Oito por cinco

Oito é um número par.

Sempre gostei do número oito, embora seja mais afeito aos números ímpares, a ponto de sempre pedir ímpar numa disputa de par ou ímpar. Oito era o Ezequiel, depois descobri que tinha sido o Sócrates, e daí em diante adotei o oito como um número meu, o número da minha camisa.

Sendo um número par, oito é divisível por vários outros números. Dividindo oito por dois, temos quatro: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Dividindo oito por nós quatro, temos dois: ele e ela, minha irmã e eu; elas duas, meu pai e eu. E dividindo oito por ele mesmo, ficamos com um, que é ímpar.

Meu pai era uma pessoa ímpar.

Pai, hoje, depois de oito anos sem você, eu percebi que se a gente coloca o oito na posição horizontal ele fica parecendo o símbolo do infinito. Pode parecer, e na verdade é: nesses dias de aniversário eu me torno uma pessoa ainda mais brega do que as musiquinhas que você cantava pra mãe, pra Lu, pro Abu e pra mim. E olhando pro oito deitado, como você gostava de ficar na sala, fingindo que dormia pra pregar alguma peça na gente, me bateu uma sensação de que você não morreu e nem nunca morrerá. Só deitou pra sempre e desceu naquele buraco frio da sala de cremação da Vila Alpina, indo parar diretamente no infinito das nossas memórias cotidianas, das suas risadas e piadas ausentes e das tristezas que não encontrarão mais seus braços pra descansar.

Quando eu acordei hoje, ouvi de longe seu violão tocando uma música pra gente no fim de ano na praia, e é claro que era Dia Branco: “se você vier, pro que der e vier, comigo”. E lembrei que precisava te contar uma coisa.

Faz um tempinho, pai, que eu deixei de usar a camisa oito nos jogos. Troquei pela cinco, número ímpar como você. Acho que você, a Lu, a mãe e o Abu sabem muito bem porquê.

Te amo.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Depois, o Abu se foi. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos nosso cachorro. Cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde comemos minha mãe e eu, mas estarão sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

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