Arquivo do dia: maio 16, 2017

Dez vezes sete

Hoje essa coisinha completa 10 anos.

É estranho parar pra pensar nisso. Lembrar de quando adotamos ela, Camila Ikuta e eu, nem desmamado tinha ainda. A Camila pegou ela na mão, cabia quase inteira na palma, toda quietinha. Conquistou. Passamos pela veterinária, falamos que ela parecia ser tranquila, e escutamos uma risada.

– Tá vendo essa orelha caída? Então, ela tava mamando na mãe e mordeu, aí a mãe atacou ela. Coloquei uma tala mas vai ficar meio caída pra sempre.

Preta, esse foi seu primeiro charme. Ou o segundo, já que os olhos azuis são sempre a primeira coisa que as pessoas reparam. E perguntam.

– Nossa, ela é cega?
– Você coloca lentes nela?
– Que bonita, é de verdade esse olho?

Logo nas primeiras semanas percebemos que de calminha só tinha a cara faceira mesmo. Destruiu um sofá inteiro, comendo o assento. Destruiu dois colchões. Comeu o aparelho da Eveline Oliveira. Destroçou o boné do Paulius Grigaitis. E junto com os cães com quem conviveu, o Lumpen e a Carmela, e as gatas que ainda a acompanham, primeiro a Branca, que chegou junto com ela, depois a Boquita, a Zica e agora a Jurema, acabou com muitas coisas mais.

Um vidro de saquê – espalhado pela casa toda.

Uma cartela inteira de anticoncepcionais – que rendeu uma lavagem estomacal.

E unha (sim, unha), alho, cebola, cocô de gato e um sem número de objetos, inusitados ou não.

Preta, você conheceu meu pai. Conheceu minha vó. Conheceu tanta gente e tanta coisa que já não existe mais que eu nem consigo lembrar direito da minha vida sem você. Antes de você.

Me esquentando na cama nos dias frios.

Lambendo minhas lágrimas nos dias tristes.

Correndo sem coleira quando deu pra te levar pra lugares públicos sem coleira.

De tudo isso, o que nunca vou conseguir esquecer na vida é o seu olhar. De uma cumplicidade inexplicável. Não humana. Extra humana. Companheira, mesmo.

Aniversário não significa nada pra você, eu sei. Você corre e promove o caos hoje igualzinho fazia quanto tinha 2 meses. E você nunca vai ler isso aqui, e mesmo que eu lesse pra você (não, não vou fazer isso, nem cantar parabéns) não ia significar nada.

Escrevo, então, pra mim mesmo. E pro mundo. Pra dizer que você faz tanta parte de mim que, com a idade na casa dos dois dígitos, me faz começar a ficar agoniado ao imaginar como vai ser quando você não estiver mais aqui.

Dizem que cada ano de cachorro valem 7 anos humanos, então você tá entrando na casa dos 70. Setenta anos comigo. E eu agradeço por cada um deles.

Feliz aniversário, menina. Estarei aqui pra ti até o fim.

O seu. O meu. Ou o nosso.

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