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Sorriso de pai

– Feliz dia do pai 🙂
– Feliz dia do pai. Te amo. Tô aqui esperando seu texto pra me fazer chorar.
– Mais tarde…

***

Lu,

tenho muita saudade de você. Muita mesmo. Eu não sei por quê, nem como, nem quando isso começou, mas nos últimos meses tenho tido uma vontade enorme de mandar tudo à merda e comprar uma passagem pra ir te ver.

Eu tenho tido uns sonhos estranhos. Sonhos não, umas sensações, na hora de dormir. Principalmente na casa da mãe. Parece que tem uma presença, uma força, algo ali que me causa uma espécie de temor, um medo. Não, na verdade não é um medo, é uma ansiedade e uma agonia, e aí eu não consigo deitar de frente pra porta, e fico de costas como que sem querer encarar o que quer que seja que está ali. Não é muito racional, e talvez seja isso o que mais cansa a minha cabeça, porque você sabe o quanto eu sou racional e pragmático nessa bosta de vida. Queria ser menos. Mas a verdade é que eu não sei o que é essa coisa, essa força, e não sei o que fazer. Tento virar de frente, levanto, bebo água, mas acabo só indo dormir quando o cansaço vence a maquinação frenética da mente.

Não é ele, tenho certeza. Porque ele nunca me trouxe angústia, ansiedade ou medo. Ele não era de causar medo, lembra? Ao contrário, ele era de fazer rir.

Lembra da vez que meus amigos e eu fizemos a políca bater lá em casa e todos os vizinhos saírem pra ver o que era, e não era nada? Eu fiquei morrendo de medo da bronca quando ele chegasse, mas ele deu gargalhadas. E passou os meses seguintes fazendo piada com isso.

– Vou sair, não quero saber da SWAT vir aqui hein?

E quando a mãe não se acalmava dentro do carro? Lembra dos trocadilhos? Acho que ela ficava puta, mas depois que todo mundo ria ela vinha junto também né.

Lembra daquela vez que você discutiu com a mãe, chamou ela de autoritária e ela respondeu que autoritária era sua vó? E ele veio, todo sorrateiro, perguntando como se fosse o Chaves falando com o seu Madruga:

– É verdade que a sua avózinha era conhecida como Mussolini?

Lu, hoje eu só consigo lembrar das risadas. Ele me faz rir, e sorrir, e ter vontade de conhecer o mundo todo e fazer mais e mais coisas, como ele sempre quis e sempre fez.

O pai se foi, né, Lu, e a gente ficou. E depois foi também o Abu, e a vó. Parece que a vida encolheu, as pessoas queridas diminuíram e as angústias aumentaram. E aí a gente usa a memória pra tentar encontrar conforto no passado e não se perder. Só que o passado já foi e a memória é seletiva, e ela dança muito conforme a música do nosso coração. Quando a música toca no ritmo da saudade, vem essa vontade de chorar que me aperta os dedos enquanto digito, ou quando eu deito e sinto a presença da sua ausência, e da dele, e da vó e do Abu. É isso: esse medo, esse temor, essa angústia e principalmente a ansiedade só podem ser saudade.

Só que hoje eu não queria chorar, Lu. A saudade não tem que ser ameaçadora. Porque mesmo com ela presente e incômoda, cada dia mais eu percebo que ele tá na gente, sabe? E isso não é só forma de dizer. É de agir, de sorrir, de cantar, de sentir e de ir além.

Ele é as milhares de colheres de açúcar no meu café.

As muitas vezes que a mãe chama a gente quando tá no banho.

A música que sai de qualquer violão.

E o seu sorriso. Lu, é impressionante como ele é o seu sorriso, tanto quanto você era o dele.

Não sei, mas acho que enquanto eu escrevia isso aqui eu percebi o que é que me atormenta de noite. E é saudade, dele e de você.

Então não chora, irmãzinha. Ou chora, se for essa a sua vontade. Mas chora com um sorriso no rosto, e outro no peito. Que seu “rimão” é um bundão, mas logo menos dá um jeito de ir te ver.

E pra mostrar que o pai tá aqui, tá aí e tá em todo lugar, fazendo a gente rir, deixo essa foto dele que encontrei em casa.

É ou não é a nossa cara?

Milhões de beijos,

Dan

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Oito por cinco

Oito é um número par.

Sempre gostei do número oito, embora seja mais afeito aos números ímpares, a ponto de sempre pedir ímpar numa disputa de par ou ímpar. Oito era o Ezequiel, depois descobri que tinha sido o Sócrates, e daí em diante adotei o oito como um número meu, o número da minha camisa.

