Adeus

Já tive perdas na vida. Uma avó e um pai. E doeu, dói até hoje. O caminho até o velório, o percurso até o enterro, o vagar até a cremação, foram todos momentos quase infinitos de espera pra dizer adeus. Em todos eles, porém, a morte já estava dada. O adeus era inevitável, coletivo, e não tinha sido decidido por mim.

Hoje o Abu se foi. Foram 15 anos de carinhos, lambidas, latidos e risadas. Em todos eles, o ato de abrir a porta do apartamento era instantaneamente seguido por um outro tipo de espera, pelo rabo balançando, o latido, a corrida emocionada, os pulos. O abrir a porta tinha vida, e a vida era alegre e saltitante.

Mas vida que é vida termina. E a do Abu também teria que terminar. Eu sempre tive cachorros, mas nunca tinha perdido um nas minhas mãos. Fazia já alguns anos que os latidos e lambidas vinham sendo gradativamente substituídos por ganidos e dores. Sabíamos que um dia chegaria a hora. A hora do fim, a hora do adeus.

Hoje, quando acordei e caminhei para o veterinário, de certa forma me vi repetindo uma vez mais o mesmo trajeto. Mas alguma coisa era diferente. Porque eu sabia que chegando lá a morte não estaria. Ainda haveria vida, e uma vida que não era a minha.

Como decidir pela existência de outro ser?

Tem horas em que não há muito espaço pra dúvidas. Algumas decisões precisam ser sem pensar demais, relativizar, criar esperança. Mas isso não torna nada mais fácil.

Abu viveu quase metade da minha vida comigo. Mais da metade, se contarmos apenas a parte da vida da qual eu tenho memórias. Era uma parte de mim, da minha mãe, da minha irmã. A última parte viva do meu pai, ou pelo menos do tempo em que todos nós existíamos juntos.

Quando cheguei na sala do veterinário, o mesmo nestes 15 anos, Abu quase não se movia mais. Era pele e osso, respirava devagar. Não tinha mais músculos, nem pra fechar os olhos – passou a última noite acordado, ao lado da minha mãe, a mais fiel das companhias que qualquer ser vivo pode ter. Enxuguei as lágrimas que já tinham corrido pelo caminho. Era a hora.

Do último beijo, o último abraço, o último afago. Do último carinho.

A vida é sempre cheia de perdas. E cada perda é um eterno recomeçar. Nunca é fácil aprender a viver sem, mas todo vazio é um espaço para construir. Cada vez que alguém se vai, o coração aumenta mais um pouquinho. Que é pra caber as coisas novas, misturadas com as memórias velhas.

“Não aprendi dizer adeus”, diz uma música brega. Cantarolei ela na cabeça por todo o caminho.

O meu até o veterinário.

E o do Abu até a memória.

Sabe, Abu?

Acho que a gente nunca aprende.

Obrigado, meu amigo. Até sempre.

abu

Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

Xixi nas calças

Quando eu era pequeno, fazia xixi nas calças e na cama. Tenho certeza de que vocês também.

Morria de vergonha disso. Fazer xixi nas calças era como um atestado de dependência, de não ter controle sobre o próprio corpo. Muitas vezes era por ter bebido líquido demais, outras era por um pesadelo. Nessas, acabava acordando assustado, com medo e, pra piorar, envergonhado.

Depois de crescido, ouvi diversos relatos de xixi nas calças, de crianças e de adultos. Alguns davam muita agonia: eram calças molhadas por medo da morte na forma de uma arma apontada, ou na exata hora da morte mesmo, um último descontrole corporal, uma espécie de aviso do nosso corpo para o mundo de que o ser que ali morre carrega dentro de si uma criança – com seus medos e vergonhas.

Ontem eu estava dando aula quando recebi uma mensagem no celular. Era uma amiga, uma companheira de movimento social, dizendo que a frente da Câmara Municipal tinha se tornado uma praça de guerra. Os movimentos de moradia de São Paulo, juntos, pressionavam os vereadores pela votação – finalmente e com vários problemas sérios – do Plano Diretor, aquele montoado de papel escrito por gente de gravata (que já fez xixi nas calças e teve medo de pesadelo um dia) que significa uma pequena vitória pra uma imensa parte da população da cidade.

