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Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

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Xixi nas calças

Quando eu era pequeno, fazia xixi nas calças e na cama. Tenho certeza de que vocês também.

Morria de vergonha disso. Fazer xixi nas calças era como um atestado de dependência, de não ter controle sobre o próprio corpo. Muitas vezes era por ter bebido líquido demais, outras era por um pesadelo. Nessas, acabava acordando assustado, com medo e, pra piorar, envergonhado.

Depois de crescido, ouvi diversos relatos de xixi nas calças, de crianças e de adultos. Alguns davam muita agonia: eram calças molhadas por medo da morte na forma de uma arma apontada, ou na exata hora da morte mesmo, um último descontrole corporal, uma espécie de aviso do nosso corpo para o mundo de que o ser que ali morre carrega dentro de si uma criança – com seus medos e vergonhas.

Ontem eu estava dando aula quando recebi uma mensagem no celular. Era uma amiga, uma companheira de movimento social, dizendo que a frente da Câmara Municipal tinha se tornado uma praça de guerra. Os movimentos de moradia de São Paulo, juntos, pressionavam os vereadores pela votação – finalmente e com vários problemas sérios – do Plano Diretor, aquele montoado de papel escrito por gente de gravata (que já fez xixi nas calças e teve medo de pesadelo um dia) que significa uma pequena vitória pra uma imensa parte da população da cidade.

Mais da metade dos paulistanos, em levantamento de 2012, moram em favelas ou habitações precárias, ou em habitação nenhuma. Isso são mais de 5 milhões de pessoas. Todas elas também já fizeram xixi na calça um dia. E ontem estavam representadas em milhares de vozes de todas as faixas etárias que enxergam na aprovação do plano um avanço legal na regularização fundiária de suas casas, no processo de busca por moradia digna, um freio na especulação imobiliária sem limites que pode te tirar do sofá e colocar na rua num piscar de olhos – quando você menos vê, sua casa virou um estádio em Itaquera.

A Câmara Municipal é em teoria a “casa do povo”. Está escrito lá, inclusive. Mas quando o povo chega na porta, os vereadores, invariavelmente, tal qual todos nós um dia, mijam nas calças. De medo. Alguns, dizem, fazem até pior. E apelam pro único truque que conhecem, desde 1500: a violência. Hoje, ela responde por Polícia Militar. Ontem, estava acompanhada da Guarda Municipal.

Os guardas e policiais, todos eles, também já fizeram xixi nas calças. E tiveram vergonha. Ontem, entretanto, fizeram coisa bem pior, da qual não parecem ter vergonha nenhuma: jogaram bombas, atiraram e agrediram aquele povo sem casa que, na porta da casa do povo, lutava por resolver essa equação há tanto tempo desbalanceada.

Não, não sou professor de Química. Sou professor de Geografia. Não sei falar sobre a ureia do xixi nas calças e nem sobre o gás lacrimogênio das bombas do Estado. Sei falar um pouco sobre o direito à moradia e à cidade, e também sobre ter vergonha de fazer xixi nas calças, de ter medo de pesadelo e de ter lembranças horríveis, pessoais e coletivas, de gás lacrimogênio.

Terminei a aula ontem e vim pra casa apreensivo para ler as notícias. Na caixa de email, a mesma companheira da mensagem no celular narrava: não sei se há presos e feridos, passei por lá rapidamente. A parte mais triste foi ver uma criança fazer xixi na roupa por causa das bombas de gás.

Todos nós já fizemos xixi nas calças. E tenho certeza de que não precisamos de foto nenhuma pra imaginar o terror sentido por essa criança, e a vergonha depois, do próprio descontrole do corpo.

Posso ver essa criança chorando dentro de mim. E isso me dá muita, mas muita vergonha.

Não do xixi nas calças, mas do descabimento que é ter na maior metrópole da América Latina tanta casa sem gente, tanta gente sem casa e uma Polícia Militar que atira bombas em crianças.

A Polícia Militar é o eterno xixi nas calças do Estado. O próprio descontrole.

