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Copa do Mundo Alternativa 2013: um relato

Nos foi roubada a chance de ser meio-campeões mundiais.

Jogamos muito, muito mesmo, aqui na Inglaterra. Metade Auto, metade Vova: seis de cada lado. Kasperas (de longe o melhor goleiro que já jogamos na vida, ex-seleção da Lituânia até os 19 anos, árbitro profissional hoje, com 22), Paulius, Arunas, Edvardas, Vaidas e Domas; Bruno (do Pelada de Esquerda), Piva, Mandioca, Arthur, Valdívia e Pedrinho (carioca que eu e o Allan conhecemos ano passado no encontro anarquista de St. Imier, que jogou no América e no Olaria até os 16). O AutoVova. Completaram ainda três Cowboys: Jesse, Phil (o Fat Gerrard) e Wilf.

Dois grupos de seis times. Caímos com os dois times dos Cowboys, o time do República, os alemães do International Harte e o World XI.

Nosso aquecimento foi feito em todos os jogos pelo Qaz, com sua dança já mundialmente conhecida. Éramos os preferidos da torcida, que contava “oficialmente” com a Mariana e a Natame pelo lado do Auto e o Regi – que foi pedalando de Londres até Wincanton – pelo lado do Vova.

No primeiro jogo, ainda sem o Pedrinho, ainda se encontrando, tomamos um gol no primeiro minuto de jogo contra o Cowboys Clássico, que contava com vários conhecidos nossos (Jack Daniels, Jack Kelly, Charlie…). Empatamos com Vaidas, o lituano que nesse jogo ainda era o camisa 10, mas que na real é um baita volante. Criamos mais 400 chaces de gol, mas terminou 1 a 1.

Segundo jogo, contra o Republica, um time ainda desmontado (faltavam jogadores, era sexta-feira), abrimos 5 a 1 fácil. No final, relaxamos e tomamos 3 gols: final, 5 x 4. Vaidas, Valdívia duas vezes, Jesse e Arthur.

Chegou o sábado e com ele o Pedrinho. A peça que faltava. O time titular ficou com Kasperas; Edvardas, Paulius, Arunas e Piva; Mandioca, Vaidas, Arthur, Pedrinho e Valdívia; Domas. O jogo era o mais difícil, contra os Cowboys principais. Pedrinho estreando, cheio de pressão. E destruimos os caras: 2 a 0 com autoridade e com direito a Mandioca perdendo um gol na pequena área nos minutos finais. Os dois gols de Pedrinho, constituição física maradoniana, um canhotinho rápido e MAROTO. Carioca da gema, que chegou com seu cavaquinho debaixo do braço depois de dois trens e uma barca. Queria mesmo estar ali. No primeiro, aproveitou rebote depois de linda troca de passes. No segundo, aproveitou a dividida de Domas com o zagueiro, pegou a sobra, limpou pra esquerda e fuzilou no cantinho.

É preciso dizer que Arthur, Valdívia e Domas, completando o quarteto ofensivo, jogaram demais. Muita movimentação, muito toque de bola, os Cowboys não viram a cor da bola. Não teve jogo físico possível, e mesmo pelo alto, nos escanteios, quando o time deles, bem mais alto, vinha em massa, tiramos TUDO.

No jogo, uma baixa: Paulius bloqueou um chute com O RIM e foi parar no hospital. Nada grave.

O segundo jogo da tarde foi sem ele, Arthur e Edvardas, que o acompanharam no hospital. Ganhamos de 4 a 0 do World XI, que depois de jogar com crianças nos primeiros jogos, contra os brasileiro-lituanos colocaram metade do bom time do Yard em campo. Wilf fez o primeiro depois de cruzamento de Pedrinho. Mandioca ampliou de pênalti. Valdívia fez o terceiro e Domas fechou o caixão em outro pênalti.

Ainda havia um jogo de grupo a ser disputado, domingo 10h, contra o International Harte. Já estávamos classificados, mas precisávamos de um empate pra ser primeiro do grupo. O Harte precisava da vitória pra ter chance. Depois de uma noite bastante agitada, foi difícil acordar cedo pra jogar. Mas estávamos todos lá.

O Harte só tinha uma jogada: lançamento longo pros dois atacantes, muito rápidos e muito bons. Um deles de origem turca. Entramos acordados com o aquecimento do Kaz, mas foi difícil correr atrás dos alemães o jogo todo, ainda mais com Arunas descontrolado jogando quase de centroavante. Nesse jogo batemos boca. O primeiro tempo terminou 1 a 0, gol de Domas de cobertura, golaço. No segundo, o Harte empatou logo de cara, gol do camisa 10 rápido e habilidoso entrando por trás da zaga e encobrindo Kasperas com um toquinho. Fizemos 2 a 1 depois de Arthur limpar uns 400 zagueiros e rolar pra Domas bater cruzado. Mais um belo gol. E o Harte igualou o marcador no final com mais um lançamento pro camisa 10, que limpou o Piva pra dentro e chutou forte, alto e cruzado pra superar Kasperas.

