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O ódio em três momentos

I.

São Paulo, 25 de outubro de 2013.

Ato da Semana Nacional de Mobilização pelo Passe Livre.

Depois de adeptos do black bloc irresponsavelmente romperem o acordo prévio de não destruir nada no Terminal Parque Dom Pedro II, bombas e gás pra todo lado. No meio, exatamente no meio, cercado por cordões da PM por três lados, uma amiga tcheca e eu tentamos achar uma rota de fuga. Atravessamos pra praça das banquinhas em frente ao terminal, onde um grupo de blocs destrói um ponto de ônibus. De repente, um homem de roupa esporte saca um revólver (eu não manjo de calibre), agarra uma das meninas do grupo e manda ela ajoelhar, a arma na cabeça dela, expressão de ódio nos olhos, saliva saindo do canto da boca. Penso, “vai dar merda”. Minha amiga começa a filmar. Outros blocs do grupo voltam e tentam confrontar o homem com pedaços de pau. Ele aponta a arma pra eles e a merda fica muito próxima de acontecer. Um PM aparece e arrasta a menina com a ajuda do homem pro outro lado da rua. Ele também tem uma arma. Os blocs tentam puxá-la, ela se atira no chão, e eles continuam arrastando furiosamente. Uma bomba voa pro nosso lado. Corremos.

II.

Depois de encontrar um caminho pra Praça da Sé, sentamos pra ligar pra amiga que estava de muletas no ato. Ela não atende. Os helicópteros dão a entender que a movimentação se encaminha pra praça. A amiga envia uma SMS confirmando, está perto da Fanfarra, estão chegando na praça. Há um jogral com a ideia de voltarmos pro terminal pra executar o catracaço interrompido pela confusão. Não dá tempo de sair dali. A tropa de choque cerca todo mundo e atira bombas e balas de borracha. Com a ajuda de um amigo, tentamos caminhar em meio ao gás protegendo a amiga de muletas. Ouço o zunido das balas passar muito perto. Conseguimos escapar pela lateral da praça. Na contramão da nossa fuga, crianças e adolescentes dos bairros pobres próximos correm em direção ao conflito. “Quebra tudo, quebra tudo!”, gritam. Alguns estraçalham uma banca de jornal. O ódio – da polícia, da cidade, da exclusão – é visível nos olhos de cada um deles – alguns menores de 10 anos de idade.

III.

Na porta da delegacia, esperamos os mais de 70 presos saírem. Há dúvidas sobre quem está lá. Eu havia recebido a informação de que uma companheira, cujo celular estava na caixa postal desde a hora da primeira confusão, estava detida ali. As pessoas vão sendo liberadas, sob o olhar de desdém dos homens do Choque. Ela não sai. Alguns telefonemas depois, recebo com alívio a SMS “Achei ela, está a salvo!”. Membros/as da Fanfarra do M.A.L. são liberados, TODOS os seus instrumentos odiosamente destruídos pela PM. No olhar de cada detido, mais ódio. Depois de todos livres, já quase 5h da manhã, caminhamos para o metrõ. Um pequeno grupo de skinheads nos observa com desconfiança. Um deles diz:

– Tem cara de punk, hein?

Dentro do metrô, encontramos companheiros/as que tinham se dirigido pra lá antes junto com um punk de visual carregado recém-liberado da delegacia. Nos contam que momentos antes os skinheads derrubaram ele no chão, chutaram sua cabeça. Ele escapou, não se sabe pra onde.

São Paulo, 26 de outubro de 2013.

Uma noite mais, como qualquer outra. Infelizmente.

Esta cidade respira ódio. E gás lacrimogêneo.

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Olhos de cão – IV

Hoje o Lumpen foi castrado. Estranho.

Acordei antes do despertador. Não sabia como ele reagiria. Na hora da coleira, eu sabia, era o Lumpen, o cachorro-lumpen, o caos. Liguei pra carona que consegui, sem resposta. Me preocupei um pouco. Resolvi sair com ele, dar uma volta. A carona ligou, iria atrasar um pouco. Sem problemas. Liguei no veterinário e sem problemas.