Sendo um número par, oito é divisível por vários outros números. Dividindo oito por dois, temos quatro: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Dividindo oito por nós quatro, temos dois: ele e ela, minha irmã e eu; elas duas, meu pai e eu. E dividindo oito por ele mesmo, ficamos com um, que é ímpar.

Meu pai era uma pessoa ímpar.

Pai, hoje, depois de oito anos sem você, eu percebi que se a gente coloca o oito na posição horizontal ele fica parecendo o símbolo do infinito. Pode parecer, e na verdade é: nesses dias de aniversário eu me torno uma pessoa ainda mais brega do que as musiquinhas que você cantava pra mãe, pra Lu, pro Abu e pra mim. E olhando pro oito deitado, como você gostava de ficar na sala, fingindo que dormia pra pregar alguma peça na gente, me bateu uma sensação de que você não morreu e nem nunca morrerá. Só deitou pra sempre e desceu naquele buraco frio da sala de cremação da Vila Alpina, indo parar diretamente no infinito das nossas memórias cotidianas, das suas risadas e piadas ausentes e das tristezas que não encontrarão mais seus braços pra descansar.

Quando eu acordei hoje, ouvi de longe seu violão tocando uma música pra gente no fim de ano na praia, e é claro que era Dia Branco: “se você vier, pro que der e vier, comigo”. E lembrei que precisava te contar uma coisa.

Faz um tempinho, pai, que eu deixei de usar a camisa oito nos jogos. Troquei pela cinco, número ímpar como você. Acho que você, a Lu, a mãe e o Abu sabem muito bem porquê.

Te amo.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Depois, o Abu se foi. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos nosso cachorro. Cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde comemos minha mãe e eu, mas estarão sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

Sete anos

Pai,

queria que você estivesse aqui. E você não está. Essa é uma constatação dura, de todos os dias, mas que bate mais forte quando o mês é quatro e o dia é vinte e quatro.

A vida é uma bagunça, pai. Está uma bagunça. Tenho mudado muito de decisão sobre que caminho seguir, às vezes em questão de horas. Tudo muda e eu desenho um futuro novo a cada vez. Em todos eles, eu queria que você estivesse aqui. Queria que a Lu estivesse aqui, e o Abu, e as avós. Queria que fosse Pirituba e a She-Ra tivesse dado a luz, e eu fosse lá no quintal com vocês aprender sobre a vida e a morte. Queria que fosse a casa da escadaria e que a gente pulasse o muro pra jogar bola, e que fôssemos naquela tarde o melhor time do mundo porque ganhamos dos outros moleques que por lá corriam.

O nome disso é saudade, eu sei. Essa coisa que nunca se vai, que nunca nos abandona. Tenho muita saudade. Sinto muita saudade. Saudade é de sentir ou de ter, pai? Eu também não sei. Na dúvida, tenho. E sinto.

Ontem a minha mãe me deu um pouquinho de você de presente, assim, despretensiosamente. Umas cordas velhas de violão que ela achou em casa. Não dei muita bola na hora, mas quando cheguei em casa coloquei elas do lado do seu violão, que eu nunca aprendi a tocar, e fiquei relembrando das coisas. Fiquei na saudade, sem medo, que saudade traz lembrança gostosa e vontade de dar abraço. Saudade é bom. De ter e de sentir.

Veio hoje e eu dormi bem pouco. Acordei cedo, passei o dia fazendo coisas que me levaram pra longe de ti. Digo, pra longe do pensar em ti. Pra longe um pouco da saudade. E foi bom, porque a vida é uma bagunça, pai, e se saudade é bom e dá vontade de dar abraço, nesse exato momento o seu faz muita falta. Um abraço, ou um beijo, daqueles que você dava de surpresa, quando lembrava de demonstrar carinho aleatoriamente. Era estranho, porque de repente, mas era bom, pai. Era bem bom.

Queria mesmo que você estivesse aqui. Meu melhor amigo, um que não encontrei nunca mais.

Queria. E você não está.

Então eu sentei aqui, com o violão na mão, e tentei tocar qualquer acorde. Saiu esse texto. Em silêncio, sem lá, nem si, nem sol.

Nem dó.

Feliz aniversário.

São Paulo, 24 de abril de 2016.

Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

Olhos de cão – IV

Hoje o Lumpen foi castrado. Estranho.

Acordei antes do despertador. Não sabia como ele reagiria. Na hora da coleira, eu sabia, era o Lumpen, o cachorro-lumpen, o caos. Liguei pra carona que consegui, sem resposta. Me preocupei um pouco. Resolvi sair com ele, dar uma volta. A carona ligou, iria atrasar um pouco. Sem problemas. Liguei no veterinário e sem problemas.

