Noventa e cinco

Minha florzinha querida,

esperei passar o seu dia pra te escrever. É que foi um dia estranho, sabe, vó. Tinha um monte de gente na rua, gente que não viveu nenhuma das duas ditaduras pelas quais você passou, gritando que queria intervenção militar. Queria muito que eles tivessem estado comigo numa daquelas conversas na sua cozinha, quando você me contava do medo na época do Getúlio, de fugir pro Paraná, de como você ficava desesperada da minha mãe se meter em militância clandestina em pleno regime militar, da época em que você temia pela vida do meu avô, que era jornalista. Eu não vivi nada disso, vó, mas a sua voz sempre foi de respeito pra mim, e tudo que eu escutei guardei pra vida toda.

Assim como guardei as comidas todas, e as outras histórias, as alegres. Do rio Tietê limpo, de nadar nele, de ir pra Bariloche e perder todas as malas. Do Corinthians, vó. O Corinthians ganhou ontem, 3 a 0, e eu lembrei de você gargalhando naquele aniversário da minha irmã em que saía gol atrás de gol e a gente meteu 7 a 1 no Santos.

O dia ontem também foi cercado de mulheres, vó. Aquelas mulheres enormes que tive o privilégio de nascer no meio, as muitas mães, tias, professoras e terapeutas que sempre tiveram os braços abertos pros seus netos. Passei o seu dia na casa delas, pensando, claro, em vocês jogando buraco, e de quantas vezes te vi naquela mesa com os olhos compenetrados nas cartas. Eu funciono assim, vó, preciso estar nos lugares pra ir reativando as memórias deles, e as suas também.

É claro que senti sua falta. Talvez mais do que nunca. Um dia antes, passando de carro em frente ao seu apartamento, falei pro meu amigo que dirigia, “minha vó mora aqui”, e logo em seguida percebi que não mora mais. Não sei como é tomar um tiro no peito, vó, mas duvido que o buraco seja maior. Esse que eu tô falando agora é outro buraco, e ele não é bem assim um jogo de cartas. Não é como se o que fizesse falta fosse só aquele ás pra fazer canastra, sabe. A falta aqui é outra, a dimensão é outra. Você faz muita falta, vó, e falando em fazer falta, se a minha vida fosse um volante, já tinha tomado cartão vermelho, viu.

Mas o carro seguiu e a vida continuou, vó, e eu lembrei que aprendi com você a não deixar os buracos serem maiores que a gente nunca. No fim, todo buraco é vazio, que nem o jogo, e a gente preenche ele como quer, né. De repente sai uma canastra, mesmo que suja. E veio o seu dia e eu tentei encher o buraco com o seu sorriso, porque, como diz aquela música, vó, apesar dos idiotas, eu amo você, e por mais que eles estivessem em grande número pela cidade, não chegaram nem perto do seu tamanho.

Porque vó, era pra você ter feito noventa e cinco anos ontem. Noventa e cinco! Eu nem sei se consigo dimensionar o que é tudo isso, dá quase três vezes a minha vida. Se eu chegar perto disso, vó, espero que seja com um pouquinho-que-seja da sua energia, da sua compreensão e da sua lábia. Minha mãe me diz que você era uma espanhola brava, mas eu acho que te conheci depois disso porque, vou te dizer, com o seu jeitinho ali quietinho no seu canto você sempre conseguia o que queria – inclusive quando o que queria era não comer o brócolis que você precisava comer.

Fui dormir pensando nisso, e na sua cervejinha, e em como você sabia curtir essas coisas pequenas da vida. Peguei no sono te observando no vai-e-vém eterno daquela cadeira de balanço, um ano pra lá, outro ano pra cá, e de repente eu estava no seu colo de novo em algum sonho maluco com cartas, Corinthians e comida.

Assim passei o seu dia, vó. Te amando como sempre, e te faltando como nunca. Mas sem te deixar ir pra longe, porque você sabe, e como sabe, que viverá eternamente em nossos corações.

Meu, da Lu, da mãe, do pai, da tia, dos primos e dos quatrocentos netos que te herdaram por carinho, porque você era tão grande que precisávamos sempre te compartilhar.

Te amo.

Até sempre,

Dan.

vó

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