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Dez vezes sete

Hoje essa coisinha completa 10 anos.

É estranho parar pra pensar nisso. Lembrar de quando adotamos ela, Camila Ikuta e eu, nem desmamado tinha ainda. A Camila pegou ela na mão, cabia quase inteira na palma, toda quietinha. Conquistou. Passamos pela veterinária, falamos que ela parecia ser tranquila, e escutamos uma risada.

– Tá vendo essa orelha caída? Então, ela tava mamando na mãe e mordeu, aí a mãe atacou ela. Coloquei uma tala mas vai ficar meio caída pra sempre.

Preta, esse foi seu primeiro charme. Ou o segundo, já que os olhos azuis são sempre a primeira coisa que as pessoas reparam. E perguntam.

– Nossa, ela é cega?
– Você coloca lentes nela?
– Que bonita, é de verdade esse olho?

Logo nas primeiras semanas percebemos que de calminha só tinha a cara faceira mesmo. Destruiu um sofá inteiro, comendo o assento. Destruiu dois colchões. Comeu o aparelho da Eveline Oliveira. Destroçou o boné do Paulius Grigaitis. E junto com os cães com quem conviveu, o Lumpen e a Carmela, e as gatas que ainda a acompanham, primeiro a Branca, que chegou junto com ela, depois a Boquita, a Zica e agora a Jurema, acabou com muitas coisas mais.

Um vidro de saquê – espalhado pela casa toda.

Uma cartela inteira de anticoncepcionais – que rendeu uma lavagem estomacal.

E unha (sim, unha), alho, cebola, cocô de gato e um sem número de objetos, inusitados ou não.

Preta, você conheceu meu pai. Conheceu minha vó. Conheceu tanta gente e tanta coisa que já não existe mais que eu nem consigo lembrar direito da minha vida sem você. Antes de você.

Me esquentando na cama nos dias frios.

Lambendo minhas lágrimas nos dias tristes.

Correndo sem coleira quando deu pra te levar pra lugares públicos sem coleira.

De tudo isso, o que nunca vou conseguir esquecer na vida é o seu olhar. De uma cumplicidade inexplicável. Não humana. Extra humana. Companheira, mesmo.

Aniversário não significa nada pra você, eu sei. Você corre e promove o caos hoje igualzinho fazia quanto tinha 2 meses. E você nunca vai ler isso aqui, e mesmo que eu lesse pra você (não, não vou fazer isso, nem cantar parabéns) não ia significar nada.

Escrevo, então, pra mim mesmo. E pro mundo. Pra dizer que você faz tanta parte de mim que, com a idade na casa dos dois dígitos, me faz começar a ficar agoniado ao imaginar como vai ser quando você não estiver mais aqui.

Dizem que cada ano de cachorro valem 7 anos humanos, então você tá entrando na casa dos 70. Setenta anos comigo. E eu agradeço por cada um deles.

Feliz aniversário, menina. Estarei aqui pra ti até o fim.

O seu. O meu. Ou o nosso.

Adeus

Já tive perdas na vida. Uma avó e um pai. E doeu, dói até hoje. O caminho até o velório, o percurso até o enterro, o vagar até a cremação, foram todos momentos quase infinitos de espera pra dizer adeus. Em todos eles, porém, a morte já estava dada. O adeus era inevitável, coletivo, e não tinha sido decidido por mim.

Hoje o Abu se foi. Foram 15 anos de carinhos, lambidas, latidos e risadas. Em todos eles, o ato de abrir a porta do apartamento era instantaneamente seguido por um outro tipo de espera, pelo rabo balançando, o latido, a corrida emocionada, os pulos. O abrir a porta tinha vida, e a vida era alegre e saltitante.

Mas vida que é vida termina. E a do Abu também teria que terminar. Eu sempre tive cachorros, mas nunca tinha perdido um nas minhas mãos. Fazia já alguns anos que os latidos e lambidas vinham sendo gradativamente substituídos por ganidos e dores. Sabíamos que um dia chegaria a hora. A hora do fim, a hora do adeus.

