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Terror, paixão e esperança: a Copa em três atos

(publicado originalmente aqui)

I.

Era o dia mais quente da história da metrópole desde 1943. Era sábado, dia de assembleia na ocupação. Mas antes da assembleia tinha outra coisa: um debate-bola sobre a Copa do Mundo, a Fifa e os efeitos disso tudo na vida daquela gente.

Aquilo, a princípio, parecia estranho pra ela: como a Copa que vai acontecer na zona leste de São Paulo poderia ter a ver com Osasco? Ainda mais aquele lugar de Osasco, longe, no topo de um dos muitos morros do planalto paulista, quase no pico do Jaraguá?

Chegaram uns moços e moças, mais moças que moços. O mais velho deles não parecia mais velho que ela. O que teriam a dizer? Anunciaram na rádio comunitária da ocupação, desceu muita gente pra escutar. Era sábado, e fazia sol, o maior sol desde 1943, mas pr’aquela gente o sol agora era suave, porque tinham teto. Teto que tinham construído, eles próprios, no terreno particular abandonado há décadas, em dívida com o poder público, enquanto ela e toda aquela gente não tinha um lugar que fosse pra se esconder do calor – e da chuva, e da miséria, e pra receber uma carta de algum parente distante.

Decidiram ocupar meses antes. Luta Popular: era esse o nome do grupo que ajudou na ocupação, na organização, no dia seguinte. Porque claro que viria o terror no dia seguinte – e no outro, no outro e no outro. Terror de “não ter nada garantido”, frase repetida como mantra por ali; terror de jornalistas, desses que tem teto, e comida, e carro, e emprego, que apareciam pra “noticiar” e chamavam de invasão; terror dos homens armados que rondavam o terreno e faziam ameaças.

Mas passaram-se os meses e o terror se dissipou, em parte. Ainda existe, que vida de gente pobre é basicamente saber lidar com o terror o tempo todo, mas não mandava mais nos corpos e mentes das quase 1000 famílias, às vezes mais, às vezes menos, que havia quase 6 meses moravam ali. Sim, moravam, ainda que sem luz e sem água, mas moravam.

E então era sábado, e vieram os moços e moças de um tal Comitê, Popular como a Luta, falar da Copa. E falaram – que a Fifa era quem estava ganhando com a Copa, que pro povo só sobraram as violações de direitos, os despejos, os ingressos caros, as proibições de trabalhar, a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mas que havia luta: no comitê, como na ocupa, centenas se agrupavam pra denunciar, questionar, se opor, mostrar pro mundo todo que a tal da Copa só trazia ganho pra quem já tinha. Quem não tinha, bom, estava como eles: na luta. Popular.

Uma menina ao lado dela perguntou, quanto se gastou com a Copa? Quase 30 bilhões, foi a resposta. E quantas casas, quantos terrenos como aquele, quantos hospitais e escolas públicos dava pra fazer com esse dinheiro? Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa, e esse dinheiro todo pro bolso de quem já tem todo esse dinheiro. Sentiu raiva, quis gritar, quis falar. Por que não? Falou.

– Isso é culpa nossa, sabe porquê? Porque depois quando vem essa gente aqui, beijar nossos filhos, pedir voto, a gente vai e vota neles. Tem que não ir votar! Tem que não ir votar na eleição, nunca mais!

Falava com vontade, com brio, com garra. E contagiava. Muitos aplausos, muita energia no ar, força, de vontade, de lutar. Veio o jornalista, outro, entrevistar, e ela repetiu com a mesma força tudo, e disse mais, e mais. A reunião já se dissipava, que era hora da assembleia da ocupa mais acima no morro, e ela notou que dois jovens daqueles do comitê a observavam com admiração. Chegavam mais perto. E perguntaram:

– Qual o nome da senhora?
– Maria da Paixão, mas em Osasco todo mundo me conhece por Mineirinha.
– Paixão… ótimo nome pra quem luta!
– Não é, minha filha? E falta muita luta ainda…

Falta sim, Mineirinha, falta muita luta. Pra vida toda.

Que, se for vivida com essa paixão, se for como a vida da Paixão da Esperança, não há terror que cale.

***

II.

Era sábado, o mesmo do maior sol desde 1943, e eles chegavam pra trabalhar. A diferença social ali não era tão grande quanto a salarial: os que chutavam bola ganhavam muito muito mais do que os que limpavam os quartos e os recintos, mas vários poderiam ter sido, anos ou meses antes, vizinhos deles. Era treino do Corinthians, no luxuoso e moderno CT construído na última década do time.

Tudo correria normal como o dia antes desse, e o antes desse, não fosse a paixão. De repente, uma centena de gente, a maioria da mesma origem que a maioria dos que ali trabalhavam, cercou o local. Tinham ódio no olhar, aquele tipo de ódio de quem se sente traído, roubado, esquecido, e queriam que alguém pagasse por isso – de preferência, os que chutavam bola. Da paixão, veio o terror.

Começaram uma caçada aos privilegiados, aqueles que tinham o direito de carregar aquela camisa centenária e que, pior, ganhavam muito muito mais que todo mundo ali pra isso. E que, na opinião deles, vinham fazendo isso sem paixão. Se esconderam, esses, com medo de algo que nunca tinham vivenciado tão de perto. De repente o trabalho milionário, de repente a visibilidade midiática invasiva, de repente tudo isso se tornava invisível. De repente, eles não eram mais adulados, eram odiados.