O problema é que, até agora, mesmo crescido, ele não sente nenhuma vergonha disso.

Terror, paixão e esperança: a Copa em três atos

(publicado originalmente aqui)

I.

Era o dia mais quente da história da metrópole desde 1943. Era sábado, dia de assembleia na ocupação. Mas antes da assembleia tinha outra coisa: um debate-bola sobre a Copa do Mundo, a Fifa e os efeitos disso tudo na vida daquela gente.

Aquilo, a princípio, parecia estranho pra ela: como a Copa que vai acontecer na zona leste de São Paulo poderia ter a ver com Osasco? Ainda mais aquele lugar de Osasco, longe, no topo de um dos muitos morros do planalto paulista, quase no pico do Jaraguá?

Chegaram uns moços e moças, mais moças que moços. O mais velho deles não parecia mais velho que ela. O que teriam a dizer? Anunciaram na rádio comunitária da ocupação, desceu muita gente pra escutar. Era sábado, e fazia sol, o maior sol desde 1943, mas pr’aquela gente o sol agora era suave, porque tinham teto. Teto que tinham construído, eles próprios, no terreno particular abandonado há décadas, em dívida com o poder público, enquanto ela e toda aquela gente não tinha um lugar que fosse pra se esconder do calor – e da chuva, e da miséria, e pra receber uma carta de algum parente distante.

Decidiram ocupar meses antes. Luta Popular: era esse o nome do grupo que ajudou na ocupação, na organização, no dia seguinte. Porque claro que viria o terror no dia seguinte – e no outro, no outro e no outro. Terror de “não ter nada garantido”, frase repetida como mantra por ali; terror de jornalistas, desses que tem teto, e comida, e carro, e emprego, que apareciam pra “noticiar” e chamavam de invasão; terror dos homens armados que rondavam o terreno e faziam ameaças.

Mas passaram-se os meses e o terror se dissipou, em parte. Ainda existe, que vida de gente pobre é basicamente saber lidar com o terror o tempo todo, mas não mandava mais nos corpos e mentes das quase 1000 famílias, às vezes mais, às vezes menos, que havia quase 6 meses moravam ali. Sim, moravam, ainda que sem luz e sem água, mas moravam.

E então era sábado, e vieram os moços e moças de um tal Comitê, Popular como a Luta, falar da Copa. E falaram – que a Fifa era quem estava ganhando com a Copa, que pro povo só sobraram as violações de direitos, os despejos, os ingressos caros, as proibições de trabalhar, a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mas que havia luta: no comitê, como na ocupa, centenas se agrupavam pra denunciar, questionar, se opor, mostrar pro mundo todo que a tal da Copa só trazia ganho pra quem já tinha. Quem não tinha, bom, estava como eles: na luta. Popular.

Uma menina ao lado dela perguntou, quanto se gastou com a Copa? Quase 30 bilhões, foi a resposta. E quantas casas, quantos terrenos como aquele, quantos hospitais e escolas públicos dava pra fazer com esse dinheiro? Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa, e esse dinheiro todo pro bolso de quem já tem todo esse dinheiro. Sentiu raiva, quis gritar, quis falar. Por que não? Falou.

– Isso é culpa nossa, sabe porquê? Porque depois quando vem essa gente aqui, beijar nossos filhos, pedir voto, a gente vai e vota neles. Tem que não ir votar! Tem que não ir votar na eleição, nunca mais!

Falava com vontade, com brio, com garra. E contagiava. Muitos aplausos, muita energia no ar, força, de vontade, de lutar. Veio o jornalista, outro, entrevistar, e ela repetiu com a mesma força tudo, e disse mais, e mais. A reunião já se dissipava, que era hora da assembleia da ocupa mais acima no morro, e ela notou que dois jovens daqueles do comitê a observavam com admiração. Chegavam mais perto. E perguntaram:

– Qual o nome da senhora?
– Maria da Paixão, mas em Osasco todo mundo me conhece por Mineirinha.
– Paixão… ótimo nome pra quem luta!
– Não é, minha filha? E falta muita luta ainda…

Falta sim, Mineirinha, falta muita luta. Pra vida toda.