Andamos pelo quarteirão de casa, aproveitei e passei no banco. Lumpen entrou comigo, quis latir pro vidro. Nem oito da manhã direito. Fui rápido, e saímos. Mais uma volta e a carona chegou. Enfiei ele no carro, era a primeira vez dele num carro. Achei que ia vomitar, não vomitou.

Chegamos na clínica, na zona norte. Perto da avenida Imirim. Lembrei do Lipe e da minha adolescência, estudante, depois punk, primeiro jogando bola, depois também ensaiando e tocando, andando por aqueles lados. Há um certo charme na zona norte, me agrada, moraria lá, sim.

A clínica tinha uma fila em direção à recepção, todos com o papel da prefeitura do programa de castração gratuita e cães e gatos a tira colo. Tentando controlá-los, que bicho nem sabe o que é fila. Bicho não faz fila, fila é coisa de gente. Gente burra.

Descobri como era o esquema e vi que demoraria. Dispensei a carona, entrei na fila. Lumpen puxava, puxava, puxava. Difícil fazer ele ficar quieto, mas depois de um tempo deitou. Levantava a cada bicho novo que entrava aquela salinha de 7m x 5m, mas puxava cada vez menos. Enquanto esperava, eu percebia o protocolo: primeiro a ficha, um barbante com número. Lumpen deixou de ser Lumpen, agora era 18. Dezoito.

Quando chamado, foi pesado, e recebeu uma pré-anestesia. Saímos e em pouco tempo seus olhos ficaram pequenos, como o de outros cães. Os gatos não via, todos dentro de caixas, que gato foge de gente e de agulha mais que cachorro. Muita gente não gosta de gato, diz que é traiçoeiro, que foge; entretanto nós humanos fazemos fila pra que bichos virem números e tenham tolhidas sua libido, seus órgãos reprodutivos, impedindo definitivamente a razão principal de sua existência: reproduzir.

É pro bem deles, o discurso é esse. Na verdade não. É pra nossa conveniência. Pra que deixem de ser tão ariscos, tão dominadores, marcar território. Pra que não entrem no cio, não busquem o cio. Castrando evita-se a piometra e o câncer de mama nas fêmeas; doenças proliferadas porque insistimos em ter bichos. Ter, possuir. E castrar.

Não tenho vergonha nenhuma em dizer que gosto mais de cães do que de gente. Nem acho que isso é sintoma de depressão, fase da adolescência, solidão ou carência. Cães são animais simples e paradoxais na sua relação conosco. Gosto de cães porque entendo o que fazem, porque fazem, quando fazem. Gosto de cães porque não tenho que me explicar pra eles. Gosto porque é simples, é afeto, afeto puro. Achar isso brega, ridículo ou depressivo é que deveria ser considerado um problema.

Lumpen desabou aos meus pés. Sua hiperatividade desapareceu por uma meia hora, enquanto voltava a ser Dezoito a espera de sua vez pra deixar de vez de ser Lumpen. Aquilo me incomodava, dava um nó na garganta. Todos aqueles bichos, e pensar que naquela clínica era assim todo dia. Castra-se pra evitar novos bichos; entretanto, cada um daqueles donos de animais domésticos – houve um tempo, não faz muito, que tínhamos escravos domésticos; aliás, família deriva de famulus, grego ou romano ou latim, foda-se, pra escravo doméstico – amava seus bichos, tinha outros bichos e provavelmente ainda terá mais alguns. Um garoto de seus seis ou sete anos passeava com um filhote de seus vinte ou trinta dias no colo. Chegaria sua vez de ser castrado. Chegaria a dele de ser seu dono. Não hoje.

Dezoito foi chamado outra vez. Levantei seus dezenove quilos e meio no colo pra colocar sobre a mesa de metal. Segurei sua cabeça contra o meu peito pra que a anestesia fosse aplicada na veia da pata direita dianteira, e em segundos ele estava desacordado. Outras duas injeções lhe foram aplicadas, sua cabeça tombou, a língua de fora, como morto. Eu nunca, nunca, nunca nessa vida serei capaz de sacrificar um animal. Saí da sala ofegando, lágrimas contidas. Saí da clínica pra respirar. A fila tinha aumentado.