Os quase-vizinhos da recepção e da limpeza não se esconderam. Não podiam. Eram ordens. Ficaram no meio.

O povo entre o povo e o povo, o trabalhador entre a paixão e o terror. Uma mediação que se expressou pela força: esganamentos, correria, medo.

Minutos depois, os jornais noticiavam o fato. “Em momento bizarro, os invasores chegarem a se divertir no CT Joaquim Grava. Alguns pularam na piscina, enquanto outros passeavam tranquilamente, observando a estrutura do local e até puxando papo com funcionários do clube”, disse um portal desses eletrônicos. Bizarro? O que era bizarro? A opulência do CT moderno e vultuoso, propriedade atual daquele time há mais de cem anos fundado por trabalhadores pobres, frente à pobreza daqueles que, por intermédio da única paixão que lhes permite sair da parte mais baixa da pirâmide, resolviam cobrar na força o comprometimento dos jogadores? Ou bizarro era que aquelas pessoas, “invasores, vândalos, bandidos”, fossem capazes das mesmas coisas que o resto, nadar, conversar, sentir prazer ao utilizar um equipamento que não existe para eles na esfera pública?

Era esperto, o tal portal. Era a voz dos de cima. Daqueles que morrem de medo de um dia ter que vivenciar o terror porque uma Paixão dessas qualquer resolveu cobrar na porta de casa pela Esperança que lhes foi roubada. Esperança de sair de baixo, de olhar nos olhos de igual pra igual.

E a invasão daquele sábado vinha em boa hora: era a desculpa perfeita pra reforçar, ainda mais, a repressão. Em nome do futebol. Em nome da Fifa. Em nome da Copa.

Copa pra quem?

***

III.

Era sábado, o sábado mais quente desde 1943. E eu estava lá, entre o Terror, a Paixão e a Esperança, tentando desembaraçar o fio que ligava as tantas bandeiras do Corinthians tremulando na ocupação de Osasco à cobrança violenta dos torcedores no CT de Guarulhos, tão violenta que, sem notar, fazia com que quem tivesse medo, todo o tempo, fosse o trabalhador.

Era sábado. O sábado mais quente desde 1943. E eu fui dormir com uma vontade enorme de gritar.

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O título da perda

Entrei no Pacaembu com a camisa 8 da Democracia. E uma faixa na cabeça. Homenagem, ainda que pequena, ao que poderia vir a ser o título da perda. Nunca a perda do título, que ontem não poderia ser. Nem que tivéssemos que invadir o campo.

Foi difícil ver aquele “derby” num estádio tão fascistamente controlado, onde nem a festa pós-jogo teve espaço sem bombas e cassetetes. O futebol em São Paulo definha, e prova disso é que subi as arquibancadas e demorei uns 15 minutos pra lembrar que era jogo contra o Palmeiras, tão pequena, distante e alheia do resto do estádio estava a torcida alviverde.

O jogo foi um lixo, o futebol esteve de luto. Nada mais digno para o dia de ontem. Sócrates vale mais que 30 brasileiros, 50 Libertadores e 300000 Copas do Mundo. Se tivéssemos na história mais 2 Sócrates que fossem, poderia ser que o futebol de hoje não caminhasse cada vez mais pra onde caminha. Poderia ser, mas não foi e não será.

Curiosamente ou não, Sócrates morreu com 57 anos. Meu pai com 59. Ambos entubados e fazendo diálise. Ambos em dias em que o Corinthians foi campeão. Ambos enormes em minha mente, sempre.

Não cheguei a vê-lo jogar ao vivo, com ou sem a camisa do Corinthians. Mas ontem foi impossível, em meio a um jogo tão ruim, não olhar pro gramado em alguns momentos e viajar imaginando as tabelas com Casão, os calcanhares, o punho levantado.

Foi tocante ver todo o estádio, menos os jogadores do Palmeiras (provando o quanto jogadores como Sócrates fazem falta) com os punhos levantados. Não chorei. Mas doeu, e ainda dói.

Foi sim como perder um segundo pai.

O mais perto de Sócrates que cheguei fisicamente foi ao telefone, convidando-o em agosto para um debate. Foi gentil, embora duro e desconfiado, em dizer que não poderia comparecer. Não disse porquê. Depois, quando entrevistei o zagueiro Paulo André, amigo pessoal de sua esposa, descobri: era a saúde. Dias depois e estava internado por conta da cirrose. Superou, e foi morrer por conta de uma infecção alimentar…

Perdê-lo tão cedo, e num momento em que tão poucas vozes se ouvem contra os absurdos da Copa de 2014, foi um golpe duro.

Uma vez um amigo me chamou de “Mandiócrates”, pela magreza e cabelo parecidos. E pela admiração que tenho por ele. Agora, carregar esse apelido será uma forma de manter a memória dele. Porque, como disse um outro amigo, se depender da diretoria do Corinthians, ele terá menos importância do que qualquer coisa que Ronaldo fizer, basta ver as condolências ridículas do patético Andrés Sanchez.

Não vou desejar que o Doutor descanse em paz. Ele sempre foi de luta. Paz num mundo desigual é para os fracos, os covardes e os mau caráteres. Fique conosco, Magrão, por quanto tempo for possível. Precisamos de ti cada dia mais. Pode ter certeza que, por aqui, faremos sempre o possível pra não esquecer nem desmerecer a tua luta.