Que, se for vivida com essa paixão, se for como a vida da Paixão da Esperança, não há terror que cale.

***

II.

Era sábado, o mesmo do maior sol desde 1943, e eles chegavam pra trabalhar. A diferença social ali não era tão grande quanto a salarial: os que chutavam bola ganhavam muito muito mais do que os que limpavam os quartos e os recintos, mas vários poderiam ter sido, anos ou meses antes, vizinhos deles. Era treino do Corinthians, no luxuoso e moderno CT construído na última década do time.

Tudo correria normal como o dia antes desse, e o antes desse, não fosse a paixão. De repente, uma centena de gente, a maioria da mesma origem que a maioria dos que ali trabalhavam, cercou o local. Tinham ódio no olhar, aquele tipo de ódio de quem se sente traído, roubado, esquecido, e queriam que alguém pagasse por isso – de preferência, os que chutavam bola. Da paixão, veio o terror.

Começaram uma caçada aos privilegiados, aqueles que tinham o direito de carregar aquela camisa centenária e que, pior, ganhavam muito muito mais que todo mundo ali pra isso. E que, na opinião deles, vinham fazendo isso sem paixão. Se esconderam, esses, com medo de algo que nunca tinham vivenciado tão de perto. De repente o trabalho milionário, de repente a visibilidade midiática invasiva, de repente tudo isso se tornava invisível. De repente, eles não eram mais adulados, eram odiados.

Os quase-vizinhos da recepção e da limpeza não se esconderam. Não podiam. Eram ordens. Ficaram no meio.

O povo entre o povo e o povo, o trabalhador entre a paixão e o terror. Uma mediação que se expressou pela força: esganamentos, correria, medo.

Minutos depois, os jornais noticiavam o fato. “Em momento bizarro, os invasores chegarem a se divertir no CT Joaquim Grava. Alguns pularam na piscina, enquanto outros passeavam tranquilamente, observando a estrutura do local e até puxando papo com funcionários do clube”, disse um portal desses eletrônicos. Bizarro? O que era bizarro? A opulência do CT moderno e vultuoso, propriedade atual daquele time há mais de cem anos fundado por trabalhadores pobres, frente à pobreza daqueles que, por intermédio da única paixão que lhes permite sair da parte mais baixa da pirâmide, resolviam cobrar na força o comprometimento dos jogadores? Ou bizarro era que aquelas pessoas, “invasores, vândalos, bandidos”, fossem capazes das mesmas coisas que o resto, nadar, conversar, sentir prazer ao utilizar um equipamento que não existe para eles na esfera pública?

Era esperto, o tal portal. Era a voz dos de cima. Daqueles que morrem de medo de um dia ter que vivenciar o terror porque uma Paixão dessas qualquer resolveu cobrar na porta de casa pela Esperança que lhes foi roubada. Esperança de sair de baixo, de olhar nos olhos de igual pra igual.

E a invasão daquele sábado vinha em boa hora: era a desculpa perfeita pra reforçar, ainda mais, a repressão. Em nome do futebol. Em nome da Fifa. Em nome da Copa.

Copa pra quem?

***

III.

Era sábado, o sábado mais quente desde 1943. E eu estava lá, entre o Terror, a Paixão e a Esperança, tentando desembaraçar o fio que ligava as tantas bandeiras do Corinthians tremulando na ocupação de Osasco à cobrança violenta dos torcedores no CT de Guarulhos, tão violenta que, sem notar, fazia com que quem tivesse medo, todo o tempo, fosse o trabalhador.

Era sábado. O sábado mais quente desde 1943. E eu fui dormir com uma vontade enorme de gritar.

O ódio em três momentos

I.

São Paulo, 25 de outubro de 2013.

Ato da Semana Nacional de Mobilização pelo Passe Livre.