Atravessei a rua e entrei num boteco. Pedi um pão e um café, tentei tirar a mente dali. Sabia que a castração era segura (pra mim), mas a imagem de Lumpen desacordado e de língua de fora me incomodava. Voltei pra clínica, passeava aflito entre outros donos e donas que roíam as unhas. Uma mulher se referia a nós como pais, e aos bichos como filhos; não pude deixar de pensar na idéia de castrar um filho. Lumpen não é filho, nunca será, nem meu nem de ninguém, porque bicho não tem esse tipo de relação com ninguém. Mania idiota de ser humano inseguro, transformar todo tipo de relação no tipo mais comum que conhece, a família, e ao mesmo tempo o mais escravizador e opressor possível. A base de tudo, dos ataques aéreos à Gaza, dos estupros diários pelo mundo, da domesticação de outras espécies, da castração alheia pra evitar problemas. Que espécie, somos.

Alguns minutos depois Dezoito voltou a ser chamado. Agora não era mais Lumpen, era eu. Recebi instruções de cuidados pós-operatórios, comprei remédios. Entrei na sala onde os cães e gatos adormecidos aguardavam a vez pra voltar a ter nome. Quer dizer, nós é que temos seus nomes, eles irão morrer sem saber o que é isso. Falo dos outros e humanizo as relações igual. Patético.

Na gaiola, Lumpen está de olhos abertos, mas sem forças. Lembro de mim mesmo quando tirei baço e vesícula aos nove anos, acordando na sala de pós-operação sozinho, sem forças pra levantar ou gritar que estava acordado, vivo, sozinho. Me viu e balançou o rabo com toda a pouca força que tinha. Impossível, desculpem-me, impossível mesmo não lembrar de meu pai.

Pedi à enfermeira um colar pra que ele não tentasse mais tarde arrancar os pontos. Peguei-o com todo o cuidado do mundo, pesado, e saí desnorteado daquela sala como quem sai de uma trincheira carregando um amigo ferido pela guerra. Atordoado mesmo, a mulher do “pais e filhos” me disse que estava segurando ele errado, poderia abrir o ponto. Me desesperei um tanto, um rapaz me ajudou a segurá-lo direito. Fui pra fora da clínica, Lumpen no colo, e a carona não tinha chego ainda. Entrei de volta, sentei no chão com Lumpen no colo. Tinha vontade de chorar. Já gritei muito com Lumpen, dei esporro, briguei, e toda vez que tenho que fazer isso (tenho?) me sinto mal. O que ele estaria fazendo de errado? Punimos os cães por simplesmente serem cães. Castramos pra que não produzam outros cães que irão querer ser cães, e pra que parem de mijar no pé da importantíssima mesa da sala, ou do sofá. Que espécie, que espécie.

Voltei e pedi pra deixá-lo mais um pouco lá dentro, “dez minutos pro carro chegar”, mas a máquina de castrações não pára, a fila anda e seu lugar já foi tomado. O rapaz da ajuda anterior me olha e oferece lugar no banco. Coloco Lumpen deitado e me agacho de cócoras pra que ele se assegure de que estou ali. Que crime cometemos todos os dias ao fazer outras espécies acreditarem que somos seus guardiões, sua segurança, seu porto seguro. Não sabemos nem o que fazer com a nossa.

A carona chegou e no carro Lumpen já tentava voltar a estar de pé. Ainda nada. De princípio tentei contê-lo, depois pensei que tinha dor como eu tinha tido tantas vezes e deixei que ficasse como quisesse. O corpo é dele, o conforto é dele. Comentei com o carona que tinham instalado um microchip nele, ele me disse que leu em algum canto que nos Estados Unidos há gente se auto-instalando microchip por medo de sequestro. Não gosto de me repetir, mas porra, que merda de espécie somos? Que merda?

Cheguei em casa e subi com Lumpen pra lavanderia. Limpei, trouxe sua casinha, comida e água. Não pode descer escadas nem subir sofás. Aos poucos ele voltou da anestesia. Quieto, olhar triste, adormecido, dolorido. Parece não entender o dia de hoje, o que aconteceu. Parece não, não entende: entendesse, e ao invés de buscar asilo no meu olhar fugiria dele pra todo o sempre.

Quando operei, e foram várias vezes, tive companhia no quarto do hospital. Já fui companhia algumas vezes igual. Então desci pro meu quarto, peguei colchão e travesseiro e me instalei ao lado da casinha de Lumpen.

