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Adeus

Já tive perdas na vida. Uma avó e um pai. E doeu, dói até hoje. O caminho até o velório, o percurso até o enterro, o vagar até a cremação, foram todos momentos quase infinitos de espera pra dizer adeus. Em todos eles, porém, a morte já estava dada. O adeus era inevitável, coletivo, e não tinha sido decidido por mim.

Hoje o Abu se foi. Foram 15 anos de carinhos, lambidas, latidos e risadas. Em todos eles, o ato de abrir a porta do apartamento era instantaneamente seguido por um outro tipo de espera, pelo rabo balançando, o latido, a corrida emocionada, os pulos. O abrir a porta tinha vida, e a vida era alegre e saltitante.

Mas vida que é vida termina. E a do Abu também teria que terminar. Eu sempre tive cachorros, mas nunca tinha perdido um nas minhas mãos. Fazia já alguns anos que os latidos e lambidas vinham sendo gradativamente substituídos por ganidos e dores. Sabíamos que um dia chegaria a hora. A hora do fim, a hora do adeus.

Hoje, quando acordei e caminhei para o veterinário, de certa forma me vi repetindo uma vez mais o mesmo trajeto. Mas alguma coisa era diferente. Porque eu sabia que chegando lá a morte não estaria. Ainda haveria vida, e uma vida que não era a minha.

Como decidir pela existência de outro ser?

Tem horas em que não há muito espaço pra dúvidas. Algumas decisões precisam ser sem pensar demais, relativizar, criar esperança. Mas isso não torna nada mais fácil.

Abu viveu quase metade da minha vida comigo. Mais da metade, se contarmos apenas a parte da vida da qual eu tenho memórias. Era uma parte de mim, da minha mãe, da minha irmã. A última parte viva do meu pai, ou pelo menos do tempo em que todos nós existíamos juntos.

Quando cheguei na sala do veterinário, o mesmo nestes 15 anos, Abu quase não se movia mais. Era pele e osso, respirava devagar. Não tinha mais músculos, nem pra fechar os olhos – passou a última noite acordado, ao lado da minha mãe, a mais fiel das companhias que qualquer ser vivo pode ter. Enxuguei as lágrimas que já tinham corrido pelo caminho. Era a hora.

Do último beijo, o último abraço, o último afago. Do último carinho.

A vida é sempre cheia de perdas. E cada perda é um eterno recomeçar. Nunca é fácil aprender a viver sem, mas todo vazio é um espaço para construir. Cada vez que alguém se vai, o coração aumenta mais um pouquinho. Que é pra caber as coisas novas, misturadas com as memórias velhas.

“Não aprendi dizer adeus”, diz uma música brega. Cantarolei ela na cabeça por todo o caminho.

O meu até o veterinário.

E o do Abu até a memória.

Sabe, Abu?

Acho que a gente nunca aprende.

Obrigado, meu amigo. Até sempre.

abu

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Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

Três

Ter perdido meu pai não me torna um herói. Nem um coitado. Longe disso, bem longe. Todo dia pessoas perdem pessoas. Às vezes sem morte. Isso sim é triste.

Não sou de vidro. Talvez escrever tudo isso faça parecer com que seja. Não quero olhares de dó nem perguntas “você está bem”. Socorro. Isso não é um pedido de socorro.

Meu pai era um cara engraçado.

***

Quando eu era pequeno, não gostava muito de Chaves. Queria ver Globo Esporte. Tinha que ver no quarto. A sala era dele. Tudo ao contrário. Normalmente as crianças é que querem ver programas infantis. Depois fui descobrir que Chaves não é exatamente um programa infantil. Quando cresci um pouco mais, meu pai me mostrou Monty Python, Caça-Fantasmas, Loucademia de Polícia, Trapalhões quando ainda era bom. Ele gostava de dar risada. De fazer os outros rirem.

Todo amigo meu que passava lá em casa ganhava um apelido. A maioria vinha do Chaves. Alguns de Carrossel, que minha irmã adorava. Ele tirava as pessoas do lugar de respeito pelo ambiente alheio e as colocava em casa. Um mecanismo interessante: desconcertar para desconcentrar. Dá pra usar isso numa guerra, se bobear. Se é que já não usaram. O que já não usaram numa guerra?