E vamos Corinthians, que, como nos ensinou o time capitaneado por você no ano em que nasci, São Jorge é um santo coletivo.

Cem anos sem solidão

Sempre que me perguntam como eu me tornei torcedor do Corinthians, eu conto a historinha oficial: meu pai, carioca, me explicou os times de São Paulo e se ofereceu pra me levar em um jogo de cada. No primeiro, São Paulo 1 x 2 Atlético-MG, no Palestra Itália. Não gostei. No segundo, não lembro onde nem contra quem, fui ver o Corinthians. E acabei não vendo: a torcida me ganhou tanta atenção que na memória ficaram só o som e as imagens trêmulas daquela imensidão de gente cantando e dançando. Ali, sempre digo, me tornei muito mais que torcedor: me tornei corinthiano.

Hoje, quando o Corinthians completa 100 anos, percebo que talvez seja hora de reparar essa versão. Porque não me tornei corinthiano ali, pelos idos de 1989 ou 1990. Foi antes. Bem antes.

Eu não era nascido em 1910, 1914, 1916, 1922, 1930, 1954, 1968, 1976, 1977. Mas hoje, quando eu abro qualquer um dos vários jornais que comprei pra mostrar aos meus filhos o dia em que fiz 100 anos, me vejo nas imagens daquelas épocas e sinto algo estranho, algo talvez indizível. Estou ali, contra as leis do tempo cronológico. Estamos ali, eu, meu pai, minha avó e tanta gente mais que por 100 anos escreveu por linhas diversas uma mesma história. Não essa história por vezes chata e oficial, cheia de números. Uma história de pessoas, de lágrimas, sorrisos, abraços e brigas. Uma história que tem os olhos marejados de meu pai em 1993 tentando conter meu pranto, os gritos de minha vó ao telefone em 2005, o chute no armário que quase quebrou meu pé em 2008, as longas horas de volta de Porto Alegre em 2007, o título em silêncio com meu pai em coma em 2009. Que tem minhas gatas, minha cachorra, minha mãe – sempre – e meus irmãos palmeirenses. Que tem minha irmã são-paulina. Uma história que não dá pra diagramar, analisar ou relatar: uma história de contos, de boca a boca, riso a riso, olho no olho.

O Corinthians não é um clube de futebol, tampouco uma religião, como brincam. O Corinthians é o Corinthians. Um sentimento, como o amor, a tristeza, a saudade. Um jeito de ser, de falar, de ouvir, de cantar, de dançar. O Corinthians não é nada sem mim – ou sem qualquer um dos 30 milhões de corinthianos – e eu não sou nada sem ele. O Corinthians não é família, nem lazer de fim de semana, nem festa. O Corinthians é. Simplesmente é.

Levantei neste primeiro dia de setembro de 2010 sem saber direito como comemorar 100 anos de Corinthians. Como se comemora o fato de ser? Passei o dia remoendo isso. Percebi que é só continuar sendo. Como sempre. Porque o Corinthians é. E nós somos. Como um verbo, um imenso verbo que eu aprendi a conjugar sempre no plural desde que um dia, na Grécia Antiga, um filósofo de nome Sócrates avistou um bando de loucos dançando e cantando aparentemente sem motivo e disse “Vai, Corinthians”.

Hoje, faz 100 anos que nós respondemos: vamos.

Um

Um ano.

Faz um ano.

Quem nunca quis morrer?

***

Quando se é novo, os problemas sempre aumentam. A juventude é como uma lupa ao contrário: quanto menos idade, maiores se tornam as coisas. Aquela pessoa sempre é o maior amor da sua vida. Aquela prova, a mais difícil. O melhor amigo. Os 2 pivetes que tentaram te roubar se tornam 10 brutamontes, e quando você conta a história você não correu. E eles não levaram nada.

De repente, então, o maior amor se vai. O melhor amigo trai. Você perde a prova, e os 2 pivetes tomam seu boné e ainda te deixam um olho roxo, que é pra não poder mentir. Nessas horas, você quer morrer. Todo mundo já quis.

O desejo pela saída fácil da situação difícil é comum. Mas ele sempre passa. Com o ano, vem as derrotas e as vitórias, e a lupa diminui. Você aprende que nada precisa ser tão grande. Quer dizer, uma parte aprende. E pra essa parte o desejo de morrer nunca passa de uma idéia boba que se teve.

A outra parte, bem, a outra parte ultrapassa uma linha que eu desconheço. E muitas vezes tenta morrer mesmo, e consegue. Mas eu não posso falar disso. Não posso falar do que não sei direito como é.

Eu nunca quis, mesmo, morrer.

Bem… quase nunca.

***

Há um ano, o time júnior do Corinthians chegava à final do mais famoso torneio de futebol júnior do país. O jogo começaria 11 da manhã. Exatamente o horário da visita à UTI. Naqueles já quase 20 dias de entubação, meu pai passara por altos e baixos. Algumas vezes chegamos a pensar que sairia do tubo, ao menos. Mas de repente a situação começou a piorar. O corpo humano não aguenta sempre o quanto a gente quer. Mesmo assim, mantínhamos na mente a idéia de que ainda dava.

2009 seria um ano novo mesmo. O Corinthians voltara da Série B. Contratara Ronaldo. Meu pai veria Ronaldo jogar. Nós veríamos. A torcida inteira esperava por redenção, depois de um ano no inferno. E naquele 25 de janeiro, a cidade aniversariava com a possibilidade do Corinthians já campeão.

