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Nota de cancelamento

Gostava de pegar o metrô à tarde porque quase sempre estava vazio. Bom, pelo menos era o que considerava vazio. De vez em quando precisava ir em pé, mas ao menos não tinha ninguém bloqueando a porta na hora de descer. Odiava ter que empurrar, tocar nas pessoas pra poder sair. Sentia-se preso, toda vez pensava que não ia dar tempo, a porta ia fechar em cima. Naquele dia, dava pra ir a pé, mas como era de tarde resolveu ceder à preguiça e entrar na estação.

Na catraca, percebeu que não tinha nenhum segurança atento. Esperou alguém passar e se enfiou junto pra passar pelo bloqueio sem pagar. “Catracar”, diziam as pessoas. A prática era mais comum do que parecia, mas ainda muito menos do que deveria ser, com aquele preço absurdo da passagem. Claro que depois de fazer ficava um friozinho na barriga, como se alguém estivesse olhando. E se fosse pego? Tinha bilhete, nem precisava ter feito aquilo. Apressou o passo até a plataforma. Só ficou tranquilo quando entrou no vagão.

O trajeto era curto, só três paradas, mas, com lugares vazios, resolveu sentar. Escolheu um daqueles bancos sozinhos, pra não correr o risco de sentarem do seu lado. Gostava de estar só no transporte público, era um momento de inflexão, colocar os fones de ouvido, mexer no celular, ler um livro. De manhã e no fim da tarde nunca conseguia, precisava estar atento, desviar de tudo e de todos, ficar perto da porta, aquela coisa. Baixou os olhos pro celular e rolou a barra até não ter mais nenhuma atualização. Faltavam duas estações.

Olhou para a porta e percebeu que um homem grande, troncudo, olhava de volta fixamente. Ele carregava uma pasta preta na mão. Desviou o olhar por alguns segundos e tornou a espiar. Os olhos do homem seguiam os seus. Achou estranho, sentiu medo. Resolveu voltar ao celular e tentar não prestar atenção. Não conseguia. Toda vez que olhava de canto de olho o homem ainda estava lá, fixado nele.

Começou a ficar visivelmente perturbado. Batia a perna o chão, o celular na perna, e segurava a mochila com força. O que fazer? Esperar o homem descer? Mas aí ia perder a parada, teria que ir e voltar. Não, não fazia sentido, aquilo era só paranoia. Mas… ele ainda está olhando! O que ele quer? Será um segurança? Me viu catracar, está esperando eu descer pra vir atrás? Deve ser isso. Ah, dane-se, não vou perder minha estação. Chegou, vou descer.

Saltou do banco e foi em direção à porta, o homem ainda olhando fixamente. Chegou perto dele e parou. O homem pareceu projetar o corpo no seu caminho. Deu dois passos para trás. Olhou ao redor, ninguém estava percebendo aquele estranho balé entre os dois. Pensou em gritar, mas e se fosse um segurança? Melhor não. Ouviu o sinal de fechamento de portas. Baixou a cabeça e sentou de volta.

Dobrado sobre a mochila, olhando para os próprios pés, pensava no que fazer. Não queria voltar a olhar pra porta. Devia ir até a última estação? Atravessar o vagão, de forma a ficar entre duas portas pra conseguir escapar? Esperar o homem descer? Estava paralisado, não conseguia decidir nada. E se eu ficar aqui olhando pra baixo, esperando um pouco, quem sabe ele desiste, vai ver nem está mais aí, de repente já desceu, foi chamado pra outra ocorrência. Não quero olhar, não vou, não… olhou. Ele ainda estava lá. O que eu vou fazer? O que eu posso fazer?

O desespero começava a tomar conta. Pensou em se entregar. Mas seria mesmo alguém do metrô? E se fosse pior, um louco, um assaltante? E se ele quisesse seus órgãos, ou se fosse daqueles caras que injetam coisas de seringas contaminadas? Ou um… estuprador? Cada possibilidade era pior do que a outra, e ele se remoía, apertava os braços, mordia os lábios de nervoso. Começou a ficar com raiva. Fechou o punho sem perceber e bateu com a mão no banco. O barulho chamou a atenção de algumas pessoas. Franziu as sobrancelhas, meio com vergonha, mas ainda bravo. Lembrou de um programa de defesa pessoal que viu na TV, dizia pra não se deixar intimidar pelo agressor. Resolveu encarar ele de volta. Concentrou forças, respirou pausadamente e levantou a cabeça. Olhou para o homem.

Ainda o encarava. Com a pasta na mão.

Encarou de volta. De repente aquilo não parecia sério, parecia uma brincadeira de quem piscar primeiro perde. Fez a pior cara de mau que conseguia. Tentou transmitir a raiva que sentia. Mas o homem era um monolito. Sua expressão não mudava. Continuava olhando fixamente pros seus olhos, sem desviar por um segundo. Sentiu um misto de piada e terror na garganta. Baixou os olhos e riu. Aquilo era ridículo, não podia estar acontecendo. Decidiu mudar de lugar.

Atravessou o vagão. Àquela altura, o trem já estava quatro paradas depois da sua. Mais duas e seria a parada final, e aí começaria a voltar. Sentou-se o mais longe que pode daquele homem, que continuava a olhar pra ele, mesmo que de longe. De onde estava, pelo menos, não conseguia se sentir tão intimidado. De vez em quando olhava de volta pra ver se ele ainda estava ali. Sempre estava.

Resolveu esperar o metrô voltar pra descer na parada certa. Tentou se acalmar pra deixar o tempo passar. Colocou música no celular. Na estação final, viu as portas abrirem. Olhou pra porta de antes, agora lá longe, e tomou um susto: o homem não estava mais. Tinha descido! Seria o fim daquela insanidade? Devia descer também? E se ele estivesse na plataforma? Melhor ficar, agora é só esperar a volta e descer na minha parada. Nem acredito! Ele desceu! Em êxtase, tinha vontade de dar um grito. Ouviu o sinal de portas fechando. Estava livre. Olhou fixamente pra fora, esperando o fechamento. No último segundo, viu o homem na plataforma. O mesmo rosto, a mesma pasta.

Movendo-se para voltar ao trem.

Entrou exatamente pela porta em que ele estava.

Encurralado novamente, não conseguia mais pensar. Não podia ser real. Como escapar daquele homem? Precisava tentar alguma coisa.

A raiva se transformou em agonia. Tomado por um impulso, desceu na estação seguinte; o homem desceu junto. Teve medo de tentar sair da estação e ser capturado. Voltou ao trem antes das portas fecharem; o homem voltou junto.

Era isso, estava preso naquele vagão, guardado por aquele homem duro e sua pasta preta. Olhou para o celular: sem sinal. A bateria quase no fim. Sentiu suas forças indo embora. A hora do rush se aproximava. Sentou no banco do fundo e recostou a cabeça na janela, observando as pessoas indo e vindo, saindo e entrando do trem. Perdeu-se no tempo. Já não sabia a quantas horas estava no metrô. De quando em quando buscava pelo homem, que sempre estava lá.