Uma coisa que herdei de meu pai muito bem foi a capacidade de observar e escutar o entorno. Pra fazer piada. Você estava conversando com alguém e de repente ele entrava no meio com alguma piada. No tempo certo, quase sempre. Uma vez minha mãe e minha irmã gritavam uma com a outra pela casa até que foram cada uma para seu quarto e minha mãe gritou, por final: “autoritária é a sua vó!”. Não deu outra: meu pai esperou menos de 1 minuto pra abrir a porta do quarto da minha irmã e dizer, tentando imitar o Chaves: “Luciana, sua avozinha era parente do Mussolini?”. Minha irmã não sabia se ria ou gritava.

Minha irmã, aliás, adorava fazer brigadeiro. Daqueles leite condensado com nescau mesmo. Nos lambuzávamos de comer. Era meio absurdo, até: mal o doce saía do fogo e já estavam 3 ou 4 crianças queimando a língua. Dava briga, às vezes. Os pais tentavam controlar daquele jeito observador, só pra garantir que ninguém se machuque. Meu pai nem tanto. Ele se preocupava mais com outra coisa: a tigela.

A tigela do brigadeiro sempre era largada em algum canto. Suja. Com o doce impregnando no vidro de forma a exigir água quente pra sair. Uma vez a tigela ficou em cima da pia. Meu pai pediu à minha irmã que lavasse. Um dia. Dois. Três. Cinco. Sete dias depois, minha irmã foi acordada às 7 da manhã por ele cantando “parabéns” com a tigela suja na mão, uma velinha em cima.

Mas meu pai sabia rir dele mesmo também. Contava de quando foi acampar na praia e se meteu a nadar no mar bravo pela manhã. Quase se afogou. Gritou por socorro. Os amigos fizeram uma corrente, dando as mãos uns aos outros, e chegaram até ele. O trouxeram para fora do mar e, quando ele abriu a boca, o primeiro deles começou a rir descontroladamente. Meu pai ficou sem entender. Pôs a mão na boca e… tinha perdido a dentadura.

Haviam em casa ainda as piadas prontas. Como quando minha mãe ia tomar banho. Era certeza que ela gritaria do banheiro para pedir algo. Ou para dizer algo. Quase sempre algo que poderia ser dito depois, ou pedido depois. Uma dessas vezes meu pai estava deitado vendo TV e ela chamou. Ele resmungou, mas foi lá. Era qualquer coisa inútil. Voltou puto da vida. Mal encostou a cabeça no travesseiro e ela chamou de novo. Ele voltou lá semi-enfurecido. Discutiram. Quando ele voltou, ficou andando de um lado pro outro. Eu prestava atenção na TV. Percebi que ele não se sentava, nem deitava, e perguntei porquê. Ele respondeu, “se eu deitar ela vai me chamar de novo”. Comecei a rir. Ele também. Esperou mais uns 2 minutos e deitou. Quer dizer, tentou: enconstou a bunda no colchão e veio o grito: “Cleeeeeeeeber”. Caímos na gargalhada.

Outra vez, minha namorada tinha dormido em casa e, de manhã, estávamos todos na sala, conjecturando sobre o café. Meu pai dormia. Ao menos parecia. Minha mãe pediu à minha namorada, brincando, que fizesse café. Ela respondeu que não sabia. Minha mãe questionou “como assim, você não sabe fazer café?”. Minha irmã fez o mesmo. Eu também. De repente meu pai levanta do colchão como um zumbi e quase grita, “COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE FAZER CAFÉ?”. O filho da puta sabia esperar a hora exata pra fazer graça.

Minha avó sempre me diz que eu sou meu pai escrito. Acho que ela quer dizer que me pareço muito com ele no jeito de agir.

Não sei.

Preciso conseguir fazer rir mais do que chorar pra isso.

***

Além do cigarro, meu pai era viciado em café. Um café nojento: no bar, quando pedia, ele jogava metade fora, completava com água fria e colocava, sem exagero, no mínimo um terço do copo de açúcar. Em casa, fazia o mesmo, com o agravante de deixar o copo sobre a geladeira por dias, tomando de gole em gole.