Dizem que cachorros não choram como humanos, porque seus olhos não lacrimejam.

Mentira, Lumpen. Quando você me olha, são suas as lágrimas que vê correr.

Que idiota. Que espécie.

Mutilei um cachorro. Um cachorro que ouso chamar de meu. Que me obedece e responde aos meus comandos, e enquanto escrevo se aninha junto às minhas pernas trocando calor.

No fundo, no fundo, entendo tanto quanto ele o porquê.

Da automedicina ou O gesso mais curto da minha vida

Acordei cedo para uma consulta indesejada. Um ortopedista especialista em mãos, cirurgião de mãos. Em fase final de campeonato, não era hora de correr o risco de ouvir algo que não queria.

Eram 6h45 quando levantei. 7h25 quando entrei no metrô. Às 8h retirava a tomografia. 8h20 entrava na sala do médico.

História contada, a bolada, o tombo, a irresponsabilidade de tocar bateria no mesmo dia, o erro do primeiro médico, a conduta do segundo, a teimosia em trabalhar tendo licença pra mais de 15 dias.

O especialista, daqueles que são especialistas em seguir protocolos, deu a sentença: injeção antiinflamatória e gesso. Mais 15 dias de gesso, depois dos 7 que já tinha passado há duas semanas e depois de estar com uma tala/órtese móvel desde o dia 10/11. Depois do gesso, dizia ele, fisioterapia. Retorno em 08/12. Dois dias antes de uma possível final.

Questionei se era mesmo necessário engessar novamente. Me disse que sim, porque a órtese móvel eu ficaria tirando toda hora e mexendo o que não devia, “tirar pra ir pra balada”. Quis mandá-lo à merda. Minha órtese fede de tanto que eu a utilizo. Só tiro pra tomar banho. E hoje nem banho tomei.

Saí do consultório e fiquei aguardando o gesso. Pensei em evadir, seguir o tratamento do médico não-especialista: 6 semanas de órtese e depois fisioterapia. Já tinham sido duas, mais quatro. Um tratamento mais humano e menos protocolar. Que leva em conta as vontades e necessidades do paciente. Menos duro.

Faltou coragem. Escrevi mensagem à mãe e à namorada, “engessado de novo, que merda”. O celular não quis enviá-las. Talvez prevendo algo.

Me chamou, o rapaz do gesso.

Resignei-me. “Futebol se joga com os pés”. Vai ver dá pra jogar de todo jeito.

Na sala de gesso, lembrei do gesso mal-feito da última vez. Da pontinha espremendo o dedão. Deixei o rapaz de sobreaviso. Pareceu ofendido. Foda-se, eu não preciso sentir desconforto porque um cara que treinou pra fazer aquilo faz de má vontade. Começou a engessar e me surpreendi: não era nem uma tala, era gesso inteiro, por completo. Impossibilitava tudo. Futebol, amarrar o cadarço, tomar banho dignamente. Almoçar. Não. Não, de novo não.

Saí da sala de gesso e fui para a de injeção. “Vai doer um pouquinho”, disse o enfermeiro. Sem saber das doses de benzetacyl que tomei de 21 em 21 dias quando criança. Doença congênita, tirei baço e vesícula com 9 anos. Precisei tomar.

A injeção simplesmente não doeu. Nada.

Saí do hospital já sabendo o que iria fazer. Só precisava do tempo do ônibus pra me convencer de que estava certo.

O próprio médico disse, seu caso não é grave. As duas semanas de órtese melhoraram muito a dor, mesmo com a teimosia de trabalhar e digitar esse tempo todo. Mesmo tendo jogado bola e caído.

Reta final de campeonato. Três jogos e talvez um título aguardado há 3 anos.

Ninguém pode saber mais do meu corpo do que eu. Autônomo.

Cheguei em casa e tirei a camiseta. Nem o tênis, nem a calça. Procurei que nem louco uma tesoura. Achei uma mais ou menos. Fui para o banheiro. Liguei o chuveiro e enfiei o gesso na água quente.

Não seria fácil, eu sabia. A tesoura era uma merda. Não cortava. O gesso vencia. Era pedra, e aquilo não era joquempô pra resolver com papel. O banheiro molhava, minha calça e tênis respingados de branco. Achei outra tesoura. Pior ainda. Quebrou.

