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Sorriso de pai

– Feliz dia do pai 🙂
– Feliz dia do pai. Te amo. Tô aqui esperando seu texto pra me fazer chorar.
– Mais tarde…

***

Lu,

tenho muita saudade de você. Muita mesmo. Eu não sei por quê, nem como, nem quando isso começou, mas nos últimos meses tenho tido uma vontade enorme de mandar tudo à merda e comprar uma passagem pra ir te ver.

Eu tenho tido uns sonhos estranhos. Sonhos não, umas sensações, na hora de dormir. Principalmente na casa da mãe. Parece que tem uma presença, uma força, algo ali que me causa uma espécie de temor, um medo. Não, na verdade não é um medo, é uma ansiedade e uma agonia, e aí eu não consigo deitar de frente pra porta, e fico de costas como que sem querer encarar o que quer que seja que está ali. Não é muito racional, e talvez seja isso o que mais cansa a minha cabeça, porque você sabe o quanto eu sou racional e pragmático nessa bosta de vida. Queria ser menos. Mas a verdade é que eu não sei o que é essa coisa, essa força, e não sei o que fazer. Tento virar de frente, levanto, bebo água, mas acabo só indo dormir quando o cansaço vence a maquinação frenética da mente.

Não é ele, tenho certeza. Porque ele nunca me trouxe angústia, ansiedade ou medo. Ele não era de causar medo, lembra? Ao contrário, ele era de fazer rir.

Lembra da vez que meus amigos e eu fizemos a políca bater lá em casa e todos os vizinhos saírem pra ver o que era, e não era nada? Eu fiquei morrendo de medo da bronca quando ele chegasse, mas ele deu gargalhadas. E passou os meses seguintes fazendo piada com isso.

– Vou sair, não quero saber da SWAT vir aqui hein?

E quando a mãe não se acalmava dentro do carro? Lembra dos trocadilhos? Acho que ela ficava puta, mas depois que todo mundo ria ela vinha junto também né.

Lembra daquela vez que você discutiu com a mãe, chamou ela de autoritária e ela respondeu que autoritária era sua vó? E ele veio, todo sorrateiro, perguntando como se fosse o Chaves falando com o seu Madruga:

– É verdade que a sua avózinha era conhecida como Mussolini?

Lu, hoje eu só consigo lembrar das risadas. Ele me faz rir, e sorrir, e ter vontade de conhecer o mundo todo e fazer mais e mais coisas, como ele sempre quis e sempre fez.

O pai se foi, né, Lu, e a gente ficou. E depois foi também o Abu, e a vó. Parece que a vida encolheu, as pessoas queridas diminuíram e as angústias aumentaram. E aí a gente usa a memória pra tentar encontrar conforto no passado e não se perder. Só que o passado já foi e a memória é seletiva, e ela dança muito conforme a música do nosso coração. Quando a música toca no ritmo da saudade, vem essa vontade de chorar que me aperta os dedos enquanto digito, ou quando eu deito e sinto a presença da sua ausência, e da dele, e da vó e do Abu. É isso: esse medo, esse temor, essa angústia e principalmente a ansiedade só podem ser saudade.

Só que hoje eu não queria chorar, Lu. A saudade não tem que ser ameaçadora. Porque mesmo com ela presente e incômoda, cada dia mais eu percebo que ele tá na gente, sabe? E isso não é só forma de dizer. É de agir, de sorrir, de cantar, de sentir e de ir além.

Ele é as milhares de colheres de açúcar no meu café.

As muitas vezes que a mãe chama a gente quando tá no banho.

A música que sai de qualquer violão.

E o seu sorriso. Lu, é impressionante como ele é o seu sorriso, tanto quanto você era o dele.

Não sei, mas acho que enquanto eu escrevia isso aqui eu percebi o que é que me atormenta de noite. E é saudade, dele e de você.

Então não chora, irmãzinha. Ou chora, se for essa a sua vontade. Mas chora com um sorriso no rosto, e outro no peito. Que seu “rimão” é um bundão, mas logo menos dá um jeito de ir te ver.

E pra mostrar que o pai tá aqui, tá aí e tá em todo lugar, fazendo a gente rir, deixo essa foto dele que encontrei em casa.

É ou não é a nossa cara?