Depois de muitas idas e vindas de ponta a ponta naquela linha, adormeceu. Acordou sem saber que horas eram. O homem ainda lá. Queria chorar, precisava sair daquela situação. Daquele trem, daquela estação. Pensava em desistir e deixar acontecer o que quer que fosse pra acontecer. O vagão já vazio novamente, devia ser noite. Lembrou que em algum momento o metrô tinha que fechar. Seria esse o fim da história?

De repente, dois seguranças do metrô entraram no vagão. Devidamente fardados. Caminharam até ele.

– Senhor, o senhor precisa descer.
– Mas… o quê?
– O senhor tem que descer. Vamos, levante.
– Eu quero descer, mas não posso. Tem um…
– Pode sim.

Foi pego à força pelos dois braços.

– Não, espera! Espera!!!
– Senhor, por favor. Nossas câmeras apontam que o senhor já andou esta linha de ponta a ponta 7 vezes. Está dentro do metrô a mais de 6 horas. O senhor precisa descer.
– Eu quero descer! Faz tempo!!! Mas aquele homem na porta me encarando, ele…

Olhou para a porta.

– Que homem, senhor?

O homem tinha sumido.

– Eu.. eu juro! Ele estava ali, está me perseguindo desde a tarde!
– Senhor, por favor, ou você desce por bem ou por mal.

Sem entender nada, carregado pelos braços, foi colocado pra fora do vagão. Os seguranças pediram para que saísse da estação. Ainda com medo, observou tudo. Nem sinal do homem. Teria sido um delírio? Movimentou-se em direção à escada rolante. Os seguranças voltaram pra dentro do trem. Exausto, agachou junto aos degraus, enquanto sentia o movimento mecânico da escada subindo. Mais uma vez quis chorar, não sabia se de tensão ou alívio. No fim da escada, sentiu uma sombra. Olhou pra cima.

Era ele.

O homem esperou ele se erguer. Ele se jogou contra a parede e ouviu a pergunta:

– Evandro?

Não conseguia responder nada.

– Você é o Evandro, certo?

A voz do homem era surpreendentemente tranquila. Passava alguma calma.

– S… sou… por quê?
– A Janete pediu pra avisar que ela não vai poder jantar com o senhor esta noite. Ela sente muito e quer remarcar pra amanhã. Manda também beijos.
– Ja… Janete???
– Sim. Preciso que o senhor assine pra mim a confirmação de recebimento.

O homem mostrou um papel. Dizia “nota de cancelamento”. O texto era exatamente o mesmo que ele tinha acabado de ler.

– Como… confirmação?
– Sim, senhor.
– Mas… porque só agora?
– Não tenho permissão pra interferir na viagem, senhor. Aqui, uma caneta.

Meio no automático, ainda sem entender muito, olhou pro papel. Rabiscou um arremedo de assinatura.

– São duas vias, senhor – o homem mostrou a outra folha embaixo, idêntica.

Assinou novamente.

– Essa fica comigo, essa é do senhor.

Viu o homem dobrar o papel em dois, guardá-lo na pasta preta cheia de outros papéis, olhar pra ele novamente nos olhos e dizer:

– Boa noite, senhor.

Não conseguiu responder nada.

O homem desceu a escada rolante e parou na plataforma. O próximo trem chegou. O homem entrou no vagão do meio, pela primeira porta, encostou-se junto à ela e começou a encarar uma adolescente de cabelo azul, que mascava chiclete bem em frente a ele. O sinal de fechamento de portas soou mais uma vez. E o trem seguiu viagem.

O homem que voltou atrás

O alarme tocou no horário de sempre. Esfregou os olhos, deu um beijo na têmpora da esposa e foi para o banheiro. No meio do mijo, lembrou a data. Fazia um ano. Um ano já.

Pensou como parecia ao mesmo tempo fazer mais tempo e ter sido ontem. Era possível isso, parecer perto e longe junto? Seja como for, sentia isso. Tinha perdido o pai sem mais nem menos, um ano atrás, e talvez a imprevisibilidade da coisa é que tenha deixado essa sensação ambígua. Foi tomado por uma certa melancolia, misturada com saudade, e tomou banho sem concentração alguma, duas vezes mais demorado que o de costume. Saiu da toalha pra roupa e já estava atrasado. Decidiu pelo café na padaria.

A padaria era um costume do pai. Parar pra um café, ou uma coca, ou um salgado. Ele pegou gosto naquilo. Às vezes nem tinha fome ou sede ou abstinência de cafeína, mas parava mesmo assim pelo prazer de fazer isso. Sem o pai, o prazer ganhou um traço de saudade, e de uma sensação de conforto ao lembrar do que viveu e que agora era apenas memória. Enquanto esperava o chapeado, olhou o celular. A hora parecia certa, mas a data apontava o dia anterior. Mexeu nas configurações do aparelho. Resolveu abrir o navegador pra dar uma sapeada nas notícias enquanto comia. O site de notícias marcava o dia anterior. As notícias eram as mesmas de ontem – o jogo do seu time que já tinha acontecido, dois a zero fora de casa, era anunciado como grande desafio; a votação no congresso alardeada como determinante já tinha sido, e a reforma passou; e a ventilada prisão de um dos chefes políticos do maior partido do país tinha dado em nada – o chefe fugiu, sabe-se lá pra onde. “No almoço passo numa assistência técnica”, murmurou consigo mesmo. E partiu para o metrô.

Sem celular, pegou o jornal do trem. De novo o dia anterior. Resolveu fazer o que não fazia há anos: comprar o jornal. Escolheu aquele conservador (qual não é neste país?), mas com alguns articulistas progressistas. Entrou no vagão nem tão cheio, nem tão vazio, privilégio de quem mora perto da linha menos lotada e entra no serviço um pouco mais tarde do que a maioria. Deu até pra escolher o banco. Sentou de frente, porque não gostava de olhar pra trás.

Abriu o jornal procurando a seção de esportes e… lá estava o dia anterior. Voltou ao celular, acessou outros sites: todos indicavam o dia anterior. Olhou pra televisão do vagão, que marcava a hora, a data e a temperatura: novamente o dia anterior. Achou que estava alucinando.

Saiu da estação atordoado. Estaria dormindo ainda? Era um sonho? Ou estava confuso com as datas? Tinha certeza do jogo e dos dois a zero, sabia até quem tinha feito os gols. Chegou no trabalho sem nem bom dia:

– Ganhamos ontem, não? Dois a zero?
– Tá doido? O jogo é hoje.
– Mas… como?
– Sendo hoje, ué. Não sei o que você tomou, mas quero só metade, haha.
– Eu… eu só tomei café.

Teria mesmo sonhado com um dia inteiro?

Foi lavar o rosto. No caminho, encontrou o chefe.

– Bom dia, Marcos. Preciso daquele relatório pra hoje, 14h.
– Mas você me pediu ele ontem… e eu já…
– Ontem? Ontem eu nem estive aqui, reunião fora com clientes o dia todo. Preciso dele pra hoje.
– Hoje? É que… eu…
– Você está bem, Marcos? Não parece estar.
– Não não, eu… eu só preciso lavar o rosto.