Era irritante quando ele me levava pra jogar no Corinthians. Ele tomava café no bar entre nossa casa e o ponto de ônibus. Pegávamos o ônibus, descíamos na avenida Celso Garcia e tínhamos que descer toda a rua São Jorge a pé. A rua São Jorge tem uns quatrocentos botecos. Meu pai tomava café em metade deles. Às vezes isso fazia com que eu chegasse atrasado, ou em cima da hora do jogo, o que significava ser reserva. Eu odiava aquilo. Um dia, com 13 anos, me revoltei. Já estávamos em cima da hora e ele parou no bar perto de casa. Fiquei puto, discuti com ele e saí andando. Peguei o ônibus e fui sozinho pro jogo. Cheguei em cima da hora. O filho da puta já estava lá me esperando. Tinha pego um táxi.

Meu pai nunca estava errado.

***

Em termos financeiros, meus pais formavam um equilíbrio arriscado. Fácil de ser rompido. Minha mãe sempre foi contida e precavida, pagando as contas em dia, guardando dinheiro pra eventuais emergências. Meio paranóica até. Meu pai era o oposto. Se empolgava com novidades e comprava. Até hoje temos trocentas peças de computador sem uso em casa.

Eu não reclamava muito. Pedia 5 reais pro meu pai e ganhava 10. Com a minha mãe era igual, só que ela me dizia pra gastar direito. Pra guardar o que sobrasse.

Quando eles se casaram, deram entrada em um apartamento no Piqueri. Anos depois, venderam a parte que já estava paga e compraram duas bancas de jornal. As bancas não deram certo, foram vendidas. Com o dinheiro, meu pai comprou um videocassete.

Minha mãe tinha um apartamento e acabou com um videocassete.

***

O Abu adorava minha irmã, mais do que eu. Era o cão dela. Depois, minha irmã foi pra Austrália. Eu já morava fora da casa dos meus pais. Minha mãe trabalhava. Meu pai, doente, em casa, virou seu companheiro de todos os dias.

Me lembro de quando chegamos da cremação de meu pai, exaustos. Física e emocionalmente. Abrimos a porta e não tivemos muitas forças pra fazer festa pro cão. Ele pulou um pouco em cada um. No meio da sala, ficava a cama onde meu pai dormia. Fomos nos trocar.

Quando voltei, Abu estava deitado sobre aquela cama, olhando pra porta. Não tinha chegado todo mundo. Faltava seu companheiro.

Não há palavras no mundo que possam expressar o vazio que vi em seus olhos.

Lembro que naquela noite dormi naquela cama. Abu, que nunca foi muito de colo, dormiu comigo, aos meus pés.

Sempre com os olhos virados para a porta.

Até hoje.

Como dizer a um cachorro que ele não vem mais?

Sete

Às vezes é preciso escrever. Preciso, mesmo. Essa é uma dessas vezes.

Já faz quase um ano. Parece muito mais. Talvez eu nunca tenha conseguido de verdade pensar sobre isso, fazer o que eu faço de melhor e de pior: racionalizar. Bater de frente com as emoções e colocá-nas numa coleirinha, por mais que ela vá arrebentar uma hora. Há um certo mecanismo que atrai e repulsa quase que no piloto automático sempre que o assunto me vem, e não há dia que não venha.

Sempre tive problemas de ansiedade, então eu faço listas – e não, não digo isso pra parecer que quero fazer referência ao Alta Fidelidade. Foda-se o Alta Fidelidade. É bom pra caralho, mas foda-se, não tenho nada a ver com isso. Minhas listas são bem mais banais e chatas. São pra lembrar o que tenho que fazer – como se eu fosse esquecer. Eu nunca esqueço nada quando se trata de coisas que tenho que fazer. Isso cansa. Responsabilidade cansa. E vicia. Você acaba pegando a dos outros pra si.