Depois de adeptos do black bloc irresponsavelmente romperem o acordo prévio de não destruir nada no Terminal Parque Dom Pedro II, bombas e gás pra todo lado. No meio, exatamente no meio, cercado por cordões da PM por três lados, uma amiga tcheca e eu tentamos achar uma rota de fuga. Atravessamos pra praça das banquinhas em frente ao terminal, onde um grupo de blocs destrói um ponto de ônibus. De repente, um homem de roupa esporte saca um revólver (eu não manjo de calibre), agarra uma das meninas do grupo e manda ela ajoelhar, a arma na cabeça dela, expressão de ódio nos olhos, saliva saindo do canto da boca. Penso, “vai dar merda”. Minha amiga começa a filmar. Outros blocs do grupo voltam e tentam confrontar o homem com pedaços de pau. Ele aponta a arma pra eles e a merda fica muito próxima de acontecer. Um PM aparece e arrasta a menina com a ajuda do homem pro outro lado da rua. Ele também tem uma arma. Os blocs tentam puxá-la, ela se atira no chão, e eles continuam arrastando furiosamente. Uma bomba voa pro nosso lado. Corremos.

II.

Depois de encontrar um caminho pra Praça da Sé, sentamos pra ligar pra amiga que estava de muletas no ato. Ela não atende. Os helicópteros dão a entender que a movimentação se encaminha pra praça. A amiga envia uma SMS confirmando, está perto da Fanfarra, estão chegando na praça. Há um jogral com a ideia de voltarmos pro terminal pra executar o catracaço interrompido pela confusão. Não dá tempo de sair dali. A tropa de choque cerca todo mundo e atira bombas e balas de borracha. Com a ajuda de um amigo, tentamos caminhar em meio ao gás protegendo a amiga de muletas. Ouço o zunido das balas passar muito perto. Conseguimos escapar pela lateral da praça. Na contramão da nossa fuga, crianças e adolescentes dos bairros pobres próximos correm em direção ao conflito. “Quebra tudo, quebra tudo!”, gritam. Alguns estraçalham uma banca de jornal. O ódio – da polícia, da cidade, da exclusão – é visível nos olhos de cada um deles – alguns menores de 10 anos de idade.

III.

Na porta da delegacia, esperamos os mais de 70 presos saírem. Há dúvidas sobre quem está lá. Eu havia recebido a informação de que uma companheira, cujo celular estava na caixa postal desde a hora da primeira confusão, estava detida ali. As pessoas vão sendo liberadas, sob o olhar de desdém dos homens do Choque. Ela não sai. Alguns telefonemas depois, recebo com alívio a SMS “Achei ela, está a salvo!”. Membros/as da Fanfarra do M.A.L. são liberados, TODOS os seus instrumentos odiosamente destruídos pela PM. No olhar de cada detido, mais ódio. Depois de todos livres, já quase 5h da manhã, caminhamos para o metrõ. Um pequeno grupo de skinheads nos observa com desconfiança. Um deles diz:

– Tem cara de punk, hein?

Dentro do metrô, encontramos companheiros/as que tinham se dirigido pra lá antes junto com um punk de visual carregado recém-liberado da delegacia. Nos contam que momentos antes os skinheads derrubaram ele no chão, chutaram sua cabeça. Ele escapou, não se sabe pra onde.

São Paulo, 26 de outubro de 2013.

Uma noite mais, como qualquer outra. Infelizmente.

Esta cidade respira ódio. E gás lacrimogêneo.

Copa do Mundo Alternativa 2013: um relato

Nos foi roubada a chance de ser meio-campeões mundiais.

Jogamos muito, muito mesmo, aqui na Inglaterra. Metade Auto, metade Vova: seis de cada lado. Kasperas (de longe o melhor goleiro que já jogamos na vida, ex-seleção da Lituânia até os 19 anos, árbitro profissional hoje, com 22), Paulius, Arunas, Edvardas, Vaidas e Domas; Bruno (do Pelada de Esquerda), Piva, Mandioca, Arthur, Valdívia e Pedrinho (carioca que eu e o Allan conhecemos ano passado no encontro anarquista de St. Imier, que jogou no América e no Olaria até os 16). O AutoVova. Completaram ainda três Cowboys: Jesse, Phil (o Fat Gerrard) e Wilf.