Entrou no banheiro. Tinha certeza do relatório, lembrava da reação do chefe pelo esquecimento de um dos valores no parágrafo final. Que raios estava acontecendo? Se era um sonho, queria acordar; se não era, não sabia o que fazer. Procurou no computador o relatório, não estava; resolveu refazer, quase todo de cabeça (“como eu lembro de algo que nunca fiz?”), dessa vez sem erros. Entregou duas horas antes do previsto. Saiu pra almoçar e parou em todas as bancas que encontrou no caminho. Em todas encontrou os jornais do dia anterior.

Voltou para o trabalho. O jogo seria a prova final. Se ele acertasse o placar e os autores dos gols, não era sonho e ele não estava delirando. Na volta pra casa, lembrou que a janta tinha sido pizza, que a esposa já tinha pedido antes dele chegar. Abriu a porta e sentiu o cheiro: metade alho, metade portuguesa.

– Tudo bem, Marcos? Que cara é essa?
– Nada, nada… pizza?
– Sim, hoje é dia de jogo né.
– É!? É… é mesmo.
– O que você tem?
– Cansaço, o dia foi puxado. Vou tomar um banho.
– De noite? Você odeia cabelo molhado de noite.
– Hoje eu preciso, preciso relaxar o corpo e a cabeça. Tudo bem?
– Tudo, ué. Mas come primeiro.
– Ainda tô sem fome.

O banho era uma forma de evitar a esposa e de continuar tentando entender o que acontecia. Ficou quase meia hora debaixo d’água, saiu bem perto do começo do jogo. Pegou um pedaço de pizza e comeu sem vontade enquanto assistia o primeiro tempo, com uma sensação enorme de quem assiste uma reprise. O primeiro gol sairia nos acréscimos. Ele não estava sonhando.

– Amor… tem uma coisa estranha acontecendo.
– Ganhar fora de casa? É, tem mesmo.
– Não, não é isso. É que…

Como contar aquilo? Como poderia provar? Aliás, provar o quê? Que tinha acordado no dia anterior? Resolveu não dizer nada.

– …essa portuguesa tá com um gosto estranho.
– Desculpa, eu fui colocar azeite na minha e caiu em tudo. Eu sei que você não gosta.
– Tudo bem, tudo bem. Não está tão forte.
– Pega uma de alho, pedi pra você mesmo.
– Tá bom.

Veio o segundo tempo, e o segundo gol, e depois o sexo que ele já sabia que fariam, felizes pela vitória e engordurados da pizza. Era como se vivesse um déjà-vu incessante. Enfiou a cabeça no travesseiro. Se hoje era ontem, que dia seria amanhã? Anteontem? Mal conseguiu dormir. Tomou um remédio pra relaxar e desmaiou. Acordou com o alarme já na função soneca, a esposa chacoalhando ele de leve.

– Acorda, amor. Vai perder a hora.

Aquela frase. De novo. Abriu os olhos assustado. Olhou o celular: marcava o dia anterior.

Estava mesmo voltando atrás.

Sua cabeça estava a mil. O que isso significava? Aonde iria terminar? Por que só ele percebia? Tomou seu banho na metade do tempo, passou na banca de jornal. Já sabia de todas as notícias. Lembrou do jornal do dia seguinte, pra ele o dia anterior, que tinha deixado no trabalho. Torceu para ainda estar na sua mesa. Não estava. Guardou o que tinha comprado na gaveta, trancou com a chave, pra olhar no dia seguinte, pro mundo o dia anterior. Trabalhou o dia todo com a certeza do que iria acontecer em seguida. Lembrou do pai. Se estava voltando no tempo, voltaria a vê-lo dentro de um ano, um pouco menos. A ideia lhe trouxe expectativas. Em casa, refez tudo outra vez. Dormiu ansioso pela manhã seguinte. Acordou ontem mais uma vez. Foi para o trabalho e o jornal tinha sumido da gaveta.

Resolveu pensar um pouco nas implicações daquilo tudo. Se os dias estavam voltando, então, entre outras coisas: a cada dia ele teria mais dinheiro na conta, até chegar o fim do mês anterior; não precisava mais pagar nenhum boleto, porque eles nunca venceriam; não teria mais surpresas no trabalho, e poderia inclusive antecipar ou evitar grande parte dos problemas; evitaria também todas as brigas e diferenças com sua esposa, sua família e seus colegas; e voltaria a ver seu pai, e a conviver com ele. Considerou que acordar todo dia no passado poderia ser uma diversão, uma possibilidade de reviver os bons momentos e reescrever os dias ruins. A ideia era animadora: teria o privilégio único de redecidir tudo que já havia decidido.

Começou a viver cada dia como se não houvesse amanhã, afinal, não havia mesmo. Depois de alguma semanas entendeu o problema naquilo tudo: por mais que ele fizesse diferente, as novas ações não significavam nada pra além daquele momento. Se o dia seguinte seria o anterior, então as mudanças não teriam nenhum efeito no seu futuro, já que ele era o passado de todo o resto do mundo. Valia o esforço? E as vezes em que o mal estar durou dias? De que adiantaria resolver a situação hoje, se amanhã ela estaria de volta, até que ele chegasse ao início da coisa toda – quando já não faria mais sentido evitá-la, porque no dia seguinte ela nem sequer teria existido? Perdeu o ânimo.

Notou que seus cabelos diminuíam dia após dia. A barba, ao invés de crescer, ficava mais rala, até desaparecer – e, de repente, aparecer de novo. Os fios brancos aos poucos voltavam a ser pretos. Seu corpo rejuvenescia, enquanto sua vida tinha se tornado uma grande espera, um eterno marchar da previsibilidade, uma caminhada em direção ao mesmo. Não precisava ter compromisso algum: podia faltar no trabalho, sumir de casa, encher a cara, bater naquele antigo desafeto. Nada afetaria seu dia seguinte. Passou duas semanas sendo o mais irresponsável que pode: foi demitido oito vezes seguidas, detido outras três. Só em casa mantinha um clima bom, porque a esposa não merecia sofrer por conta dele – ela que, todos os dias, percebia que havia algo de errado com ele. Não tinha saída. A única coisa que ainda lhe trazia expectativa era a chance de rever o pai.

Os meses se arrastavam como nunca. Tentou ler todos os livros, ver todos os filmes, evitar todas as brigas e todos os problemas. Vivia no futuro do pretérito, tentando transformar o imperfeito em perfeito sempre que possível. Encontrou diversão em surpreender a esposa com atitudes diferentes das que tinha tomado na primeira vez – estava editando suas memórias. Duas semanas antes da morte do pai, a tatuagem que em sua homenagem desapareceu. No dia em que a tinha feito, resolveu se poupar da dor: ligou e cancelou a sessão.

Faltando dois dias para o enterro, teve uma crise: ao mudar seu passado, poderia afetar o que o resto do mundo viveria amanhã? Depois de ter redecidido tanto, quase tudo, o que teria ficado para o futuro de sua esposa, de sua mãe e de todo mundo que, ao contrário dele, caminhava para a frente?

Entrou em agonia. Faltava pouco para rever o pai. Lembrou de uma psiquiatra que um amigo havia consultado uma vez; procurou seu nome na internet e achou o contato. Ligou. Conseguiu um horário naquela tarde mesmo. A clínica era um pouco perturbadora, tudo muito branco, pé direito bastante alto, um silêncio sepulcral. O secretário pegou seus dados, perguntou a forma de pagamento. Percebeu que tinha esquecido os documentos, pagou com dinheiro. Entrou na sala da psiquiatra.