O empate nos deixou em primeiro e, com o Wessex, dono da casa e líder da outra chave jogando com os reservas contra o Lunatics, até então segundo colocado mas que perderia certamente pros titulares do time inglês, os grupos acabaram com Wessex e Lunaticas em primeiro e segundo no grupo A, e AutoVova e Cowboys A em primeiro e segundo do grupo B.

As duas semifinais foram vareios. O Wessex bateu o Cowboys por 5 a 0. E o AutoVova demoliu o Lunatics por 6 a 0. Gols de Arthur com uma BOMBA de esquerda no ângulo e outro na saída do goleiro; Domas, Valdívia, Vaidas e Jesse. A final seria a esperada, repetição (de certa forma) do ano anterior: Wessex x AutoVova.

Todos em volta do campo pra assistir. Torcida que começou meio a meio – tínhamos a simpatia de todos os outros times, mas o Wessex era o dono da casa – e terminou a nosso favor. E o que esperávamos ser um jogo bem difícil acabou sendo um baile: de novo com a bola no chão, o Wessex não via a bola, e só ameaçava na bola longa pro bom camisa 10. Jogavam meio sujo também: cotovelo nas costas, no pescoço, faltas duras. No primeiro tempo Arthur perdeu uma chance, Valdívia outra, até que numa das muitas reposições de bola de Kasperas (que chegavam com veneno pros atacantes nas costas dos zagueiros), a bola sobrou pra Arthur, que tabelou com Pedrinho e, com uma calma absurda, só rolou pra Valdívia na direita. Ele entrou na área e foi derrubado. Pênalti incontestável. Domas pediu pra bater e fez 1 a 0.

O segundo tempo foi inteiro a mesma coisa: o Wessex lançando a bola da área pro ataque, com 6 jogadores na intermediária nossa disputando de cabeça, e a gente segurando e puxando contra-ataques. Defendemos muito, muito, muito. Fomos monstros mesmo. No contra-ataque, todo mundo já exausto de todo o campeonato em três dias, às vezes faltava perna, às vezes o último passe. Mas o jogo era nosso, e merecido. Até que…

Até que aconteceu algo que não dá pra entender nesse tipo de torneio. Último minuto do jogo. Em mais uma bola na área, depois de pingar na altura do pênalti, Arthur protegeu com o corpo, o volante gordinho chutou a perna dele e caiu gritando, no melhor estilo “diver” que os próprios ingleses tanto condenam. O juiz, do Cowboys, até então muito bem na partida, esperou alguns segundos e apitou. De início achamos que era falta pra gente. Não era. Era pênalti.

A revolta era tão grande que Arthur chegou a tirar a camisa e sair de campo. Não acreditávamos, porque aquilo? Qual a necessidade? Mas ele manteve a decisão ridícula e eles empataram.

Fiquei de costas na cobrança, me recusei a assistir. O jogo recomeçou e terminou em seguida, indo pros pênaltis. Cogitamos não bater. Tentamos arranjar forças morais e físicas. Mas não deu: Domas perdeu o primeiro, Vaidas perdeu o segundo e Mandioca perdeu o terceiro. Eles fizeram todos.

Saí de campo tão exausto que nem conseguia pensar em discutir. Alguns Cowboys diziam “unlucky”, e eu repetia “unfair”. Os lituanos não entendiam o porque daquele assalto. Qual o sentido?

O resto da noite, todos os times – com exceção do Wessex, cujos jogadores pouco ou nada confraternizaram com os outros times por todo o campeonato – ficaram nos dizendo que fomos assaltados. Canções de que o juiz (Clarence) beberia sozinho essa noite se espalhavam. Ele, visivelmente constrangido, não olhava na nossa cara.

Nosso meio-título mundial tinha sido arrancado da gente. Não fazia sentido. Mesmo assim, nos divertimos naquela noite, com direito a começar uma guerra de feno com os blocos de feno que serviam de assento pelo local.

E voltamos pra Bristol com a certeza de que em 2014, na Bélgica, a história tem tudo pra ser diferente.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas;  em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

Da esquerda pra direita, em cima: Wilf, Phil, Edvardas, Arunas, Jesse, Piva e Kasperas; em baixo: Vaidas, Valdívia, Pedrinho, Paulius, Bruno, Arthur e Mandioca. Deitado: Kaz. Mostrando a bunda: Regi.

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O título da perda

Entrei no Pacaembu com a camisa 8 da Democracia. E uma faixa na cabeça. Homenagem, ainda que pequena, ao que poderia vir a ser o título da perda. Nunca a perda do título, que ontem não poderia ser. Nem que tivéssemos que invadir o campo.

Foi difícil ver aquele “derby” num estádio tão fascistamente controlado, onde nem a festa pós-jogo teve espaço sem bombas e cassetetes. O futebol em São Paulo definha, e prova disso é que subi as arquibancadas e demorei uns 15 minutos pra lembrar que era jogo contra o Palmeiras, tão pequena, distante e alheia do resto do estádio estava a torcida alviverde.

