Eu, Tu, eles: Viena

Chegando em Praga, claro que a gente tinha que se foder um pouco mais: depois de andar uns 10min pra descobrir de onde saía o ônibus pra Viena, descobrimos que não tinha mais lugar nele. Resultado: tivemos que pagar o dobro pra ir de trem. A viagem foi numa cabine sem ar condicionado, com um casal de velhos ranzinza (até quase o final) e torrando no sol de 40°C que a Áustria resolveu inventar pela primeira vez em sua história – sério, saiu na TV, o dia mais quente da história desde que a temperatura começou a ser medida.

Na estação em Viena encontramos Johannes, com quem eu troco idéia desde 2012 e que era pea ter nos hospedado na viagem do ano passado, mas acabamos nem indo. Ele também lembra um pouco o Paulius. Fomos de metrô até a casa dele, num conjunto de prédios populares sensacional, com jardim pras crianças, animal mesmo. Ele nos cedeu a cama dele e disse que dormirá na sala. Como desgraça pouca é bobagem, saímos porque queríamos comer e eu tinha que, mais uma vez, trabalhar.

Fomos para um lugar mantido de forma autônoma por nerds vienenses. Como se fosse um centro social ativista tech: internet de graça, um monte de equipamentos, tudo sendo feito coletivamente. Enquanto eu trabalhava, Johannes e Arthur deram uma volta pelo centro de Viena. Voltaram e era quase meia-noite, e eu tinha que terminar o trabalho e o metrô ia fechar. Acabei não terminando – ficou pra manhã seguinte. De volta à casa do Johannes, trocamos idéia sobre futebol e ele falou sobre o Rapid Viena, time pro qual torce. Na quarta, o Rapid enfrenta um time grego na Grécia pelas etapas iniciais da Europa League, e o Johannes vai pro jogo. Trocamos camisetas – dei uma do Auto e uma do Corinthians pra ele, ganhei uma do Panathinaikos – e ficamos de ir conhecer o estádio nacional, onde foi jogada a final da Eurocopa de 2008, e o estádio do Rapid.

De manhã, Johannes nos levou pro seu trabalho, uma espécie de escritório colaborativo, e me deixou trabalhar lá por mais ou menos uma hora. Depois chegarem os colegas de trabalho e tivemos que sair fora e achar um café qualquer com wi-fi pra terminar o trampo. Eu demorei mais umas duas horas e meia nisso, deu tempo do Arthur comer, cagar no café (haha, ele tem problemas com as privadas européias) e dormir enquanto isso. Finda a labuta (pelo menos eu achava isso), fomos almoçar, que já eram quase 15h.

Comemos uma pizza muito boa numa pizzaria meio italiana. Barato, e bom, comparando com São Paulo. Mas Viena no geral é cara – embora não supere São Paulo. Depois da pizza andamos até o Museum Quartier, um quarteirão de museus onde, na parte interna, há cafés e uns bancos azuis e amarelos que parecem peças de Lego gigantes pra galera ficar sentada. Tinha também uma fonte onde crianças brincavam peladas e os adultos sentavam na beira com os pés pra dentro, apesar das placas de “Não entre!” ao redor da fonte. Nem todos os europeus seguem todas as regras o tempo todo.

No Museum Quartier, tinha internet wi-fi aberta. E eu fiz a cagada de ligar o computador pra checar meu email. Resultado: acabei trabalhando, sem enxergar nada da tela quase, por conta do sol. O Arthur dormiu e enquanto isso criancinhas austríacas brincavam de esconde-esconde ao nosso redor, contando até 10 em alemão. Muito fofo.

Dali partimos pro estádio nacional, perto de uma estação de metrô. Tentamos achar uma porta pra entrar, não achamos e pulamos a cerca. Viva o Brasil. O estádio é uma arena moderna como as muitas sendo construídas no Brasil. Nada de excepcional. Do lado de fora dele, nada menos que dez campos de treino aparentemente abertos. A categoria de base do Austria Viena parecia estar treinando lá. Pisamos na grama e deu vontade de chorar e raiva de não ter uma bola. Mas fomos embora logo porque tínhamos marcado 20h com o Johannes numa estação de metrô e queríamos ir andando.

Ir andando acabou significando se perder um pouco, seguir a intuição e achar o caminho no meio de um bosque no meio de Viena, perto do Danúbio. Isso mesmo: em meio ao caos cinza, um bosque animal com um monte de casinhas bucólicas. No final dele tinha ainda um clube com mais um campo de futebol invejável, em frente à algumas casas. Imagina morar ali. “Mãe, vou jogar bola aqui em frente”, e aqui em frente é ali em frente MESMO.

Finalmente chegamos na estação de metrô, mas o Johannes nos avisou que ia atrasar. Ali também era a estação de busão, então tentamos comprar passagem pra Vilnius. Não tinha mais. um amigo do Johannes foi nos encontrar, o Leo, e de lá fomos pra Arena, um espaço GIGANTESCO que nos anos 1970 foi uma ocupação e depois foi cedido pelo governo e virou um espaço de shows alternativo, com uns 3 palcos, 4 pubs e uma área enorme. Tocava uma banda de Viena, meio hardcore, nada demais. Ameaçava chover, então fomos pro EKH, um ex-squat gigante (um prédio de uns 5 andares) também cedido pelo governo no final. Lá, Leo e Johannes nos levaram pra sala da Bahoe Books, a editora anarquista que eles mantém. Simplesmente um sonho: trocentas máquinas de xerox e outros equipos pra fazer material impresso. E a gente em São Paulo sonhando em ter UMA.

No porão rolava um show, e a gente já tinha bebido uma quantidade considerável de cerveja – e PITU, que eles tinham lá sabe-se lá como ou por quê. Fomos assistir e a banda era MUITO boa. Nome: Jungbluth. E tinham tocado no Fluff, mas depois que a gente já tinha ido embora. Vale a pena procurar, banda alemã. Subimos pro bar e ficamos conversando, Arthur e eu, de novo sobre a nossa criação num ambiente que estimulou a liberdade de pensar e de agir, e como isso parece que faz diferença agora. De repente uma menina sentou do meu lado com tatuagens muito parecidas com os desenhos que a minha mãe faz. Comecei a convserar com ela e quando eu vi tinha três meninas ao meu redor e o Arthur tinha sumido com os caras – descobri depois que ele tava tomando um coro no pebolim, deles e de um dinamarquês que também encontramos em Praga e no Fluff. Segundo o Johannes, eles são bons porque no inverno não tem outra coisa pra fazer, então ficam jogando pebolim eternamente haha. E em todos os espaços alternativos que fomos – inclusive o centro tech – tinha pebolim.

Em algum momento as meninas passaram a falar entre si em alemão e eu levantei pra ir ao banheiro e tomar um coro no pebolim também, hehe. E dali resolvemos ir embora, que o Johannes tinha que trabalhar no dia seguinte. Acabamos tendo que ir de táxi, porque já era tarde.

Dormimos até 15h. Quer dizer, o Arthur e eu, porque o Johannes foi trabalhar. De lá ele resolveu o problema do ônibus pra Vilnius pra gente – acabamos tendo que pegar um mais caro – e mais pro fim da tarde Arthur e eu fomos ao estádio do Rapid. Bem bonito, pequeno, nada de “arena”. Capacidade, 17.500. De novo, fomos procurando portas abertas até entrar. O Arthur chegou inclusive a entrar no campo e fingir que estava sendo recebido pela torcida do Rapid, hahaha. Em volta, as categorias de base treinavam. Saímos de lá e fomos pra uma praça esperar o Leo e o Johannes pra finalmente ir ao lugar onde seria a minha apresentação. Chegaram o Lionas (húngaro, lembra muito o Oleg, goleiro do FC Vova) e o Tomas, brasileiro que vive há 15 anos na Suíça e estava fazendo 1 ano de intercâmbio em Viena. Ele parece ser bem novo, e o sotaque dele pra falar português deixa a entender que ele foi pra Europa cedo.

O lugar da apresentação era sensacional: chama Lolligo Kindercafe e é simplesmente um café anarquista pra crianças. Um monte de brinquedos pelo chão, a galera cozinhando coletivamente e, claro, pebolim. Joguei contra o Arthur e tomei um coro, hehe. Depois sentamos, comemos e fomos esperando chegar mais gente pra apresentação. Alguns caras jogavam xadrez. Apenas duas meninas – depois Johannes chegou com a Marilena, sua companheira, que é grega e falou um pouco sobre como o transporte público na Grécia é tão ruim quanto “parece ser no Brasil”. A apresentação foi a mais legal de todas: rolou muita troca de informação sobre grupos, modos de agir e estratégias. Um cara levantou uma discussão que, acredito eu, é bem pouco trabalhada no Brasil: a questão racial dentro do movimento libertário. Rolou um debate bom, que passou também pela questão de gênero, e descobrimos que temos problemas parecidos na Áustria e no Brasil. Passei dois vídeos (http://www.youtube.com/watch?v=PFlkgDpGiDE, sobre os protestos de junho, e http://www.youtube.com/watch?v=aAX0zSfrJK4, sobre as remoções pra Copa), ambos bastante elogiados. E conheci um alemão que me convidou pra fazer a apresentação por lá – Berlim – também. Ficamos conversando até quase 1h da manhã, quando tivemos que ir embora pra não perder o ônibus noturno que passaria em 7 minutos e depois só dali uns 40 minutos. A despedida foi corrida, deu muita vontade de ficar mais tempo em Viena, principalmente porque faltou conhecer a Pizzeria Anarchia, um squat-pizzaria anarquista!

De volta à casa do Johannes, despedimos dele e da Marilena antes deles irem dormir e resolvemos ficar acordados pra não perder a hora. Acabamos dormindo cerca de 1h30 no máximo, e saímos de novo cheio de malas – não vemos a hora de largar essa porra toda em Vilnius – pra pegar o ônibus pra Lituânia.

Seriam looooooooongas 24h – ou mais – de viagem. E as minhas costas já tavam pedindo arrego faz uns dias.

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