– Passado, presente ou futuro?
– É complicado, doutora. Não sei se vai acreditar em mim.
– Tente.
– Bom… todo dia eu… eu acordo no…
– Futuro?
– Não… no passado.
– Interessante. Então o seu amanhã é ontem?
– Isso.
– E o que você faz com ele?
– Bom, como eu já sei o que vai acontecer, pra não morrer de tédio, eu tento mudar as coisas.
– Essa consulta é nova no seu passado ou é coisa antiga?
– É… é nova. Porque eu precisava contar isso pra alguém e tentar descobrir uma coisa.
– Que coisa?
– Se o que eu faço hoje pode alterar o amanhã. Quer dizer, não o meu amanhã, que é ontem, mas o amanhã de todo o resto. Entende?
– Entendo. Fale mais sobre isso.

A conversa seguiu por mais alguns minutos. A doutora disse que trabalhava com distúrbios do sono.

– O senhor aceitaria passar uma noite conosco?
– Não sei, doutora. Seria uma noite inteira?
– Sim, todo o seu sono.

Precisava ver o que sairia daquilo. Queria alguma certeza sobre o futuro. Tinha que ser aquela noite, pois no dia seguinte tudo não teria existido ainda. Colocou essa questão para a médica. Houve acordo. Avisou a esposa, disse que passaria a noite na casa dos pais, e se instalou na cama confortável da clínica, eletrodos ligados à cabeça.

– Tente relaxar e dormir naturalmente. Se não conseguir, podemos ajudá-lo com um remédio, mas não é o ideal.
– Prefiro não tomar nada. Estou cansado, vou acabar dormindo.

Dormiu.

Sonhou que estava voltando no tempo, mas que ao invés de rejuvenescer, envelhecia. O sonho era ainda pior do que o que ele vivia. Acordou assustado, amarrado a uma maca. Pela primeira vez em meses, não tinha a sensação de déjà-vu. Gritou por socorro. Um enfermeiro explicou que ninguém sabia como ele tinha ido parar ali. Não tinha documentos. Não sabiam quem era. Tentou explicar sua condição. Acharam que estava delirando. A médica ficou surpresa por ele saber seu nome. Perguntou a data: era o dia anterior. Não conseguiu convencê-los. Pediu para ligar para a esposa. Não permitiram. Desesperado, debateu-se sobre a maca. Acabou dopado.

Aquela consulta era uma decisão da qual não poderia voltar atrás. Preso na clínica, não compareceu ao enterro do pai. Perdeu seu próprio casamento; não esteve na formatura da universidade, nem prestou o vestibular; não deu seu primeiro beijo; nunca sequer frequentou a escola. Ficou naquele quarto para sempre, retroativamente, sem poder escapar, até ser novamente uma criança de colo.

Deixou de existir um dia antes de ter nascido.

Café da manhã

Era homem-homem e tinha orgulho disso. Nada de afetações, desvios ou cabeça aberta. Homem faz coisa de homem e ponto. Aprendeu assim, criou os filhos assim. E todo dia no café da manhã, que era praticamente a única hora do dia em que a família se reunia, fazia questão de reafirmar isso. Pro filho mais velho e pra filha também. Tudo bem que os tempos são outros e que agora algumas coisas são comuns, mas tem limites. E ele sempre deixava os limites claros.

O casal de filhos nunca respondia. Não sabia se isso era obediência ou medo. Tem diferença? Não importava, importava que escutassem e tratassem de levar aquilo a sério. Bom comportamento na escola, lisura no trabalho, decência na rua. Era a sustentação da sua existência e não abria mão. Não sabia nem como, não sabia como era ser de outro jeito. Até que um dia aconteceu algo inesperado.

– Filho, por favor, puxe a oração pra podermos comer.
– Não.
– Como não???
– Não vou puxar nada. Cansei. Deus não existe, pai. Não pra mim. Chega.

Uma cólera tomou conta do seu corpo. Jogou-se com força pra trás pra arrastar a cadeira e paralisou. Do jeito que estava, ficou. Meio curvado sobre a mesa, a bunda descolada da cadeira, as duas mãos segurando o assento, as pernas semiflexionadas de quem estava por levantar. Não conseguia se mexer, nem falar. A cólera virou pavor. O que era aquilo?

O filho, que já estava de pé preparado pro enfrentamento, não entendeu.

– Pai… pai?

Silêncio. Tentou tocá-lo. Estava duro como pedra. Como se todos os músculos do corpo estivessem retesados. A mãe assustada. A filha mastigando pão meio que no automático, ainda sem entender muito bem o que acontecia.

E ele imóvel.

Chamaram uma ambulância. Não conseguiam movê-lo, e qualquer tentativa parecia causar dor – bom, era o que dava a entender pelo arregalar dos olhos dele, a única parte do corpo que ainda comunicava algo. Vieram os paramédicos. Acharam que era brincadeira. Não era. Não sabiam o que fazer. A mãe ligou pro médico da família. Também não resolveu. Chamaram especialistas, veio mídia, um caso raro de síndrome do encarceramento misturada com uma cãibra corporal em todos os músculos motores. Não podiam deitá-lo, nem sentá-lo, nem nada. A TV chamava de “homo erectus”, num trocadilho científico infame. O povo do bairro falava em Medusa, invertendo os vetores do mito grego. Virou “sêo Medusa”, que em menos de uma semana já era “sêo Medú”.

Os filhos não gostavam muito dele, é fato, mas também não estavam contentes. Fora o assédio nas ruas, aquele pai petrificado na mesa da cozinha era algo perturbador. Resolveram que iriam tentar manter a normalidade e continuar tomando café junto com ele. Só que agora quem falava eram eles. O pai só escutava. Aquela inversão de papéis foi tornando tudo diferente, e de repente tinham coragem pra fazer e contar tudo que antes era proibido. Primeiro foi a filha.

– Pai, vou largar a arquitetura. Odeio a faculdade. Quero ser cabeleireira.

Ele piscou alucinadamente em reprovação, até as pálpebras doerem. Teve medo de paralisar os olhos também. E se os olhos param? Não ia sobrar nada.

No dia seguinte o filho apareceu de cabelo azul.

– Gostou, pai?

Foi como se enfiassem agulhas por debaixo da unha dele. O coração, um dos poucos músculos que ainda mexia, disparou. Ficou vermelho de raiva e vergonha. Seu próprio filho! E ele não podia sequer dizer uma palavra. Teve vontade de chorar. Segurou a lágrima que ameaçava escorrer.

Aquela nova relação familiar de repente foi se tornando habitual. O pai era como uma planta. Quer dizer, parte planta, parte bicho de pelúcia confessional, daqueles que você tem pra contar seus sonhos e seus problemas de noite na cama. Os médicos deixaram um acesso na veia pra que fosse alimentado, e usavam um copo com canudinho pra administrar água pela boca semi-aberta. Revezavam no aparar dos pêlos, que não paravam de crescer, e na troca de roupa. Colocaram uma sonda para as necessidades fisiológicas. E cuidar do pai virou um momento de desabafo e reflexão pra cada um deles.