Dois grupos de seis times. Caímos com os dois times dos Cowboys, o time do República, os alemães do International Harte e o World XI.

Nosso aquecimento foi feito em todos os jogos pelo Qaz, com sua dança já mundialmente conhecida. Éramos os preferidos da torcida, que contava “oficialmente” com a Mariana e a Natame pelo lado do Auto e o Regi – que foi pedalando de Londres até Wincanton – pelo lado do Vova.

No primeiro jogo, ainda sem o Pedrinho, ainda se encontrando, tomamos um gol no primeiro minuto de jogo contra o Cowboys Clássico, que contava com vários conhecidos nossos (Jack Daniels, Jack Kelly, Charlie…). Empatamos com Vaidas, o lituano que nesse jogo ainda era o camisa 10, mas que na real é um baita volante. Criamos mais 400 chaces de gol, mas terminou 1 a 1.

Segundo jogo, contra o Republica, um time ainda desmontado (faltavam jogadores, era sexta-feira), abrimos 5 a 1 fácil. No final, relaxamos e tomamos 3 gols: final, 5 x 4. Vaidas, Valdívia duas vezes, Jesse e Arthur.

Chegou o sábado e com ele o Pedrinho. A peça que faltava. O time titular ficou com Kasperas; Edvardas, Paulius, Arunas e Piva; Mandioca, Vaidas, Arthur, Pedrinho e Valdívia; Domas. O jogo era o mais difícil, contra os Cowboys principais. Pedrinho estreando, cheio de pressão. E destruimos os caras: 2 a 0 com autoridade e com direito a Mandioca perdendo um gol na pequena área nos minutos finais. Os dois gols de Pedrinho, constituição física maradoniana, um canhotinho rápido e MAROTO. Carioca da gema, que chegou com seu cavaquinho debaixo do braço depois de dois trens e uma barca. Queria mesmo estar ali. No primeiro, aproveitou rebote depois de linda troca de passes. No segundo, aproveitou a dividida de Domas com o zagueiro, pegou a sobra, limpou pra esquerda e fuzilou no cantinho.

É preciso dizer que Arthur, Valdívia e Domas, completando o quarteto ofensivo, jogaram demais. Muita movimentação, muito toque de bola, os Cowboys não viram a cor da bola. Não teve jogo físico possível, e mesmo pelo alto, nos escanteios, quando o time deles, bem mais alto, vinha em massa, tiramos TUDO.

No jogo, uma baixa: Paulius bloqueou um chute com O RIM e foi parar no hospital. Nada grave.

O segundo jogo da tarde foi sem ele, Arthur e Edvardas, que o acompanharam no hospital. Ganhamos de 4 a 0 do World XI, que depois de jogar com crianças nos primeiros jogos, contra os brasileiro-lituanos colocaram metade do bom time do Yard em campo. Wilf fez o primeiro depois de cruzamento de Pedrinho. Mandioca ampliou de pênalti. Valdívia fez o terceiro e Domas fechou o caixão em outro pênalti.

Ainda havia um jogo de grupo a ser disputado, domingo 10h, contra o International Harte. Já estávamos classificados, mas precisávamos de um empate pra ser primeiro do grupo. O Harte precisava da vitória pra ter chance. Depois de uma noite bastante agitada, foi difícil acordar cedo pra jogar. Mas estávamos todos lá.