O jogo foi um lixo, o futebol esteve de luto. Nada mais digno para o dia de ontem. Sócrates vale mais que 30 brasileiros, 50 Libertadores e 300000 Copas do Mundo. Se tivéssemos na história mais 2 Sócrates que fossem, poderia ser que o futebol de hoje não caminhasse cada vez mais pra onde caminha. Poderia ser, mas não foi e não será.

Curiosamente ou não, Sócrates morreu com 57 anos. Meu pai com 59. Ambos entubados e fazendo diálise. Ambos em dias em que o Corinthians foi campeão. Ambos enormes em minha mente, sempre.

Não cheguei a vê-lo jogar ao vivo, com ou sem a camisa do Corinthians. Mas ontem foi impossível, em meio a um jogo tão ruim, não olhar pro gramado em alguns momentos e viajar imaginando as tabelas com Casão, os calcanhares, o punho levantado.

Foi tocante ver todo o estádio, menos os jogadores do Palmeiras (provando o quanto jogadores como Sócrates fazem falta) com os punhos levantados. Não chorei. Mas doeu, e ainda dói.

Foi sim como perder um segundo pai.

O mais perto de Sócrates que cheguei fisicamente foi ao telefone, convidando-o em agosto para um debate. Foi gentil, embora duro e desconfiado, em dizer que não poderia comparecer. Não disse porquê. Depois, quando entrevistei o zagueiro Paulo André, amigo pessoal de sua esposa, descobri: era a saúde. Dias depois e estava internado por conta da cirrose. Superou, e foi morrer por conta de uma infecção alimentar…

Perdê-lo tão cedo, e num momento em que tão poucas vozes se ouvem contra os absurdos da Copa de 2014, foi um golpe duro.

Uma vez um amigo me chamou de “Mandiócrates”, pela magreza e cabelo parecidos. E pela admiração que tenho por ele. Agora, carregar esse apelido será uma forma de manter a memória dele. Porque, como disse um outro amigo, se depender da diretoria do Corinthians, ele terá menos importância do que qualquer coisa que Ronaldo fizer, basta ver as condolências ridículas do patético Andrés Sanchez.

Não vou desejar que o Doutor descanse em paz. Ele sempre foi de luta. Paz num mundo desigual é para os fracos, os covardes e os mau caráteres. Fique conosco, Magrão, por quanto tempo for possível. Precisamos de ti cada dia mais. Pode ter certeza que, por aqui, faremos sempre o possível pra não esquecer nem desmerecer a tua luta.

E vamos Corinthians, que, como nos ensinou o time capitaneado por você no ano em que nasci, São Jorge é um santo coletivo.

Da automedicina ou O gesso mais curto da minha vida

Acordei cedo para uma consulta indesejada. Um ortopedista especialista em mãos, cirurgião de mãos. Em fase final de campeonato, não era hora de correr o risco de ouvir algo que não queria.

Eram 6h45 quando levantei. 7h25 quando entrei no metrô. Às 8h retirava a tomografia. 8h20 entrava na sala do médico.

História contada, a bolada, o tombo, a irresponsabilidade de tocar bateria no mesmo dia, o erro do primeiro médico, a conduta do segundo, a teimosia em trabalhar tendo licença pra mais de 15 dias.

O especialista, daqueles que são especialistas em seguir protocolos, deu a sentença: injeção antiinflamatória e gesso. Mais 15 dias de gesso, depois dos 7 que já tinha passado há duas semanas e depois de estar com uma tala/órtese móvel desde o dia 10/11. Depois do gesso, dizia ele, fisioterapia. Retorno em 08/12. Dois dias antes de uma possível final.

Questionei se era mesmo necessário engessar novamente. Me disse que sim, porque a órtese móvel eu ficaria tirando toda hora e mexendo o que não devia, “tirar pra ir pra balada”. Quis mandá-lo à merda. Minha órtese fede de tanto que eu a utilizo. Só tiro pra tomar banho. E hoje nem banho tomei.

Saí do consultório e fiquei aguardando o gesso. Pensei em evadir, seguir o tratamento do médico não-especialista: 6 semanas de órtese e depois fisioterapia. Já tinham sido duas, mais quatro. Um tratamento mais humano e menos protocolar. Que leva em conta as vontades e necessidades do paciente. Menos duro.

Faltou coragem. Escrevi mensagem à mãe e à namorada, “engessado de novo, que merda”. O celular não quis enviá-las. Talvez prevendo algo.

Me chamou, o rapaz do gesso.

Resignei-me. “Futebol se joga com os pés”. Vai ver dá pra jogar de todo jeito.

Na sala de gesso, lembrei do gesso mal-feito da última vez. Da pontinha espremendo o dedão. Deixei o rapaz de sobreaviso. Pareceu ofendido. Foda-se, eu não preciso sentir desconforto porque um cara que treinou pra fazer aquilo faz de má vontade. Começou a engessar e me surpreendi: não era nem uma tala, era gesso inteiro, por completo. Impossibilitava tudo. Futebol, amarrar o cadarço, tomar banho dignamente. Almoçar. Não. Não, de novo não.