Mas voltemos às listas. Eu as faço, primeiro mentalmente, muitas e muitas vezes, até chegar num ponto em que me sinto agoniado por estar repetindo a mesma merda em silêncio na cabeça como se fosse um mantra e passo pro papel. O papel vai pro bolso, e depois outro e mais outro, até que o bolso fique cheio demais e comece a me incomodar na hora de sentar no ônibus. Caralho, que coisa mais escritório: listas, repetição mental e pilhas de papéis inúteis. Geração Coca-Cola merda nenhuma, geração escritório. Que merda. Mas comigo sempre foi assim, provavelmente sempre será. No último Natal, tentei comprar um caderninho pra anotar as coisas, deixar de juntar papel no bolso, mas minha cachorra comeu antes que eu escrevesse qualquer coisa. Cachorros são assim, sempre guardando seus donos pra não deixar eles fugirem do que realmente são. E eu sou meus papéis, também. Meus papéis, minhas listas, minhas responsabilidades aumentadas. Cacete, já fui de novo pra longe.

Repito às coisas mentalmente, já disse. Sempre repeti. Mas nesse ano essa ação obssessiva-compulsiva veio acompanhada de uma auto-sabotagem frequente. Qualquer lista que eu crie ou repita começa sempre igual, com a mesma palavra, a mesma lembrança. No começo, pensava que não era nada demais. Resquício do número de vezes que as três letras apareceram no papel antes, era algo frequente, por isso sempre volta à tona agora. Tento me convencer disso, mas o fato da palavra em questão vir sempre acompanhada da idéia de um telefonema me incomoda. Um telefonema é um ato de comunicação, então talvez não seja só ato falho, talvez seja um recado do fundo da minha mente, me dizendo olha, não vou te deixar esquecer, você precisa entrar em contato. Acontece que o contato é impossível agora, então eu auto-saboto esse eterno primeiro item da lista e vou pro segundo, sempre algo mais prático como comprar comida pra cachorra.

Porra, isso ficou confuso demais. Preciso deixar de encher o meu próprio saco. Escrevo, releio e penso, que merda, pra que tudo isso pra dizer algo tão simples? Aí vou e apago. Mas dessa vez não vou apagar. Chega de apagar.

O lance é que nesse ano quase inteiro que se passou desde aquela chuva o mesmo nome me vem a cabeça. O mesmo nome ligado ao mesmo ato. É algo mais ou menos assim, o que preciso fazer hoje… bom, tenho que ligar para… não, porra, não dá. Não mais. Vamos em frente, antes que eu me deixe convencer de que preciso de um psicólogo.

Ninguém precisa de um psicólogo.

***

Sempre que eu me encho de um assunto, coloco três asteriscos e passo pra outra coisa. Não sei onde aprendi isso, se é que isso é algum tipo de aprendizado, mas faço isso. E aqui vou eu.

Escrever na primeira pessoa do singular, contando fatos da própria vida, é o jeito mais fácil de prender a atenção de alguém. Fica parecendo que é algo único, olha só o que esse cara fez/passou/viveu, quando na verdade é na maior parte do tempo uma enrolação em cima de idiotices e banalidades. Pensa bem, que grande coisa eu disse aí em cima? Porra nenhuma, fala sério. As pessoas vem me falar que eu escrevo bem e eu sempre fico pensando que elas precisam ler mais. Mais livros, menos manuais. Mas tá certo, elogios são sinceros às vezes. Às vezes.

Eu pensei em enrolar até o fim do texto sem dizer exatamente sobre o que eu quero falar, mas essa idéia de manipular os poucos coitados que vão chegar a ler isso aqui me torna um filho da puta, e eu nem sempre quero ser um filho da puta, então vou ser direto: faz quase um ano que meu pai morreu. Faz quase um ano que eu morri, de fato. O que existe depois de 25 de janeiro de 2009 é no máximo um simulacro do que existiu antes. Como aquela luz de gerador que acende meio esquálida quando a luz elétrica acaba. Só que o gerador tá indo pro saco e a luz ainda não voltou, então é bom ir acendendo as velas. Por mais exagerado e catastrófico que isso pareça.

De certa forma, este texto é pra mim a caixa de fósforos. Preciso ser honesto e dizer que eu não sei o que eu quero dele. Não sei se será melancólico ou superador. Eu não sei. Se você já encheu o saco de ler, esquece, pode parar, eu não sei se no final a caixa vai pra gaveta junto com as velas, a luz volta e nós vamos jogar videogame ou se risco o fósforo e ponho fogo em tudo de uma vez.