O gesso amolecia. Eu cortava, puxava, tentava usar a força. A luva aos poucos cedia. Já não tinha volta. Veio a terceira tesoura, tesourinha de unha. Ajudou mas quase nada. A raiva subia à cabeça. Porque não me recusei a fazer aquela merda? Teria poupado esforço e estresse.

Peguei de novo a primeira tesoura. Arrumei um jeito melhor de cortar. Cortava e também puxava, tentava vencer o osso do dedão à força. Nada. Um corte numa extremidade, outro na outra. Precisavam se encontrar.

Concentrei esforços naquela linha imaginária. Ligue os pontos. Deixei a água mais quente. Cabelo molhado. Calça, tênis, chão do banheiro. Um pouco mais, só um pouco mais.

Eram 10h25 quando terminei de traçar meu Equador da liberdade.

Era oficial: eu estava novamente escalado para o jogo de sábado.

“Futebol se joga com os pés”. E com a mente.

Antes, durante e depois do jogo.

O departamento médico que me aguarde. Eu volto, sei que volto. Mas não haverá nesse mundo norma de conduta que consiga me convencer de que o especialista sabe mais do meu corpo do que eu.

Sou eu. O especialista do meu corpo, sou eu.

Futebol, ao sol e ao gesso.

Ó abre alas, que eu quero jogar.

Delas, o tempo

As três gatas, havendo visita, se iam. Quer dizer, iam e vinham outra vez, principalmente a branquela, atirada que só. A pretinha, cheia de si, demorava mais, mas trazia consigo o ar de dona da casa a investigar quem vinha se intrometer. Só a rajada que, não mesmo.

Encantavam, elas, porque isso de que gato é distante, rá, mentira. Das grandes.

Acordava, e estavam as três à porta do quarto, ou duas, ou uma. Nenhuma, nunca. Sempre havia. E olhavam sua cara de sono, e queriam era afago, ou comida, ou o quarto com suas caixas e esconderijos.

Ele as tomava no colo, acariciava. Gostava de surpreender a pretinha. Sempre a mais difícil, cheia de não-me-toques. Mas era pegá-la e miava, a danada, e fingia querer sair, mas ficava, e fechava os olhinhos. Rendia.

Desconfiadas eram, sim, que gato não é igual gente ou cachorro. Cheiravam, e sentiam seguro, antes de tudo. Isso com os outros. Com ele, já eram. E ele delas.

Então que no dia a dia era ele que sabia das manias de uma e de outra, e de outra, que três, e eram a ele que se entregavam, como se fosse árvore de natal, ele, e enfeites, elas. De modo que nunca estava só, nada. Iam ao sofá e lhe ocupavam, pernas, braços, qualquer dobra. E logo era um festival de barrigas ao céu, e ronronares e afagos e manha. Manha, sim, que todo gato tem manha de sobrenome.

Mas não só elas. Também era ele quem as buscava. Sim, que das suas manias todas havia aquela de contar. E estava uma e outra, mas e a rajada? Essa demorava mais pra chegar, mas chegava. Então contava, e lá: uma, duas, três.

Um dia a branquela não. E uma, duas. E onde? Toca a procurar, dentro do armário, embaixo da cama, atrás da geladeira. Nada.

Uma, duas. Três?

Precisava três.

Começou a subir um suor, e que diabos, onde se enfiou? Passou pela rede na janela? Não, que não era possível, magrela mas nem tanto.

E em cima do armário, e atrás do fogão. Nada. As portas dos quartos e banheiros, como sempre, fechadas. Estaria dentro? Mas como? Foi ver.

Nada.

Era quase desespero já, e justo a branquela, frágil e delicada. Aonde, essa gata? Que se fugir aposto que não dura três minutos, porque tão bobinha, e… ouviu unhas.

Vinha de fora.

Será possível?

E sim, será possível, abrira a porta pra botar o lixo, e ela zás, disparou, que nem viu, ela que gostava de passear, sim, gata que gosta de passear, vê se pode, ia na bolsinha de pano e tudo, e nem fugir queria, só olhar a rua. Daí que porta aberta era sempre chance, pra ela. Mas ia sempre até a escada, e pronto, estátua. Esperando que ele a tomasse no colo, e quiçá a bolsinha, ou ao menos o lar outra vez.