O Harte só tinha uma jogada: lançamento longo pros dois atacantes, muito rápidos e muito bons. Um deles de origem turca. Entramos acordados com o aquecimento do Kaz, mas foi difícil correr atrás dos alemães o jogo todo, ainda mais com Arunas descontrolado jogando quase de centroavante. Nesse jogo batemos boca. O primeiro tempo terminou 1 a 0, gol de Domas de cobertura, golaço. No segundo, o Harte empatou logo de cara, gol do camisa 10 rápido e habilidoso entrando por trás da zaga e encobrindo Kasperas com um toquinho. Fizemos 2 a 1 depois de Arthur limpar uns 400 zagueiros e rolar pra Domas bater cruzado. Mais um belo gol. E o Harte igualou o marcador no final com mais um lançamento pro camisa 10, que limpou o Piva pra dentro e chutou forte, alto e cruzado pra superar Kasperas.

O empate nos deixou em primeiro e, com o Wessex, dono da casa e líder da outra chave jogando com os reservas contra o Lunatics, até então segundo colocado mas que perderia certamente pros titulares do time inglês, os grupos acabaram com Wessex e Lunaticas em primeiro e segundo no grupo A, e AutoVova e Cowboys A em primeiro e segundo do grupo B.

As duas semifinais foram vareios. O Wessex bateu o Cowboys por 5 a 0. E o AutoVova demoliu o Lunatics por 6 a 0. Gols de Arthur com uma BOMBA de esquerda no ângulo e outro na saída do goleiro; Domas, Valdívia, Vaidas e Jesse. A final seria a esperada, repetição (de certa forma) do ano anterior: Wessex x AutoVova.

Todos em volta do campo pra assistir. Torcida que começou meio a meio – tínhamos a simpatia de todos os outros times, mas o Wessex era o dono da casa – e terminou a nosso favor. E o que esperávamos ser um jogo bem difícil acabou sendo um baile: de novo com a bola no chão, o Wessex não via a bola, e só ameaçava na bola longa pro bom camisa 10. Jogavam meio sujo também: cotovelo nas costas, no pescoço, faltas duras. No primeiro tempo Arthur perdeu uma chance, Valdívia outra, até que numa das muitas reposições de bola de Kasperas (que chegavam com veneno pros atacantes nas costas dos zagueiros), a bola sobrou pra Arthur, que tabelou com Pedrinho e, com uma calma absurda, só rolou pra Valdívia na direita. Ele entrou na área e foi derrubado. Pênalti incontestável. Domas pediu pra bater e fez 1 a 0.

O segundo tempo foi inteiro a mesma coisa: o Wessex lançando a bola da área pro ataque, com 6 jogadores na intermediária nossa disputando de cabeça, e a gente segurando e puxando contra-ataques. Defendemos muito, muito, muito. Fomos monstros mesmo. No contra-ataque, todo mundo já exausto de todo o campeonato em três dias, às vezes faltava perna, às vezes o último passe. Mas o jogo era nosso, e merecido. Até que…

Até que aconteceu algo que não dá pra entender nesse tipo de torneio. Último minuto do jogo. Em mais uma bola na área, depois de pingar na altura do pênalti, Arthur protegeu com o corpo, o volante gordinho chutou a perna dele e caiu gritando, no melhor estilo “diver” que os próprios ingleses tanto condenam. O juiz, do Cowboys, até então muito bem na partida, esperou alguns segundos e apitou. De início achamos que era falta pra gente. Não era. Era pênalti.

A revolta era tão grande que Arthur chegou a tirar a camisa e sair de campo. Não acreditávamos, porque aquilo? Qual a necessidade? Mas ele manteve a decisão ridícula e eles empataram.

Fiquei de costas na cobrança, me recusei a assistir. O jogo recomeçou e terminou em seguida, indo pros pênaltis. Cogitamos não bater. Tentamos arranjar forças morais e físicas. Mas não deu: Domas perdeu o primeiro, Vaidas perdeu o segundo e Mandioca perdeu o terceiro. Eles fizeram todos.

Saí de campo tão exausto que nem conseguia pensar em discutir. Alguns Cowboys diziam “unlucky”, e eu repetia “unfair”. Os lituanos não entendiam o porque daquele assalto. Qual o sentido?