Meu pai gostava de jogar videogame, desde a época do Atari. Eu tenho um Atari até hoje, que dei de presente pra ele uns anos atrás. Me lembro dos sacos de controles quebrados e dos milhões de fitas empoeiradas que fomos até a Lapa trocar por poucos e míseros jogos de Super Nintendo. Caralho, aquilo deve ter doído nele, imagino. Toda uma história trocada por uma merda de videogame novo pro filho mimado. Mas sem essa de martírio, ele fez por que quis. Me fez por que quis. E eu tenho certeza de que morreu feliz de ter feito. Pelo menos um pouco.

Lembro de que quando eu era bem pequeno meu pai ligava o Atari com o Chess antes de ir trabalhar. Fazia uma jogada contra “a máquina” e trocava o chaveamento de volta pra TV. De noite, quando chegava da merda do banco, ligava o videogame de novo e fazia mais alguns movimentos. O jogo durava dias. Eu não entendia porra nenhuma. Mais pra frente ele tentou me ensinar xadrez, me falou das grandes jogadas, dos tipos de saída, dos grandes jogadores, do Casablanca (era esse o nome?) que aprendeu a jogar bem moleque só observando o pai. Mas xadrez requer paciência e concentração, e eu sempre fui ansioso, já disse isso. Meu pai também não tinha muita paciência, então eu nunca passei de saber mexer as peças. Uma época aprendi aquela saída em que você dá cheque-mate em três jogadas, e aí parecia criança com piada nova, queria fazer toda hora. É, eu era uma criança com piada nova.

Na verdade é uma mentira dizer que meu pai não tinha muita paciência. Ele não tinha paciência nenhuma. Era o cara mais turrão e teimoso que eu já vi. Mas nunca deixou de ouvir, mesmo que inventasse argumentos esdrúxulos pra não dar o braço a torcer. Nossas conversas quase sempre acabavam em discussão, e depois de meia hora ele vinha dizer alguma coisa que, tortuosamente, nas entrelinhas, significava “ok, entendi seu ponto, ele tem alguma validade”. Era o máximo que eu conseguia tirar dele. Mas tinha vezes em que eu estava indo dormir e aproveitava pra dizer alguma coisa, e aquilo virava uma conversa até quatro da manhã. Daquelas que você nunca esquece e que eu fiz questão de esconder por todo esse ano.

Pensando bem, o fato é que eu era um cagão pra expor meus conflitos e pedir ajuda e ele fazia pose demais pra escutá-los e dar algum conselho. Mas funcionava.

Não sei se devo tornar isso aqui público. Acho que devo. Porque que coisa mais idiota é escrever pra você mesmo. Coisa de adolescente que tem diário. Ou melhor, nem isso, porque tudo que adolescente quer é que a pessoa certa leia seu diário. O problema é que quem lê é sempre a errada, o irmão mais novo que faz questão de ser um imbecil e espalhar pra todo mundo os podres, ou a amiga que agora é ex-amiga por motivos óbvios. Amizade de criança é uma coisa curiosa, completamente interesseira. Até cachorro é mais leal. A infância é uma das piores merdas que a humanidade já inventou.

Sim, eu gosto de cachorros, talvez num nível um tanto doentio. Meu pai também gostava. Fingia que não, dava bronca, mas no final da vida o que ele mais curtia era nosso cachorro pedindo comida e carinho pra ele. Era a companhia mais fiel que ele tinha. Porque por mais que a gente também estivesse lá, não dava pra estar sempre lá. A humanidade insiste em arranjar compromissos chatos e entediantes pra poder se sentir sozinha e escrever textos enfadonhos sobre a ausência da vida em família. Ausência que projetamos nos cachorros e gatos, que um dia morrem, como se isso fosse algo muito inesperado, e nos proporcionam boas oportunidades de ganhar dinheiro contando histórias de quão fiéis eram nossos companheiros.

Cacete, que coisa triste nos tornamos: dependentes químicos de afeto animal instintivo. Exploradores cínicos disso. Pobres cachorros.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos minha mãe viúva, menos nosso cachorro velho e solitário dormindo em qualquer canto, cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde como sozinho, mas estaremos sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

***