Então operou o resgate e levantou-a e viu nos seus olhos a felicidade do reencontro, daqueles de quem espera na rodoviária por parente distante.

E a pôs no chão, donde observavam as outras duas, e pronto.

Uma, duas, três.

Que o ritmo da casa, eram elas.

Dia de sábado

Passou a bola pro meia-direita e gritou, devolve. Recebeu, perto da linha de fundo. Vai cruzar, é o que todo mundo pensa, sempre. Não cruzou. Cortou pra dentro, conseguiu algum ângulo pra chutar, mesmo que de pé esquerdo. Foda-se. Desceu o cacete na bola e ela entrou no cantinho, raspando a trave. Um golaço, que todos os outros dez espectadores favoráveis ao seu time – o resto dele – aplaudiram com fervor. Uma pena que não tivesse sido num Maracanã lotado, com certeza entraria pros gols mais bonitos da rodada, quiçá do ano. Mas ele sabia que era assim, futebol de várzea, de verdade, não tem torcida quase nunca. Arquibancada menos ainda. Sem falar do uniforme, cada meião de uma cor, um azul, outro preto, o goleiro sem luvas. Nem precisava. Era tanta parafernália naqueles jogos do futebol profissional que ele não suportava nem pensar em uma câmera ali filmando, nem que fosse daquelas Super-8 antigas. Quem tinha visto o golaço tinha, quem não tinha, nunca mais.

Dia de sábado era assim. Quer dizer, ele não fazia gol sempre, muito menos golaço, que lateral-direito só de vez em quando tem uma chance de marcar. Mas todo sábado ele saía de casa carregando o jogo de camisas pra encontrar os outros dez, que quase nunca eram os mesmos, e ir pra algum campinho dos que ainda existiam na cidade. Na verdade, imaginava, essa coisa de dizer que os campos sumiram não é assim tão verdade, as pessoas que não procuram mais direito. Em dois meses eles já tinham conhecido cinco diferentes, só ali pelo bairro. Vai ver ninguém tem mais tempo pra jogar bola, pensou, e também todos esses prédios e carros, condomínios privados, a molecada vive agora é no cimento, futebol de salão. Isso quando não prefere gastar o tempo que tem vendo jogo pela TV, desses profissionais. Algo que ele não entendia. Os narradores eram ruins, cegos, burros. Os comentaristas mais pareciam gravadores, repetiam sempre a mesma coisa, tem que jogar pelas pontas, correr atrás do prejuízo, onde já se viu. Trabalhava tanto pra fugir do prejuízo e vinha uma anta daquelas dizer pra correr atrás. Se fosse um Desafio ao Galo, quem sabe, até ligaria a TV, aquilo sim era divertido. Futebol profissional não, era demais, preferia mil vezes voltar pra casa enlameado por causa da chuva no campo de terra batida do que assistir aquele monte de propaganda em tudo quanto é canto, camisa, meião, chuteira, até na luva do goleiro. É claro que quando criança sonhara em jogar nos grandes estádios do mundo, Maracanã, Pacaembu, quem sabe um San Siro ou um Camp Nou, Monumental de Nuñez. Mas imagina só, dar entrevista pra esses repórteres altamente idiotas, ia acabar passando por antipático. E aguentar jogador estrela então, nem pensar, marmanjo querendo dar uma de madame não era com ele, mesmo. Aquilo não era mais jogo, era um circo, futebol mesmo estava na várzea, tinha certeza.

