Eu, Tu, eles: Praga

Dá pra dizer que o vôo foi tranquilo. Não, não: foi entediante mesmo. Dormir em poltrona é uma merda e o avião da Iberia não tem televisão no encosto da cadeira da frente pra gente assistir todos os filmes ruins dos últimos meses. Então Arthur e eu trocamos idéia, dormimos, reclamamos e dormimos mais. O vôo tava vazio e as duas cadeiras ao lado sem ninguém, então depois de um tempo a gente deitou em três cadeiras, cada um de uma vez.

Fizemos escala em Madri e lá tivemos nosso primeiro contato com estrangeiros/as: uns gregos que aparentavam ser atletas de algum tipo de esporte perguntaram as horas, depois duas espanholas e outro grego pediram pra usar o espaço vazio do nosso benjamin, onde carregávamos o computador e o celular. Eu já tinha trabalhado no avião, enquanto a bateria durou, e no aeroporto paguei 4,50 euros por 1h de internet pra tentar trabalhar um pouco mais. A ideia era chegar em Praga sem muitas responsabilidades desse tipo. Mas não deu. No telão do aeroporto, um narrador empolgadíssimo fazia um jogo de pólo aquático parecer mais interessante do que realmente era.

O vôo Madri-Praga foi mais curto e mais de boa. Chegamos no aeroporto e depois de trocar dinheiro encontramos uma loja da Vodafone, onde compramos chips tchecos pra se comunicar na Europa. Com as informações que tínhamos e mais algumas que pedimos no aeroporto, compramos o bilhete de ônibus e fomos tentar a sorte no excelente sistema de transporte público de Praga, cada um com 3 malas nas costas.

Foi relativamente fácil achar o infoshop anarquista que nos abrigaria, o Salé. Lá estavam hospedados também Juli, uma dinamarquesa, e o casal alemão Moritz e Lioba. Todos tinham vindo pro Fluff Fest, um festival punk bastante conhecido por aqui. No primeiro dia, depois de sermos muito bem recebidos pelo Tomas e pela Bara, nos ambientamos no bairro, descobrimos um restaurante vietnamita chamado VEGAN CITY, mas comemos num outro restaurante indiano cujo cozinheiro era de Bangladesh. Comida quente, apimentada, e um sol de rachar na cidade.

De noite, rolou a primeira apresentação que estava marcada. Juntou umas 20 pessoas pra me escutar falar dos protestos no Brasil em 2013. A maioria tinha bem pouca informação sobre o país ou o que tava rolando, mas uma menina italiana, Laura, e outra tcheca, Lenka, sabiam um pouco mais porque estudam o movimento de moradia e devem ir pro Brasil no fim do ano. Depois da conversa, perguntei sobre a situação política na República Tcheca e na Europa e percebi que a guinada à direita não é apenas em alguns países como eu imaginava. Uns estão piores, mas mesmo a República Tcheca vem tendo casos repetidos de expulsão e perseguição de ciganos. Depois da conversa, sentamos todos numa praça na esquina pra tomar cerveja. A mais barata, melhor que qualquer cerveja brasileira, sai menos de R$ 2,00 a garrafa de 500ml. Praga é muito barata, pra comer e pra beber. Ou São Paulo é muito cara. Ou as duas coisas. Nessa conversa, ainda percebemos que banana é provavelmente a palavra mais internacional que existe: quase não muda em língua nenhuma.

Nesse primeiro dia uma coisa ainda me preocupava um pouco: a reação do Arthur àquilo tudo. Porque se pra mim era tudo já meio conhecido, infoshop, anarquismo, punks, pra ele era tudo novo. No segundo dia essa preocupação já tinha quase ido embora: saímos com Moritz, Juli e Lioba pra fazer turismo pela cidade e as coisas já estavam muito bem encaminhadas e ambientadas entre todos: Eu, Tu, eles. Praga é uma cidade absurdamente linda, preservada, das poucas que as guerras não destruíram. Só que a gente não manjava porra nenhuma, então nosso turismo se resumiu a “olha, um prédio velho” e tirar foto com a estátua do Franz Kafka. Comemos no Loving Hut, restaurante vegano da SUPREME MASTER (ah, a religião). Muita comida e preço firmeza. Caminhamos pelo Jew Quartier e terminamos na Charles Bridge, com um monte de estátuas cristãs bizarrísimas, e o Moritz e eu inventando interpretações pra elas:

– Nessa o cara tá pedindo um cigarro, se liga.
– Na outra ele tá mostrando o dedo do meio pra deus e dizendo “enough with this shit”.

E assim ia. Dali pegamos o tram pra ir pra um café em outro bairro onde rolaria uma fala do Brian da CrimethInc, dos EUA, sobre as revoltas pelo mundo, anarquismo e estratégias. Depois de passar pelo estádio do Bohemians, time mais de esquerda da cidade, acabamos parando Arthur e eu num Tesco gigante, do lado do estádio do Slavia Praha, time cheio de torcedores fascistas (encontramos uns adesivos inclusive pelas placas do bairro) pra comprar barraca e colchão inflável pro Fluff Fest, pra onde iríamos dois dias depois. Depois encontramos o resto, mas a fala já tava no final. No dia seguinte, rolaria a mesma fala no Salé, onde estávamos.

Nesse mesmo dia seguinte tínhamos marcado com a Camille e o Pedro, amigos brasileiros que estavam num hostel ali do lado, pra ir numa free tour no centro da cidade. Marcamos 10h, mas eu fiquei trabalhando até 8h30 e claro que não acordei. Só lá pras 14h30 eu e o Arthur levantamos, quando eu recebi um telefonema do Pedro perguntando cadê a gente. Eles ficaram de passar lá pra irmos num show pré-Fluff no lugar em que trabalha o Tomas, mas demoraram tanto que acabamos ficando pelo Salé pra ver a fala do Brian mesmo.

Mais uma vez, de madrugada, trabalhei até a porra do sol raiar. Acordei pra mandar o contrato do trampo pelo correio, pra poder receber, e esperamos o Tomas voltar com a van pra irmos pro Fluff Fest. No caminho até lá, Arthur, eu e a Hanka, uma tcheca que foi conosco, capotamos. Ninguém tinha dormido direito à noite.

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Uma resposta para “Eu, Tu, eles: Praga

  1. adorei a parte de que banana eh a palavra mais internacional que existe. so nao sei se a frase “eu quero comer a sua banana” eh tao facilmente traduzivel. facilitaria HORRORES as pegacao internacional hahahahahahahahahaah

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