Fui ao hospital, como quase sempre, com a camisa do time. Aquela, com a foto dele. A bandeira, já estava pendurada dentro do quarto. Diferente do meu costume, estava ansioso pra entrar na UTI. Ver aquele jogo. A UTI tinha TV também. Costumávamos pedir pra deixá-la ligada no canal de esportes, ou de documentários. Meu pai gostava de dormir com a TV ligada.

Minha irmã é são-paulina. Pra ela o jogo não significava muito. Mas significava pra mim, e ela sabia que pro meu pai também, então ela conseguia transmitir alguma solidariedade.

Quando a lista de parentes começou a ser chamada, entrei quase como uma flecha porta adentro. Eu, minha mãe e minha irmã.

Ao entrar no quarto, repeti o que sempre fazia: olhar os monitores. Já sabia lê-los. Eles diziam como ele estava, antes do médico responsável passar.

Naquele dia, meu pai tinha a pressão em 4 x 3 e os batimentos por volta de 30.

Minha mãe e eu nos olhamos. Já sabíamos o que aquilo significava. Minha irmã também.

Foi difícil conter o choro até o médico chegar. Tão difícil como está sendo agora.

Meu pai era uma pessoa comunicativa.

Pelo monitor, ele dizia adeus.

***

A visita do médico foi só pra confirmar o óbvio. Algumas horas. Meu pai tinha algumas horas.

Alguém já experimentou a sensação de ter uma parede desabando sobre?

Àquela altura, eu já tinha deixado a camisa sobre a bancada. Quase esquecido do jogo. Saí do quarto. Não queria chorar na frente da minha irmã. Precisava ligar pra namorada. Caí aos prantos no telefone. Ela voou até o hospital. Naquele meio tempo, lembrei do jogo.

A visita à UTI costuma durar uma hora. O jogo levaria duas. Pedi ao médico responsável para ficar ali até o fim do jogo. Seria nosso último jogo. Fui atendido.

Durante duas horas, pela primeira vez na minha vida, eu quis morrer.

O Corinthians jogava e meu pai ficava mais e mais gelado. Eu esfregava minhas mãos sobre seu corpo compulsivamente. O choro e o riso por estar de novo vendo um jogo com ele se intercalavam. Eu queria que ele falasse. Qualquer coisa. Que levantasse e gritasse com os jogadores. Que fingisse ser um zumbi e de repente nos desse um susto. Tentava passar meu calor para ele. Sentia o cheiro de seu sangue, as veias rompendo. Em silêncio, pedia, por favor. Que aquilo desse certo. Foda-se, queria que a minha energia vital passasse pra ele. Não me importava.

O Corinthians venceu aquele jogo. Fez dois gols. Nos dois gols, abracei meu pai.

Nos dois gols, meu pai me abraçou.

***

Na sala de espera, junto ao coffe shop, esperávamos. Os amigos chegavam, aos poucos. Esperávamos, e eu queria estar lá dentro. Odiava a medicina por não me deixar estar lá dentro. Meu pai ia morrer sozinho. Esperar sempre foi uma merda. Ainda mais quando se espera o que não se quer e quando não se quer esperar.

Quem, puta merda, quem gosta de esperar?

Eu sempre tive todos os meus documentos na carteira. Minha mãe ficava louca. Pra quê? Eu não sei pra quê. Mas eu nunca perdi uma carteira na vida. Ela ficava no bolso, atrapalhava na hora de sentar. Então nessas horas eu a carregava na mão. Ficava vulnerável. Sentado no sofá daquele coffe shop, olhando pra televisão, eu tinha a carteira nas mãos. Minha mãe me chamou. Fui até ela. Quando percebi, tinha perdido a carteira.

Obviamente, naqueles momentos, a razão tinha ido pro espaço. Não sabia mais nem se tinha trazido a carteira. Eu, minha mãe, minha irmã e minha namorada começamos a buscá-la. No carro, no coffe shop, no andar de baixo. Eu achei que tinha esquecido no quarto da UTI. Na verdade, eu sempre fui muito ansioso. Aquilo era pretexto pra talvez poder entrar no quarto para procurar e ver meu pai. Toquei a campainha. A enfermeira atendeu. Claro que eu não pude entrar. Merda de medicina. Ela foi olhar. Voltou. Disse que não estava. Dei mais uma volta e nada. Tinha certeza que estava lá. Na verdade, minha certeza era de que precisava entrar lá. Toquei de novo. Outra enfermeira veio. Repetiu o mesmo procedimento. Enquanto ela procurava, minha mãe ligou. Quase ao mesmo tempo, ela me dizia que achara a carteira e a enfermeira dizia que não achara nada mas que a médica precisava falar com a minha mãe.

A carteira, que minha mãe trouxe correndo, estava vazia. Com documentos, mas sem dinheiro. Não tinha muito, mas estava vazia.

A enfermeira, que voltou com a médica em pouco tempo, também estava vazia. Seu olhar era morto.

Meu pai era morto.

Minha mãe e minha irmã se abraçaram aos prantos. Eu abracei minha namorada, que chorava. Eu não. Ainda precisava fazer uma coisa.

Do corredor, liguei para meu tio, e dei a notícia. Seu irmão mais velho não tinha aguentado.

Foi exatamente essa a frase: ele não aguentou, tio.

Ele não aguentou.

