Adeus

Já tive perdas na vida. Uma avó e um pai. E doeu, dói até hoje. O caminho até o velório, o percurso até o enterro, o vagar até a cremação, foram todos momentos quase infinitos de espera pra dizer adeus. Em todos eles, porém, a morte já estava dada. O adeus era inevitável, coletivo, e não tinha sido decidido por mim.

Hoje o Abu se foi. Foram 15 anos de carinhos, lambidas, latidos e risadas. Em todos eles, o ato de abrir a porta do apartamento era instantaneamente seguido por um outro tipo de espera, pelo rabo balançando, o latido, a corrida emocionada, os pulos. O abrir a porta tinha vida, e a vida era alegre e saltitante.

Mas vida que é vida termina. E a do Abu também teria que terminar. Eu sempre tive cachorros, mas nunca tinha perdido um nas minhas mãos. Fazia já alguns anos que os latidos e lambidas vinham sendo gradativamente substituídos por ganidos e dores. Sabíamos que um dia chegaria a hora. A hora do fim, a hora do adeus.

Hoje, quando acordei e caminhei para o veterinário, de certa forma me vi repetindo uma vez mais o mesmo trajeto. Mas alguma coisa era diferente. Porque eu sabia que chegando lá a morte não estaria. Ainda haveria vida, e uma vida que não era a minha.

Como decidir pela existência de outro ser?

Tem horas em que não há muito espaço pra dúvidas. Algumas decisões precisam ser sem pensar demais, relativizar, criar esperança. Mas isso não torna nada mais fácil.

Abu viveu quase metade da minha vida comigo. Mais da metade, se contarmos apenas a parte da vida da qual eu tenho memórias. Era uma parte de mim, da minha mãe, da minha irmã. A última parte viva do meu pai, ou pelo menos do tempo em que todos nós existíamos juntos.

Quando cheguei na sala do veterinário, o mesmo nestes 15 anos, Abu quase não se movia mais. Era pele e osso, respirava devagar. Não tinha mais músculos, nem pra fechar os olhos – passou a última noite acordado, ao lado da minha mãe, a mais fiel das companhias que qualquer ser vivo pode ter. Enxuguei as lágrimas que já tinham corrido pelo caminho. Era a hora.

Do último beijo, o último abraço, o último afago. Do último carinho.

A vida é sempre cheia de perdas. E cada perda é um eterno recomeçar. Nunca é fácil aprender a viver sem, mas todo vazio é um espaço para construir. Cada vez que alguém se vai, o coração aumenta mais um pouquinho. Que é pra caber as coisas novas, misturadas com as memórias velhas.

“Não aprendi dizer adeus”, diz uma música brega. Cantarolei ela na cabeça por todo o caminho.

O meu até o veterinário.

E o do Abu até a memória.

Sabe, Abu?

Acho que a gente nunca aprende.

Obrigado, meu amigo. Até sempre.

abu

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