Andamos pelo quarteirão de casa, aproveitei e passei no banco. Lumpen entrou comigo, quis latir pro vidro. Nem oito da manhã direito. Fui rápido, e saímos. Mais uma volta e a carona chegou. Enfiei ele no carro, era a primeira vez dele num carro. Achei que ia vomitar, não vomitou.

Chegamos na clínica, na zona norte. Perto da avenida Imirim. Lembrei do Lipe e da minha adolescência, estudante, depois punk, primeiro jogando bola, depois também ensaiando e tocando, andando por aqueles lados. Há um certo charme na zona norte, me agrada, moraria lá, sim.

A clínica tinha uma fila em direção à recepção, todos com o papel da prefeitura do programa de castração gratuita e cães e gatos a tira colo. Tentando controlá-los, que bicho nem sabe o que é fila. Bicho não faz fila, fila é coisa de gente. Gente burra.

Descobri como era o esquema e vi que demoraria. Dispensei a carona, entrei na fila. Lumpen puxava, puxava, puxava. Difícil fazer ele ficar quieto, mas depois de um tempo deitou. Levantava a cada bicho novo que entrava aquela salinha de 7m x 5m, mas puxava cada vez menos. Enquanto esperava, eu percebia o protocolo: primeiro a ficha, um barbante com número. Lumpen deixou de ser Lumpen, agora era 18. Dezoito.

Quando chamado, foi pesado, e recebeu uma pré-anestesia. Saímos e em pouco tempo seus olhos ficaram pequenos, como o de outros cães. Os gatos não via, todos dentro de caixas, que gato foge de gente e de agulha mais que cachorro. Muita gente não gosta de gato, diz que é traiçoeiro, que foge; entretanto nós humanos fazemos fila pra que bichos virem números e tenham tolhidas sua libido, seus órgãos reprodutivos, impedindo definitivamente a razão principal de sua existência: reproduzir.

É pro bem deles, o discurso é esse. Na verdade não. É pra nossa conveniência. Pra que deixem de ser tão ariscos, tão dominadores, marcar território. Pra que não entrem no cio, não busquem o cio. Castrando evita-se a piometra e o câncer de mama nas fêmeas; doenças proliferadas porque insistimos em ter bichos. Ter, possuir. E castrar.

Não tenho vergonha nenhuma em dizer que gosto mais de cães do que de gente. Nem acho que isso é sintoma de depressão, fase da adolescência, solidão ou carência. Cães são animais simples e paradoxais na sua relação conosco. Gosto de cães porque entendo o que fazem, porque fazem, quando fazem. Gosto de cães porque não tenho que me explicar pra eles. Gosto porque é simples, é afeto, afeto puro. Achar isso brega, ridículo ou depressivo é que deveria ser considerado um problema.

Lumpen desabou aos meus pés. Sua hiperatividade desapareceu por uma meia hora, enquanto voltava a ser Dezoito a espera de sua vez pra deixar de vez de ser Lumpen. Aquilo me incomodava, dava um nó na garganta. Todos aqueles bichos, e pensar que naquela clínica era assim todo dia. Castra-se pra evitar novos bichos; entretanto, cada um daqueles donos de animais domésticos – houve um tempo, não faz muito, que tínhamos escravos domésticos; aliás, família deriva de famulus, grego ou romano ou latim, foda-se, pra escravo doméstico – amava seus bichos, tinha outros bichos e provavelmente ainda terá mais alguns. Um garoto de seus seis ou sete anos passeava com um filhote de seus vinte ou trinta dias no colo. Chegaria sua vez de ser castrado. Chegaria a dele de ser seu dono. Não hoje.

Dezoito foi chamado outra vez. Levantei seus dezenove quilos e meio no colo pra colocar sobre a mesa de metal. Segurei sua cabeça contra o meu peito pra que a anestesia fosse aplicada na veia da pata direita dianteira, e em segundos ele estava desacordado. Outras duas injeções lhe foram aplicadas, sua cabeça tombou, a língua de fora, como morto. Eu nunca, nunca, nunca nessa vida serei capaz de sacrificar um animal. Saí da sala ofegando, lágrimas contidas. Saí da clínica pra respirar. A fila tinha aumentado.

Atravessei a rua e entrei num boteco. Pedi um pão e um café, tentei tirar a mente dali. Sabia que a castração era segura (pra mim), mas a imagem de Lumpen desacordado e de língua de fora me incomodava. Voltei pra clínica, passeava aflito entre outros donos e donas que roíam as unhas. Uma mulher se referia a nós como pais, e aos bichos como filhos; não pude deixar de pensar na idéia de castrar um filho. Lumpen não é filho, nunca será, nem meu nem de ninguém, porque bicho não tem esse tipo de relação com ninguém. Mania idiota de ser humano inseguro, transformar todo tipo de relação no tipo mais comum que conhece, a família, e ao mesmo tempo o mais escravizador e opressor possível. A base de tudo, dos ataques aéreos à Gaza, dos estupros diários pelo mundo, da domesticação de outras espécies, da castração alheia pra evitar problemas. Que espécie, somos.

Alguns minutos depois Dezoito voltou a ser chamado. Agora não era mais Lumpen, era eu. Recebi instruções de cuidados pós-operatórios, comprei remédios. Entrei na sala onde os cães e gatos adormecidos aguardavam a vez pra voltar a ter nome. Quer dizer, nós é que temos seus nomes, eles irão morrer sem saber o que é isso. Falo dos outros e humanizo as relações igual. Patético.

Na gaiola, Lumpen está de olhos abertos, mas sem forças. Lembro de mim mesmo quando tirei baço e vesícula aos nove anos, acordando na sala de pós-operação sozinho, sem forças pra levantar ou gritar que estava acordado, vivo, sozinho. Me viu e balançou o rabo com toda a pouca força que tinha. Impossível, desculpem-me, impossível mesmo não lembrar de meu pai.

Pedi à enfermeira um colar pra que ele não tentasse mais tarde arrancar os pontos. Peguei-o com todo o cuidado do mundo, pesado, e saí desnorteado daquela sala como quem sai de uma trincheira carregando um amigo ferido pela guerra. Atordoado mesmo, a mulher do “pais e filhos” me disse que estava segurando ele errado, poderia abrir o ponto. Me desesperei um tanto, um rapaz me ajudou a segurá-lo direito. Fui pra fora da clínica, Lumpen no colo, e a carona não tinha chego ainda. Entrei de volta, sentei no chão com Lumpen no colo. Tinha vontade de chorar. Já gritei muito com Lumpen, dei esporro, briguei, e toda vez que tenho que fazer isso (tenho?) me sinto mal. O que ele estaria fazendo de errado? Punimos os cães por simplesmente serem cães. Castramos pra que não produzam outros cães que irão querer ser cães, e pra que parem de mijar no pé da importantíssima mesa da sala, ou do sofá. Que espécie, que espécie.

Voltei e pedi pra deixá-lo mais um pouco lá dentro, “dez minutos pro carro chegar”, mas a máquina de castrações não pára, a fila anda e seu lugar já foi tomado. O rapaz da ajuda anterior me olha e oferece lugar no banco. Coloco Lumpen deitado e me agacho de cócoras pra que ele se assegure de que estou ali. Que crime cometemos todos os dias ao fazer outras espécies acreditarem que somos seus guardiões, sua segurança, seu porto seguro. Não sabemos nem o que fazer com a nossa.

A carona chegou e no carro Lumpen já tentava voltar a estar de pé. Ainda nada. De princípio tentei contê-lo, depois pensei que tinha dor como eu tinha tido tantas vezes e deixei que ficasse como quisesse. O corpo é dele, o conforto é dele. Comentei com o carona que tinham instalado um microchip nele, ele me disse que leu em algum canto que nos Estados Unidos há gente se auto-instalando microchip por medo de sequestro. Não gosto de me repetir, mas porra, que merda de espécie somos? Que merda?

Cheguei em casa e subi com Lumpen pra lavanderia. Limpei, trouxe sua casinha, comida e água. Não pode descer escadas nem subir sofás. Aos poucos ele voltou da anestesia. Quieto, olhar triste, adormecido, dolorido. Parece não entender o dia de hoje, o que aconteceu. Parece não, não entende: entendesse, e ao invés de buscar asilo no meu olhar fugiria dele pra todo o sempre.

Quando operei, e foram várias vezes, tive companhia no quarto do hospital. Já fui companhia algumas vezes igual. Então desci pro meu quarto, peguei colchão e travesseiro e me instalei ao lado da casinha de Lumpen.

Dizem que cachorros não choram como humanos, porque seus olhos não lacrimejam.

Mentira, Lumpen. Quando você me olha, são suas as lágrimas que vê correr.

Que idiota. Que espécie.

Mutilei um cachorro. Um cachorro que ouso chamar de meu. Que me obedece e responde aos meus comandos, e enquanto escrevo se aninha junto às minhas pernas trocando calor.

No fundo, no fundo, entendo tanto quanto ele o porquê.

Aniversário*

– Vamos, menina, que a chuva só é chuva até que termine.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2009 quando de repente não sabia para onde ir.

Chovia, que era São Paulo e janeiro, e ele não sabia para onde ir.

Resolveu deixar o hospital e caminhar, sem rumo. À deriva. Pensava em pessoas e datas, e lugares, e cheiros.

Assim foi, e a chuva de janeiro deixou a cidade mas não seu coração. Caminhava e lembrava, e por vezes chovia no almoço, deixando a comida mais salgada e menos palatável.

De peito amortecido, passava por tudo como quem não passa nada, emocionalmente quase nulo. Havia vida, podia até sentir, mas nada que tocasse ou sentisse conseguia desentorpercer seus sentimentos.

Não sabia, era isso, não sabia abandonar a tristeza. Encerrar o luto. E seguia vivendo porque, oras, não podia seguir de outra forma. Existir não há sem viver.

Então se foi a década, e veio outra. E de repente era janeiro e chuvas, mas diferente do primeiro ano dessa vez não adentro. São Paulo era mar como sempre, mas ele, sertão. Secara.

E ali vinte dias, e um, e dois, e de dois para quatro numa intensidade que há tempos, e de repente vinte e cinco.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2011 quando percebeu que havia esquecido do aniversário de sua tristeza.

Dois anos, fazia, e ele não lhe havia comprado presente algum.

Então parou de andar e caiu em si.

Pegou a cachorra, subiu o viaduto e ficou a observá-la a correr, liberta que estava da coleira e das paredes do apartamento.

E montado no alto de todo aquele concreto e cinza sentiu que naqueles dois anos nunca estivera sozinho.

Nem ao sol, nem à sombra, muito menos à chuva.

Olhou para cima, e vendo o céu de janeiro carregado como sempre, jogou fora o guarda-chuvas.

Porque tinha sede.

Dois anos depois, outra vez tinha sede.

– Que venha a chuva! – desafiou.

De boca aberta, e língua de fora.

*Dedicado a Cleber Cajazeira, que em 25 de janeiro de 2009 deixou a história para estar diariamente na minha vida. Pai, tua chuva me alaga e me seca, mas nunca, nunca, nunca me afoga.

Da pequenez ou Olhos de cão – III

Sentado estava, à mesa de bar, ele, e mais dois. Conversa fora, sorrisos. Uma brecha, precisavam dela. E, ali, finalmente, a tinham.

– Mas que golaço do fulano hein? Muito bom jogador!

– Depende, depende, há jogos em que desaparece.

Era centro da cidade, então de tudo um pouco. Carros, fumaça, pobreza, loucura, fumaça, fumaça. Ainda lei da mordaça pulmonar não havia.

– E aquela menina?

– Ah, nem me fale…

Não fumava, que tinha aprendido com a doença do pai. Não, não, nunca entendera aquilo de cigarros. A fumaça, ela de novo, inclusive o incomodava. Coçava, o nariz. E os olhos.

– Me meti numa das boas outro dia…

– Ah é? Conte!

– Acontece que havia prometido a um amigo que…

De repente parou. Tudo. À porta da mesa, outra vez, a pobreza. Dessas que falam, insistem em querer interromper os protagonistas. Que incomodam, porque existem.

Essa, era uma pequena. De olhos castanhos.

– Tio, compra um chocolate? Três por um – disse ela.

– Não tenho, me desculpe – respondeu um.

– Tampouco – outro.

Evitaram, ambos, o olhar da pequena. Assim permanecia invisível, ela. Era só barulho, como os carros, e a televisão. Barulho passageiro.

Ele não. Não conseguira. Não conseguia, nunca.

Tinha olhos de cão. Tinham.

Não exatamente queria chocolate. Meteu a mão no bolso. Achou uma moeda.

– Aqui está.

– Obrigado tio! – e lhe entregou os doces, a pequena.

Colocou-os sobre a mesa, junto ao copo. Seu copo. Tomaram folêgo para retomar.

– Então, eu havia prometido…

A pequena, no entanto, não havia ido. Não completamente. Dois passos dara, mas observava os três. Voltou.

Sem dizer uma palavra, pegou os chocolates, todos os três, e distribuiu, tal qual garçonete, um para cada copo.

Um para cada um.

E se foi.

Entreolharam-se, eles. Não havia palavras.

Na verdade, até hoje, sete anos depois, ainda não há.

Ainda não há.