É claro que, bem, dentro do time ali também existia uma relação de poder, ele sabia. Não era por acaso que o meia-direita habilidoso preferia às vezes não tocar pra ele, mesmo que estivesse livre. Sabia que era considerado inferior dentro do jogo, que cobravam mais dele do que confiavam. E aguentava quieto, porque estava feliz em jogar, apesar de incomodado às vezes, não era pra ser assim. Será que até aqui aquele bando de propaganda sobe na cabeça da meninada, pensava, devia ser isso, eram todos muito novos e muito enfiados em casa, assistindo aqueles comerciais. Mas não era por mal, eram bons meninos, companheiros, mesmo que na hora das faltas cada um deles se sentisse um Beckham. Beckham, vê se pode, olha quem eles tem como exemplo de batedor de faltas, nunca tinham visto um Zico, um Rivelino. É, ele também não tinha, mas seu pai sempre contava, e ele escutava, e via os videotapes da Copa de 70 como quem assiste a uma obra-prima da humanidade, uma das sete maravilhas do mundo. Era aquilo que ele tinha na memória, mesmo que fosse uma memória de algo que ele nunca viveu, pelo menos não presencialmente. Uma história que ele escutou e recriou como sendo sua, e quem pode dizer que não era? Conhecimento se faz assim, de pai pra filho, de história em história, a tal da sabedoria do povo, não com essa coisa de tira-teima, eu vi, pai, eu vi, dez centímetros impedido, nada disso. Imagina se um treco desses mostra que quando o meia-direita devolveu a bola ele estava sete centímetros na frente do último zagueiro? Não, aquele gol era dele, só dele e de quem tinha visto, nenhum aparelho eletrônico podia mais tirar, um a zero aos trinta e cinco do segundo tempo, e que golaço. Colocou a camisa pra dentro do calção de novo, enxugou o suor da testa, olhou pra arquibancada convencido de que qualquer um dos 150 mil espectadores ausentes teria dito que aquele gol tinha valido o ingresso.

E foi marcar o ponta-esquerda.

Carta à M.

Escrevo para te dizer que ontem estiveste linda.

Absolutamente linda.

E que teu sorriso me derrete; teu riso se desfaz.

Teu cheiro, esse me faz.

Mas, calma. Não é esta uma declaração de amor.

Não, não. Não sem teus olhos nos meus.

E, quem sabe, um vinho e velas, e brega, sim.

Aqui, outra coisa. Apenas palavras agradecidas pelo abraço que me deste em março, o mais sincero gesto que tive neste pouco ano – vá, talvez haja um estranho beijo no joelho que empate, tudo bem.

Mas este não trazia teu calor, ou teu carinho.

Então venceste.

De modo que aqui escrevo e que digo: de hoje em diante, caso te contrarie o espelho, ou te chateie a cabeça, não creias; volte, e leia-me, e sejas bela outra vez.

Porque, és.

Tu és.

Beijos – desde março – deste qualquer que adoraria te levar a jantar.

Quem sabe?

Sinceros,

D.

Do afago

Acordava e ele já não estava mais lá, todo dia era assim – em compensação, aquela cachorra espoleta não podia nem ver ela abrir os olhos que já vinha toda cheia de lambida e esfregação, subindo na cama logo pela manhã. Dava um safanão na coitada, que era pra espantar de uma vez as lambidas e a amargura, e voltava a dormir, ou pelo menos tentava. Entre outras coisas, não queria levantar porque sabia que no momento em que levantasse começaria a ser seguida pela casa toda, fizesse o que fizesse, por aqueles olhos pidões, o rabo abanando, as orelhas em pé. Incrível como esse bicho é carente, não podia nem ir ao banheiro, era fechar a porta e começar a escutar aquele chorinho doído, baixinho, que até fazia o xixi sair mais rápido, de culpa. Pior quando resolvia cozinhar, porque aí a cachorra era esperta, sentava em frente à pia e ficava esperando qualquer coisa que caísse, uma casca, um papelzinho, até mesmo cebola ela pegava, mesmo que depois ficasse espirrando enquanto mastigava, era até engraçado.

Passava a tarde sozinha, ela e a cachorra, ela vendo aqueles programas de baixaria e a cachorra pedindo, ora carinho, ora comida, ora atenção, brincalhona que era. Tirava os chinelos pra por os pés em cima do sofá e, quando olhava, lá estava ela, na casinha, roendo a borracha e abanando o rabo. Vinha a bronca, um tapinha que é pra ela aprender, e os olhos da bicha ficavam naquela tristeza, de quem não sabe porque está apanhando. Não se deixava comover, que cachorro é bicho safado, e voltava logo pra TV, pra não perder as notícias sobre aquela artista nova que estava de namorico com o astro da novela das oito, como pode, um cara tão mais velho que ela.