Mais da metade dos paulistanos, em levantamento de 2012, moram em favelas ou habitações precárias, ou em habitação nenhuma. Isso são mais de 5 milhões de pessoas. Todas elas também já fizeram xixi na calça um dia. E ontem estavam representadas em milhares de vozes de todas as faixas etárias que enxergam na aprovação do plano um avanço legal na regularização fundiária de suas casas, no processo de busca por moradia digna, um freio na especulação imobiliária sem limites que pode te tirar do sofá e colocar na rua num piscar de olhos – quando você menos vê, sua casa virou um estádio em Itaquera.

A Câmara Municipal é em teoria a “casa do povo”. Está escrito lá, inclusive. Mas quando o povo chega na porta, os vereadores, invariavelmente, tal qual todos nós um dia, mijam nas calças. De medo. Alguns, dizem, fazem até pior. E apelam pro único truque que conhecem, desde 1500: a violência. Hoje, ela responde por Polícia Militar. Ontem, estava acompanhada da Guarda Municipal.

Os guardas e policiais, todos eles, também já fizeram xixi nas calças. E tiveram vergonha. Ontem, entretanto, fizeram coisa bem pior, da qual não parecem ter vergonha nenhuma: jogaram bombas, atiraram e agrediram aquele povo sem casa que, na porta da casa do povo, lutava por resolver essa equação há tanto tempo desbalanceada.

Não, não sou professor de Química. Sou professor de Geografia. Não sei falar sobre a ureia do xixi nas calças e nem sobre o gás lacrimogênio das bombas do Estado. Sei falar um pouco sobre o direito à moradia e à cidade, e também sobre ter vergonha de fazer xixi nas calças, de ter medo de pesadelo e de ter lembranças horríveis, pessoais e coletivas, de gás lacrimogênio.

Terminei a aula ontem e vim pra casa apreensivo para ler as notícias. Na caixa de email, a mesma companheira da mensagem no celular narrava: não sei se há presos e feridos, passei por lá rapidamente. A parte mais triste foi ver uma criança fazer xixi na roupa por causa das bombas de gás.

Todos nós já fizemos xixi nas calças. E tenho certeza de que não precisamos de foto nenhuma pra imaginar o terror sentido por essa criança, e a vergonha depois, do próprio descontrole do corpo.

Posso ver essa criança chorando dentro de mim. E isso me dá muita, mas muita vergonha.

Não do xixi nas calças, mas do descabimento que é ter na maior metrópole da América Latina tanta casa sem gente, tanta gente sem casa e uma Polícia Militar que atira bombas em crianças.

A Polícia Militar é o eterno xixi nas calças do Estado. O próprio descontrole.

O problema é que, até agora, mesmo crescido, ele não sente nenhuma vergonha disso.

Terror, paixão e esperança: a Copa em três atos

(publicado originalmente aqui)

I.

Era o dia mais quente da história da metrópole desde 1943. Era sábado, dia de assembleia na ocupação. Mas antes da assembleia tinha outra coisa: um debate-bola sobre a Copa do Mundo, a Fifa e os efeitos disso tudo na vida daquela gente.

Aquilo, a princípio, parecia estranho pra ela: como a Copa que vai acontecer na zona leste de São Paulo poderia ter a ver com Osasco? Ainda mais aquele lugar de Osasco, longe, no topo de um dos muitos morros do planalto paulista, quase no pico do Jaraguá?

Chegaram uns moços e moças, mais moças que moços. O mais velho deles não parecia mais velho que ela. O que teriam a dizer? Anunciaram na rádio comunitária da ocupação, desceu muita gente pra escutar. Era sábado, e fazia sol, o maior sol desde 1943, mas pr’aquela gente o sol agora era suave, porque tinham teto. Teto que tinham construído, eles próprios, no terreno particular abandonado há décadas, em dívida com o poder público, enquanto ela e toda aquela gente não tinha um lugar que fosse pra se esconder do calor – e da chuva, e da miséria, e pra receber uma carta de algum parente distante.

Decidiram ocupar meses antes. Luta Popular: era esse o nome do grupo que ajudou na ocupação, na organização, no dia seguinte. Porque claro que viria o terror no dia seguinte – e no outro, no outro e no outro. Terror de “não ter nada garantido”, frase repetida como mantra por ali; terror de jornalistas, desses que tem teto, e comida, e carro, e emprego, que apareciam pra “noticiar” e chamavam de invasão; terror dos homens armados que rondavam o terreno e faziam ameaças.

Mas passaram-se os meses e o terror se dissipou, em parte. Ainda existe, que vida de gente pobre é basicamente saber lidar com o terror o tempo todo, mas não mandava mais nos corpos e mentes das quase 1000 famílias, às vezes mais, às vezes menos, que havia quase 6 meses moravam ali. Sim, moravam, ainda que sem luz e sem água, mas moravam.