Milhões de beijos,

Dan

Beth, A Meia XV

Reaproveitando uma antiga que pode ser reaproveitada pra sempre…

(clique na imagem para ampliar)

Três

Ter perdido meu pai não me torna um herói. Nem um coitado. Longe disso, bem longe. Todo dia pessoas perdem pessoas. Às vezes sem morte. Isso sim é triste.

Não sou de vidro. Talvez escrever tudo isso faça parecer com que seja. Não quero olhares de dó nem perguntas “você está bem”. Socorro. Isso não é um pedido de socorro.

Meu pai era um cara engraçado.

***

Quando eu era pequeno, não gostava muito de Chaves. Queria ver Globo Esporte. Tinha que ver no quarto. A sala era dele. Tudo ao contrário. Normalmente as crianças é que querem ver programas infantis. Depois fui descobrir que Chaves não é exatamente um programa infantil. Quando cresci um pouco mais, meu pai me mostrou Monty Python, Caça-Fantasmas, Loucademia de Polícia, Trapalhões quando ainda era bom. Ele gostava de dar risada. De fazer os outros rirem.

Todo amigo meu que passava lá em casa ganhava um apelido. A maioria vinha do Chaves. Alguns de Carrossel, que minha irmã adorava. Ele tirava as pessoas do lugar de respeito pelo ambiente alheio e as colocava em casa. Um mecanismo interessante: desconcertar para desconcentrar. Dá pra usar isso numa guerra, se bobear. Se é que já não usaram. O que já não usaram numa guerra?

Uma coisa que herdei de meu pai muito bem foi a capacidade de observar e escutar o entorno. Pra fazer piada. Você estava conversando com alguém e de repente ele entrava no meio com alguma piada. No tempo certo, quase sempre. Uma vez minha mãe e minha irmã gritavam uma com a outra pela casa até que foram cada uma para seu quarto e minha mãe gritou, por final: “autoritária é a sua vó!”. Não deu outra: meu pai esperou menos de 1 minuto pra abrir a porta do quarto da minha irmã e dizer, tentando imitar o Chaves: “Luciana, sua avozinha era parente do Mussolini?”. Minha irmã não sabia se ria ou gritava.

Minha irmã, aliás, adorava fazer brigadeiro. Daqueles leite condensado com nescau mesmo. Nos lambuzávamos de comer. Era meio absurdo, até: mal o doce saía do fogo e já estavam 3 ou 4 crianças queimando a língua. Dava briga, às vezes. Os pais tentavam controlar daquele jeito observador, só pra garantir que ninguém se machuque. Meu pai nem tanto. Ele se preocupava mais com outra coisa: a tigela.

A tigela do brigadeiro sempre era largada em algum canto. Suja. Com o doce impregnando no vidro de forma a exigir água quente pra sair. Uma vez a tigela ficou em cima da pia. Meu pai pediu à minha irmã que lavasse. Um dia. Dois. Três. Cinco. Sete dias depois, minha irmã foi acordada às 7 da manhã por ele cantando “parabéns” com a tigela suja na mão, uma velinha em cima.

Mas meu pai sabia rir dele mesmo também. Contava de quando foi acampar na praia e se meteu a nadar no mar bravo pela manhã. Quase se afogou. Gritou por socorro. Os amigos fizeram uma corrente, dando as mãos uns aos outros, e chegaram até ele. O trouxeram para fora do mar e, quando ele abriu a boca, o primeiro deles começou a rir descontroladamente. Meu pai ficou sem entender. Pôs a mão na boca e… tinha perdido a dentadura.

Haviam em casa ainda as piadas prontas. Como quando minha mãe ia tomar banho. Era certeza que ela gritaria do banheiro para pedir algo. Ou para dizer algo. Quase sempre algo que poderia ser dito depois, ou pedido depois. Uma dessas vezes meu pai estava deitado vendo TV e ela chamou. Ele resmungou, mas foi lá. Era qualquer coisa inútil. Voltou puto da vida. Mal encostou a cabeça no travesseiro e ela chamou de novo. Ele voltou lá semi-enfurecido. Discutiram. Quando ele voltou, ficou andando de um lado pro outro. Eu prestava atenção na TV. Percebi que ele não se sentava, nem deitava, e perguntei porquê. Ele respondeu, “se eu deitar ela vai me chamar de novo”. Comecei a rir. Ele também. Esperou mais uns 2 minutos e deitou. Quer dizer, tentou: enconstou a bunda no colchão e veio o grito: “Cleeeeeeeeber”. Caímos na gargalhada.