Lá pelas quatro da tarde a cachorra explodia. Não sabia mais se era ela que acostumara com a correria da danada, ou se era a cachorra que tinha se acostumado com aquele horário, esperta que era. Sabia que ela não aguentava a bagunça e logo pegava a coleira, e pronto, iam passear. Não gostava de passear com bicho, onde já se viu, se um ser de outro planeta visse aquilo ia achar que quem mandava era o bicho, que cagava onde queria e deixava pra ela a responsabilidade de recolher. Mas achava mil vezes melhor sair com a cachorra do que ter que limpar cocô de bicho dentro de casa, aquele cheiro ruim, também, essa cachorra come tudo que cai no chão, só pode. Davam uma volta no quarteirão e pronto, ela cansava, de tanto tentar pular nas pessoas e cheirar os outros cachorros, que também passeavam por aquele horário. Vai ver era uma coisa da espécie, um combinado genético feito pra que pudessem todos se livrar da prisão domiciliar e ter um lugar de encontro, na rua, àquele horário. Era forte, a danada, ela tinha que dar uns trancos na coleira a todo instante, que senão a bicha atravessava a rua no lugar errado, ou entrava na garagem semi-aberta de onde acabara de sair mais um carro.

Na volta pra casa, ao menos, sabia que a cachorra ia dormir, não sem antes correr todos os cômodos pra checar seu território, ver se ainda era o mesmo. Cheirava aqui e ali, bebia água, subia na cama, sai daí, bicho safado, descia, encostava no pé do sofá e dormia. Era o sinal, pra ela: estava na hora de fazer a janta, que logo ele ia chegar. Todo dia pensava em fazer algo especial, pra ver se ele se animava, que o trabalho cansa as pessoas. E cozinhava cantarolando uma música qualquer, a última que tivesse grudado na mente, tantas vezes que a ouvira na rádio, na TV, na lojinha de um-e-noventa-e-nove, no supermercado. As rádios pareciam reforçar a sensação de que os dias eram todos iguais, tocavam sempre a mesma música, num totalitarismo sonoro que conquistava palmo a palmo os lugares da mente que não estivessem ocupados com as musiquinhas de comercial. Ou vai ver as músicas que hoje em dia eram todas iguais, vai saber. Acabava que a janta saía quase sempre a mesma.

Perto das sete horas, a panela de pressão assobiava, como um sinal de fábrica: a janta estava pronta, e ele estava pra chegar. Tomava um banho, que era pra tirar o suor e o cheiro de alho, e arrumava a mesa, duas facas, dois garfos, dois copos, dois pratos, tudo era dobrado, um pra cada um, e a cachorra, a essa hora já acordada pelo cheiro que vinha da cozinha, tentando subir nas duas cadeiras, sai daí, bicho safado. Ficavam as duas a esperar, os olhos na mesa e os ouvidos na porta, condicionadas que eram pelo estalar da  fechadura. Às sete e quinze, quando ele entrava, era a cachorra a primeira a dizer oi, com as mesmas lambidas e chorinhos da manhã, que pra bicho as horas não fazem sentido, hora de dormir, de comer, de brincar. Ele recebia a danada com festa, nem sempre muita, mas o suficiente pra fazer com que ela largasse sua perna e subisse no sofá, com a bolinha entre os dentes. Ela, que era humana e sabia se controlar, esperava a festa acabar, sentada no sofá, olhos fixos na TV, disfarçando a esperança de que o beijo dessa vez fosse na boca, e não na testa.

Mas não era, e depois daquele oi gelado ele sempre ia pra frente do computador – era como se os cheiros, da janta, da cachorra e do perfume dela, de banho tomado, passassem em branco pelas suas narinas, cansadas que estavam pelo cigarro, não dele, mas dos outros, que ele era o único que não fumava no escritório. E ficava ali, em frente à tela, continuando o trabalho em casa, vendo as últimas notícias, sem nem perceber que ela, no sofá, enxugava disfarçadamente uma lágrima que, todo dia, insistia em cair, mesmo que a cachorra, àquela altura já no seu colo, se esforçasse em tentar lambê-las, em retribuição ao afago que finalmente recebia.

A festa, com vergonha de entrar, parava na porta, ao som de uma valsinha triste que vinha sabe-se lá de onde.

***

Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto
Convidou-a pra rodar
 
Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo
não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz