O ódio em três momentos

I.

São Paulo, 25 de outubro de 2013.

Ato da Semana Nacional de Mobilização pelo Passe Livre.

Depois de adeptos do black bloc irresponsavelmente romperem o acordo prévio de não destruir nada no Terminal Parque Dom Pedro II, bombas e gás pra todo lado. No meio, exatamente no meio, cercado por cordões da PM por três lados, uma amiga tcheca e eu tentamos achar uma rota de fuga. Atravessamos pra praça das banquinhas em frente ao terminal, onde um grupo de blocs destrói um ponto de ônibus. De repente, um homem de roupa esporte saca um revólver (eu não manjo de calibre), agarra uma das meninas do grupo e manda ela ajoelhar, a arma na cabeça dela, expressão de ódio nos olhos, saliva saindo do canto da boca. Penso, “vai dar merda”. Minha amiga começa a filmar. Outros blocs do grupo voltam e tentam confrontar o homem com pedaços de pau. Ele aponta a arma pra eles e a merda fica muito próxima de acontecer. Um PM aparece e arrasta a menina com a ajuda do homem pro outro lado da rua. Ele também tem uma arma. Os blocs tentam puxá-la, ela se atira no chão, e eles continuam arrastando furiosamente. Uma bomba voa pro nosso lado. Corremos.

II.

Depois de encontrar um caminho pra Praça da Sé, sentamos pra ligar pra amiga que estava de muletas no ato. Ela não atende. Os helicópteros dão a entender que a movimentação se encaminha pra praça. A amiga envia uma SMS confirmando, está perto da Fanfarra, estão chegando na praça. Há um jogral com a ideia de voltarmos pro terminal pra executar o catracaço interrompido pela confusão. Não dá tempo de sair dali. A tropa de choque cerca todo mundo e atira bombas e balas de borracha. Com a ajuda de um amigo, tentamos caminhar em meio ao gás protegendo a amiga de muletas. Ouço o zunido das balas passar muito perto. Conseguimos escapar pela lateral da praça. Na contramão da nossa fuga, crianças e adolescentes dos bairros pobres próximos correm em direção ao conflito. “Quebra tudo, quebra tudo!”, gritam. Alguns estraçalham uma banca de jornal. O ódio – da polícia, da cidade, da exclusão – é visível nos olhos de cada um deles – alguns menores de 10 anos de idade.

III.

Na porta da delegacia, esperamos os mais de 70 presos saírem. Há dúvidas sobre quem está lá. Eu havia recebido a informação de que uma companheira, cujo celular estava na caixa postal desde a hora da primeira confusão, estava detida ali. As pessoas vão sendo liberadas, sob o olhar de desdém dos homens do Choque. Ela não sai. Alguns telefonemas depois, recebo com alívio a SMS “Achei ela, está a salvo!”. Membros/as da Fanfarra do M.A.L. são liberados, TODOS os seus instrumentos odiosamente destruídos pela PM. No olhar de cada detido, mais ódio. Depois de todos livres, já quase 5h da manhã, caminhamos para o metrõ. Um pequeno grupo de skinheads nos observa com desconfiança. Um deles diz:

– Tem cara de punk, hein?

Dentro do metrô, encontramos companheiros/as que tinham se dirigido pra lá antes junto com um punk de visual carregado recém-liberado da delegacia. Nos contam que momentos antes os skinheads derrubaram ele no chão, chutaram sua cabeça. Ele escapou, não se sabe pra onde.

São Paulo, 26 de outubro de 2013.

Uma noite mais, como qualquer outra. Infelizmente.

Esta cidade respira ódio. E gás lacrimogêneo.

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