Outra vez, minha namorada tinha dormido em casa e, de manhã, estávamos todos na sala, conjecturando sobre o café. Meu pai dormia. Ao menos parecia. Minha mãe pediu à minha namorada, brincando, que fizesse café. Ela respondeu que não sabia. Minha mãe questionou “como assim, você não sabe fazer café?”. Minha irmã fez o mesmo. Eu também. De repente meu pai levanta do colchão como um zumbi e quase grita, “COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE FAZER CAFÉ?”. O filho da puta sabia esperar a hora exata pra fazer graça.

Minha avó sempre me diz que eu sou meu pai escrito. Acho que ela quer dizer que me pareço muito com ele no jeito de agir.

Não sei.

Preciso conseguir fazer rir mais do que chorar pra isso.

***

Além do cigarro, meu pai era viciado em café. Um café nojento: no bar, quando pedia, ele jogava metade fora, completava com água fria e colocava, sem exagero, no mínimo um terço do copo de açúcar. Em casa, fazia o mesmo, com o agravante de deixar o copo sobre a geladeira por dias, tomando de gole em gole.

Era irritante quando ele me levava pra jogar no Corinthians. Ele tomava café no bar entre nossa casa e o ponto de ônibus. Pegávamos o ônibus, descíamos na avenida Celso Garcia e tínhamos que descer toda a rua São Jorge a pé. A rua São Jorge tem uns quatrocentos botecos. Meu pai tomava café em metade deles. Às vezes isso fazia com que eu chegasse atrasado, ou em cima da hora do jogo, o que significava ser reserva. Eu odiava aquilo. Um dia, com 13 anos, me revoltei. Já estávamos em cima da hora e ele parou no bar perto de casa. Fiquei puto, discuti com ele e saí andando. Peguei o ônibus e fui sozinho pro jogo. Cheguei em cima da hora. O filho da puta já estava lá me esperando. Tinha pego um táxi.

Meu pai nunca estava errado.

***

Em termos financeiros, meus pais formavam um equilíbrio arriscado. Fácil de ser rompido. Minha mãe sempre foi contida e precavida, pagando as contas em dia, guardando dinheiro pra eventuais emergências. Meio paranóica até. Meu pai era o oposto. Se empolgava com novidades e comprava. Até hoje temos trocentas peças de computador sem uso em casa.

Eu não reclamava muito. Pedia 5 reais pro meu pai e ganhava 10. Com a minha mãe era igual, só que ela me dizia pra gastar direito. Pra guardar o que sobrasse.

Quando eles se casaram, deram entrada em um apartamento no Piqueri. Anos depois, venderam a parte que já estava paga e compraram duas bancas de jornal. As bancas não deram certo, foram vendidas. Com o dinheiro, meu pai comprou um videocassete.

Minha mãe tinha um apartamento e acabou com um videocassete.

***

O Abu adorava minha irmã, mais do que eu. Era o cão dela. Depois, minha irmã foi pra Austrália. Eu já morava fora da casa dos meus pais. Minha mãe trabalhava. Meu pai, doente, em casa, virou seu companheiro de todos os dias.

Me lembro de quando chegamos da cremação de meu pai, exaustos. Física e emocionalmente. Abrimos a porta e não tivemos muitas forças pra fazer festa pro cão. Ele pulou um pouco em cada um. No meio da sala, ficava a cama onde meu pai dormia. Fomos nos trocar.

Quando voltei, Abu estava deitado sobre aquela cama, olhando pra porta. Não tinha chegado todo mundo. Faltava seu companheiro.

Não há palavras no mundo que possam expressar o vazio que vi em seus olhos.

Lembro que naquela noite dormi naquela cama. Abu, que nunca foi muito de colo, dormiu comigo, aos meus pés.

Sempre com os olhos virados para a porta.

Até hoje.

Como dizer a um cachorro que ele não vem mais?

A 2ª Guerra Mundial, resumida

(depois da versão em inglês vem uma tradução espontânea minha feita para ser incluída em futuros livros escolares ou, quem sabe, na Wikipedia)

Fonte: Urban Dictionary

World War II

Germany invades Czechoslovakia.

Britain & France tell them to stop that bullshit.

Germany invades Poland.
(Russia also invades Poland from the other side: everybody forgets this.)

Britain & France declare war. This is the ‘official’ kick-off.

Italy, Bulgaria, Hungary, & Romania all join the German side. (Everybody forgets the last three.)

Axis forces go through Europe like vindaloo through a colostomy.

Nazis exterminate Jews, gays, gypsies, & the disabled. (everybody remembers the jews but forgets the rest.)

UK holds out.

Russia & the USA don’t do shit.

Entire divisions of Danish, Belgian, Dutch, Norwegian, French & Serbian volunteers join the Axis armies & SS. (everybody forgets this & to listen to them now, they were all in the fucking resistance, which must have been MASSIVE.)

Axis forces invade Russia. Suddenly the Russians don’t think it’s funny any more.

Japan joins the Axis & bombs Pearl Harbor.

Suddenly the US doesn’t think it’s funny any more.

The USA tools up the world, ‘cause it’s got more factories than everybody else put together, & they’re out of bomber range.

Axis runs out of steam in Russia, cause Russia’s enormous & bloody freezing.

Allies invade on D-Day… 5 landings: 2 British, 2 American, 1 Canadian. (everybody forgets the Canadians.)

Hitler ends up smouldering in a ditch. Russians find the body & confirm he only had one ball. Seriously.

The US decides invading stuff is a pain in the ass and invents the atom bomb instead. Drops two buckets ‘o sunshine on Japan.

Russians steal half of Europe.

UK’s spent almost every penny it had.

US starts telling everybody how it was all about them, & 64 years later is still doing so.

“Some of the World War II guys in ‘Call of Duty’ have, like, foreign accents… what’s up with that?”

***

Segunda Guerra Mundial

A Alemanha invade a Tchecoslováquia.

A Grã-Bretanha e a França dizem à eles para parar de fazer merda.

A Alemanha invade a Polônia.
(A União Soviética invade também, pelo outro lado: todo mundo esquece disso.)

A Grã-Bretanha e a França declaram guerra. Esse foi o começo “oficial” da guerra.

Itália, Bulgária, Hungria e Romênia se juntam à Alemanha e formam o Eixo. (Todo mundo esquece os últimos três.)

As forças do Eixo avançam sobre a Europa como vatapá numa hemorróida*.

Os nazistas exterminam judeus, gays, ciganos e deficientes. (Todo mundo lembra dos judeus mas esquece o resto).

A Grã-Bretanha se põe fora disso.

A União Soviética e os Estados Unidos não fazem merda nenhuma.

Divisões inteiras de voluntários dinamarqueses, belgas, holandeses, noruegueses, franceses e sérvios se juntam aos exércitos do Eixo e à SS. (Todo mundo esquece disso e se você for perguntar hoje, todos eles dirão que estavam na porra da resistência, que precisa parecer MASSIVA.)

As forças do Eixo invadem a União Soviética. De repente, os soviéticos deixam de achar tudo aquilo engraçado.

O Japão se junta ao Eixo e bombardeia Pearl Harbor.

De repente os Estados Unidos deixam de achar tudo aquilo engraçado também.

Os Estados Unidos armam e abastecem o mundo inteiro, porque tem mais fábricas do que todos os outros juntos, e estão fora do alcance das bombas.

O Eixo vira fumaça na União Soviética, porque a União Soviética é enorme e fria pra caralho.

Os Aliados invadem no Dia D… 5 aviões pousam: 2 americanos, 2 ingleses e 1 canadense. (Todo mundo esquece os canadenses).

Hitler termina se suicidando e o corpo é atirado numa vala. Os soviéticos encontram o corpo e confirmam que ele só tinha uma bola. Sério.

Os Estados Unidos decidem que esse negócio de invadir é um saco e inventam a bomba atômica. Pegam duas delas e promovem um pôr-do-sol inesquecível no Japão.

Os soviéticos roubam metade da Europa para si.

A Grã-Bretanha gasta praticamente todos os centavos que tinha.

Os Estados Unidos começam a contar para o mundo todo como foram eles o centro de toda a guerra, e 64 anos depois ainda estão fazendo isso.

“Alguns dos soldados da Segunda Guerra em ‘Call of Duty’** tem, tipo, sotaques estrangeiros… que porra é essa?”, pergunta um americano em 2009.

* Vindaloo é uma comida indo-portuguesa picante que, ao passar pelo organismo de um cidadão colostomizado (ou seja, que caga numa bolsinha pendurada na barriga porque teve o cu costurado por problemas intestinais ou não), é um verdadeiro arregaço, como foi a expansão hitlerista na Europa no começo da II Guerra Mundial. Valeu Felipe Madureira, Fábio Snorks e Pedro Carvalho pelo toque. Na tradução, a opção pelo uso do vatapá foi também sugestão do Felipe Madureira.

** Call of Duty é um jogo de guerra online para computadores onde cada jogador comanda um soldado em cenários bélicos históricos, como a Segunda Guerra. Americano, por sua vez, na imensa maioria das vezes significa ser humano desprovido de visão periférica. E cultura. E História. E Geografia. E, em matéria de guerra, qualquer coisa que não tenha sido aprendida em filmes do Rambo.

O absurdo da lei, a ironia do acaso e o sabor da vingança

Estou indo pra Argentina no próximo dia 14 e o meu RG está aberto. Pra evitar problemas, então, segunda-feira fui ao Poupa-Tempo da Luz fazer uma segunda via.

Como lá mesmo dá pra tirar foto, não me importei em fazer isso antes. Aproveitei também o fato de ter um amigo que trabalha lá pra ir no melhor horário, entre 18h e 19h da tarde/noite.

Então, por volta de 18h10, trajando uma camisa do Corinthians, como quase sempre, deixei minha casa rumo ao desafio.

Que já começou a encrencar logo de cara.

– Oi, quanto é a foto pra documento?

– 6 fotos, 5 reais.

– Tá, quero tirar.

– Não pode.

– Porque?

– Não pode tirar com camisa de time.

– Mas porque não?

– Não sei, moço, mas não pode.

Pronto. Se eu tivesse que voltar pra casa pra trocar de camisa, além de ficar muito puto, não daria tempo de completar a missão. Felizmente, pensei rápido e fui falar com o amigo que por lá labuta.

– Por favor, onde encontro o Felipe?

– Nas mesas.

Fui até as mesas.

– Fala Sema!

– E aí, mêo!

– Cara, seguinte, tem uma camisa pra me emprestar? Não pode tirar foto com camisa de time pra documento.

– Putz, mêo, a única camisa que tenho na mala também é do Corinthians. Mas ó, eu já peguei várias fotos com camisa de time, vê direito isso lá na frente.

Voltei à moça das fotos.

– Oi, então, falei com um colega que trabalha aqui…

– Que colega?

– O Felipe, e ele…

– Um magrelo altão?

– Esse.

– Adoro ele, sempre pentelho ele.

– Então, mas acontece que ele não tem uma camisa pra me emprestar, mas disse que já pegou gente com foto com camisa de time várias vezes.

– Olha, moço, se eu tirar e não te deixarem fazer você vai ficar bravo comigo… você não quer falar com a supervisora antes?

– Ahn… tudo bem.

E lá fui eu falar com a supervisora.

– Oi, boa tarde. Eu queria tirar uma segunda via de RG e não estão me deixando tirar foto porque estou com camisa de time. Não pode mesmo?

– Não.

– Mas porquê não?

E ela, com uma cara de “que pergunta absurdamente inconveniente”:

– Porque é DOCUMENTO!

– Que que tem?

– Documento é coisa séria, meu filho!

– Meu time é coisa séria pra mim.

– Mas não pode, antigamente tinha que tirar até de gravata!

– Só se for antigamente nos tempos do meu avô, porque meu pai tá de regata e black power no RG dele. Tem alguma lei que diga isso?

– Tem…

– Qual?

– Não sei, mas não pode.

E virou as costas.

Inconformado, falei com um amigo meu que é advogado.

– Me diz uma coisa, estou aqui no Poupa-Tempo tentando tirar RG e não estão me deixando tirar foto com a camisa do Corinthians. Tem alguma lei que diga que não pode tirar foto pra documento com camisa de time de futebol?