O filho era quem mais falava. Contava da vontade de ir morar com dois amigos, das baladas, do beijo experimental que deu no Leandro. Gostava de pensar que o piscar do pai, cada vez mais lento, era uma forma de aceitação daquilo tudo, da vida nova que estava construindo. De uma outra pessoa surgindo ali dentro daquele corpo retraído. A filha primeiro achou aquela tarefa um peso, depois se acostumou e começou a se soltar. Fez o pai de cobaia durante todo o curso de cabeleireira. Penteados mil, cabelos descoloridos, um corte diferente a cada mês. A esposa, por algumas semanas, mal falava. Depois começou a conversar sobre as contas da casa, o problema de vazamento no banheiro, a vontade de redecorar a cozinha agora que ele fazia parte dela – a pia de mármore, os armários embutidos, a mesa, a geladeira, o fogão e ele. Aos poucos, resolveu fazer tudo que não conseguia antes da paralisação, ou pela reprovação do marido, ou pela falta de tempo. Voltou a estudar. Começou a trabalhar.

Nas primeiras semanas também vieram amigos. Do trabalho, principalmente, que era praticamente o único mundo que ele tinha. Veio o advogado, contou das possibilidades, pediu pra ele piscar uma vez pra sim e duas pra não. Acabaram resolvendo pedir uma aposentadoria por invalidez, ele relutou, achava que uma hora a paralisia tinha que passar, mas foi convencido de que era melhor não arriscar ficar sem renda e que, se um dia aquilo passasse, dava pra pedir o reingresso na firma. Depois dessa questão resolvida, quase nunca alguém de fora da família vinha vê-lo.

Depois de um mês, colocaram uma televisão na cozinha. Pra ele ver o mundo. Mas era deprimente demais saber que tudo estava em movimento e ele parado. A vida dos filhos e da esposa, vá lá, mas o mundo todo era demais. Não queria saber nada mais do que a família contava. Queria manter o mundo que ele conhecia o mais intacto possível. Aos poucos, foi pedindo para que não lhe dissessem mais as novidades. Nada de política, nem de futebol, nem de guerras ou mudanças drásticas. Se estava trancado em si próprio, queria se agarrar a essa sensação, viver essa situação ao extremo, pensar em tudo como ele deixou antes de se enclausurar.

Assim, não soube mais de nada. O mundo foi girando e ele imóvel, ali, o mesmo homem-homem de sempre. Sua masculinidade era tudo que tinha, e era a última coisa a que podia se agarrar. Não sentia mais nada por ninguém, nem o filho rebelde, nem a filha com seu próprio salão de beleza, nem a esposa que ainda cuidava dele mas seguiu com a vida e se tornou doutora – em Ciência Política. A sua falta de autonomia era humilhante, a fragilidade de sua existência, a dependência extrema da submissão da família aos seus cuidados. Sabia que era uma questão de tempo pra que seus olhos falhassem, ou o coração parasse, ou algum músculo rompesse de tanto tempo sem se mexer e ele morresse de hemorragia interna. Imaginou dez mil formas diferentes de partir, e toda noite fechava os olhos e torcia pra não abrir nunca mais.

Foi aí que aconteceu o Janjão.

Janjão era um amigo de infância. Era homem-homem também, daqueles que não leva desaforo pra casa. Um homem forte, e bruto. Juntos, várias histórias, desde moleques, na escola, na rua, no bar. Tinha vindo visitá-lo duas vezes, ficou muito tocado com a situação, mas não conseguiu voltar mais. Até que a esposa, vendo a depressão nos olhos do marido, ligou e apelou para que viesse. Janjão pensou, pensou e veio. De início, a presença do amigo fez com que ficasse ainda mais triste, as memórias de antigamente, as arruaças, os quebra-quebras, e ele ali agora, sem poder se mexer. Mas Janjão tinha um plano.

– Eu vou te tirar dessa cadeira.

Ele piscou, assustado.

– Vai doer, mas aguenta.

A mulher quis dizer não. Ele respirou fundo e fechou os olhos. Janjão, tão delicado quanto um búfalo manco, de uma vez só arrancou ele dali. Ele desgrudou da cadeira na mesma posição em que estava, deslocou um dedo em cada mão, doía, mas não disse nada. Outra vez conteve uma lágrima.

– Agora a gente vai dar uma volta. Pelos velhos tempos.

E foram pro estádio ver o time jogar. Ele numa cadeira de rodas, as mãos segurando o assento, a bunda levemente descolada. O Janjão empurrando e fazendo cara de mau pra quem olhava curioso. O jogo foi péssimo, zero a zero, mas por algumas horas ele se sentiu menos pior. Agradeceu o amigo, que voltou três dias depois, de novo a pedido da esposa, e dessa vez levou ele pro bordel – pra ela, falou que iam ao cinema. Pagou uma prostituta pra sentar e rebolar no colo dele. Ele não sentia nada, ironicamente certos músculos de seu corpo estavam mais relaxados que gelatina, enquanto todos os outros seguiam firmes como rocha. Fez o amigo entender que queria um carinho nos olhos, a única parte ainda sensível o suficiente. A prostituta massageou suas pálpebras. Sentiu algo próximo de prazer.

As saídas com Janjão trouxeram algum conforto, e ele ficou ansioso pelo próximo encontro. Janjão prometera levá-lo a um bar. Pediu pra esposa pentear seus cabelos, mas não fazer a barba, porque queria estar com cara de homem rústico pra ocasião. Janjão chegou já de noite. Partiram para o mesmo bar da época da faculdade. Janjão pediu duas vodkas, como antigamente, e depois mais duas e mais duas. Rapidamente estavam bêbados. O amigo olhou pra sonda dele e se revoltou.

– Você precisa recuperar sua dignidade. Tem que mijar sozinho, que nem homem, ainda que seja sentado – e arrancou a bolsa de seu corpo. Ele riu – não sentia dor alguma.

Foram para o banheiro. Janjão colocou-o na cabine, fechou a porta, usou o mictório e foi lavar as mãos, dando tempo para que ele se aliviasse. Um outro homem entrou no banheiro. Percebeu a situação e riu de canto de boca. Janjão não gostou e foi tirar satisfação. Começaram a brigar. O homem arrastou Janjão pra fora do banheiro. Ele, do lado de dentro da cabine, a porta fechada, só conseguia ouvir gritos, gemidos e pancadas. Vidros se quebrando. Tinha raiva, estava bêbado, queria ajudar o amigo a brigar. Mas não podia mexer mais do que os olhos. Aos poucos o barulho cessou. Janjão não voltou. Entendeu que estava sozinho. Outros homens entraram e saíram do banheiro, comentando da briga, mas ninguém tentou abrir a porta da cabine. Passou a noite ali, as calças arriadas, com dor de cabeça, querendo gritar, chamar alguém, sem saber o que teria acontecido com o amigo. Acabou dormindo.

