Xixi nas calças

Quando eu era pequeno, fazia xixi nas calças e na cama. Tenho certeza de que vocês também.

Morria de vergonha disso. Fazer xixi nas calças era como um atestado de dependência, de não ter controle sobre o próprio corpo. Muitas vezes era por ter bebido líquido demais, outras era por um pesadelo. Nessas, acabava acordando assustado, com medo e, pra piorar, envergonhado.

Depois de crescido, ouvi diversos relatos de xixi nas calças, de crianças e de adultos. Alguns davam muita agonia: eram calças molhadas por medo da morte na forma de uma arma apontada, ou na exata hora da morte mesmo, um último descontrole corporal, uma espécie de aviso do nosso corpo para o mundo de que o ser que ali morre carrega dentro de si uma criança – com seus medos e vergonhas.

Ontem eu estava dando aula quando recebi uma mensagem no celular. Era uma amiga, uma companheira de movimento social, dizendo que a frente da Câmara Municipal tinha se tornado uma praça de guerra. Os movimentos de moradia de São Paulo, juntos, pressionavam os vereadores pela votação – finalmente e com vários problemas sérios – do Plano Diretor, aquele montoado de papel escrito por gente de gravata (que já fez xixi nas calças e teve medo de pesadelo um dia) que significa uma pequena vitória pra uma imensa parte da população da cidade.

Mais da metade dos paulistanos, em levantamento de 2012, moram em favelas ou habitações precárias, ou em habitação nenhuma. Isso são mais de 5 milhões de pessoas. Todas elas também já fizeram xixi na calça um dia. E ontem estavam representadas em milhares de vozes de todas as faixas etárias que enxergam na aprovação do plano um avanço legal na regularização fundiária de suas casas, no processo de busca por moradia digna, um freio na especulação imobiliária sem limites que pode te tirar do sofá e colocar na rua num piscar de olhos – quando você menos vê, sua casa virou um estádio em Itaquera.

A Câmara Municipal é em teoria a “casa do povo”. Está escrito lá, inclusive. Mas quando o povo chega na porta, os vereadores, invariavelmente, tal qual todos nós um dia, mijam nas calças. De medo. Alguns, dizem, fazem até pior. E apelam pro único truque que conhecem, desde 1500: a violência. Hoje, ela responde por Polícia Militar. Ontem, estava acompanhada da Guarda Municipal.

Os guardas e policiais, todos eles, também já fizeram xixi nas calças. E tiveram vergonha. Ontem, entretanto, fizeram coisa bem pior, da qual não parecem ter vergonha nenhuma: jogaram bombas, atiraram e agrediram aquele povo sem casa que, na porta da casa do povo, lutava por resolver essa equação há tanto tempo desbalanceada.

Não, não sou professor de Química. Sou professor de Geografia. Não sei falar sobre a ureia do xixi nas calças e nem sobre o gás lacrimogênio das bombas do Estado. Sei falar um pouco sobre o direito à moradia e à cidade, e também sobre ter vergonha de fazer xixi nas calças, de ter medo de pesadelo e de ter lembranças horríveis, pessoais e coletivas, de gás lacrimogênio.

Terminei a aula ontem e vim pra casa apreensivo para ler as notícias. Na caixa de email, a mesma companheira da mensagem no celular narrava: não sei se há presos e feridos, passei por lá rapidamente. A parte mais triste foi ver uma criança fazer xixi na roupa por causa das bombas de gás.

Todos nós já fizemos xixi nas calças. E tenho certeza de que não precisamos de foto nenhuma pra imaginar o terror sentido por essa criança, e a vergonha depois, do próprio descontrole do corpo.

Posso ver essa criança chorando dentro de mim. E isso me dá muita, mas muita vergonha.

Não do xixi nas calças, mas do descabimento que é ter na maior metrópole da América Latina tanta casa sem gente, tanta gente sem casa e uma Polícia Militar que atira bombas em crianças.

A Polícia Militar é o eterno xixi nas calças do Estado. O próprio descontrole.

O problema é que, até agora, mesmo crescido, ele não sente nenhuma vergonha disso.

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