Eu, Tu, eles: Fluff Fest

O Fluff Fest acontece numa cidade pequena próxima de Praga chamada Rokycany. Me lembrou muito a Copa do Mundo Alternativa ou a Copa América Alternativa, ou seja, uma pá de maluco acampado e, no lugar do futebol, punk e hardcore em três palcos diferentes. Toda a comida do festival é vegana. Mais da metade dos 5 mil presentes, segundo o Dan, que organizou a apresentação, também. Por lá, encontramos alguns amigos e conhecidos brasileiros: Lilian, Xopô, Xaveiro, Noel. Tinha um monte de banda pra tocar, mas eu na real só queria de verdade ver duas: Circle Takes The Square e Catharsis. No final, o show das duas foi uma bosta, ou vai ver eu que não tenho mais saco pra esse tipo de som. A segunda opção é mais provável.

O Arthur, de início, achou que ficaria entediado ali. Mas acabou vendo algumas bandas por conta própria e gostando, e depois que descobrimos um posto de gasolina com wi-fi e chuveiro, acabou passando as horas de sol mais forte – tava insuportável – por lá. No primeiro dia, houve mais uma fala do Brian, bem interessante essa, e pela noite algo meio surreal acontecendo: milhares de punks, crusts e metaleiros dançando LOUCAMENTE todos os hits do momento (de Lady Gaga a Psy) na tenda que antes era um dos palcos. O palco dessa tenda, inclusive, caiu. Fizemos um vídeo disso. Em alguma hora o Arthur virou e disse:

– Só isso já valeu o rolê.

E valeu mesmo. Indo buscar mais cerveja, em algum momento, eu esbarrei no cara da frente na fila, que ficou me olhando por uns 2min. De repente me cutucou e disse:

– MANDIOCA!?
– Arthuras!!!

Era o Arthuras, amigo do Paulius lituano que tinha hospedado Davi e eu em Barcelona em 2010, e depois vindo pra Copa America Alternativa de 2012. Hahahaha, ele ficou muito incrédulo de me ver ali. Bebemos, dançamos – e deu pra sacar várias diferenças claras na relação de gênero entre Europa e Brasil – e fomos dormir lá pelas 4h, uma puta friaca na nossa barraca (que é enorme, cabem 4 pessoas e com isso hospedamos Xopô e Juli) pra ser acordados pelo sol INSUPORTÁVEL das 10h da manhã.

Era sábado, e a gente sabia que tinha uma piscina pública ali perto. Juli, Arthur e eu descemos pra lá. A fila pra entrar durava 1h. O preço, 55 coroas tchecas (pouco mais de 2 euros). No caminho, um cara disse que numa parte do muro o arame farpado estava cortado. Não tivemos dúvida: pulamos, todos os três – e mais uma alemã que passava por ali na mesma hora. Ficamos no esquema mergulho – sol – mergulho por umas 4h. Depois resolvi subir pra tomar meu antibiótico, e a Juli e o Arthur ficaram.

De volta aos palcos, assisti a um ótimo show: Government Flu, que eu não conhecia. Muito bom mesmo. Às 18h, era hora da minha apresentação, e dessa vez creio que ela fluiu melhor. Foi juntando uma galera, rolaram perguntas, um romeno que eu tinha conhecido na noite anterior me disse pra ir pra Bucareste falar também. Ele pira em futebol, ficamos um tempão falando da Romênia de 1994. Também conheci um alemão, Pete, que me convidou pra fazer a apresentação em Berlim. Ficamos de conversar por email. Por fim, apareceram outros dois, lituanos, do FC Vova, pra me dar stickers do time de presente. Jogaremos juntos, disse eu, em uma semana!

Depois da apresentação veio o melhor show do Fluff: Vitamin X. Simplesmente destruidor, circle pitchs enormes, bóias de piscina e bolas estilo Quico voando pra cima. Impressionante o poder que tem uma bola, provavelmente a mais social das criações humanas. A banda convidou o público a subir no palco umas duas vezes, foi intensamente maluco, deu saudade dos tempos em que eu tinha energia pra isso hehehe. O Arthur, a essa hora, tava pirando, fez vários vídeos e disse:

– Tô começando a gostar dessa porra.

Depois ele volta pra casa cheio de piercings e tatuagens e a culpa vai ser minha. Foda-se também né, hehe.

Então tocou o Catharsis e foi chato. Saí no meio do show. Aproveitei pra passar numa banca antifa e comprar duas camisetas. Troquei uma idéia com o cara, bem gente boa, dono de dois pitbulls. Ele vende uma camisa que diz “love pitbulls – hate fascism”. Me lembrei das discussões com meu pai sobre “cachorros agressivos”. Ah, o ser humano, essa maravilha de espécie.

Depois dos shows ia rolar festa novamente. A música tava menos pop e mais rock anos 80/90, e com isso os ânimos estavam mais devagar também. Conversei longamente com o Arthur sobre sexualidade, consenso, relações de gênero e preciso dizer que com a maior parte dos caras da minha idade o nível da conversa não chegaria nem na metade. Fiquei pensando – e discutindo isso com ele – o quanto o fato de ele ter convivido com irmãos mais velhos e numa família que não faz recortes por idade pra tratar os filhos tem a ver com isso. Fala-se muito em pedagogia libertária, outra educação possível, e pra mim o exemplo dele é muito mais do que surpreendente, é esperado e satisfatório, dá uma certa felicidade e esperança de que é possível sim formar seres humanos decentes neste mundo. Tivesse eu as experiências que ele tem tido com essa idade e provavelmente a adolescência teria sido um período menos complicado. É bem foda ouvir coisas interessantes de uma pessoa bem mais nova e saber que aquilo é sincero, que aquilo foi pensado e maturado na cabeça dele sem ninguém dizer como ele deveria se comportar. Em algum momento a conversa mudou pra futebol, com o Arthur brisando sobre o quanto ele conseguiria abrir de espaço pra idéias políticas caso se tornasse um jogador profissional com acesso fácil à midia. Estaria nascendo o novo Doutor Sócrates? Hahaha, torço muito pra que sim!

A festa nessa dia terminou mal porque depois do Moritz jogar cerveja pra cima, um alemão babaca estilo fortinho – que segundo o Arthur jogou whisky na gente – deu uma cabeçada no Moritz, que era bem maior que ele e ficou tentando chamar ele pra conversar – de verdade, a princípio ele não queria briga. O cara ficou sendo separado pela namorada ou amiga, e a gente, que não tava entendendo nada, tentava segurar o Moritz achando que ele tava bêbado. Só depois percebemos que ele tava com a razão e que o cara é que era o babaca. Tentamos encontrá-lo, mas a essa altura ele já tinha vazado com toda a sua valentia. O Moritz lembra um pouco o Paulius, no jeito de ser, de sorrir e de pensar.

A manhã seguinte foi a pior da viagem: acordados pelo sol, arrumando as malas e as barracas correndo pra andar 30min debaixo de um sol de 39°C até a estação pra pegar o trem pra Viena, que já tava comprado. Antes de sair despedimos dos tchecos, mas a Juli, o Moritz e a Lioba tinham sumido. O Arthur perdeu uma meia hora limpando o monte de desenhos de canetão que a Juli tinha feito pelo corpo dele na noite anterior, haha.

Antes de pegar a estrada a pé com 45 malas e barracas nas costas, ainda encontrei o Juninho e o Kalota, do O Inimigo, que ia tocar mais tarde. Ficaram um tanto surpresos de nos ver ali e meio condoídos com a caminhada que tínhamos pela frente.

Chegamos na estação 5min antes do trem sair. E a viagem até Praga foi tranquila.

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