No dia seguinte, o faxineiro da manhã achou estranho aquela cabine fechada e o cheiro forte que vinha de dentro e arrombou a porta com força, derrubando ele de boca no chão, a bunda de fora, de cócoras naquele chão gelado e imundo. Quebrou dois dentes na queda. O faxineiro achou sua carteira e ligou pra esposa, que veio resgatá-lo, constrangida, e contou que Janjão estava em coma por espancamento. Uma vez mais, ele conteve as lágrimas. Na mesma noite, perdeu o amigo e a dignidade. Sentia-se menos homem do que nunca. E voltou outra vez pra cozinha onde começou o dia em família por tantos anos.

Derrotado pela paralisia, não tinha mais esperanças. Quase um ano naquela situação. A família olhava pra ele com dó, como se fosse um cachorro moribundo. Ele só queria ficar em paz, fechado consigo mesmo, trancado no mundo que conheceu até antes daquele café da manhã. Um mundo feito por homens, de homens e para homens.

Como ele sempre foi.

Dois meses depois, numa segunda-feira de trabalho, em horário comercial, sêo Medú morreu. Naquela mesma mesa, sozinho, os olhos abertos encarando o pote de manteiga. A família só percebeu no dia seguinte. Foi cremado sem velório, porque não conseguiram esticar seu corpo pra colocar dentro de nenhum caixão.

Ninguém quis ficar com as cinzas.

Terror, paixão e esperança: a Copa em três atos

(publicado originalmente aqui)

I.

Era o dia mais quente da história da metrópole desde 1943. Era sábado, dia de assembleia na ocupação. Mas antes da assembleia tinha outra coisa: um debate-bola sobre a Copa do Mundo, a Fifa e os efeitos disso tudo na vida daquela gente.

Aquilo, a princípio, parecia estranho pra ela: como a Copa que vai acontecer na zona leste de São Paulo poderia ter a ver com Osasco? Ainda mais aquele lugar de Osasco, longe, no topo de um dos muitos morros do planalto paulista, quase no pico do Jaraguá?

Chegaram uns moços e moças, mais moças que moços. O mais velho deles não parecia mais velho que ela. O que teriam a dizer? Anunciaram na rádio comunitária da ocupação, desceu muita gente pra escutar. Era sábado, e fazia sol, o maior sol desde 1943, mas pr’aquela gente o sol agora era suave, porque tinham teto. Teto que tinham construído, eles próprios, no terreno particular abandonado há décadas, em dívida com o poder público, enquanto ela e toda aquela gente não tinha um lugar que fosse pra se esconder do calor – e da chuva, e da miséria, e pra receber uma carta de algum parente distante.

Decidiram ocupar meses antes. Luta Popular: era esse o nome do grupo que ajudou na ocupação, na organização, no dia seguinte. Porque claro que viria o terror no dia seguinte – e no outro, no outro e no outro. Terror de “não ter nada garantido”, frase repetida como mantra por ali; terror de jornalistas, desses que tem teto, e comida, e carro, e emprego, que apareciam pra “noticiar” e chamavam de invasão; terror dos homens armados que rondavam o terreno e faziam ameaças.

Mas passaram-se os meses e o terror se dissipou, em parte. Ainda existe, que vida de gente pobre é basicamente saber lidar com o terror o tempo todo, mas não mandava mais nos corpos e mentes das quase 1000 famílias, às vezes mais, às vezes menos, que havia quase 6 meses moravam ali. Sim, moravam, ainda que sem luz e sem água, mas moravam.

E então era sábado, e vieram os moços e moças de um tal Comitê, Popular como a Luta, falar da Copa. E falaram – que a Fifa era quem estava ganhando com a Copa, que pro povo só sobraram as violações de direitos, os despejos, os ingressos caros, as proibições de trabalhar, a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mas que havia luta: no comitê, como na ocupa, centenas se agrupavam pra denunciar, questionar, se opor, mostrar pro mundo todo que a tal da Copa só trazia ganho pra quem já tinha. Quem não tinha, bom, estava como eles: na luta. Popular.

Uma menina ao lado dela perguntou, quanto se gastou com a Copa? Quase 30 bilhões, foi a resposta. E quantas casas, quantos terrenos como aquele, quantos hospitais e escolas públicos dava pra fazer com esse dinheiro? Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa, e esse dinheiro todo pro bolso de quem já tem todo esse dinheiro. Sentiu raiva, quis gritar, quis falar. Por que não? Falou.

– Isso é culpa nossa, sabe porquê? Porque depois quando vem essa gente aqui, beijar nossos filhos, pedir voto, a gente vai e vota neles. Tem que não ir votar! Tem que não ir votar na eleição, nunca mais!

Falava com vontade, com brio, com garra. E contagiava. Muitos aplausos, muita energia no ar, força, de vontade, de lutar. Veio o jornalista, outro, entrevistar, e ela repetiu com a mesma força tudo, e disse mais, e mais. A reunião já se dissipava, que era hora da assembleia da ocupa mais acima no morro, e ela notou que dois jovens daqueles do comitê a observavam com admiração. Chegavam mais perto. E perguntaram:

– Qual o nome da senhora?
– Maria da Paixão, mas em Osasco todo mundo me conhece por Mineirinha.
– Paixão… ótimo nome pra quem luta!
– Não é, minha filha? E falta muita luta ainda…

Falta sim, Mineirinha, falta muita luta. Pra vida toda.

Que, se for vivida com essa paixão, se for como a vida da Paixão da Esperança, não há terror que cale.

***

II.

Era sábado, o mesmo do maior sol desde 1943, e eles chegavam pra trabalhar. A diferença social ali não era tão grande quanto a salarial: os que chutavam bola ganhavam muito muito mais do que os que limpavam os quartos e os recintos, mas vários poderiam ter sido, anos ou meses antes, vizinhos deles. Era treino do Corinthians, no luxuoso e moderno CT construído na última década do time.

Tudo correria normal como o dia antes desse, e o antes desse, não fosse a paixão. De repente, uma centena de gente, a maioria da mesma origem que a maioria dos que ali trabalhavam, cercou o local. Tinham ódio no olhar, aquele tipo de ódio de quem se sente traído, roubado, esquecido, e queriam que alguém pagasse por isso – de preferência, os que chutavam bola. Da paixão, veio o terror.

Começaram uma caçada aos privilegiados, aqueles que tinham o direito de carregar aquela camisa centenária e que, pior, ganhavam muito muito mais que todo mundo ali pra isso. E que, na opinião deles, vinham fazendo isso sem paixão. Se esconderam, esses, com medo de algo que nunca tinham vivenciado tão de perto. De repente o trabalho milionário, de repente a visibilidade midiática invasiva, de repente tudo isso se tornava invisível. De repente, eles não eram mais adulados, eram odiados.

Os quase-vizinhos da recepção e da limpeza não se esconderam. Não podiam. Eram ordens. Ficaram no meio.

O povo entre o povo e o povo, o trabalhador entre a paixão e o terror. Uma mediação que se expressou pela força: esganamentos, correria, medo.