Saí da sala de gesso e fui para a de injeção. “Vai doer um pouquinho”, disse o enfermeiro. Sem saber das doses de benzetacyl que tomei de 21 em 21 dias quando criança. Doença congênita, tirei baço e vesícula com 9 anos. Precisei tomar.

A injeção simplesmente não doeu. Nada.

Saí do hospital já sabendo o que iria fazer. Só precisava do tempo do ônibus pra me convencer de que estava certo.

O próprio médico disse, seu caso não é grave. As duas semanas de órtese melhoraram muito a dor, mesmo com a teimosia de trabalhar e digitar esse tempo todo. Mesmo tendo jogado bola e caído.

Reta final de campeonato. Três jogos e talvez um título aguardado há 3 anos.

Ninguém pode saber mais do meu corpo do que eu. Autônomo.

Cheguei em casa e tirei a camiseta. Nem o tênis, nem a calça. Procurei que nem louco uma tesoura. Achei uma mais ou menos. Fui para o banheiro. Liguei o chuveiro e enfiei o gesso na água quente.

Não seria fácil, eu sabia. A tesoura era uma merda. Não cortava. O gesso vencia. Era pedra, e aquilo não era joquempô pra resolver com papel. O banheiro molhava, minha calça e tênis respingados de branco. Achei outra tesoura. Pior ainda. Quebrou.

O gesso amolecia. Eu cortava, puxava, tentava usar a força. A luva aos poucos cedia. Já não tinha volta. Veio a terceira tesoura, tesourinha de unha. Ajudou mas quase nada. A raiva subia à cabeça. Porque não me recusei a fazer aquela merda? Teria poupado esforço e estresse.

Peguei de novo a primeira tesoura. Arrumei um jeito melhor de cortar. Cortava e também puxava, tentava vencer o osso do dedão à força. Nada. Um corte numa extremidade, outro na outra. Precisavam se encontrar.

Concentrei esforços naquela linha imaginária. Ligue os pontos. Deixei a água mais quente. Cabelo molhado. Calça, tênis, chão do banheiro. Um pouco mais, só um pouco mais.

Eram 10h25 quando terminei de traçar meu Equador da liberdade.

Era oficial: eu estava novamente escalado para o jogo de sábado.

“Futebol se joga com os pés”. E com a mente.

Antes, durante e depois do jogo.

O departamento médico que me aguarde. Eu volto, sei que volto. Mas não haverá nesse mundo norma de conduta que consiga me convencer de que o especialista sabe mais do meu corpo do que eu.

Sou eu. O especialista do meu corpo, sou eu.

Futebol, ao sol e ao gesso.

Ó abre alas, que eu quero jogar.

Seis

Fiquei com a impressão ontem de ter estragado o texto com aquele poema final. Que nem é meu, diga-se, só adaptei. Não que eu ache o poema ruim, mas ficou meio fora de lugar.

Fora de lugar. Quem nunca se sentiu fora de lugar?

***

“No tengo bandera ni nación
no hablo tu idioma, soy un animal.
Vivo y muero en cualquier lugar
tengo sexo con quien quiero, si se da

Porque yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral

Con el corazón abierto voy
corro el riesgo si me quieren lastimar
veo el aura, leo tu intención
tengo instinto y se cuando debo ladrar

Por que yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral.
No puedo entender a esta humanidad
seres racionales y el poder los hace matar

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque amo como perro
y te huelo como perro
y te cojo como perro, soy un perro

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque siento como perro
mis amigos son los perros
y me junto con los perros soy un perro
soy un perro…”

Quando eu era bem pequeno, meus pais me levavam pros comícios do PT. E pras bocas de urna, também. Os dois faziam parte dos movimentos de esquerda que acabaram gerando o partido. Não me lembro de muita coisa, só de bastante vermelho. Desde criança minha cor preferida é vermelho. Vai ver é por isso.

Mais tarde um pouco, comecei a me interessar por música. Não pagode, axé, essas merdas. Música. Entrei pelo rock brasileiro farofa, Titãs, Skank. Depois fui pro rap de playboy, Gabriel O Pensador, e pro rap de verdade, com Racionais. Me interessava mais as letras do que a música. E nesse caminho encontrei o punk.

O punk sempre rendeu discussões inflamadas com meu pai. Ele tinha na cabeça aquela imagem de punk fazendo merda, sendo estúpido, quebrando, cuspindo, enchendo o saco. E eu entrei no punk por outro caminho, mais moderno, mais pela atitude do que pela música ou pelo visual. A atitude punk era ter orgulho de estar fora de lugar. Eu estava fora de lugar. Mesmo com meu pai, que defendia idéias trotskistas quase sempre, enquanto eu me interessava pelo anarquismo, mais livre, menos programático. Não fosse isso, não fosse esse conflito, e talvez o punk tivesse se tornado pra mim só a estética. Mas pra contrariar meu pai tive que ir atrás de informação, explicar aquele A na jaqueta, o cabelo ridículo, a roupa militaresca rasgada. Também porque os amigos dos meus pais eram todos dessa esquerda que se fodeu com a ditadura, então os encontros de família e amigos sempre traziam conversas de esquerda, e pra participar – e adolescente virgem deslumbrado sempre quer participar – eu precisava saber contrariar.

