Sete anos

Pai,

queria que você estivesse aqui. E você não está. Essa é uma constatação dura, de todos os dias, mas que bate mais forte quando o mês é quatro e o dia é vinte e quatro.

A vida é uma bagunça, pai. Está uma bagunça. Tenho mudado muito de decisão sobre que caminho seguir, às vezes em questão de horas. Tudo muda e eu desenho um futuro novo a cada vez. Em todos eles, eu queria que você estivesse aqui. Queria que a Lu estivesse aqui, e o Abu, e as avós. Queria que fosse Pirituba e a She-Ra tivesse dado a luz, e eu fosse lá no quintal com vocês aprender sobre a vida e a morte. Queria que fosse a casa da escadaria e que a gente pulasse o muro pra jogar bola, e que fôssemos naquela tarde o melhor time do mundo porque ganhamos dos outros moleques que por lá corriam.

O nome disso é saudade, eu sei. Essa coisa que nunca se vai, que nunca nos abandona. Tenho muita saudade. Sinto muita saudade. Saudade é de sentir ou de ter, pai? Eu também não sei. Na dúvida, tenho. E sinto.

Ontem a minha mãe me deu um pouquinho de você de presente, assim, despretensiosamente. Umas cordas velhas de violão que ela achou em casa. Não dei muita bola na hora, mas quando cheguei em casa coloquei elas do lado do seu violão, que eu nunca aprendi a tocar, e fiquei relembrando das coisas. Fiquei na saudade, sem medo, que saudade traz lembrança gostosa e vontade de dar abraço. Saudade é bom. De ter e de sentir.

Veio hoje e eu dormi bem pouco. Acordei cedo, passei o dia fazendo coisas que me levaram pra longe de ti. Digo, pra longe do pensar em ti. Pra longe um pouco da saudade. E foi bom, porque a vida é uma bagunça, pai, e se saudade é bom e dá vontade de dar abraço, nesse exato momento o seu faz muita falta. Um abraço, ou um beijo, daqueles que você dava de surpresa, quando lembrava de demonstrar carinho aleatoriamente. Era estranho, porque de repente, mas era bom, pai. Era bem bom.

Queria mesmo que você estivesse aqui. Meu melhor amigo, um que não encontrei nunca mais.

Queria. E você não está.

Então eu sentei aqui, com o violão na mão, e tentei tocar qualquer acorde. Saiu esse texto. Em silêncio, sem lá, nem si, nem sol.

Nem dó.

Feliz aniversário.

São Paulo, 24 de abril de 2016.

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