Minutos depois, os jornais noticiavam o fato. “Em momento bizarro, os invasores chegarem a se divertir no CT Joaquim Grava. Alguns pularam na piscina, enquanto outros passeavam tranquilamente, observando a estrutura do local e até puxando papo com funcionários do clube”, disse um portal desses eletrônicos. Bizarro? O que era bizarro? A opulência do CT moderno e vultuoso, propriedade atual daquele time há mais de cem anos fundado por trabalhadores pobres, frente à pobreza daqueles que, por intermédio da única paixão que lhes permite sair da parte mais baixa da pirâmide, resolviam cobrar na força o comprometimento dos jogadores? Ou bizarro era que aquelas pessoas, “invasores, vândalos, bandidos”, fossem capazes das mesmas coisas que o resto, nadar, conversar, sentir prazer ao utilizar um equipamento que não existe para eles na esfera pública?

Era esperto, o tal portal. Era a voz dos de cima. Daqueles que morrem de medo de um dia ter que vivenciar o terror porque uma Paixão dessas qualquer resolveu cobrar na porta de casa pela Esperança que lhes foi roubada. Esperança de sair de baixo, de olhar nos olhos de igual pra igual.

E a invasão daquele sábado vinha em boa hora: era a desculpa perfeita pra reforçar, ainda mais, a repressão. Em nome do futebol. Em nome da Fifa. Em nome da Copa.

Copa pra quem?

***

III.

Era sábado, o sábado mais quente desde 1943. E eu estava lá, entre o Terror, a Paixão e a Esperança, tentando desembaraçar o fio que ligava as tantas bandeiras do Corinthians tremulando na ocupação de Osasco à cobrança violenta dos torcedores no CT de Guarulhos, tão violenta que, sem notar, fazia com que quem tivesse medo, todo o tempo, fosse o trabalhador.

Era sábado. O sábado mais quente desde 1943. E eu fui dormir com uma vontade enorme de gritar.

Diálogo

– Olha só, você é linda, inteligente, sensível. Eu adoro a tua risada. Mas…
– Mas…
– Mas não dá mais.
– Por quê?
– Você sabe o porquê.
– Sei?
– Sabe.
– Hmmm… sexo, né?
– Sim.
– Eu sabia.
– Eu disse que você sabia.
– É sempre assim.
– Olha, me desculpa, mas é muito ruim. Se eu te fiz gozar uma vez foi muito.
– Mas a gente transou só duas vezes!
– Transou? Nem sei se dá pra chamar de transar.
– Por quê???
– Como, por quê? Eu te toco e tu nem se mexe. E quando rolou penetração, então, parecia que eu tava te agredindo. Por isso eu parei em 20 segundos.
– Você não entende…
– Não mesmo, porque eu perguntei. E você só me abraçou e a gente dormiu.
– E foi ruim?
– Não, mas não foi sexo, ué!
– É que… tem coisas.
– Que coisas?
– Não sei se quero falar. Ninguém entende.
– Fala de uma vez. Eu não tô aqui pra te julgar.
– Não tá mas vai julgar.
– Não vou.
– Vai.
– Tenta, ué, o que você perde?
– É… bom…

Silêncio. Um abraço.

– Olha, eu não vou te pressionar. Você fala se quiser, tá?
– Mas você disse que não dá mais.
– Não dá, mesmo. Mas eu também disse que você é linda, inteligente e sensível. Não é porque não dá mais sexo que não dá mais pra gente ser íntimo, amigo, sei lá.
– Tô cansada de amigos. É sempre assim.
– Então desembucha, criatura, pra ver se dessa vez é diferente!
– Tá… eu vou tentar.

Silêncio. Outro abraço.

– Você não vai entender. O lance é que eu gosto de…
– De…
– De… de mulher.
– HAHAHAHAHAHAHAHHAHAHA.

Cara feia.

– Por quê você tá rindo, seu bosta?
– Calma! Eu achei que era piada.
– Como, piada?
– Ué, se você gosta de mulher, porque tá comigo? Porque quis ficar comigo?
– Porque você é todo mulherzinha?
– Como assim?
– É, cara. Você é super mulherzinha. Chora em filme, faz carinho o tempo todo, percebe quando eu tô incomodada, é todo sensível e cuidador.
– E isso é ser mulherzinha.
– Sei lá. É.
– Tá, nem sei se consigo discutir isso. Mas porra, eu não sou mulher!
– Não, não é.
– E então? Você não gosta de mulher?
– Gosto. Mas não é só isso.
– É o quê mais, então? Tô perdido!
– Eu gosto de mulher, mas também gosto de…
– De…
– De…
– De?
– De…
– DE!?
– De pinto.

Silêncio. Cara de interrogação.

– Não, cara. Sério. Não dá pra entender. VOCÊ, gosta de pinto???
– Por quê o espanto?
– Numa boa? A tua tentativa de me chupar foi a coisa mais horrível que eu já vi!!!
– Não fala isso.
– Mas foi! Tu não colocou meu pau na boca nem uma vez, ficava lambendo a cabecinha como se fosse um cachorro bebendo água. Fez cócega. Me segurei muito pra não rir.
– Sério?
– Sério.
– E por quê tu me deixou lá?
– Deixei bem pouco. Depois foi eu que te chupei, lembra?
– Se lembro. Mulherzinha total.
– Como assim?
– Parecia que você era uma mulher mesmo, sabia exatamente o que tava fazendo. Foi bom, mas foi bom até demais. Meio estranho.
– Isso é um elogio?
– É, se você não se importa de ser mulherzinha.
– Não me importo. Nem um pouco.
– Mas voltando. Eu chupo tão péssimo assim?
– Sim. Desculpa, mas siiiiim.
– Porra…

Cara triste. Abraço de novo.

– Eu não tô falando pra te magoar. Sei lá, só não posso fingir.
– Por quê você acha que eu chupo mal?
– Eu já disse, você…
– Não, porra. O que você acha que me faz não saber chupar?
– Sei lá. Tu parecia estar com nojo, ou medo, daí meu espanto quando tu disse que gostava de pinto.
– Antes eu disse que gostava de mulher.
– E daí?
– Mulher não tem pinto.
– E daí?
– COMO EU IA SABER CHUPAR UM PINTO, PORRA?
– Calma, calma! Pô, tu nunca viu um pornô?
– Não, acho escroto.
– E é escroto mesmo, mas…
– Mas nada. Eu nunca chupei um pinto. Nem nunca vi chuparem. Mas sempre quis.
– Tá, mas espera. E a penetração?
– Não curto.
– Mas tu não curte pinto?
– Curto, mas não dentro de mim.
– Hum. Uma pergunta: você já transou com mulher, né?
– Claro, porra.
– E aí? Nunca te penetraram, nem com o dedo?
– Já, mas eu não curto muito. Normalmente sou eu que faço isso. Eu gosto de mulherzinha, lembra?
– Mas você não tem pinto.
– Já ouviu falar de cinta-caralha?
– SÉRIO que você tem uma???
– Qual o problema, senhor “nunca-viu-um-filme-pornô”? Nunca entrou num sex shop?
– Já, não é isso. É outra coisa. É que…
– É que o quê?
– É que eu sempre quis uma cinta-caralha no sexo.
– Pra quê, se você tem um pau de verdade?
– Não pra mim. Pra ela. Pra você, no caso.
– Pra mim? Tu quer o quê, chupar um pau de borracha?
– Não, mas tu podia fazer isso pra treinar.
– Treinar como, se borracha não reage?
– Pode crer. Bom, pelo menos pra aprender a colocar na boca…
– Tá, não muda de assunto. Quero saber do teu fetiche da cinta-caralha aí.
– Porra, é meio óbvio. O que é que todo mundo tem na cama?
– Tesão?
– HAHAHA, tô falando de corpo humano.
– Hmmmmm… cu?
– Isso.
– TU QUER DAR O CU?
– Sim. Não. Quer dizer, sempre tive curiosidade.
– Eu disse! Mulherzinha!
– Você dá o cu?
– Eu não sou mulherzinha. Você é.
– Até posso ser, mas não gosto de homem.
– E nunca pediu pra nenhuma mina?
– Nunca tive coragem.
– E agora?
– Agora eu tive, ué.
– E o que a gente faz?
– Não sei. Uma troca?
– Que troca?
– Eu te ensino a chupar pau, quer dizer, a chupar o meu né, e tu traz a cinta-caralha.
– Mas tu não disse que não dava mais?
– Não dava, mas agora que a gente se abriu, talvez dê. Conversa sempre resolve tudo, minha linda.
– Hahaha, que papinho.
– Papinho nada.
– Papinho, sim.
– Foda-se. Você topa?
– Topo, seu mulherzinha.
– Fechado, sua homenzão.
– Vem aqui, enquanto isso.