Algo que eu considero uma das coisas mais realmente revolucionárias do punk é a liberdade que ele te dá pra fazer parte dele. Parte de qualquer parte dele. Você pode tocar bateria sem nem saber o nome das peças. Organizar shows sem saber como ligar o amplificador. Ser a banda, o público, o produtor, tudo ao mesmo tempo. No lugar dos lugares estritamente delimitados, das tarefas restritas e restritivas, o caos de se fazer, de ter que fazer tudo por conta própria. Porque era isso ou não era. Não era punk. Ao invés de depositar dinheiro e confiança em organizações estranhas com estruturas definidas, o punk te encorajava a construir a sua própria. Falo no passado porque hoje já não sei mais, não participo tanto. Não que seja algo de época, não sou tão velho e recalcado ainda pra dizer que punk era o que eu fiz e o que eu vivi e não o que há agora. Mas talvez as oportunidades, as portas de entrada pra coisa toda sejam outras, tenham mudado, e esteja mais difícil de se encontrar quem passe pela porta do fazer você mesmo tudo, tudo mesmo.

Nunca houve tanto espaço e tanta condição material pra se ter show punk e ao mesmo tempo tão pouca gente fazendo a coisa acontecer lá de baixo. Vai ver o punk ficou fora do lugar de menos.

***

Lembro da primeira vez que vi aquela massa negra ensurdecedora. Lembro perfeitamente. Ali virei corinthiano. Ali resolvi tocar bateria.

Diferente da maioria das histórias de futebol, eu não torço pro time do meu pai. Meu pai aprendeu a torcer para o meu. Carioca, Fluminense desde pequeno, se casou com uma paulista e se viu frente ao problema quando o filho nasceu: pra que time o moleque vai torcer? Resolveu da forma mais democrática que conhecia, herdeira do passado de militância. Me apresentou aos times da cidade e me levou em um jogo de cada. Não precisei ir além do segundo. Nem ele, aliás.

Numa coisa meu pai destoava dos comunistas irritantes que conheci na universidade: ele adorava futebol. Adorava mesmo. Contava histórias muito boas, de Castilho, goleiro mítico do Fluminense; da vez que se viu abraçando loucamente uma torcedora que estava com o namorado botafoguense vendo a final no estádio enquanto este se sentava pra lamentar o gol sofrido no último minuto; de Pelé; da Copa de 58 ouvida no rádio, com 9 anos; de vários jogadores que a mídia esportiva faz questão de não lembrar. Me levou a jogar bola desde cedo. Bola e tudo que envolve futebol. Uma das coisas que mais me arrependo é de ter perdido nas mudanças de casa um saco enorme com times de botão que ele guardava desde a infância. Eram botões feitos por ele mesmo, com casca de côco, tampas de relógio, fichas de ônibus que se usava na época. Todos tinham nome.

Desde pequeno, desde 1990 pra ser mais exato, eu decidi que seria jogador de futebol. Vi minha mãe chorando com o gol de Cannigia nos tirando da Copa do Mundo e prometi vingança. Naquele mesmo ano, o Corinthians levou o Brasileirão, com Neto, Ronaldo, Wilson Mano e Tupãzinho. Eu não precisava daquilo, a torcida já tinha me conquistado. Mas ganhar aquele título e daquele jeito com certeza ajudou a solidificar meu corinthianismo e meu jeito de jogar bola dando muito mais importância pra vontade e pra raça do que pra habilidade. Ironicamente, o amigo mais próximo de meu pai tinha feito o caminho inverso: palmeirense, paulistano, casou com uma flamenguista. Os filhos, todos palmeirenses, meus quase-irmãos, um pouco mais novos que eu, cresceram com a geração Parmalat, que montou supertimes no rival. Não por acaso, jogavam muita bola, muita mesmo. Jogam ainda. Mas nenhum de nós virou jogador. Eu porque não era bom o suficiente. Eles porque tinham escrúpulos o suficiente.

Meu pai era um filho da puta com futebol. Em 1986, com o Palmeiras na final do Paulistão contra a surpresa Inter de Limeira, a torcida alviverde tinha certeza de que a fila, que já chegava aos 10 anos, iria acabar. Esse amigo do meu pai também. Deu Inter. Morando no mesmo prédio, meu pai não teve dúvida: desceu até o 3º andar. Chegou lá e a conterrânea carioca abriu a porta já começando a rir, mas implorou por bondade, como se carioca conhecesse bondade na hora de cutucar o rival no futebol. O amigo estava prostrado em frente à TV, desolado. Meu pai resolveu que “só queria uma xícara de açúcar pra Célia terminar o bolo”. A carioca jogou o jogo segurando o riso, sabendo que não podia ser só aquilo. E não era: fechada a porta, açúcar na mão, da janela do corredor meu pai gritou: “CORINTER!”. Não contente, datilografou depois uma carta “consoladora” em que usava todos os nomes dos jogadores da Inter em trocadilhos. Nunca enviou. Teve piedade.

