.

Até que aos 45 (cabalisticamente), Seu Cido parou. Suas pernas já não aguentavam mais. 

A conversa acabou e eu fiquei aqui imaginando Seu Cido jovem, com o uniforme “que eu mesmo desenhei o escudo, devo ter em casa, vou trazer pra você”, jogando contra o time dos funcionários da FEBEM, “num campo bonito, gramado, grande”, ao lado do meia-direita “inteligente, envolvido com esses negócios de greve, mas que usava muita bolinha viu, mas a gente fez ele parar”, ganhando “uns troféus grandes, viu, bonitos, tenho foto lá em casa, você vai ver”.

Época em que a vida de trabalhador era dura, mas era vida, e o futebol era rude, mas era festa pra todos, e não só pra alguns.

Quando o time do FUNRURAL, indo jogar salão de terça-feira contra o Primeiro de Maio do Tatuapé, escutava sempre dos adversários, ao fim do jogo, perdendo ou ganhando:

– Amanhã vocês vem de novo, né?

Saudades românticas do que eu nunca vivi?

Não, não.

Inspiração pro que eu ainda tenho por viver.

Beth, A Meia XIII

A Beth de hoje é presente de aniversário pra Mayumi, que completa 26 anos domingo mas bebemora a data hoje.

Como a May adooooooura fazer amigos, estão TODOS convidados. NÉ MAY?

(clique na imagem para ampliar)

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Todos os times são do povo

por Maurício Noznica*

Se “time do povo” for o título dado à equipe que tem tocerdores que fazem mais sacifícios, então somos todos torcedores do time do povo.

Cada um que conte a sua história, a minha é essa:

O jogo é fora de casa.

A torcida adversária estará não duas, ou 10, mas 100 vezes maior que a nossa.

Mesmo assim, dois ônibus irão pro estádio na outra cidade, sem escolta da polícia.

Pra variar, se perdem. Por azar passamos em frente da sede de duas organizadas, das grandes. Seus integrantes nos olham com um misto de raiva e sarcasmo. “Que ridículos”, pensam.

Os dois ônibus seguem.

Será um jogo difícil, contra o líder disparado, que conta os jogos pra alcançar o acesso à Série A, de onde caíra no ano anterior.

Chegamos ao estádio. As ruas tomadas da torcida rival. Ameaçam nos jogar alguns objetos, mesmo assim não fechamos os vidros, seguimos cantando, como um último grito.

A entrada? Portão 23 do Pacaembu. É… é esse mesmo, onde uma fila de cerca de 500 corinthianos se empurra para entrar. Quatro policiais aparecem e nos fazem descer no meio da multidão. Não houve maldade, não fizeram nada, olhavam admirados como se dissessem “por que vieram?”, mesma pergunta da polícia, que nos vê apenas como um trabalho a mais.

Por alguns minutos somos o centro das atenções, a mistura de desafio, medo e alegria se transforma em euforia ao entrarmos no lugar destinado a nossa torcida.

Minutos de êxtase depois inicia-se o jogo. O time joga afinado com o desejo dos torcedores, com raça e vontade falando mais alto que a técnica. Nossa torcida sequer depende disso e segue cantando desde o primeiro minuto de jogo.

Santo André 1 x 0. As lágrimas são tantas quanto os gritos. Acaba o primeiro tempo. Jogamos bem, cantamos bonito.

Nossa gente, nossos cidadãos e cidadãs, senhoras, crianças, adolescenes, boleiros, trabalhadores, desempregados… todos ali… orgulhosos do nosso brasão, que simplesmente é usado como escudo de união.

Começa o 2º tempo. Chove. Santo André 2 x 0. Mais lágrimas.

O Corinthians acorda e vai pra cima, mas ainda desconcertado, e após um erro do ataque, é possível escutar as primeiras vaias e reclamações.

Se segura Santo André… se aguentarmos mais alguns minutos…

Uma massa de ar quente se desloca na minha cara. O gol vem gritado por quase 30 mil torcedores. Machuca, deixa triste, mas não paramos de cantar.

Eu já sabia o fim. Era impossível ser diferente, o estádio vinha abaixo. A policia avisa, se quisermos escolta para a volta, temos que sair agora. Então não queremos escolta, eu nunca vou te abandonar, Santo André.

Gol. O policial ri enquanto vai embora.

Corinthians 2 x 2 Santo André. O pior aconteceu.

E dá-lhe mais sufoco. Mas acaba-se o jogo e o sonho.

Acordo do transe e me sinto bem, fizemos nossa parte, continuamos cantando.

Mas temos que esperar mais um tempo de 45 minutos pra irmos embora.

Esperamos, xingados por todos que deixam o estádio. Não nos importamos.

Chegam nossos ônibus (que estão incrivelmente mais lotados agora).

Não temos escolta, as ruas estão paradas e cheias de torcedores rivais. Assim que a última pessoa entra no ônibus vem a primeira pedra.

Primeira e última, é o que parecia, a torcida adversária não parece nos perceber no meio do trânsito e da chuva.

O motorista, pra variar, se perde e contorna o Pacaembu. Seguimos apreensivos, até que um torcedor alvinegro vem até a nossa porta e nos convida: “desce aê, cuzão”. As 45 pessoas, entre as quais idosas e crianças que estavam no ônibus, rejeitam a idéia.

Inconformado com a negativa, o amigo do lado de fora estoura o vidro da porta do ônibus com uma pedra, ou garrafa que tinha em mãos. Os vidros chegam a machucar algumas pessoas.

Não há uma viatura, um policial, estamos por nossa própria conta, sem deus, sem leis.

E por obra do destino o trânsito anda, e saímos dali. Simples assim.

A viagem ainda demora, e chegamos em Santo André por volta das 20h30, a ponto de saber que o time B havia vencido o Linense por 4×3 pela Copa FPF. Pudemos saudar os jogadores que saíam pelo portão do Brunão.

E chega por hoje, semana que vem jogamos em casa.

Não somos muitos, mas também somos povo, e pra nós o Ramalhão é que é o time do povo…

*Maurício Noznica é publicitário, andreense, punk, colecionador de camisas (que podem ser vistas em seu blog, http://asmilcamisas.wordpress.com) e estava entre os que invadiram o gramado do Maracanã quando o Ramalhão venceu o Flamengo por 2 x 0 e sagrou-se campeão da Copa do Brasil de 2004. Me mandou esse texto por email em resposta ao meu texto “Time do Povo” e eu tomei a liberdade de criar um título e publicá-lo aqui.

Desencanto

Desde 2005, toco guitarra numa banda que nunca sai do lugar.

Porque sempre faltou vocal e sempre teve algum membro saindo no meio.

Agora, parece que a banda se firmou, ainda sem vocal, algo que não sabemos mais se queremos.

Gravamos um ensaio, tá no ar: http://www.myspace.com/desencantosp

As músicas já foram ensaiadas tantas vezes que até parecem bem tocadas, hehe.

Se alguém se interessar, em chamar pra tocar, em tentar fazer um vocal, em qualquer coisa, entre em contato.

Todas as músicas tem até letras, por isso seus nomes. Tentei cantá-las, mas, como vocalista, meu forte é a bateria.

Ou, no caso, a guitarra, embora não seja tão forte assim. Tá mais pra um meio-médio ligeiro.

Escutem.