***

Alguém tinha que ir até em casa buscar uma roupa para o velório. Fui eu. Acho que minha irmã também. Minha mãe ficou cuidando do corpo.

Antes de ir, fui ver meu pai. Não vi nada. Aquilo sobre a mesa do necrotério não era ele. Talvez seja um tabu falar disso, mas foda-se. Meu pai não existia mais. Não existe mais.

No caminho para casa, choveu muito. Como vem chovendo esse ano, também. Daquelas chuvas que parecem lavar. Eu queria ter tomado aquela chuva. Não tomei.

Esse ano, tomei todas as chuvas que pude até agora. Que merda é uma chuva? É água. Dizia uma banda de amigos, nada mais tranquilo que a água. Nunca entendi gente que foge de chuva. Como se fosse ferir.

Hoje, quase nada consegue me ferir. Às vezes, eu gostaria que conseguisse. Que conseguissem.

Em casa, escolhemos uma roupa que ele gostava de vestir. Meu pai tinha costumes pra se vestir. Quem não tem? Pra sair ou não, adorava roupa velha. Adorava se sentir confortável. Eu também. Ele ficava em casa sempre com um calção velho e rasgado. Demos alguns calções novos pra ele. Nunca usou. Hoje estão no meu armário.

Voltamos ao hospital, entregamos a roupa ao serviço que resolvemos contratar para desinchar ele e colocar formol. Cacete, formol. Aquilo era mesmo só um corpo. Um objeto. Cheio de formol, vestido como meu pai.

Quando terminaram o serviço, tinham exagerado um pouco. O corpo fazia biquinho. Puta que pariu. Meu pai ainda teve forças pra fazer a gente rir uma última vez.

***

Toda relação humana deixa algum rastro. Uns mais fortes, outros menos. Alguns quase imperceptíveis. Quando uma acaba, depende de como lidamos com esse rastro, do que ele nos deixou, pra que a relação seja lembrada ou esquecida.

Meu pai deixou muitas coisas. Uma, em especial, interminável: a paixão pelo Corinthians.

Na cremação de meu pai, dois hinos de futebol foram ouvidos.

O do Flu, num arranjo em violino, abriu a cerimônia.

O do Corinthians, tocado no saxofone, fechou.

Porque no coração do meu pai cabiam muitas paixões. Muitas pessoas. E muito poucas mágoas.

Pai: obrigado.

Você sempre será o meu timão.

“Salve o Corinthians
O campeão dos campeões
Eternamente
Dentro de nossos corações

Salve o Corinthians
De tradições e glórias mil
Tu és o orgulho
Dos desportistas do Brasil

Teu passado é uma bandeira
Teu presente, uma lição
Figuras entre os primeiros
Do nosso esporte bretão

Corinthians grande
Sempre altaneiro
És do Brasil
O clube mais brasileiro”

Seis

Fiquei com a impressão ontem de ter estragado o texto com aquele poema final. Que nem é meu, diga-se, só adaptei. Não que eu ache o poema ruim, mas ficou meio fora de lugar.

Fora de lugar. Quem nunca se sentiu fora de lugar?

***

“No tengo bandera ni nación
no hablo tu idioma, soy un animal.
Vivo y muero en cualquier lugar
tengo sexo con quien quiero, si se da

Porque yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral

Con el corazón abierto voy
corro el riesgo si me quieren lastimar
veo el aura, leo tu intención
tengo instinto y se cuando debo ladrar

Por que yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral.
No puedo entender a esta humanidad
seres racionales y el poder los hace matar

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque amo como perro
y te huelo como perro
y te cojo como perro, soy un perro

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque siento como perro
mis amigos son los perros
y me junto con los perros soy un perro
soy un perro…”

Quando eu era bem pequeno, meus pais me levavam pros comícios do PT. E pras bocas de urna, também. Os dois faziam parte dos movimentos de esquerda que acabaram gerando o partido. Não me lembro de muita coisa, só de bastante vermelho. Desde criança minha cor preferida é vermelho. Vai ver é por isso.

Mais tarde um pouco, comecei a me interessar por música. Não pagode, axé, essas merdas. Música. Entrei pelo rock brasileiro farofa, Titãs, Skank. Depois fui pro rap de playboy, Gabriel O Pensador, e pro rap de verdade, com Racionais. Me interessava mais as letras do que a música. E nesse caminho encontrei o punk.

O punk sempre rendeu discussões inflamadas com meu pai. Ele tinha na cabeça aquela imagem de punk fazendo merda, sendo estúpido, quebrando, cuspindo, enchendo o saco. E eu entrei no punk por outro caminho, mais moderno, mais pela atitude do que pela música ou pelo visual. A atitude punk era ter orgulho de estar fora de lugar. Eu estava fora de lugar. Mesmo com meu pai, que defendia idéias trotskistas quase sempre, enquanto eu me interessava pelo anarquismo, mais livre, menos programático. Não fosse isso, não fosse esse conflito, e talvez o punk tivesse se tornado pra mim só a estética. Mas pra contrariar meu pai tive que ir atrás de informação, explicar aquele A na jaqueta, o cabelo ridículo, a roupa militaresca rasgada. Também porque os amigos dos meus pais eram todos dessa esquerda que se fodeu com a ditadura, então os encontros de família e amigos sempre traziam conversas de esquerda, e pra participar – e adolescente virgem deslumbrado sempre quer participar – eu precisava saber contrariar.