Não que o amigo não merecesse. Em 1984, na primeira rodada do campeonato, o jornal televisivo anunciava que o rival do Fluminense estava preocupado com o ataque tricolor. Era o Casal 20, Washington e Assis. O amigo palmeirense ridicularizou, meu pai ouviu calado. Meses depois, calhou de haver uma festa em casa no dia da final. O Flu levou o título. E o amigo teve que escutar o hino na vitrola pelo menos umas 20 vezes no repeat.

O dono santista da banca de jornal também sofria. Era o Santos perder e meu pai ligava pra banca. O cara atendia e ele não dizia nada, só soltava um risinho sacana. Anos e anos a fio. Se o santista descobriu, sempre fingiu que não sabia de nada. Meu pai era um dos melhores clientes. O dinheiro venceu mais uma vez.

Lembro também de que eu tinha um amigo são-paulino, um gordinho folgado canhoto, habilidoso. Ia lá em casa e meu pai repetia o mesmo ritual que tinha com todos os meus amigos: tirar um sarro, deixar o cara se sentir à vontade. Depois de um tempo, os moleques ficavam ousados, começavam a tirar uma com o Fluminense, que nos anos 90 não teve lá muitas glórias. O camisa 9 tricolor, Ézio, era sempre alvo de piadas. Meu pai então fazia os moleques cantarem o hino do Flu. Um teve que repetir cinco vezes do lado de fora de casa até ter permissão pra entrar.

Esse amigo gordinho acompanhava meu pai e eu quando ele me levava pra jogar. Morávamos já na Lapa, e o Palmeiras era bem perto; mas o coração era alvinegro, e o Corinthians ficava na zona leste. Meu pai resolveu a questão se associando aos dois clubes. Eu ia pro Palmeiras de dia de semana, depois da aula, várias vezes com o gordinho como convidado. Jogava futebol de salão. Certa vez fui assaltado na entrada: levaram meu uniforme da escolinha. Nunca fiquei tão pouco puto de ter sido roubado.

No Corinthians, jogava futebol de campo, aos fins de semana. O gordinho lá também ia de convidado. Um dia se esqueceu e foi com um calção do São Paulo. Achamos que pudesse acontecer algo, mas ninguém falou nada. Essa geografia do clube duplo levava meu pai a exercitar sua raiva do rival. Comparava sempre as situações vividas dentro dos dois clubes. O Palmeiras não deixava meu primo entrar no clube com uma camiseta do Flu. No Corinthians, o gordinho ia de calção do São Paulo. No Palmeiras, um diretor berrava pra seu filho de 8 anos quebrar a perna do rival num jogo de futsal.  O Corinthians era o time da Democracia Corinthiana. Não deve ter sido uma escolha difícil pra quem militou contra a ditadura. Sem falar que a trimensalidade no Corinthians era mais barata que a mensalidade no Palmeiras.

Mais velho e doente, começou a ter que ficar sempre em casa. Assistia documentários e mais documentários. Fazia questão de me contar os mais interessantes, o que me irritava às vezes. Era uma alma comunicativa presa em um corpo já débil. No intervalo dos documentários, havia Chaves, as séries de comédia e os programas esportivos. Todo dia então vinham as mensagens de texto pelo celular: “Vai passar na TV um filme chamado Seres Rastejantes; deve ser sobre o Palmeiras…”, ou “Apelido do Cristiano Ronaldo em Portugal: Puto Maravilha!”, ou ainda “A goleira da seleção paraguaia é da altura da sua mãe, hehehe… ela deveria tentar o futebol pebolim”.

Quando eu era mais novo, tinha asco da idéia de ter um filho. Não queria. Não nesse mundo.

Hoje, a cada mensagem de texto que eu não recebo mais, cresce a minha vontade de ser pai.

***

“Pai
02-Dez-07 19:22

A mente aberta, a palavra certa e o coração esperto!
Força, Timão! Glória Timão!!!”

Uma vez, em 1991, entrei de mascote com o time, mãos dadas com Ronaldo. Eu ainda queria ser goleiro. Meu pai chutava uma bola de plástico pra que eu defendesse. A enorme janela da sala da casa em Pirituba era o gol.

Dezoito anos depois, pisei o gramado outra vez. O estádio estava tão vazio quanto meu coração. Os gols nem sequer tinham rede. Carregava meu pai nas mãos. O deixei ali, no banco de reservas, pra sempre. O hino, cantei em silêncio.

Hoje tem jogo. Vou lá.

Ver meu pai.

Abraço de campeão

Eu tentei, juro que tentei.

