Arquivo do mês: dezembro 2017

A voz de Deus

Pego o ônibus, serão poucos pontos. Está um tanto cheio. Trânsito.

Perto de mim, um homem começa uma conversa.

– Não dá mais pra andar em São Paulo, toda hora trânsito. Qualquer dia vai parar tudo.

Penso em um velho romance distópico. Meu livro preferido. O homem continua.

– Eu tenho um fusquinha azul. Mas nem gosto de sair com ele. Ficar parado.

Não há interlocutor. Ou melhor, somos todos.

– Eu tenho 51 anos. Não tenho filho. Não tenho mulher. Deus também não teve mulher. E daí?

Algumas pessoas, tal qual cachorro, esticam as orelhas pra escutar.

– Não faço sexo. Não gosto de prostituta. Quem gosta de prostituta tá tudo errado. Elas passam doença. Mesmo se usar camisinha. Passam doença.

Pra onde ele estará indo?

– Eu tenho 51 anos. Sou virgem. Não tenho mulher. Queria sair de São Paulo, ir pro interior. Mas quem cuida da minha mãe aqui? Não dá.

De repente, ele para. Talvez esperasse alguma resposta. Não veio.

– Esse trânsito, tudo parado. Toda hora isso. Qualquer dia para tudo. Eu tenho um fusquinha azul.

Outro dia eu conversava com amigos sobre a quarta dimensão. A dimensão do tempo. Enquanto esse homem falava, eu pensava no tempo. Da vida dele, da vida da cidade, da nossa vida.

Ele passou do tempo? Ou o tempo é que passou por ele?

O ônibus enche mais. Ele deixa de falar. Desaparece, mais um na massa que volta do trabalho pra casa em uma quarta-feira de sol. Mas, de alguma forma, a voz dele, a voz de Deus, que não teve mulher e tem um fusquinha azul, que odeia prostitutas mas se preocupa com a mãe, ecoa pra sempre aqui dentro da minha cabeça, me fazendo pensar.

Queria sair de São Paulo, ir pro interior. Mas quem cuida da minha mãe aqui? Não dá.

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