Algo que eu considero uma das coisas mais realmente revolucionárias do punk é a liberdade que ele te dá pra fazer parte dele. Parte de qualquer parte dele. Você pode tocar bateria sem nem saber o nome das peças. Organizar shows sem saber como ligar o amplificador. Ser a banda, o público, o produtor, tudo ao mesmo tempo. No lugar dos lugares estritamente delimitados, das tarefas restritas e restritivas, o caos de se fazer, de ter que fazer tudo por conta própria. Porque era isso ou não era. Não era punk. Ao invés de depositar dinheiro e confiança em organizações estranhas com estruturas definidas, o punk te encorajava a construir a sua própria. Falo no passado porque hoje já não sei mais, não participo tanto. Não que seja algo de época, não sou tão velho e recalcado ainda pra dizer que punk era o que eu fiz e o que eu vivi e não o que há agora. Mas talvez as oportunidades, as portas de entrada pra coisa toda sejam outras, tenham mudado, e esteja mais difícil de se encontrar quem passe pela porta do fazer você mesmo tudo, tudo mesmo.

Nunca houve tanto espaço e tanta condição material pra se ter show punk e ao mesmo tempo tão pouca gente fazendo a coisa acontecer lá de baixo. Vai ver o punk ficou fora do lugar de menos.

***

Lembro da primeira vez que vi aquela massa negra ensurdecedora. Lembro perfeitamente. Ali virei corinthiano. Ali resolvi tocar bateria.

Diferente da maioria das histórias de futebol, eu não torço pro time do meu pai. Meu pai aprendeu a torcer para o meu. Carioca, Fluminense desde pequeno, se casou com uma paulista e se viu frente ao problema quando o filho nasceu: pra que time o moleque vai torcer? Resolveu da forma mais democrática que conhecia, herdeira do passado de militância. Me apresentou aos times da cidade e me levou em um jogo de cada. Não precisei ir além do segundo. Nem ele, aliás.

Numa coisa meu pai destoava dos comunistas irritantes que conheci na universidade: ele adorava futebol. Adorava mesmo. Contava histórias muito boas, de Castilho, goleiro mítico do Fluminense; da vez que se viu abraçando loucamente uma torcedora que estava com o namorado botafoguense vendo a final no estádio enquanto este se sentava pra lamentar o gol sofrido no último minuto; de Pelé; da Copa de 58 ouvida no rádio, com 9 anos; de vários jogadores que a mídia esportiva faz questão de não lembrar. Me levou a jogar bola desde cedo. Bola e tudo que envolve futebol. Uma das coisas que mais me arrependo é de ter perdido nas mudanças de casa um saco enorme com times de botão que ele guardava desde a infância. Eram botões feitos por ele mesmo, com casca de côco, tampas de relógio, fichas de ônibus que se usava na época. Todos tinham nome.

Desde pequeno, desde 1990 pra ser mais exato, eu decidi que seria jogador de futebol. Vi minha mãe chorando com o gol de Cannigia nos tirando da Copa do Mundo e prometi vingança. Naquele mesmo ano, o Corinthians levou o Brasileirão, com Neto, Ronaldo, Wilson Mano e Tupãzinho. Eu não precisava daquilo, a torcida já tinha me conquistado. Mas ganhar aquele título e daquele jeito com certeza ajudou a solidificar meu corinthianismo e meu jeito de jogar bola dando muito mais importância pra vontade e pra raça do que pra habilidade. Ironicamente, o amigo mais próximo de meu pai tinha feito o caminho inverso: palmeirense, paulistano, casou com uma flamenguista. Os filhos, todos palmeirenses, meus quase-irmãos, um pouco mais novos que eu, cresceram com a geração Parmalat, que montou supertimes no rival. Não por acaso, jogavam muita bola, muita mesmo. Jogam ainda. Mas nenhum de nós virou jogador. Eu porque não era bom o suficiente. Eles porque tinham escrúpulos o suficiente.

Meu pai era um filho da puta com futebol. Em 1986, com o Palmeiras na final do Paulistão contra a surpresa Inter de Limeira, a torcida alviverde tinha certeza de que a fila, que já chegava aos 10 anos, iria acabar. Esse amigo do meu pai também. Deu Inter. Morando no mesmo prédio, meu pai não teve dúvida: desceu até o 3º andar. Chegou lá e a conterrânea carioca abriu a porta já começando a rir, mas implorou por bondade, como se carioca conhecesse bondade na hora de cutucar o rival no futebol. O amigo estava prostrado em frente à TV, desolado. Meu pai resolveu que “só queria uma xícara de açúcar pra Célia terminar o bolo”. A carioca jogou o jogo segurando o riso, sabendo que não podia ser só aquilo. E não era: fechada a porta, açúcar na mão, da janela do corredor meu pai gritou: “CORINTER!”. Não contente, datilografou depois uma carta “consoladora” em que usava todos os nomes dos jogadores da Inter em trocadilhos. Nunca enviou. Teve piedade.

Não que o amigo não merecesse. Em 1984, na primeira rodada do campeonato, o jornal televisivo anunciava que o rival do Fluminense estava preocupado com o ataque tricolor. Era o Casal 20, Washington e Assis. O amigo palmeirense ridicularizou, meu pai ouviu calado. Meses depois, calhou de haver uma festa em casa no dia da final. O Flu levou o título. E o amigo teve que escutar o hino na vitrola pelo menos umas 20 vezes no repeat.

