Eu, Tu, eles: Sonhos de criança

Não lembro mais se essa memória é inventada ou real. Mas é uma das primeiras que tenho em relação a futebol: família e amigos reunidos, apartamento da Cris, Copa de 90, Brasil e Argentina. Maradona, Caniggia, gol, minha mãe chorando. Fim de jogo, fim de Copa, lá se iam 20 anos desde que Pelé e companhia haviam conquistado o mundo para o Brasil pela última vez.

Quer dizer, isso tudo é real, aconteceu. A parte da memória, inventada ou não, diz respeito à minha mãe chorando e eu prometendo a ela ser jogador de futebol e vingar aquelas lágrimas. Poderia ter sido o episódio de mais um brasileiro crescendo estupidamente xenófobo aos hermanos argentinos. Poderia ter sido o começo de uma reportagem do Globo Esporte sobre um grande jogador da seleção na década de 2000. Não foi nem um nem outro. Não sou nem um nem outro. Mas o sonho de criança – o de ser jogador de futebol, não o de vingar qualquer coisa – não morreu. Pelo contrário.

Enquanto escrevo este texto, viajo ao hemisfério norte pela quarta vez na minha vida. Na primeira nem saí do país. Nas outras duas, sim. Saí exatamente pra jogar bola, em um torneio que reúne milhares de crianças em corpos de adulto realizando aquilo que o futebol prossional, mercantilizado e excludente não permitiu: ser um jogador de Copa do Mundo. Alternativa, com times anarquistas, socialistas, anti-rascistas, anti-homofobia. Organizada coletivamente, em apoio mútuo, cada ano em um lugar e sempre com gente de toda a Europa. Do Brasil, fomos os primeiros, eu e a equipe que ajudei a fundar em 2006, o Autônomos & Autônomas FC. Duas participações, duas quedas nas quartas. Já fomos mais longe do que Lazaroni.

Nessas idas ao Velho Continente acabei fazendo amigos. Um deles, Paulius, lituano, participa de um time como o Auto: é o FC Vova, de Vilnius. Em 2010, joguei um jogo pra eles – além dos cinco pelo Auto – no Mundial. Marquei meu único gol: olímpico. No melhor goleiro da competição. Completamente sem querer, é claro.

Mas a coisa é que Paulius se tornou um grande amigo e veio viver em São Paulo, por 3 meses. Jogou pelo Auto. Zagueiro, fez seu gol em um amistoso. Comemorou feito um louco. Se pra um brasileiro jogar na Europa é sonho de criança, não sei dizer o que é pra um lituano jogar futebol em terras sulamericanas. E marcar um gol. Isso era 2010. Três anos depois, é hora de devolver a visita. Serei, por três meses, jogador do FC Vova.

Serei não, seremos, que na viagem está comigo o Arthur, 18 anos, praticamente meu irmão de criação. De certa forma, ele estava lá em 1990, já que os pais e os irmãos estavam. O mais velho quase foi profissional. Arthur, o caçula, ainda alimenta suas esperanças. Em fevereiro, estiveram ambos comigo – e com Paulius – na Copa America Alternativa, evento que o Autônomos & Autônomas FC, de volta da Europa, ajudou a organizar em 2012 – quando fomos campeões – e em 2013. As duas edições jogadas na Argentina. Já dá pra dizer que, de certa forma, cumpri a promessa, inventada ou não, feita à minha mãe. De uma forma bem melhor do que a imaginada.

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Este é o começo de um relato que vai durar três meses. Além de jogar pelo FC Vova, a Copa do Mundo Alternativa é parada no meio do caminho outra vez. Dessa, sem o Auto, que estará apenas em quatro ou cinco por lá. Resolvemos juntar com amigos do Rio e de Portugal e fundar o Reinaldo FC, como forma de homenagear a campanha do Galo na Libertadores de 2013 (que nem terminou ainda, mas pouco importa) e, mais do que tudo, retratar historicamente, do nosso modo, o corte do camisa 9 atleticano daquela fatídica seleção de 1982. Era ditadura, era Telê Santana, e foi homofobia e punição pelos gols de punho erguido, tal qual Sócrates e os Panteras Negras, tal qual o socialista contra a ditadura, e pró direitos homossexuais, que era Reinaldo.

Afinal, se a estrutura oprime, renega e segrega, nada como o levante dos de baixo pra recontar histórias que memória nenhuma, inventada ou não, pode esquecer.

No futebol ou fora dele.

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PS.: Na despedida do Brasil, domingo, jogamos os quatro juntos, os três irmãos Prado e eu. Formamos o meio campo do Auto na vitória por 3 a 2 contra o Catadão FC pela semifinal da Liga Alternativa de Domingo. Arthur participou dos três gols – fez o segundo e 90% do terceiro. Mas mais do que o resultado, o jogo valeu por ser a primeira vez em que nós quatro compartilhamos o mesmo time. Mais um sonho realizado: quando crianças, Fê, Rafa e eu, jogando futebol de salão pelas quadras de São Paulo, sempre sonhávamos com o quarto mosqueteiro pra completar o quadro. Depois de ontem, não precisaremos mais do recurso de inventar memórias.

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4 Respostas para “Eu, Tu, eles: Sonhos de criança

  1. lindo isso, Kadj. estarei acompanhando.
    conta sobre a lituânia, tenho curiosidade.

  2. vi qualquer coisa tua sobre uma cerveja barata num restaurante vegano em Praga e resolvi procurar pistas por aqui.

    enorme relato, enorme viagem. sorte nesta vida, companheiro.

  3. ahazou, guei! e num eh q no final tu acabou virando jogador mesmo? estarei acompanhando por aqui. =D

  4. É! Conta mais da Lituânia depois! Acho doido (:

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