Hoje, quando acordei e caminhei para o veterinário, de certa forma me vi repetindo uma vez mais o mesmo trajeto. Mas alguma coisa era diferente. Porque eu sabia que chegando lá a morte não estaria. Ainda haveria vida, e uma vida que não era a minha.

Como decidir pela existência de outro ser?

Tem horas em que não há muito espaço pra dúvidas. Algumas decisões precisam ser sem pensar demais, relativizar, criar esperança. Mas isso não torna nada mais fácil.

Abu viveu quase metade da minha vida comigo. Mais da metade, se contarmos apenas a parte da vida da qual eu tenho memórias. Era uma parte de mim, da minha mãe, da minha irmã. A última parte viva do meu pai, ou pelo menos do tempo em que todos nós existíamos juntos.

Quando cheguei na sala do veterinário, o mesmo nestes 15 anos, Abu quase não se movia mais. Era pele e osso, respirava devagar. Não tinha mais músculos, nem pra fechar os olhos – passou a última noite acordado, ao lado da minha mãe, a mais fiel das companhias que qualquer ser vivo pode ter. Enxuguei as lágrimas que já tinham corrido pelo caminho. Era a hora.

Do último beijo, o último abraço, o último afago. Do último carinho.

A vida é sempre cheia de perdas. E cada perda é um eterno recomeçar. Nunca é fácil aprender a viver sem, mas todo vazio é um espaço para construir. Cada vez que alguém se vai, o coração aumenta mais um pouquinho. Que é pra caber as coisas novas, misturadas com as memórias velhas.

“Não aprendi dizer adeus”, diz uma música brega. Cantarolei ela na cabeça por todo o caminho.

O meu até o veterinário.

E o do Abu até a memória.

Sabe, Abu?

Acho que a gente nunca aprende.

Obrigado, meu amigo. Até sempre.

abu

Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

Olhos de cão – V

Passei em frente a uma casa ontem, a cortina entreaberta. Dentro, um sofá vazio, um cobertor, e a luz da televisão esporrando pelo cômodo escuro. Foram menos de cinco segundos observando, mas o suficiente pra me dar vontade de entrar naquele sofá. De voltar pra casa, de fazer absolutamente nada deitado na cama. Uma sensação estranha subiu pela garganta, parecia com vontade de chorar, saudades, sei lá, engoli e continuei andando. Dois minutos depois tinha esquecido.

Hoje assisti a um vídeo desses na internet com o discurso final de Chaplin no Grande Ditador, ilustrado com cenas relacionadas à estupidez humana. Dentre tantas, um soldado, aparentemente de retorno de alguma guerra, sentado na calçada enquanto seu cachorro fazia uma festa que só quem tem cachorro entende. Corria, girava e sentava no colo dele, lambendo seu rosto, abanando o rabo. A cena tem menos de três segundos, mas se estendeu pela minha mente por horas. Tantas referências automáticas, sensações, depressões e sentimentos suicidas com tão pouco. Guerra, cachorros e a mais simples das alegrias possíveis; senti muita saudade da minha cadela e seu olhar procurando abrigo em mim.

Aí uma amiga me disse que está perdida. Que acorda com tanto pra fazer e só consegue ouvir música e beber cerveja. Ofereci a ela um mapa. Mas não precisa, ela já tem a bússola: só vale a pena fazer aquilo que não sobe pela garganta, não entope a goela e não explode em lágrimas.

Como um cachorro correndo atrás do rabo: não vai alcançar, mas não precisa, só quer correr, rodar e cair. De preferência no colo do dono sortudo que a guerra, qualquer uma delas, ainda não matou.

preta

Olhos de cão – IV

Hoje o Lumpen foi castrado. Estranho.

Acordei antes do despertador. Não sabia como ele reagiria. Na hora da coleira, eu sabia, era o Lumpen, o cachorro-lumpen, o caos. Liguei pra carona que consegui, sem resposta. Me preocupei um pouco. Resolvi sair com ele, dar uma volta. A carona ligou, iria atrasar um pouco. Sem problemas. Liguei no veterinário e sem problemas.

Andamos pelo quarteirão de casa, aproveitei e passei no banco. Lumpen entrou comigo, quis latir pro vidro. Nem oito da manhã direito. Fui rápido, e saímos. Mais uma volta e a carona chegou. Enfiei ele no carro, era a primeira vez dele num carro. Achei que ia vomitar, não vomitou.

Chegamos na clínica, na zona norte. Perto da avenida Imirim. Lembrei do Lipe e da minha adolescência, estudante, depois punk, primeiro jogando bola, depois também ensaiando e tocando, andando por aqueles lados. Há um certo charme na zona norte, me agrada, moraria lá, sim.

A clínica tinha uma fila em direção à recepção, todos com o papel da prefeitura do programa de castração gratuita e cães e gatos a tira colo. Tentando controlá-los, que bicho nem sabe o que é fila. Bicho não faz fila, fila é coisa de gente. Gente burra.

Descobri como era o esquema e vi que demoraria. Dispensei a carona, entrei na fila. Lumpen puxava, puxava, puxava. Difícil fazer ele ficar quieto, mas depois de um tempo deitou. Levantava a cada bicho novo que entrava aquela salinha de 7m x 5m, mas puxava cada vez menos. Enquanto esperava, eu percebia o protocolo: primeiro a ficha, um barbante com número. Lumpen deixou de ser Lumpen, agora era 18. Dezoito.

Quando chamado, foi pesado, e recebeu uma pré-anestesia. Saímos e em pouco tempo seus olhos ficaram pequenos, como o de outros cães. Os gatos não via, todos dentro de caixas, que gato foge de gente e de agulha mais que cachorro. Muita gente não gosta de gato, diz que é traiçoeiro, que foge; entretanto nós humanos fazemos fila pra que bichos virem números e tenham tolhidas sua libido, seus órgãos reprodutivos, impedindo definitivamente a razão principal de sua existência: reproduzir.

É pro bem deles, o discurso é esse. Na verdade não. É pra nossa conveniência. Pra que deixem de ser tão ariscos, tão dominadores, marcar território. Pra que não entrem no cio, não busquem o cio. Castrando evita-se a piometra e o câncer de mama nas fêmeas; doenças proliferadas porque insistimos em ter bichos. Ter, possuir. E castrar.

Não tenho vergonha nenhuma em dizer que gosto mais de cães do que de gente. Nem acho que isso é sintoma de depressão, fase da adolescência, solidão ou carência. Cães são animais simples e paradoxais na sua relação conosco. Gosto de cães porque entendo o que fazem, porque fazem, quando fazem. Gosto de cães porque não tenho que me explicar pra eles. Gosto porque é simples, é afeto, afeto puro. Achar isso brega, ridículo ou depressivo é que deveria ser considerado um problema.

Lumpen desabou aos meus pés. Sua hiperatividade desapareceu por uma meia hora, enquanto voltava a ser Dezoito a espera de sua vez pra deixar de vez de ser Lumpen. Aquilo me incomodava, dava um nó na garganta. Todos aqueles bichos, e pensar que naquela clínica era assim todo dia. Castra-se pra evitar novos bichos; entretanto, cada um daqueles donos de animais domésticos – houve um tempo, não faz muito, que tínhamos escravos domésticos; aliás, família deriva de famulus, grego ou romano ou latim, foda-se, pra escravo doméstico – amava seus bichos, tinha outros bichos e provavelmente ainda terá mais alguns. Um garoto de seus seis ou sete anos passeava com um filhote de seus vinte ou trinta dias no colo. Chegaria sua vez de ser castrado. Chegaria a dele de ser seu dono. Não hoje.

Dezoito foi chamado outra vez. Levantei seus dezenove quilos e meio no colo pra colocar sobre a mesa de metal. Segurei sua cabeça contra o meu peito pra que a anestesia fosse aplicada na veia da pata direita dianteira, e em segundos ele estava desacordado. Outras duas injeções lhe foram aplicadas, sua cabeça tombou, a língua de fora, como morto. Eu nunca, nunca, nunca nessa vida serei capaz de sacrificar um animal. Saí da sala ofegando, lágrimas contidas. Saí da clínica pra respirar. A fila tinha aumentado.

Atravessei a rua e entrei num boteco. Pedi um pão e um café, tentei tirar a mente dali. Sabia que a castração era segura (pra mim), mas a imagem de Lumpen desacordado e de língua de fora me incomodava. Voltei pra clínica, passeava aflito entre outros donos e donas que roíam as unhas. Uma mulher se referia a nós como pais, e aos bichos como filhos; não pude deixar de pensar na idéia de castrar um filho. Lumpen não é filho, nunca será, nem meu nem de ninguém, porque bicho não tem esse tipo de relação com ninguém. Mania idiota de ser humano inseguro, transformar todo tipo de relação no tipo mais comum que conhece, a família, e ao mesmo tempo o mais escravizador e opressor possível. A base de tudo, dos ataques aéreos à Gaza, dos estupros diários pelo mundo, da domesticação de outras espécies, da castração alheia pra evitar problemas. Que espécie, somos.

Alguns minutos depois Dezoito voltou a ser chamado. Agora não era mais Lumpen, era eu. Recebi instruções de cuidados pós-operatórios, comprei remédios. Entrei na sala onde os cães e gatos adormecidos aguardavam a vez pra voltar a ter nome. Quer dizer, nós é que temos seus nomes, eles irão morrer sem saber o que é isso. Falo dos outros e humanizo as relações igual. Patético.

Na gaiola, Lumpen está de olhos abertos, mas sem forças. Lembro de mim mesmo quando tirei baço e vesícula aos nove anos, acordando na sala de pós-operação sozinho, sem forças pra levantar ou gritar que estava acordado, vivo, sozinho. Me viu e balançou o rabo com toda a pouca força que tinha. Impossível, desculpem-me, impossível mesmo não lembrar de meu pai.

Pedi à enfermeira um colar pra que ele não tentasse mais tarde arrancar os pontos. Peguei-o com todo o cuidado do mundo, pesado, e saí desnorteado daquela sala como quem sai de uma trincheira carregando um amigo ferido pela guerra. Atordoado mesmo, a mulher do “pais e filhos” me disse que estava segurando ele errado, poderia abrir o ponto. Me desesperei um tanto, um rapaz me ajudou a segurá-lo direito. Fui pra fora da clínica, Lumpen no colo, e a carona não tinha chego ainda. Entrei de volta, sentei no chão com Lumpen no colo. Tinha vontade de chorar. Já gritei muito com Lumpen, dei esporro, briguei, e toda vez que tenho que fazer isso (tenho?) me sinto mal. O que ele estaria fazendo de errado? Punimos os cães por simplesmente serem cães. Castramos pra que não produzam outros cães que irão querer ser cães, e pra que parem de mijar no pé da importantíssima mesa da sala, ou do sofá. Que espécie, que espécie.

Voltei e pedi pra deixá-lo mais um pouco lá dentro, “dez minutos pro carro chegar”, mas a máquina de castrações não pára, a fila anda e seu lugar já foi tomado. O rapaz da ajuda anterior me olha e oferece lugar no banco. Coloco Lumpen deitado e me agacho de cócoras pra que ele se assegure de que estou ali. Que crime cometemos todos os dias ao fazer outras espécies acreditarem que somos seus guardiões, sua segurança, seu porto seguro. Não sabemos nem o que fazer com a nossa.

A carona chegou e no carro Lumpen já tentava voltar a estar de pé. Ainda nada. De princípio tentei contê-lo, depois pensei que tinha dor como eu tinha tido tantas vezes e deixei que ficasse como quisesse. O corpo é dele, o conforto é dele. Comentei com o carona que tinham instalado um microchip nele, ele me disse que leu em algum canto que nos Estados Unidos há gente se auto-instalando microchip por medo de sequestro. Não gosto de me repetir, mas porra, que merda de espécie somos? Que merda?

Cheguei em casa e subi com Lumpen pra lavanderia. Limpei, trouxe sua casinha, comida e água. Não pode descer escadas nem subir sofás. Aos poucos ele voltou da anestesia. Quieto, olhar triste, adormecido, dolorido. Parece não entender o dia de hoje, o que aconteceu. Parece não, não entende: entendesse, e ao invés de buscar asilo no meu olhar fugiria dele pra todo o sempre.

Quando operei, e foram várias vezes, tive companhia no quarto do hospital. Já fui companhia algumas vezes igual. Então desci pro meu quarto, peguei colchão e travesseiro e me instalei ao lado da casinha de Lumpen.

Dizem que cachorros não choram como humanos, porque seus olhos não lacrimejam.

Mentira, Lumpen. Quando você me olha, são suas as lágrimas que vê correr.

Que idiota. Que espécie.

Mutilei um cachorro. Um cachorro que ouso chamar de meu. Que me obedece e responde aos meus comandos, e enquanto escrevo se aninha junto às minhas pernas trocando calor.

No fundo, no fundo, entendo tanto quanto ele o porquê.

Da ausência

(dedicado a Isabella Targas; Isa, a ausência fica, mas a dor um dia se transforma naquele peso necessário pra gente poder medir direito o tamanho das coisas)

É na ausência, de fato, que de fato sentimos. Sentimos vazios, sentimos o vazio.

Zazá era uma cachorrinha alegre, uma poodle toy que não parava quieta. Daquelas que tremem no colo quando carregadas e afagadas. Era tocar o interfone da casa e, já no elevador, ouvir os latidos vindos do 6º andar, tão possante eram suas cordas vocais.

Zazá carregava a alma daquela casa. Tinha vindo parar ali pra fazer parte da história enorme de uma mulher de, naquele então, 80 anos de idade. E muitas coisas, causos, pessoas e sentimentos pra contar. Zazá fazia a ponte entre a História daquela mulher e a Geografia de uma cidade que cada vez mais lhe permitia menos participação. E assim supriam mutuamente as carências uma da outra. E ambas do resto da família.

Mas, envelhecemos. É lei. É fato. É natural. Tão natural quanto não é viver numa sociedade isoladora. Desoladora.

Cachorros não sabem viver sozinhos. São incapazes. Cachorros precisam de convívio, contato e troca. Humanos, bem, fingem saber como ser sós, mas em última instância, aquela que importa mesmo, são bem piores do que cachorros.
Então viviam ali naquele apartamento, a mulher de 80 e poucos anos e a cachorra de 180 batimentos cardíacos por minuto.

Acontece que as coisas naturais nem sempre querem saber de apegos e sentimentos. E é natural que cachorros vivam menos que humanos, em média. Assim como acontece de pessoas, humanas ou não, morrerem inesperadamente.

Dormiam, a mulher, já com 90 anos, a cachorra, com seus quase 10, e a Cris. A Cris era uma daquelas milhões de pessoas que o mundo insiste em tratar como paisagem, mas que no fundo são o coração de tudo. Era já de madrugada quando ouviram a cachorra ganir. De dor, mesmo. E tentaram acudir, como podiam, o desespero final daquele ser tão pequenino que carregava consigo uma alma tão gigante. A alma da casa. O rompante de vida dentro daquela caixa de concreto inanimado.

Do alto do abismo existente entre o que é possível e o que desejamos, fizeram toda a força do mundo para que Zazá se sentisse confortável. Fizeram por ela o que cada olhar carente, cada lambida no rosto e cada rabo abanado haviam feito pelas duas naquele tempo todo. Mas Zazá partiu.

Fora de casa, é mais difícil percebermos com tanto tato mudanças espaciais significativas. Dentro, cada cadeira fora do lugar chama a atenção. Nossa casa, assim como os espaços que vivenciamos, se transformam aos poucos em lugar. Lugar seguro, confortável. Assim era aquela casa: um lugar seguro e confortável. Como toda casa de vó deve(ria) ser.

No dia seguinte, então, foi muito difícil visitar minha vó. Foi difícil entrar no corredor daquele prédio e não ouvir latidos, abrir a porta e não ter unhas a arranhar, nem barulho, nem lambidas, nem aquele desespero natural de cachorro que faz expandir qualquer coração que tenha minimamente a capacidade de cuidar e querer cuidar da carência alheia. Foi difícil ver aquela senhora tão enorme chorar por Zazá, por não poder ter feito mais.

Ninguém poderia, vó.

O apartamento continua, você ainda está de pé. A cada latido ausente, sei que o coração bate um pouco menos. O meu também. O silêncio do elevador traz lembranças indeléveis, é verdade. O mundo como está é feito para perdermos mais do que ganharmos. “A gente parece que fica mais duro, mas na verdade não é isso, é só menos desesperado”. A ausência pesa, e faz lembrar do título do livro famoso: a insustentável leveza do ser. Zazá era insustentavelmente leve. Assim como o mundo como está é insustentavelmente pesado.

Nada mais justo, então, do que chorar a cada perda, pra depois poder sorrir por toda a lembrança.

Vó, na sua casa, todos somos Zazá. Todos latimos de felicidade a cada pedacinho de colo que você nos dá. Desde, e para, sempre.

Mesmo que insustentavelmente.

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.”

(José Luís Peixoto)

Antes da chuva

O poder da água…

Ocorre que íamos ao viaduto, a cachorra e eu, e mal havíamos virado a esquina. Logo após as cadeiras do bar, ali, embaixo da janela da sala. Da minha sala. Da minha casa, da minha rua.

Três pessoas vinham correndo em nossa direção. Um adulto, dois garotos. Pequenos, não mais que onze ou doze anos. Roupas velhas, rasgadas, ar tenso em seus semblantes. Tinham pressa, eles, pressa que não combinava com seus trajes largados de quem caminha pelo bairro – como eu. Não olhei muito, não sou daqueles que encara, não. Mas se aproximavam, chegavam perto, e acabei que vi de relance um brilho.

Do estômago de um dos garotos, reluzia uma faca, maior que seu antebraço, que ele tentava camuflar sob a camiseta.

O adulto tinha uma mochila em mãos, semi-aberta, e falava aos berros aos garotos que revistassem a carteira.

Minha carteira, pensei. Vi que não, já tinham uma carteira em mãos. Melhor. Estava sem nada, eu. Só a cachorra.

Passaram por nós. Nem nos viram. Nem sequer notaram que meu cérebro, sem tempo hábil de processar aqueles poucos segundos, havia me obrigado ao medo.

Vinte metros à frente, um homem de cabelos grisalhos observava. Vi que meneava a cabeça, em negação, como que se lamentasse. Perguntei o que houve.

– Me roubaram – disse, calmamente. Calma a mente.

– A mochila?

– Não… tudo.

Eu, sem muita ação. Balbuciei, “nossa”, e segui, rumo ao viaduto.

Pensando na calma grisalha daquele homem roubado. Quantas vezes?

Pra chegar à calma, muitas, presumi. Mas, na minha rua?

Era a – minha – primeira vez…

Então veio a chuva, a alma lavada e o esquecimento. De tudo, um pouco.

Não é uma escolha.

Ocorre que viver – o centro, a cidade, o mundo – é cada dia mais aprender a esquecer.

Minuto a minuto.

Mais um – menos um?