O dono santista da banca de jornal também sofria. Era o Santos perder e meu pai ligava pra banca. O cara atendia e ele não dizia nada, só soltava um risinho sacana. Anos e anos a fio. Se o santista descobriu, sempre fingiu que não sabia de nada. Meu pai era um dos melhores clientes. O dinheiro venceu mais uma vez.

Lembro também de que eu tinha um amigo são-paulino, um gordinho folgado canhoto, habilidoso. Ia lá em casa e meu pai repetia o mesmo ritual que tinha com todos os meus amigos: tirar um sarro, deixar o cara se sentir à vontade. Depois de um tempo, os moleques ficavam ousados, começavam a tirar uma com o Fluminense, que nos anos 90 não teve lá muitas glórias. O camisa 9 tricolor, Ézio, era sempre alvo de piadas. Meu pai então fazia os moleques cantarem o hino do Flu. Um teve que repetir cinco vezes do lado de fora de casa até ter permissão pra entrar.

Esse amigo gordinho acompanhava meu pai e eu quando ele me levava pra jogar. Morávamos já na Lapa, e o Palmeiras era bem perto; mas o coração era alvinegro, e o Corinthians ficava na zona leste. Meu pai resolveu a questão se associando aos dois clubes. Eu ia pro Palmeiras de dia de semana, depois da aula, várias vezes com o gordinho como convidado. Jogava futebol de salão. Certa vez fui assaltado na entrada: levaram meu uniforme da escolinha. Nunca fiquei tão pouco puto de ter sido roubado.

No Corinthians, jogava futebol de campo, aos fins de semana. O gordinho lá também ia de convidado. Um dia se esqueceu e foi com um calção do São Paulo. Achamos que pudesse acontecer algo, mas ninguém falou nada. Essa geografia do clube duplo levava meu pai a exercitar sua raiva do rival. Comparava sempre as situações vividas dentro dos dois clubes. O Palmeiras não deixava meu primo entrar no clube com uma camiseta do Flu. No Corinthians, o gordinho ia de calção do São Paulo. No Palmeiras, um diretor berrava pra seu filho de 8 anos quebrar a perna do rival num jogo de futsal.  O Corinthians era o time da Democracia Corinthiana. Não deve ter sido uma escolha difícil pra quem militou contra a ditadura. Sem falar que a trimensalidade no Corinthians era mais barata que a mensalidade no Palmeiras.

Mais velho e doente, começou a ter que ficar sempre em casa. Assistia documentários e mais documentários. Fazia questão de me contar os mais interessantes, o que me irritava às vezes. Era uma alma comunicativa presa em um corpo já débil. No intervalo dos documentários, havia Chaves, as séries de comédia e os programas esportivos. Todo dia então vinham as mensagens de texto pelo celular: “Vai passar na TV um filme chamado Seres Rastejantes; deve ser sobre o Palmeiras…”, ou “Apelido do Cristiano Ronaldo em Portugal: Puto Maravilha!”, ou ainda “A goleira da seleção paraguaia é da altura da sua mãe, hehehe… ela deveria tentar o futebol pebolim”.

Quando eu era mais novo, tinha asco da idéia de ter um filho. Não queria. Não nesse mundo.

Hoje, a cada mensagem de texto que eu não recebo mais, cresce a minha vontade de ser pai.

***

“Pai
02-Dez-07 19:22

A mente aberta, a palavra certa e o coração esperto!
Força, Timão! Glória Timão!!!”

Uma vez, em 1991, entrei de mascote com o time, mãos dadas com Ronaldo. Eu ainda queria ser goleiro. Meu pai chutava uma bola de plástico pra que eu defendesse. A enorme janela da sala da casa em Pirituba era o gol.

Dezoito anos depois, pisei o gramado outra vez. O estádio estava tão vazio quanto meu coração. Os gols nem sequer tinham rede. Carregava meu pai nas mãos. O deixei ali, no banco de reservas, pra sempre. O hino, cantei em silêncio.

Hoje tem jogo. Vou lá.

Ver meu pai.

Presente de aniversário

Completo hoje meu primeiro aniversário órfão. Mas não, esse não será um texto lamentando isso.

Ao contrário.

Será um texto tentando aprender a lidar com isso.

Pra ajudar, como sempre, há o Corinthians.

Que completou 99 anos dois dias antes de mim e que, fazendo escadinha, teve jogo ontem em casa, contra o Santos.

Um Corinthians que não é mais o mesmo de três meses atrás, é verdade. Mas que continua tendo a mesma raça e espírito de Corinthians que o Mano Menezes recuperou desde que chegou por estes lados.

E como aniversário a gente comemora em casa e com quem se gosta, fui ao Pacaembu mais uma vez encontrar a “família”.

Dadas as circunstâncias, era um jogo diferente, pra mim. Mais inflexivo, reflexivo, contemplativo. De tal forma que não me importou muito o gol do Santos aos 5 minutos do segundo tempo. Alguma coisa me dizia que aquele jogo era meu – nosso, pai.

Aos 13, perdemos Mano, expulso por reclamação. Olhei para o banco do time mandante no Pacaembu e percebi o vazio que tomava conta daquele espaço. Em campo, o time refletia a perda, e relembrava 2007, com bicos para o alto para um desesperador Souza, jogando com seu pai internado em estado grave, tentar fazer o que até hoje não fez: resolver.