Porque pensei nisso a semana toda.
O ano todo.
Desde 25 de janeiro.
Queria um título de pulos e abraços e sorrisos.
Mas não deu.
Quando Sálvio Spínola finalmente trilou o apito final, fui às lágrimas sem contenção.
Como uma criança.
Como em 1990.
2007, Série B, meu pai, tudo junto.
Saí do estádio com dor de cabeça. Exausto.
Feliz, e ao mesmo tempo sentindo falta.
De um abraço que sempre esteve aqui com o Corinthians.
Comigo e com o Corinthians.
Um abraço eterno.
Em nossos corações, em nossos corpos, em nossas memórias.
Ali, às 18h07 de 03 de maio último, eu sabia que mais de 25 milhões de pessoas estavam em êxtase.
Que os jogadores ergueriam a taça em instantes.
Que a torcida rumaria para a Praça Campos de Bagatelle.
Mas meus olhos não conseguiam sair do banco de reservas.
O mesmo, pai, onde você descansa.
O um a mais sempre que o placar anuncia o público presente.
O um a menos sempre que há jogo. Ou vida.
Faltou pouco para que eu pulasse o alambrado…
Domingo, o Corinthians ganhou seu 26° título paulista. O primeiro que assisti de forma invicta.
Nenhuma derrota.
Domingo, eu ganhei meu primeiro título órfão.
Nenhum abraço.
E todos eles juntos.
Domingo, voltei a ser criança.
E saí correndo pelas ruas de Pirituba, gritando “é campeão, pai!”.
Somos.
Invictos… e inseparávei

Porque pensei nisso a semana toda.

O ano todo.

Desde 25 de janeiro.

Queria um título de pulos e abraços e sorrisos.

Mas não deu.

Quando Sálvio Spínola finalmente trilou o apito final, fui às lágrimas sem contenção.

Como uma criança.

Como em 1990.

2007, Série B, meu pai, tudo junto.

Saí do estádio com dor de cabeça. Exausto.

Feliz, e ao mesmo tempo sentindo falta.

De um abraço que sempre esteve aqui com o Corinthians.

Comigo e com o Corinthians.

Um abraço eterno.

Em nossos corações, em nossos corpos, em nossas memórias.

Ali, às 18h07 de 03 de maio último, eu sabia que mais de 25 milhões de pessoas estavam em êxtase.

Que os jogadores ergueriam a taça em instantes.

Que a torcida rumaria para a Praça Campos de Bagatelle.

Mas meus olhos não conseguiam sair do banco de reservas.

O mesmo, pai, onde você descansa.

O um a mais sempre que o placar anuncia o público presente.

O um a menos sempre que há jogo. Ou vida.

Faltou pouco para que eu pulasse o alambrado…

Domingo, o Corinthians ganhou seu 26° título paulista. O primeiro que assisti de forma invicta.

Nenhuma derrota.

Domingo, eu ganhei meu primeiro título órfão.

Nenhum abraço.

E todos eles juntos.

Domingo, voltei a ser criança.

E saí correndo pelas ruas de Pirituba, gritando “é campeão, pai!”.

Somos.

Invictos… e inseparáveis.

Inesgotáveis.

Como um abraço de campeão.

Sessenta

Hoje meu pai completaria 60 anos.

Amanhã completam-se 3 meses de sua morte.

Hoje eu faço 60 anos.

Amanhã, 59 e 9 meses.

Noventa dias parecem pouco perto de sessenta anos.

Mas casa segundo sem meu pai é uma eternidade. 

Tanto não dito nesses três meses…

Fui pra Argentina, pai. Duas vezes.

Assinei Corinthians no RG.

Ronaldo finalmente jogou. E como jogou.

Estamos na final do Paulista.

Não jogamos mais no Morumbi, só como visitantes. E nos dão apenas 10% dos ingressos.

Estou solteiro de novo.

Tenho mais uma filha, a Boquita. Achei ela na rua.

E hoje eu me formo.

Pra lembrar de você, e de quanto de você esteve e está em minha tese.

Sinto saudades demais. 

Às vezes choro no almoço. 

Não um choro desalentador, mas um choro ao mesmo tempo doído e gostoso.

Dos chutes na janela em Pirituba.

Das idas ao terrão do Corinthians – lembra quando joguei de meia-esquerda e ganhei a camisa de melhor em campo?

Do Pacaembu – embora lá você esteja sempre que eu vou.

Do boa noite de todos os dias.

Eu poderia escrever muito mais do que as 198 páginas da minha tese, só de lembranças suas. Mas prefiro guardá-las, pra revê-las aos poucos.

A cada beijo em você no braço direito antes de cada jogo.

A cada gol sem abraços, sem telefonemas, sem “você viu, que golaço?”.

A cada dia sozinho neste mundo.

Mas, apesar das palavras tristes, não se preocupe, pai. Estou bem.

Completando alguns sonhos, destruindo alguns outros, criando outros novos. 

Importando alguns seus.

Não sei direito se você pode me ver, ouvir ou escutar. 

Mas se puder, olhe pela janela no dia 31 de dezembro.

Estarei lá, como a gente combinou e não cumpriu.

Correndo a São Silvestre.

E vou chegar ao fim. Duas vezes.

Uma por mim, e outra por você.

Porque você sempre foi minha mão, meus olhos, minhas pernas, meu sangue quando precisei.

Nada mais justo do que eu agora ser seus pulmões.

Parabéns, pai.

Nos encontramos nos sessenta.

Todo dia.

Beijos,

Dan.