E então era sábado, e vieram os moços e moças de um tal Comitê, Popular como a Luta, falar da Copa. E falaram – que a Fifa era quem estava ganhando com a Copa, que pro povo só sobraram as violações de direitos, os despejos, os ingressos caros, as proibições de trabalhar, a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mas que havia luta: no comitê, como na ocupa, centenas se agrupavam pra denunciar, questionar, se opor, mostrar pro mundo todo que a tal da Copa só trazia ganho pra quem já tinha. Quem não tinha, bom, estava como eles: na luta. Popular.

Uma menina ao lado dela perguntou, quanto se gastou com a Copa? Quase 30 bilhões, foi a resposta. E quantas casas, quantos terrenos como aquele, quantos hospitais e escolas públicos dava pra fazer com esse dinheiro? Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa, e esse dinheiro todo pro bolso de quem já tem todo esse dinheiro. Sentiu raiva, quis gritar, quis falar. Por que não? Falou.

– Isso é culpa nossa, sabe porquê? Porque depois quando vem essa gente aqui, beijar nossos filhos, pedir voto, a gente vai e vota neles. Tem que não ir votar! Tem que não ir votar na eleição, nunca mais!

Falava com vontade, com brio, com garra. E contagiava. Muitos aplausos, muita energia no ar, força, de vontade, de lutar. Veio o jornalista, outro, entrevistar, e ela repetiu com a mesma força tudo, e disse mais, e mais. A reunião já se dissipava, que era hora da assembleia da ocupa mais acima no morro, e ela notou que dois jovens daqueles do comitê a observavam com admiração. Chegavam mais perto. E perguntaram:

– Qual o nome da senhora?
– Maria da Paixão, mas em Osasco todo mundo me conhece por Mineirinha.
– Paixão… ótimo nome pra quem luta!
– Não é, minha filha? E falta muita luta ainda…

Falta sim, Mineirinha, falta muita luta. Pra vida toda.

Que, se for vivida com essa paixão, se for como a vida da Paixão da Esperança, não há terror que cale.

***

II.

Era sábado, o mesmo do maior sol desde 1943, e eles chegavam pra trabalhar. A diferença social ali não era tão grande quanto a salarial: os que chutavam bola ganhavam muito muito mais do que os que limpavam os quartos e os recintos, mas vários poderiam ter sido, anos ou meses antes, vizinhos deles. Era treino do Corinthians, no luxuoso e moderno CT construído na última década do time.

Tudo correria normal como o dia antes desse, e o antes desse, não fosse a paixão. De repente, uma centena de gente, a maioria da mesma origem que a maioria dos que ali trabalhavam, cercou o local. Tinham ódio no olhar, aquele tipo de ódio de quem se sente traído, roubado, esquecido, e queriam que alguém pagasse por isso – de preferência, os que chutavam bola. Da paixão, veio o terror.

Começaram uma caçada aos privilegiados, aqueles que tinham o direito de carregar aquela camisa centenária e que, pior, ganhavam muito muito mais que todo mundo ali pra isso. E que, na opinião deles, vinham fazendo isso sem paixão. Se esconderam, esses, com medo de algo que nunca tinham vivenciado tão de perto. De repente o trabalho milionário, de repente a visibilidade midiática invasiva, de repente tudo isso se tornava invisível. De repente, eles não eram mais adulados, eram odiados.

Os quase-vizinhos da recepção e da limpeza não se esconderam. Não podiam. Eram ordens. Ficaram no meio.

O povo entre o povo e o povo, o trabalhador entre a paixão e o terror. Uma mediação que se expressou pela força: esganamentos, correria, medo.

Minutos depois, os jornais noticiavam o fato. “Em momento bizarro, os invasores chegarem a se divertir no CT Joaquim Grava. Alguns pularam na piscina, enquanto outros passeavam tranquilamente, observando a estrutura do local e até puxando papo com funcionários do clube”, disse um portal desses eletrônicos. Bizarro? O que era bizarro? A opulência do CT moderno e vultuoso, propriedade atual daquele time há mais de cem anos fundado por trabalhadores pobres, frente à pobreza daqueles que, por intermédio da única paixão que lhes permite sair da parte mais baixa da pirâmide, resolviam cobrar na força o comprometimento dos jogadores? Ou bizarro era que aquelas pessoas, “invasores, vândalos, bandidos”, fossem capazes das mesmas coisas que o resto, nadar, conversar, sentir prazer ao utilizar um equipamento que não existe para eles na esfera pública?

