Ortencia

Hoje era minha vez de dormir com ela, mas ela decidiu dormir sozinha.

Ela e os 94 anos dela, cheios de gelatina colorida, jogos do Corinthians, buraco e muitas boas memórias.

Noventa e quatro são muitos anos. Mais do que eu consigo imaginar. Neles couberam muitas mudanças, de cidade, de casa e de vida. Muitos jogos, de cartas, de futebol e de amor. Couberam vários netos, muitos filhos e filhas, muitos sorrisos e aniversários.

Foi uma vida intensa e florida, como o nome dela: Ortencia pra uns, dona Ortencia pra outros. Pra mim foi sempre vó.

Minha vó querida de todos os anos, de todos os dias, de todos os risos e de todas as dores.

Hoje era minha vez de dormir com ela. Mas ela decidiu dormir sozinha. E no caminho de táxi até o hospital, só tocava o seu querido Roberto.

“Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso essa voz, essa voz
Tamanha…”

Era um aviso.

Uma homenagem.

Uma lembrança.

De que hoje é minha vez de dormir com ela. Porque ela nunca dormirá sozinha.

Adeus, dona Ortencia. Adeus, minha florzinha.

Te amo pra sempre.

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