O resto da noite, todos os times – com exceção do Wessex, cujos jogadores pouco ou nada confraternizaram com os outros times por todo o campeonato – ficaram nos dizendo que fomos assaltados. Canções de que o juiz (Clarence) beberia sozinho essa noite se espalhavam. Ele, visivelmente constrangido, não olhava na nossa cara.

Nosso meio-título mundial tinha sido arrancado da gente. Não fazia sentido. Mesmo assim, nos divertimos naquela noite, com direito a começar uma guerra de feno com os blocos de feno que serviam de assento pelo local.

E voltamos pra Bristol com a certeza de que em 2014, na Bélgica, a história tem tudo pra ser diferente.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas;  em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas; em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

Beth, A Meia XV

Reaproveitando uma antiga que pode ser reaproveitada pra sempre…

(clique na imagem para ampliar)

O título da perda

Entrei no Pacaembu com a camisa 8 da Democracia. E uma faixa na cabeça. Homenagem, ainda que pequena, ao que poderia vir a ser o título da perda. Nunca a perda do título, que ontem não poderia ser. Nem que tivéssemos que invadir o campo.

Foi difícil ver aquele “derby” num estádio tão fascistamente controlado, onde nem a festa pós-jogo teve espaço sem bombas e cassetetes. O futebol em São Paulo definha, e prova disso é que subi as arquibancadas e demorei uns 15 minutos pra lembrar que era jogo contra o Palmeiras, tão pequena, distante e alheia do resto do estádio estava a torcida alviverde.

O jogo foi um lixo, o futebol esteve de luto. Nada mais digno para o dia de ontem. Sócrates vale mais que 30 brasileiros, 50 Libertadores e 300000 Copas do Mundo. Se tivéssemos na história mais 2 Sócrates que fossem, poderia ser que o futebol de hoje não caminhasse cada vez mais pra onde caminha. Poderia ser, mas não foi e não será.

Curiosamente ou não, Sócrates morreu com 57 anos. Meu pai com 59. Ambos entubados e fazendo diálise. Ambos em dias em que o Corinthians foi campeão. Ambos enormes em minha mente, sempre.

Não cheguei a vê-lo jogar ao vivo, com ou sem a camisa do Corinthians. Mas ontem foi impossível, em meio a um jogo tão ruim, não olhar pro gramado em alguns momentos e viajar imaginando as tabelas com Casão, os calcanhares, o punho levantado.

Foi tocante ver todo o estádio, menos os jogadores do Palmeiras (provando o quanto jogadores como Sócrates fazem falta) com os punhos levantados. Não chorei. Mas doeu, e ainda dói.

Foi sim como perder um segundo pai.

O mais perto de Sócrates que cheguei fisicamente foi ao telefone, convidando-o em agosto para um debate. Foi gentil, embora duro e desconfiado, em dizer que não poderia comparecer. Não disse porquê. Depois, quando entrevistei o zagueiro Paulo André, amigo pessoal de sua esposa, descobri: era a saúde. Dias depois e estava internado por conta da cirrose. Superou, e foi morrer por conta de uma infecção alimentar…

Perdê-lo tão cedo, e num momento em que tão poucas vozes se ouvem contra os absurdos da Copa de 2014, foi um golpe duro.

Uma vez um amigo me chamou de “Mandiócrates”, pela magreza e cabelo parecidos. E pela admiração que tenho por ele. Agora, carregar esse apelido será uma forma de manter a memória dele. Porque, como disse um outro amigo, se depender da diretoria do Corinthians, ele terá menos importância do que qualquer coisa que Ronaldo fizer, basta ver as condolências ridículas do patético Andrés Sanchez.

Não vou desejar que o Doutor descanse em paz. Ele sempre foi de luta. Paz num mundo desigual é para os fracos, os covardes e os mau caráteres. Fique conosco, Magrão, por quanto tempo for possível. Precisamos de ti cada dia mais. Pode ter certeza que, por aqui, faremos sempre o possível pra não esquecer nem desmerecer a tua luta.

E vamos Corinthians, que, como nos ensinou o time capitaneado por você no ano em que nasci, São Jorge é um santo coletivo.