Dois sorrisos. Um abraço. E se perderam em um beijo demorado, interminável, daqueles de adolescente que acabou de descobrir que pode se divertir muito usando a língua.

Matemática dos de baixo

Na matemática do operário
Aquele, em construção
Descobri que o meu suor diário
Que nem otário
Pagando de mais um, peão
Acaba no liquidificador humano
Do busão
Ou do metrô
E respinga do ar condicionado
Por mim instalado
Na sala de reunião,
Onde o patrão tá no sossego
Achando, meu nego
Que casa brota do chão.
Não brota não!
Cada parede, cada janela
Cada vassoura, pia ou panela
Onde limpa e cozinha ela
(Porque só ela?)
Saiu da mão do operário
E da operária
Que respira, transpira, conspira e pira,
E pensa,
Que não quer mais só arroz e feijão na mesa
Quer liberdade, dignidade
Ir e vir pela cidade
Sem ficar na saudade
Por conta de tarifa ou catraca
Chega de discurso de babaca!
Quem trampa saca
Que a mão é a arma da PM
E o pé, a roda do patrão
E que na matemática do operário
Aquele, em construção, que tem salário
De fome
O X da questão nunca se move
Pro lado de baixo
A não ser quando é nove
Número de capacho
De Zé Ruela
Daqueles que nunca entrou numa favela
Tocou numa panela, ajudou ela
Ou foi capaz de no trabalho
Abrir a janela e gritar:
Não!
Cansei de ser otário
Meu nome é Mário, sou operário
Agora em revolução
– Te cuida, patrão.

(Rio de Janeiro, 05/11/2013)

Da ausência

(dedicado a Isabella Targas; Isa, a ausência fica, mas a dor um dia se transforma naquele peso necessário pra gente poder medir direito o tamanho das coisas)

É na ausência, de fato, que de fato sentimos. Sentimos vazios, sentimos o vazio.

Zazá era uma cachorrinha alegre, uma poodle toy que não parava quieta. Daquelas que tremem no colo quando carregadas e afagadas. Era tocar o interfone da casa e, já no elevador, ouvir os latidos vindos do 6º andar, tão possante eram suas cordas vocais.

Zazá carregava a alma daquela casa. Tinha vindo parar ali pra fazer parte da história enorme de uma mulher de, naquele então, 80 anos de idade. E muitas coisas, causos, pessoas e sentimentos pra contar. Zazá fazia a ponte entre a História daquela mulher e a Geografia de uma cidade que cada vez mais lhe permitia menos participação. E assim supriam mutuamente as carências uma da outra. E ambas do resto da família.

Mas, envelhecemos. É lei. É fato. É natural. Tão natural quanto não é viver numa sociedade isoladora. Desoladora.

Cachorros não sabem viver sozinhos. São incapazes. Cachorros precisam de convívio, contato e troca. Humanos, bem, fingem saber como ser sós, mas em última instância, aquela que importa mesmo, são bem piores do que cachorros.
Então viviam ali naquele apartamento, a mulher de 80 e poucos anos e a cachorra de 180 batimentos cardíacos por minuto.

Acontece que as coisas naturais nem sempre querem saber de apegos e sentimentos. E é natural que cachorros vivam menos que humanos, em média. Assim como acontece de pessoas, humanas ou não, morrerem inesperadamente.

Dormiam, a mulher, já com 90 anos, a cachorra, com seus quase 10, e a Cris. A Cris era uma daquelas milhões de pessoas que o mundo insiste em tratar como paisagem, mas que no fundo são o coração de tudo. Era já de madrugada quando ouviram a cachorra ganir. De dor, mesmo. E tentaram acudir, como podiam, o desespero final daquele ser tão pequenino que carregava consigo uma alma tão gigante. A alma da casa. O rompante de vida dentro daquela caixa de concreto inanimado.

Do alto do abismo existente entre o que é possível e o que desejamos, fizeram toda a força do mundo para que Zazá se sentisse confortável. Fizeram por ela o que cada olhar carente, cada lambida no rosto e cada rabo abanado haviam feito pelas duas naquele tempo todo. Mas Zazá partiu.

Fora de casa, é mais difícil percebermos com tanto tato mudanças espaciais significativas. Dentro, cada cadeira fora do lugar chama a atenção. Nossa casa, assim como os espaços que vivenciamos, se transformam aos poucos em lugar. Lugar seguro, confortável. Assim era aquela casa: um lugar seguro e confortável. Como toda casa de vó deve(ria) ser.

No dia seguinte, então, foi muito difícil visitar minha vó. Foi difícil entrar no corredor daquele prédio e não ouvir latidos, abrir a porta e não ter unhas a arranhar, nem barulho, nem lambidas, nem aquele desespero natural de cachorro que faz expandir qualquer coração que tenha minimamente a capacidade de cuidar e querer cuidar da carência alheia. Foi difícil ver aquela senhora tão enorme chorar por Zazá, por não poder ter feito mais.

Ninguém poderia, vó.

O apartamento continua, você ainda está de pé. A cada latido ausente, sei que o coração bate um pouco menos. O meu também. O silêncio do elevador traz lembranças indeléveis, é verdade. O mundo como está é feito para perdermos mais do que ganharmos. “A gente parece que fica mais duro, mas na verdade não é isso, é só menos desesperado”. A ausência pesa, e faz lembrar do título do livro famoso: a insustentável leveza do ser. Zazá era insustentavelmente leve. Assim como o mundo como está é insustentavelmente pesado.

Nada mais justo, então, do que chorar a cada perda, pra depois poder sorrir por toda a lembrança.

Vó, na sua casa, todos somos Zazá. Todos latimos de felicidade a cada pedacinho de colo que você nos dá. Desde, e para, sempre.

Mesmo que insustentavelmente.

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.”

(José Luís Peixoto)