***

P.S.: Lu, chorar de saudade não é vergonha alguma. Mas lembre sempre que o pai tá aí, tá aqui, tá em todo lugar. E sempre vai estar. Espero te ver em muito breve, quem sabe eu não vou pra Austrália em julho?

Te amo, irmãzona!

Seu Cido

Em razão do falecimento, na noite desta quarta-feira, aos 61 anos e em razão de um derrame, de Seu Cido, colega de trabalho bastante querido, reproduzo aqui novamente o texto sobre ele postado em 12 de novembro do ano passado.

Cido, todos se vão um dia; só aqueles com caráter e carisma ficam pra sempre.

Saudades de seu colega de trabalho e de histórias da várzea.

***

Seu Cido

Aqui onde trabalho tem um senhor, o Seu Cido, que vem de vez em quando.

Deveria estar aposentado já, mas aposentar significa perder quase metade do salário, então…

Aí esses dias ele começou a falar de futebol.

Do time que tinham por aqui quando eram do FUNRURAL (aquela instituição feita pra aposentar cabos eleitorais com doze aposentadorias diferentes, uma por cada cidade em que atuava, que funcionou de 76 a 79, lembram?).

E não é que o seu Cido era meia-esquerda, dos bons?

Fiquei quase 30 minutos ouvindo as suas histórias.

Histórias de um outro tempo, do trabalho e do lazer, que permitiam outras relações.

Histórias apaixonantes, que me lembram as da minha avó – como podemos deixar nossos idosos abandonados como deixamos quando são eles a nossa história viva, muito mais que os livros institucionais das escolinhas da vida?

Seu Cido, quando jovem, lá em São José do Rio Preto, chegou a treinar com os profissionais do Rio Preto. “Mas eu gostava era de jogar bola, aquilo era muito rígido, tinha massagem nos joelhos, laranjinha” (pra chupar antes dos jogos). E de ir aos jogos do América, na primeira divisão, “pra ver o Santos, o Palmeiras, o Corinthians” – e ainda tem gente que defende o fim dos estaduais… 

Deviam propor é o fim do profissional logo, “que isso aí, hoje, com essas bolas levinhas, essas chuteiras coloridas, isso virou palhaçada”.

Seu Cido gostava mesmo é da várzea.

De bater faltas da meia-lua, que ele treinava desde criança, com traves de zinco que improvisava no muro de casa – “escolinha de futebol? Eu aprendi a chutar com os dois pés no muro de casa e essa molecada hoje não sabe nem cruzar uma bola”…

Faltas que surpreenderam o goleiro do Brasil da Mooca, melhor time da várzea na época, quando o time do FUNRURAL, com seu uniforme alviverde (”mas a camisa era branca, que verde eu não usava”, disse o corinthiano Seu Cido), foi visitá-los e acabou vencendo por 2 x 1.

“Um grande time, a gente tinha”. 

O mesmo do ex-profissional Toninho Vanusa e do grande central Waldemar com suas bombas de falta.

Que jogava de segunda a sábado, entre o campo e o salão. “Eu macetava melhoral com café pra aguentar, mas não faz isso não, que é ruim pro coração”.

Que enfrentou e venceu o Botafogo da Penha, com mais um gol de falta do Seu Cido, que contou com a honestidade do goleiro, já que a bola passou por um buraco da rede “e o juiz não quis dar o gol não”.

Mas lembrança mesmo Seu Cido tem dos jogos de semana à noite, “os refletores todos ligados”, principalmente contra o time do INPS, “que tinha um uniforme azulão”. Ganharam deles “duas vezes, uma no campo deles na Mooca, 1 x 0, e outra lá em Interlagos, que eles não quiseram jogar na Mooca, 5 x 1, o Waldemar fez até um gol de pênalti, que ele adorava fazer gol de pênalti e falta”. 

É, zagueiro, quando tem chance, tem que aproveitar.

Aliás, zagueiro dos bons, “que era difícil passar daquela zaga viu, e sem apelar eles jogavam”.

E não jogavam em casa?

“Não, a gente gostava mesmo era de rodar”.

Até que aos 45 (cabalisticamente), Seu Cido parou. Suas pernas já não aguentavam mais. 

A conversa acabou e eu fiquei aqui imaginando Seu Cido jovem, com o uniforme “que eu mesmo desenhei o escudo, devo ter em casa, vou trazer pra você”, jogando contra o time dos funcionários da FEBEM, “num campo bonito, gramado, grande”, ao lado do meia-direita “inteligente, envolvido com esses negócios de greve, mas que usava muita bolinha viu, mas a gente fez ele parar”, ganhando “uns troféus grandes, viu, bonitos, tenho foto lá em casa, você vai ver”.

Época em que a vida de trabalhador era dura, mas era vida, e o futebol era rude, mas era festa pra todos, e não só pra alguns.

Quando o time do FUNRURAL, indo jogar salão de terça-feira contra o Primeiro de Maio do Tatuapé, escutava sempre dos adversários, ao fim do jogo, perdendo ou ganhando:

– Amanhã vocês vem de novo, né?

Saudades românticas do que eu nunca vivi?

Não, não.

Inspiração pro que eu ainda tenho por viver.