Era esperto, o tal portal. Era a voz dos de cima. Daqueles que morrem de medo de um dia ter que vivenciar o terror porque uma Paixão dessas qualquer resolveu cobrar na porta de casa pela Esperança que lhes foi roubada. Esperança de sair de baixo, de olhar nos olhos de igual pra igual.

E a invasão daquele sábado vinha em boa hora: era a desculpa perfeita pra reforçar, ainda mais, a repressão. Em nome do futebol. Em nome da Fifa. Em nome da Copa.

Copa pra quem?

***

III.

Era sábado, o sábado mais quente desde 1943. E eu estava lá, entre o Terror, a Paixão e a Esperança, tentando desembaraçar o fio que ligava as tantas bandeiras do Corinthians tremulando na ocupação de Osasco à cobrança violenta dos torcedores no CT de Guarulhos, tão violenta que, sem notar, fazia com que quem tivesse medo, todo o tempo, fosse o trabalhador.

Era sábado. O sábado mais quente desde 1943. E eu fui dormir com uma vontade enorme de gritar.

Diálogo

– Olha só, você é linda, inteligente, sensível. Eu adoro a tua risada. Mas…
– Mas…
– Mas não dá mais.
– Por quê?
– Você sabe o porquê.
– Sei?
– Sabe.
– Hmmm… sexo, né?
– Sim.
– Eu sabia.
– Eu disse que você sabia.
– É sempre assim.
– Olha, me desculpa, mas é muito ruim. Se eu te fiz gozar uma vez foi muito.
– Mas a gente transou só duas vezes!
– Transou? Nem sei se dá pra chamar de transar.
– Por quê???
– Como, por quê? Eu te toco e tu nem se mexe. E quando rolou penetração, então, parecia que eu tava te agredindo. Por isso eu parei em 20 segundos.
– Você não entende…
– Não mesmo, porque eu perguntei. E você só me abraçou e a gente dormiu.
– E foi ruim?
– Não, mas não foi sexo, ué!
– É que… tem coisas.
– Que coisas?
– Não sei se quero falar. Ninguém entende.
– Fala de uma vez. Eu não tô aqui pra te julgar.
– Não tá mas vai julgar.
– Não vou.
– Vai.
– Tenta, ué, o que você perde?
– É… bom…

Silêncio. Um abraço.

– Olha, eu não vou te pressionar. Você fala se quiser, tá?
– Mas você disse que não dá mais.
– Não dá, mesmo. Mas eu também disse que você é linda, inteligente e sensível. Não é porque não dá mais sexo que não dá mais pra gente ser íntimo, amigo, sei lá.
– Tô cansada de amigos. É sempre assim.
– Então desembucha, criatura, pra ver se dessa vez é diferente!
– Tá… eu vou tentar.

Silêncio. Outro abraço.

– Você não vai entender. O lance é que eu gosto de…
– De…
– De… de mulher.
– HAHAHAHAHAHAHAHHAHAHA.

Cara feia.

– Por quê você tá rindo, seu bosta?
– Calma! Eu achei que era piada.
– Como, piada?
– Ué, se você gosta de mulher, porque tá comigo? Porque quis ficar comigo?
– Porque você é todo mulherzinha?
– Como assim?
– É, cara. Você é super mulherzinha. Chora em filme, faz carinho o tempo todo, percebe quando eu tô incomodada, é todo sensível e cuidador.
– E isso é ser mulherzinha.
– Sei lá. É.
– Tá, nem sei se consigo discutir isso. Mas porra, eu não sou mulher!
– Não, não é.
– E então? Você não gosta de mulher?
– Gosto. Mas não é só isso.
– É o quê mais, então? Tô perdido!
– Eu gosto de mulher, mas também gosto de…
– De…
– De…
– De?
– De…
– DE!?
– De pinto.

Silêncio. Cara de interrogação.

– Não, cara. Sério. Não dá pra entender. VOCÊ, gosta de pinto???
– Por quê o espanto?
– Numa boa? A tua tentativa de me chupar foi a coisa mais horrível que eu já vi!!!
– Não fala isso.
– Mas foi! Tu não colocou meu pau na boca nem uma vez, ficava lambendo a cabecinha como se fosse um cachorro bebendo água. Fez cócega. Me segurei muito pra não rir.
– Sério?
– Sério.
– E por quê tu me deixou lá?
– Deixei bem pouco. Depois foi eu que te chupei, lembra?
– Se lembro. Mulherzinha total.
– Como assim?
– Parecia que você era uma mulher mesmo, sabia exatamente o que tava fazendo. Foi bom, mas foi bom até demais. Meio estranho.
– Isso é um elogio?
– É, se você não se importa de ser mulherzinha.
– Não me importo. Nem um pouco.
– Mas voltando. Eu chupo tão péssimo assim?
– Sim. Desculpa, mas siiiiim.
– Porra…

Cara triste. Abraço de novo.

– Eu não tô falando pra te magoar. Sei lá, só não posso fingir.
– Por quê você acha que eu chupo mal?
– Eu já disse, você…
– Não, porra. O que você acha que me faz não saber chupar?
– Sei lá. Tu parecia estar com nojo, ou medo, daí meu espanto quando tu disse que gostava de pinto.
– Antes eu disse que gostava de mulher.
– E daí?
– Mulher não tem pinto.
– E daí?
– COMO EU IA SABER CHUPAR UM PINTO, PORRA?
– Calma, calma! Pô, tu nunca viu um pornô?
– Não, acho escroto.
– E é escroto mesmo, mas…
– Mas nada. Eu nunca chupei um pinto. Nem nunca vi chuparem. Mas sempre quis.
– Tá, mas espera. E a penetração?
– Não curto.
– Mas tu não curte pinto?
– Curto, mas não dentro de mim.
– Hum. Uma pergunta: você já transou com mulher, né?
– Claro, porra.
– E aí? Nunca te penetraram, nem com o dedo?
– Já, mas eu não curto muito. Normalmente sou eu que faço isso. Eu gosto de mulherzinha, lembra?
– Mas você não tem pinto.
– Já ouviu falar de cinta-caralha?
– SÉRIO que você tem uma???
– Qual o problema, senhor “nunca-viu-um-filme-pornô”? Nunca entrou num sex shop?
– Já, não é isso. É outra coisa. É que…
– É que o quê?
– É que eu sempre quis uma cinta-caralha no sexo.
– Pra quê, se você tem um pau de verdade?
– Não pra mim. Pra ela. Pra você, no caso.
– Pra mim? Tu quer o quê, chupar um pau de borracha?
– Não, mas tu podia fazer isso pra treinar.
– Treinar como, se borracha não reage?
– Pode crer. Bom, pelo menos pra aprender a colocar na boca…
– Tá, não muda de assunto. Quero saber do teu fetiche da cinta-caralha aí.
– Porra, é meio óbvio. O que é que todo mundo tem na cama?
– Tesão?
– HAHAHA, tô falando de corpo humano.
– Hmmmmm… cu?
– Isso.
– TU QUER DAR O CU?
– Sim. Não. Quer dizer, sempre tive curiosidade.
– Eu disse! Mulherzinha!
– Você dá o cu?
– Eu não sou mulherzinha. Você é.
– Até posso ser, mas não gosto de homem.
– E nunca pediu pra nenhuma mina?
– Nunca tive coragem.
– E agora?
– Agora eu tive, ué.
– E o que a gente faz?
– Não sei. Uma troca?
– Que troca?
– Eu te ensino a chupar pau, quer dizer, a chupar o meu né, e tu traz a cinta-caralha.
– Mas tu não disse que não dava mais?
– Não dava, mas agora que a gente se abriu, talvez dê. Conversa sempre resolve tudo, minha linda.
– Hahaha, que papinho.
– Papinho nada.
– Papinho, sim.
– Foda-se. Você topa?
– Topo, seu mulherzinha.
– Fechado, sua homenzão.
– Vem aqui, enquanto isso.

Dois sorrisos. Um abraço. E se perderam em um beijo demorado, interminável, daqueles de adolescente que acabou de descobrir que pode se divertir muito usando a língua.

Matemática dos de baixo

Na matemática do operário
Aquele, em construção
Descobri que o meu suor diário
Que nem otário
Pagando de mais um, peão
Acaba no liquidificador humano
Do busão
Ou do metrô
E respinga do ar condicionado
Por mim instalado
Na sala de reunião,
Onde o patrão tá no sossego
Achando, meu nego
Que casa brota do chão.
Não brota não!
Cada parede, cada janela
Cada vassoura, pia ou panela
Onde limpa e cozinha ela
(Porque só ela?)
Saiu da mão do operário
E da operária
Que respira, transpira, conspira e pira,
E pensa,
Que não quer mais só arroz e feijão na mesa
Quer liberdade, dignidade
Ir e vir pela cidade
Sem ficar na saudade
Por conta de tarifa ou catraca
Chega de discurso de babaca!
Quem trampa saca
Que a mão é a arma da PM
E o pé, a roda do patrão
E que na matemática do operário
Aquele, em construção, que tem salário
De fome
O X da questão nunca se move
Pro lado de baixo
A não ser quando é nove
Número de capacho
De Zé Ruela
Daqueles que nunca entrou numa favela
Tocou numa panela, ajudou ela
Ou foi capaz de no trabalho
Abrir a janela e gritar:
Não!
Cansei de ser otário
Meu nome é Mário, sou operário
Agora em revolução
– Te cuida, patrão.

(Rio de Janeiro, 05/11/2013)

O ódio em três momentos

I.

São Paulo, 25 de outubro de 2013.

Ato da Semana Nacional de Mobilização pelo Passe Livre.

Depois de adeptos do black bloc irresponsavelmente romperem o acordo prévio de não destruir nada no Terminal Parque Dom Pedro II, bombas e gás pra todo lado. No meio, exatamente no meio, cercado por cordões da PM por três lados, uma amiga tcheca e eu tentamos achar uma rota de fuga. Atravessamos pra praça das banquinhas em frente ao terminal, onde um grupo de blocs destrói um ponto de ônibus. De repente, um homem de roupa esporte saca um revólver (eu não manjo de calibre), agarra uma das meninas do grupo e manda ela ajoelhar, a arma na cabeça dela, expressão de ódio nos olhos, saliva saindo do canto da boca. Penso, “vai dar merda”. Minha amiga começa a filmar. Outros blocs do grupo voltam e tentam confrontar o homem com pedaços de pau. Ele aponta a arma pra eles e a merda fica muito próxima de acontecer. Um PM aparece e arrasta a menina com a ajuda do homem pro outro lado da rua. Ele também tem uma arma. Os blocs tentam puxá-la, ela se atira no chão, e eles continuam arrastando furiosamente. Uma bomba voa pro nosso lado. Corremos.

II.

Depois de encontrar um caminho pra Praça da Sé, sentamos pra ligar pra amiga que estava de muletas no ato. Ela não atende. Os helicópteros dão a entender que a movimentação se encaminha pra praça. A amiga envia uma SMS confirmando, está perto da Fanfarra, estão chegando na praça. Há um jogral com a ideia de voltarmos pro terminal pra executar o catracaço interrompido pela confusão. Não dá tempo de sair dali. A tropa de choque cerca todo mundo e atira bombas e balas de borracha. Com a ajuda de um amigo, tentamos caminhar em meio ao gás protegendo a amiga de muletas. Ouço o zunido das balas passar muito perto. Conseguimos escapar pela lateral da praça. Na contramão da nossa fuga, crianças e adolescentes dos bairros pobres próximos correm em direção ao conflito. “Quebra tudo, quebra tudo!”, gritam. Alguns estraçalham uma banca de jornal. O ódio – da polícia, da cidade, da exclusão – é visível nos olhos de cada um deles – alguns menores de 10 anos de idade.

III.

Na porta da delegacia, esperamos os mais de 70 presos saírem. Há dúvidas sobre quem está lá. Eu havia recebido a informação de que uma companheira, cujo celular estava na caixa postal desde a hora da primeira confusão, estava detida ali. As pessoas vão sendo liberadas, sob o olhar de desdém dos homens do Choque. Ela não sai. Alguns telefonemas depois, recebo com alívio a SMS “Achei ela, está a salvo!”. Membros/as da Fanfarra do M.A.L. são liberados, TODOS os seus instrumentos odiosamente destruídos pela PM. No olhar de cada detido, mais ódio. Depois de todos livres, já quase 5h da manhã, caminhamos para o metrõ. Um pequeno grupo de skinheads nos observa com desconfiança. Um deles diz:

– Tem cara de punk, hein?

Dentro do metrô, encontramos companheiros/as que tinham se dirigido pra lá antes junto com um punk de visual carregado recém-liberado da delegacia. Nos contam que momentos antes os skinheads derrubaram ele no chão, chutaram sua cabeça. Ele escapou, não se sabe pra onde.

São Paulo, 26 de outubro de 2013.

Uma noite mais, como qualquer outra. Infelizmente.

Esta cidade respira ódio. E gás lacrimogêneo.