Mirei mais uma vez o banco de reservas do Corinthians e percebi uma movimentação diferente. Talvez fosse o álcool das duas latinhas de cerveja consumidas de estômago quase vazio antes do jogo, não sei. Mas o fato é que eu via subir do pequeno jardim atrás do banco uma estranha nuvem, que formava uma imagem, ainda indecifrável. Súbito, passei também a escutar uma voz familiar, gritando, esbravejando com o time. E então tudo fez sentido:

meu pai assumira o comando.

Das cinzas ali esparzidas meses atrás, erguia-se a memória de um gigante em minha vida.

Alguém que me ensinou a torcer apaixonadamente, a pular e gritar nas vitórias, mas também a aprender com o sofrimento nas derrotas.

Que me ensinou que um estádio de futebol comporta muito mais que partidas. Celebra festas, encontros, desencontros. Comemora a vida.

O Corinthians percebeu que o comando, agora, não vinha mais do banco, vinha das arquibancadas. Da história. Da mística. E a fez valer.

De virada, no finalzinho, com um gol chorado e outro improvisado – mas de uma improvisação perfeita.

Daquelas que fazia meu pai correr à janela e soltar um raro “goool!”, numa alegria meio contida, de quem sabe que festa, mesmo, só depois do apito final.

A nação alvinegra, em êxtase, explodia em mais um “parabéns pra você”.

Mas eu não conseguia me mexer.

Abraçado à bandeira, olhava para o banco. Para a história. A minha história.

Que corria alegre à minha frente, em preto e branco, desde o primeiro bolo de aniversário, com a velinha que eu quis apagar com a cabeça.

O jogo acabou, e tomei o rumo de casa. Por mais que casa, desde 25 de janeiro, nunca mais tenha significado o mesmo.

Nos arredores do Pacaembu, ao som do buzinaço alegre da família que comemorava, a voz que tantas vezes tive ao meu lado quando era difícil até mesmo respirar me dizia, tranquila:

“Parabéns”.

E me fazia adentrar meu 28º ano de vida com aquela sensação de quem sabe algo que ninguém mais pode saber, algo só seu: meu pai ganhou esse jogo pra gente.

Meu melhor presente de aniversário.

Abraço de campeão

Eu tentei, juro que tentei.

Porque pensei nisso a semana toda.
O ano todo.
Desde 25 de janeiro.
Queria um título de pulos e abraços e sorrisos.
Mas não deu.
Quando Sálvio Spínola finalmente trilou o apito final, fui às lágrimas sem contenção.
Como uma criança.
Como em 1990.
2007, Série B, meu pai, tudo junto.
Saí do estádio com dor de cabeça. Exausto.
Feliz, e ao mesmo tempo sentindo falta.
De um abraço que sempre esteve aqui com o Corinthians.
Comigo e com o Corinthians.
Um abraço eterno.
Em nossos corações, em nossos corpos, em nossas memórias.
Ali, às 18h07 de 03 de maio último, eu sabia que mais de 25 milhões de pessoas estavam em êxtase.
Que os jogadores ergueriam a taça em instantes.
Que a torcida rumaria para a Praça Campos de Bagatelle.
Mas meus olhos não conseguiam sair do banco de reservas.
O mesmo, pai, onde você descansa.
O um a mais sempre que o placar anuncia o público presente.
O um a menos sempre que há jogo. Ou vida.
Faltou pouco para que eu pulasse o alambrado…
Domingo, o Corinthians ganhou seu 26° título paulista. O primeiro que assisti de forma invicta.
Nenhuma derrota.
Domingo, eu ganhei meu primeiro título órfão.
Nenhum abraço.
E todos eles juntos.
Domingo, voltei a ser criança.
E saí correndo pelas ruas de Pirituba, gritando “é campeão, pai!”.
Somos.
Invictos… e inseparávei

Porque pensei nisso a semana toda.

O ano todo.

Desde 25 de janeiro.

Queria um título de pulos e abraços e sorrisos.

Mas não deu.

Quando Sálvio Spínola finalmente trilou o apito final, fui às lágrimas sem contenção.

Como uma criança.

Como em 1990.

2007, Série B, meu pai, tudo junto.

Saí do estádio com dor de cabeça. Exausto.

Feliz, e ao mesmo tempo sentindo falta.

De um abraço que sempre esteve aqui com o Corinthians.

Comigo e com o Corinthians.

Um abraço eterno.

Em nossos corações, em nossos corpos, em nossas memórias.

Ali, às 18h07 de 03 de maio último, eu sabia que mais de 25 milhões de pessoas estavam em êxtase.

Que os jogadores ergueriam a taça em instantes.

Que a torcida rumaria para a Praça Campos de Bagatelle.

Mas meus olhos não conseguiam sair do banco de reservas.

O mesmo, pai, onde você descansa.

O um a mais sempre que o placar anuncia o público presente.

O um a menos sempre que há jogo. Ou vida.

Faltou pouco para que eu pulasse o alambrado…

Domingo, o Corinthians ganhou seu 26° título paulista. O primeiro que assisti de forma invicta.

Nenhuma derrota.

Domingo, eu ganhei meu primeiro título órfão.

Nenhum abraço.

E todos eles juntos.

Domingo, voltei a ser criança.

E saí correndo pelas ruas de Pirituba, gritando “é campeão, pai!”.

Somos.

Invictos… e inseparáveis.

Inesgotáveis.

Como um abraço de campeão.