– Olha, que eu me lembre a lei sobre documentos diz que tem que ter fundo branco e não pode ter nenhuma manifestação ideológica.

– E time é manifestação ideológica?

– Pode ser entendido como.

– Beleza, valeu.

Que maravilha. Se a minha camisa dissesse “Deus é Fiel”, duvido que me impediriam de tirar foto. E se “Deus é Fiel” não é ideológico, não sei mais o que é. Não à toa  Bob Dylan disse que pra ser honesto você tem que andar fora da lei.

Mas voltando, 18h30, meu tempo se esgotava. Resolvi forçar a barra. Voltei pra moça das fotos.

– Oi… olha, e se eu colocar a camiseta ao contrário?

– O que a supervisora disse?

– Que não pode camisa de time, mas não disse nada ao contrário.

– Olha, moço, é melhor eu não fazer, se não vai sobrar pra mim.

Ciente de que tanto ela quanto a supervisora só cumpriam alguma determinação esdrúxula vinda de cima, segurei minha raiva e tentei pensar.

Lembrei que tenho um amigo que trabalha na Galeria do Rock, aonde daria pra ir e voltar a tempo.

Restava torcer pra que ele estivesse lá e pra que tivesse uma camisa pra emprestar.

– Fala Didi.

– Fala Mandioca, tudo bem?

– Tudo. Rapaz, me diz uma coisa, você tem uma camisa pra me emprestar? Não estão me deixando tirar foto pro RG lá no Poupa-Tempo com essa do Corinthians.

– Pô, cara, só se for uma da loja.

– Mas eu não tenho grana pra comprar…

– Não esquenta, vai lá, tira a foto e depois me devolve.

– Não vai ficar ruim pra você?

– Não, vai lá.

Agradeci e fui, correndo, que já eram 18h45.

Cheguei e a moça da foto sorriu.

– Conseguiu?

– Consegui.

– Então vamos rápido que eu já tô pra fechar.

Entrei na cabine, tirei a camisa preta e… surpresa.

A estampa, na frente, era… VERDE.

Muita sacanagem.

Estiquei a camisa pra baixo o máximo que pude e tirei a foto mesmo assim.

Das 6, uma saiu sem o verde. Era essa.

Dei entrada no pedido e me sentei pra esperar. Rapidamente, fui chamado para ser atendido.

No guichê de onde acabava de levantar um são-paulino.

Não era possível, os deuses da bola estavam de armação pra mim. Só faltava o Pedro aparecer e dizer “é uma cilada, Bino!” a atendente ser santista.

Não era.

Mesmo assim, depois de tudo, resolvi que era hora da vingança.

Coloquei minhas impressões digitais, confirmei os dados e esperei pela hora da assinatura.

– Assina aqui do jeito que vai ficar no RG.

– Precisa ser igual ao antigo?

– Não.

Não tive dúvidas.

A mulher olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel mais uma vez.

E perguntou:

– Você escreveu… Corinthians?

– Sim.

– Olha, não sei se pode.

– Pode sim, a assinatura é minha, faço como quiser.

– Pera que eu vou perguntar.

Já imaginei ela mostrando pra mesma supervisora de antes e pronto, iam achar que eu tava de sacanagem com as tradições e os bons costumes desse país tão sensato chamado Brasil onde usar a camisa de seu time pra tirar foto pro seu próprio documento é quase um crime.

Mas tive sorte finalmente, e o outro atendente, a quem ela tinha consultado, confirmou que podia.

Hoje, voltei ao Poupa-Tempo pra buscar meu novo RG.

Que tem uma foto com o cabelo desarrumado e um sorriso cansado e uma assinatura com letra de criança.

Mas no qual, assim como domingo, deu Corinthians*.

Mesmo que aos 47 do segundo – ou melhor, às 19h20 de segunda.

DHVCorinthians

DHVCorinthians

*OK, o dérbi empatou, mas o RG também: eles ganharam na foto, eu na assinatura. No placar moral, deu Corinthians.

Beth, A Meia XIV

(clique na imagem para ampliar)

beth14

Mão esquerda

Quadrinhos feitos com a mão esquerda.

Por pessoas destras.

Muito bom: