Nota de cancelamento

Gostava de pegar o metrô à tarde porque quase sempre estava vazio. Bom, pelo menos era o que considerava vazio. De vez em quando precisava ir em pé, mas ao menos não tinha ninguém bloqueando a porta na hora de descer. Odiava ter que empurrar, tocar nas pessoas pra poder sair. Sentia-se preso, toda vez pensava que não ia dar tempo, a porta ia fechar em cima. Naquele dia, dava pra ir a pé, mas como era de tarde resolveu ceder à preguiça e entrar na estação.

Na catraca, percebeu que não tinha nenhum segurança atento. Esperou alguém passar e se enfiou junto pra passar pelo bloqueio sem pagar. “Catracar”, diziam as pessoas. A prática era mais comum do que parecia, mas ainda muito menos do que deveria ser, com aquele preço absurdo da passagem. Claro que depois de fazer ficava um friozinho na barriga, como se alguém estivesse olhando. E se fosse pego? Tinha bilhete, nem precisava ter feito aquilo. Apressou o passo até a plataforma. Só ficou tranquilo quando entrou no vagão.

O trajeto era curto, só três paradas, mas, com lugares vazios, resolveu sentar. Escolheu um daqueles bancos sozinhos, pra não correr o risco de sentarem do seu lado. Gostava de estar só no transporte público, era um momento de inflexão, colocar os fones de ouvido, mexer no celular, ler um livro. De manhã e no fim da tarde nunca conseguia, precisava estar atento, desviar de tudo e de todos, ficar perto da porta, aquela coisa. Baixou os olhos pro celular e rolou a barra até não ter mais nenhuma atualização. Faltavam duas estações.

Olhou para a porta e percebeu que um homem grande, troncudo, olhava de volta fixamente. Ele carregava uma pasta preta na mão. Desviou o olhar por alguns segundos e tornou a espiar. Os olhos do homem seguiam os seus. Achou estranho, sentiu medo. Resolveu voltar ao celular e tentar não prestar atenção. Não conseguia. Toda vez que olhava de canto de olho o homem ainda estava lá, fixado nele.

Começou a ficar visivelmente perturbado. Batia a perna o chão, o celular na perna, e segurava a mochila com força. O que fazer? Esperar o homem descer? Mas aí ia perder a parada, teria que ir e voltar. Não, não fazia sentido, aquilo era só paranoia. Mas… ele ainda está olhando! O que ele quer? Será um segurança? Me viu catracar, está esperando eu descer pra vir atrás? Deve ser isso. Ah, dane-se, não vou perder minha estação. Chegou, vou descer.

Saltou do banco e foi em direção à porta, o homem ainda olhando fixamente. Chegou perto dele e parou. O homem pareceu projetar o corpo no seu caminho. Deu dois passos para trás. Olhou ao redor, ninguém estava percebendo aquele estranho balé entre os dois. Pensou em gritar, mas e se fosse um segurança? Melhor não. Ouviu o sinal de fechamento de portas. Baixou a cabeça e sentou de volta.

Dobrado sobre a mochila, olhando para os próprios pés, pensava no que fazer. Não queria voltar a olhar pra porta. Devia ir até a última estação? Atravessar o vagão, de forma a ficar entre duas portas pra conseguir escapar? Esperar o homem descer? Estava paralisado, não conseguia decidir nada. E se eu ficar aqui olhando pra baixo, esperando um pouco, quem sabe ele desiste, vai ver nem está mais aí, de repente já desceu, foi chamado pra outra ocorrência. Não quero olhar, não vou, não… olhou. Ele ainda estava lá. O que eu vou fazer? O que eu posso fazer?

O desespero começava a tomar conta. Pensou em se entregar. Mas seria mesmo alguém do metrô? E se fosse pior, um louco, um assaltante? E se ele quisesse seus órgãos, ou se fosse daqueles caras que injetam coisas de seringas contaminadas? Ou um… estuprador? Cada possibilidade era pior do que a outra, e ele se remoía, apertava os braços, mordia os lábios de nervoso. Começou a ficar com raiva. Fechou o punho sem perceber e bateu com a mão no banco. O barulho chamou a atenção de algumas pessoas. Franziu as sobrancelhas, meio com vergonha, mas ainda bravo. Lembrou de um programa de defesa pessoal que viu na TV, dizia pra não se deixar intimidar pelo agressor. Resolveu encarar ele de volta. Concentrou forças, respirou pausadamente e levantou a cabeça. Olhou para o homem.

Ainda o encarava. Com a pasta na mão.

Encarou de volta. De repente aquilo não parecia sério, parecia uma brincadeira de quem piscar primeiro perde. Fez a pior cara de mau que conseguia. Tentou transmitir a raiva que sentia. Mas o homem era um monolito. Sua expressão não mudava. Continuava olhando fixamente pros seus olhos, sem desviar por um segundo. Sentiu um misto de piada e terror na garganta. Baixou os olhos e riu. Aquilo era ridículo, não podia estar acontecendo. Decidiu mudar de lugar.

Atravessou o vagão. Àquela altura, o trem já estava quatro paradas depois da sua. Mais duas e seria a parada final, e aí começaria a voltar. Sentou-se o mais longe que pode daquele homem, que continuava a olhar pra ele, mesmo que de longe. De onde estava, pelo menos, não conseguia se sentir tão intimidado. De vez em quando olhava de volta pra ver se ele ainda estava ali. Sempre estava.

Resolveu esperar o metrô voltar pra descer na parada certa. Tentou se acalmar pra deixar o tempo passar. Colocou música no celular. Na estação final, viu as portas abrirem. Olhou pra porta de antes, agora lá longe, e tomou um susto: o homem não estava mais. Tinha descido! Seria o fim daquela insanidade? Devia descer também? E se ele estivesse na plataforma? Melhor ficar, agora é só esperar a volta e descer na minha parada. Nem acredito! Ele desceu! Em êxtase, tinha vontade de dar um grito. Ouviu o sinal de portas fechando. Estava livre. Olhou fixamente pra fora, esperando o fechamento. No último segundo, viu o homem na plataforma. O mesmo rosto, a mesma pasta.

Movendo-se para voltar ao trem.

Entrou exatamente pela porta em que ele estava.

Encurralado novamente, não conseguia mais pensar. Não podia ser real. Como escapar daquele homem? Precisava tentar alguma coisa.

A raiva se transformou em agonia. Tomado por um impulso, desceu na estação seguinte; o homem desceu junto. Teve medo de tentar sair da estação e ser capturado. Voltou ao trem antes das portas fecharem; o homem voltou junto.

Era isso, estava preso naquele vagão, guardado por aquele homem duro e sua pasta preta. Olhou para o celular: sem sinal. A bateria quase no fim. Sentiu suas forças indo embora. A hora do rush se aproximava. Sentou no banco do fundo e recostou a cabeça na janela, observando as pessoas indo e vindo, saindo e entrando do trem. Perdeu-se no tempo. Já não sabia a quantas horas estava no metrô. De quando em quando buscava pelo homem, que sempre estava lá.

Depois de muitas idas e vindas de ponta a ponta naquela linha, adormeceu. Acordou sem saber que horas eram. O homem ainda lá. Queria chorar, precisava sair daquela situação. Daquele trem, daquela estação. Pensava em desistir e deixar acontecer o que quer que fosse pra acontecer. O vagão já vazio novamente, devia ser noite. Lembrou que em algum momento o metrô tinha que fechar. Seria esse o fim da história?

De repente, dois seguranças do metrô entraram no vagão. Devidamente fardados. Caminharam até ele.

– Senhor, o senhor precisa descer.
– Mas… o quê?
– O senhor tem que descer. Vamos, levante.
– Eu quero descer, mas não posso. Tem um…
– Pode sim.

Foi pego à força pelos dois braços.

– Não, espera! Espera!!!
– Senhor, por favor. Nossas câmeras apontam que o senhor já andou esta linha de ponta a ponta 7 vezes. Está dentro do metrô a mais de 6 horas. O senhor precisa descer.
– Eu quero descer! Faz tempo!!! Mas aquele homem na porta me encarando, ele…

Olhou para a porta.

– Que homem, senhor?

O homem tinha sumido.

– Eu.. eu juro! Ele estava ali, está me perseguindo desde a tarde!
– Senhor, por favor, ou você desce por bem ou por mal.

Sem entender nada, carregado pelos braços, foi colocado pra fora do vagão. Os seguranças pediram para que saísse da estação. Ainda com medo, observou tudo. Nem sinal do homem. Teria sido um delírio? Movimentou-se em direção à escada rolante. Os seguranças voltaram pra dentro do trem. Exausto, agachou junto aos degraus, enquanto sentia o movimento mecânico da escada subindo. Mais uma vez quis chorar, não sabia se de tensão ou alívio. No fim da escada, sentiu uma sombra. Olhou pra cima.

Era ele.

O homem esperou ele se erguer. Ele se jogou contra a parede e ouviu a pergunta:

– Evandro?

Não conseguia responder nada.

– Você é o Evandro, certo?

A voz do homem era surpreendentemente tranquila. Passava alguma calma.

– S… sou… por quê?
– A Janete pediu pra avisar que ela não vai poder jantar com o senhor esta noite. Ela sente muito e quer remarcar pra amanhã. Manda também beijos.
– Ja… Janete???
– Sim. Preciso que o senhor assine pra mim a confirmação de recebimento.

O homem mostrou um papel. Dizia “nota de cancelamento”. O texto era exatamente o mesmo que ele tinha acabado de ler.

– Como… confirmação?
– Sim, senhor.
– Mas… porque só agora?
– Não tenho permissão pra interferir na viagem, senhor. Aqui, uma caneta.

Meio no automático, ainda sem entender muito, olhou pro papel. Rabiscou um arremedo de assinatura.

– São duas vias, senhor – o homem mostrou a outra folha embaixo, idêntica.

Assinou novamente.

– Essa fica comigo, essa é do senhor.

Viu o homem dobrar o papel em dois, guardá-lo na pasta preta cheia de outros papéis, olhar pra ele novamente nos olhos e dizer:

– Boa noite, senhor.

Não conseguiu responder nada.

O homem desceu a escada rolante e parou na plataforma. O próximo trem chegou. O homem entrou no vagão do meio, pela primeira porta, encostou-se junto à ela e começou a encarar uma adolescente de cabelo azul, que mascava chiclete bem em frente a ele. O sinal de fechamento de portas soou mais uma vez. E o trem seguiu viagem.

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